quarta-feira, julho 21, 2010

Aprendendo com Billy Wilder


Um rei, ao descobrir que é traído, chega à conclusão, depois de saber da traição de sua cunhada, também, que todas as mulheres são traidoras. Por conta disso, ele resolve se casar toda noite com uma mulher e no dia seguinte matar a mesma. Assim, ele vai se casando e matando todas as mulheres do seu reino.

Xarazade, filha do vizir, resolve se casar com o rei, então. Seu pai tenta proibir, pelos motivos óbvios, mas ela consegue, com suas artimanhas, chegar ao leito nupcial. Pede, no entanto, que sua jovem irmã se deite com ela. Previamente combinado, antes de dormir sua irmãzinha pede que Xarazade conte uma história. Ela começa a história, só que o dia raia. O rei, curioso pelo final, decide deixá-la viva por mais um dia para que termine a história.

Só que as histórias de Xarazade nunca terminam. Sempre, ao amanhecer, a história está no meio, e uma vai se emendando na outra. O rei vai protelando a morte dela, para ouvir as histórias, por mil e uma noites.

Assim é a obra de arte, o teatro, o cinema, a dramaturgia. É a arte de contar uma história que prenda a atenção do espectador, com momentos de tensão que o levem à curiosidade do outro dia; até que se complete o ciclo. A pena por não prender a atenção; a morte. A palavra morre. A arte morre.

Assisti ao filme Testemunha de acusação, de Billy Wilder, ontem à noite. Esse austro-polonês, fugido da guerra, migrou para os EUA, deixando pra trás o nazismo e a morte de sua família em campos de concentração. E se tornou um de seus maiores cineastas. Um gênio das pequenas obras.

É público e notório meu descontentamento com o cinema americano. Bem como com Molière, com as comédias de costume. As fórmulas. Tudo isso aí se baseia em fórmulas e artifícios, me irritam e me dão um desprazer profundo. Mas tudo bem-feito tem efeito. Tudo bem-dito é bendito.

Assim são os filmes de Wilder. Se meu apartamento falasse e Quanto mais quente melhor já haviam sido suficientes pra eu me tornar um fã desse diretor que deixava pendurado em seu escritório "How would Lubitsch do it?", numa referência ao diretor alemão, seu mestre.

No entanto, ao ver Testemunha de acusação, pude perceber mais claramente a maestria com que Wilder conduz os atores e os diálogos. Ciente de que depois da tragédia não se pode escrever mais sem humor, vemos, num filme de tribunal, diálogos espirituosos e bem-feitos, com atores precisos, sacadas de roteiro, e a tão desejada leveza que Calvino nos dizia em suas seis (que são cinco) propostas para esse nosso milênio.

Geralmente, as pessoas querem imitar os grandes gênios, querem ter como referência direta algum ídolo que tem maneiras muito próprias de criar. Vai-se a referências radicais, de um Heiner Müller a um Tarkovsky, de um Samuel Beckett a um Greenaway. No entanto, temos que ter muito cuidado para, na tentativa de inspirarmo-nos em certos autores, não acabarmos sendo um mero pastiche, uma caricatura de uma linguagem muito pessoal e intransferível na criação artística.

Billy Wilder consegue estar aquém das grandes referências que tenho no cinema. Não entra, em hipótese alguma, nos meus “dez mais”. Mas sua importância para o aprendizado da arte talvez seja das maiores. Excelente carpinteiro, ele conseguiu fazer filmes perfeitos, dentro de seus propósitos. Deliciosos e inteligentes. Bem-humorados e críticos, sarcásticos e irônicos; corrosivos.

O diretor austro-polonês dizia que o bom diretor era aquele que não aparecia e pedia; “não aborreça as pessoas”. O que é bom nunca aborrece. Seja a poesia dos filmes de Tarkovsky, seja o silêncio dos filmes de Sokurov, seja o absurdo dos filmes de Greenaway, seja a crueza dos filmes de Haneke. Mas antes de buscar a poesia, o silêncio, o absurdo e a crueza, é preciso saber fazer uma boa obra de arte. Antes de tudo, temos que saber contar uma boa história, sob a pena de morte artística.

Billy Wilder é um excelente começo para esse aprendizado.



GVT.

segunda-feira, julho 12, 2010

Árvores abatidas, aves abafadas...

Salvador voltou a um status desagradável. Ao menos, pra mim. Hoje, é uma cidade onde pulo de alegria ao saber da vinda de espetáculos do fora, na esperança de assistir bom teatro com bom texto, boa direção, bons atores. Essa mistura essencial se tornou raridade aqui. Esse tripé ator/texto/diretor tem sido sempre manco.

Soa estranho às novas gerações – estou falando como um idoso, é engraçado isso – quando digo que houve época em que o público dizia que nosso teatro era bem melhor que os “enlatados”, os “caça-níqueis”, e até mesmo os clássicos e contemporâneos que vinham pra cá.

Isso, não necessariamente, era verdade. Aliás, Jorge Luis Borges dizia que a dúvida é um dos nomes da inteligência. Mas dava alegria e estímulo saber do prestígio que conseguíamos atingir.

Pois estamos num momento onde ansiamos por boas coisas vindas de fora. Ou, ao menos, coisas vindas de fora. Voltamos a ter um referencial equivocado de que não somos capazes de fazer algo como os espetáculos que vêm pra cá, o que é uma inverdade extrema, terra que somos de talentos e técnicos de alto gabarito, desempregados, fora do palco, desestimulados e sem perspectivas.

Nunca freqüentei tanto o Teatro SESC-Pelourinho quanto agora. Tem sido um alívio ver certos espetáculos que vêm pra cá pelos projetos de circulação. Pude assistir um Peer Gynt muito interessante da companhia PeQuod, do Rio de Janeiro, numa ousada mistura de bonecos com atores interpretando o clássico de Ibsen. E pude ver, agora, o espetáculo Árvores abatidas, ou para Luís Melo, da Marcos Damaceno Companhia de Teatro.

O espetáculo se baseia, ou se inspira, na obra de Thomas Bernhard, romancista e dramaturgo austríaco que teve apenas uma montagem profissional em Salvador (e provavelmente não terá mais nenhuma durante um bom tempo), mas que é montado e remontado na Europa, sendo, talvez o autor mais montado pelo Berliner Ensemble; muito por conta de seu atual diretor artístico, Claus Peymann, vienense como Bernhard.

Assim como na maioria da obra de Bernhard, o texto trata de uma Viena decadente. Num jantar oferecido a um grande ator – e os jantares estão presentes sempre na obra do autor austríaco – uma mulher, amargurada e oprimida pela mentalidade da província, espera a hora da refeição, enquanto destila numa sala contigua as mazelas dos personagens desse jantar.

A atriz Rosana Stavis interpreta a personagem na medida certa, acompanhada pelo violinista Roger Vaz, num dueto preciso e afinado. Direção econômica, cenário funcional, mais do que mirabolante – como gostam os deslumbrados – e, o mais importante; teatro.

Ao entrar na sala de espetáculos do SESC-Pelourinho, a primeira frase que disse foi; “ih, os alunos da Escola de Teatro não vão gostar porque é realista”. Na ignorância e despreparo técnico e intelectual que nos assola, a percepção em relação a um espetáculo como esse se torna estrábica e frágil. E seja talvez essa leitura desqualificada do fenômeno teatral que esteja, também, arrasando nossa criação artística em Salvador.

Ao sabor de modismos ultrapassados, sofremos uma decadência muito próxima à relatada pela personagem da peça, que é também a decadência e pensamento provinciano de Curitiba, que é talvez a decadência do pensamento que no século XXI se tornou tão violento e apavorante.

Um clássico montado numa encenação experimental, ousada e cheia de malabarismos, bonecos, efeitos. Um texto contemporâneo encenado de forma clássica. Ao teatro se abrem várias possibilidades. Todas as possíveis. Mas é preciso técnica. Aprender pra esquecer. O Peer Gynt e Árvores abatidas são duas experiências gratificantes de teatro, a despeito de escolas, preconceitos, linhas estéticas. Mostram o homem em suas fragilidades, defeitos e fraquezas. E também sua beleza e dignidade.

Esse é o princípio esquecido muitas vezes pelos aventureiros que não sabem o que estão dizendo, escrevem conceitos e mais conceitos pra serem aprovados em editais, mas possuem a fragilidade de quem não aprendeu pra esquecer. Ou não aprendeu. Ou esqueceu que a técnica só é válida quando some na espiral da cena.

Somos árvores abatidas. Aves abafadas. Produção decadente, poucas perspectivas de um mercado profissional. Abro os roteiros de espetáculos na cidade e fico torcendo pra que mais peças de fora venham, já que os artistas daqui não têm saída; ou melhor, citando Tom Jobim, têm como única saída o aeroporto.


GVT.

segunda-feira, julho 05, 2010

O Teatro Baiano e o Carlismo e o Petismo e o... (?!?)


Meu caro amigo Gil Vicente, o Tavares,

Quando você diz que o teatro baiano desandou, entendo nas entrelinhas que o que você diz que desandou foi um determinado modelo de se fazer e produzir teatro em Salvador. Esse modo de fazer e produzir ocasionou aquela decantada série de CONQUISTAS que sempre nos referimos aqui e ali neste blog e que estão bem explícitas nas nossas últimas seis postagens. Não vou me repetir agora, listando tudo de novo. Leia!

A atual gestão fez tábula rasa, SIM, neste modelo. Quis e realmente começou praticamente do zero. Alterou profundamente as regras, o que terminou por destituir todos os “atores sociais” que no momento anterior tinham poder de fogo ou alguma relevância de ação, tenham sido estes pessoas físicas (diretores, atores, produtores, críticos) ou jurídicas (jornais, instituições públicas e privadas, como o Goethe e as escolas de línguas a que você sempre refere).

Isso aconteceu INDEPENDENTEMENTE dos acertos e erros ARTÍSTICOS que muitos deles cometeram no passado em questão. Por isso a expressão mais ouvida na época (2007, 2008...) foi o de: “quanto revanchismo!”. Eles foram afastados porque, causa e conseqüência, foram protagonistas de uma máquina montada pelo Carlismo, máquina cultural decantada em verso-e-prosa nas Faculdades de Comunicação APENAS (sic) como arsenal de propaganda e marketing do referido grupo político. Eles foram afastados um-a-um, tenham sido eles carlistas de nascimento ou “apenas pessoas que ‘ ingenuamente’ souberam trabalhar com a estrutura que por hora encontraram”.

Sobre a mudança no xadrez, ouvi recentemente o comentário: “Ingenuamente!? Ah... Isso é a cara de ator, dessa “gente de teatro”! Quanta alienação! Bem feito, quem mandou? Trabalhando numa estrutura que ao fim e ao cabo APENAS servia ao mal...” E a ordem foi dada: Delenda est Cartago!

Mais uma vez e para ser mais clara: A mudança CENTRAL e definitiva não foi causada por questões artísticas e estilísticas internas ao teatro. Pelas tensões estéticas que são MUITAS e que já abalavam a nossa cena soteropolitana! Pelas correntes que se contradizem e que encontram diferentes soluções para velhos e mesmos problemas... Foi causada, sobretudo, por uma mudança no poder político.

Há que se considerar ainda que, mais ou menos entre 2002 e 2006, o teatro baiano(como disse no post anterior sem citar datas) já estava também exaurido frente aos temas que os esgarçaram (excesso de baianidade) e o mecanismo das leis de incentivo que não favorecia o surgimento de novos nomes e o arejamento necessário para que um ciclo de criação saudável se mantivesse... Portanto, a mudança de governo de 2006/2007 aspirou TAMBÉM este ar de insatisfação da própria "classe".

O teatro agora TERIA que servir a novos objetivos... O teatro agora era instrumento de OUTROS “atores sociais”. De forma muito rudimentar: sai o teatro a serviço da propaganda marqueteira da “Bahia que dá certo” e entra o teatro-mudança-social, que PRETENDE “alterar profundamente” as mazelas da sociedade super-injusta em que vivemos. Um e outro não são estereótipos? Pois é...

É isto que é o cerne do ETERNO Ba x Vi a que me refiro. O Teatro na Bahia quase (nunca?) consegue ser DONO de si mesmo... O teatro apenas mal e porcamente consegue (conseguiu) criar um campo simbólico onde seus problemas e suas questões poderiam/deveriam ser resolvidas internamente. Há problemas externos ao teatro e há problemas INTERNOS à arte da cena. E os problemas internos, com mais ou menos intensidade, atingem o teatro na Bahia, no resto do Brasil e no mundo. É mais ou menos um corpus unívoco de questões. Algumas questões milenares, aqui e ali pinceladas por pressões da modernidade-tecnológica.

E a partir deste ponto precisamos ainda mais de atenção com este texto e um pouco de boa vontade interpretativa.

Não quero dizer que a criação deste campo simbólico seria a prova cabal de que o teatro está se lixando para a sociedade em que vive... Isto é o que pensam alguns SOCIÓLOGOS. Alguns! Mas há outros que acreditam que a maneira do teatro interferir/criticar/raciocinar/satirizar/ajudar esta sociedade NÃO precisa/deve ser tão subserviente, ou seja, instrumental. Que esta maneira REALMENTE é de outra natureza...

Este campo simbólico, “uma área do teatro na Bahia”, NUNCA foi estabelecido de forma coerente internamente e legitimada pelos seus próprios saberes artísticos, SEMPRE foi legitimado primeiro por interesses políticos. Sempre foi arregimentado por apoios partidários. Daí que quando um partido cai leva todas as instituições e “atores sociais” que criou em sua época, porque isto cria a impressão de que estas instituições que também SÃO artísticas, são sobretudo políticas... É um mal de nascença. É a dança de Shiva, a dança da destruição e re-construção que sempre me refiro. Sabemos que foi assim com o Carlismo, está sendo com o Petismo e será assim com qualquer ISMO que assuma o poder (Será??).

Se nós não criamos nossas estruturas, alguém as criará por nós. Por isso, nunca se acha que: “Fulano está lá porque é bom”. SEMPRE se pensa: “Fulano está lá porque é amigo/parceiro/comparsa/companheiro de BELTRANO”. O MODO como as coisas se organizam autorizam este raciocínio!! Tanto antes, na década de 1990, quanto agora, nos anos 00. Mesmo o cara (a cara) sendo competente...

Daí que tanta gente se confunda, não sabendo reconhecer a excelência que o teatro baiano alcançou nos anos 1990! Quando o teatro fez um mercadinho, quando tentou ter platéia local cheia (formada não só pelos amigos e parentes dos artistas) e quando (ousadia!) tentou EXPORTAR, produzir peças para o mercado externo que, conseqüência, deixou um número de atores nossos pelos atuais centros de produção mais estruturados (polêmicas sobre isto num capítulo à parte).

Bom, esta incapacidade de gerenciarmos nossas hierarquias e valores internos ao fazer teatral é o grande mal que nos abate enquanto área: não sabemos julgar por nossos próprios critérios (que já são muitos!). Esses critérios estéticos até são usados na "briga pública", mas, por trás, ficamos todos com a impressão que a questão mesmo é outra... Porque é realmente BELTRANO que sempre legitima os nossos parceiros. Afinal, foi Beltrano que os colocou LÁ. Nós não reconhecemos e não fortalecemos nossas hierarquias internas e, portanto, não aceitamos os sucessos/fracassos. Estes são sempre culpa de um outro.

Quando nós “gente de teatro” criticávamos o teatro da Bahia da década de 1990, que, além de todos os acertos artísticos, tinha seus horrores [estava excessivamente fechado em alguns artistas (a maioria "ótima", mas não todos, e com outros "ótimos" querendo entrar na festa também, mas sem poder), ultra-dependente das leis de incentivo fiscal (questão nacional, o Rio e São Paulo peitaram uma mudança menos drástica), eivado de relações paternalistas entre artistas e alguns funcionários públicos (a maioria competente, mas não todos)], isso para muitos foi a deixa para entender que ERA HORA DE MUDANÇA. E era.

E a mudança, mais uma vez, veio de FORA para dentro. Com os artistas TENDO que se ajeitar no espaço traçado por interesses outros. E deu nisto que tá ai. A “mudança cirúrgica” que falei no último post sequer foi pensada. Para que? Pra quem!? QUEM é que precisava de mudanças cirúrgicas???! Questões artísticas dão muito trabalho... E esta "gente de teatro" já é tão briguenta entre si. Mas, repito: uma coisa são as nossas brigas domésticas, de nossa GRANDE família teatral (não só da família teatral baiana...), que quer fazer mil e uma coisas com a cena. OUTRO problema, são as questões DE FORA.

Posso conversar HORAS sobre isto e ESCLARECER mais, também, a quem interessar possa, caso meu raciocínio esteja mal expresso.

Mas quero voltar para os comentários ao texto de Gil...

Cris, me diga onde no teatro baiano você tem acesso a tudo? Olhando agora o roteiro do atarde.com não é a impressão que eu tenho... E, depois, mudamos as condições de possibilidade para que determinadas FORMAS de teatro fossem executadas em Salvador. Por exemplo, montar um texto contemporâneo ou clássico que ainda pague direito autoral (CARO) com artistas da terra ficou ECONOMICAMENTE inviável!!!! Só podemos ver (se for o caso) este texto montado por atores de outras plagas em viagem pela nossa terra.

E montar um clássico não é assim: “Quer montar? Monta!”. O próprio exemplo que você dá, de Hackler, é um caso-atípico, um diretor de exceção, praticamente um bastião que há anos legitima a prática de diálogo com os grandes autores (contemporâneos ou não) produzidos nas capitais. Uma atividade rara/cara/essencial nas melhores “famílias do teatro”.

Como disse Gil, se a gente visitar qualquer “capital do mundo” vamos ver em cartaz pelo menos um Brecht, um Shakespeare, um Ibsen, um outro autor-referência e bem montado. Mas, não esqueça, Gil, que falamos da “capital da Bahia”.

Um beijo carinhoso,
da amiga Jussi

domingo, julho 04, 2010

Memórias de um teatro desandado I

O teatro em Salvador desandou. Isso é um fato inegável. Principalmente pra quem viveu, como espectador e aspirante a artista, a década de 90.

Muito se tem culpado a atual gestão da cultura do governo do estado, mas muita coisa já vinha se desestruturando antes, muita coisa importante foi sumindo, mudando; mentalidades, financiamentos, apoios, parcerias. E faz parte de nossa sociedade patriarcal querere sempre achar um grande salvador ou o grande culpado, mesmo que, por trás dessa questão, exista realmente um salvador e um culpado maior.

Fernando Guerreiro começou 20 anos antes de mim. Ele pôde ser testemunha de que a década de 70 foi importantíssima, teve seus sucessos, como Marilyn Miranda, cuja fila fazia voltas na Araújo Pinho, endereço da Escola de Teatro, teve suas grandes montagens, grandes textos, grandes atores e diretores. Na terceira parte deste artigo há um depoimento dele, por isso o cito.

Posso falar um pouco da década de 90. E lembrar muito do que acontecia ali, foi deixando de acontecer, e nos empurrou a essa tragédia mal-escrita que virou nosso teatro.

Lembro que os institutos de línguas estrangeiras conseguiam verbas para montagens em Salvador. Citando apenas o ICBA, Salvador teve grandes montagens – e não cabe aqui relacionar o grande com a qualidade e gosto pessoal – que marcaram a cidade. O Merlin de Carmen Paternostro ficou no imaginário das pessoas. No centenário de nascimento de Bertolt Brecht, em 1996, tivemos três montagens de seus textos num conglomerado de verbas que não faço idéia, mas que possibilitou a montagem de Mãe Coragem (direção de Luiz Marfiz), O círculo de giz caucasiano (direção de Paulo Dourado) e Eu, Brecht, direção de Deolindo Checcucci, com dramaturgia de Cleise Mendes, a partir de poemas, canções e trechos de peças do autor alemão.

Essas montagens todas foram feitas pela Cia de Teatro da UFBA, que começou seus trabalhos na década de 80, com um Pirandello, e na década seguinte nos legou grandes peças, com grandes atores, textos interessantes quase sempre sob a batuta de Harildo Déda ou Ewald Hackler, responsáveis por momentos memoráveis da nossa história como O menor quer ser tutor (Handke/Hackler), Hedda Gabler (Ibsen/Déda), Noite encantada (Mrozek/Hackler), Zoológico de vidro (Williams/Déda). Sem contar com Na selva das cidades, texto de Brecht que Deolindo dirigiu numa grande briga cênica entre Fernando Fulco e Gideon Rosa, e tantos outros que não vi, mas que ouvi falar, como O senhor Puntilla e seu criado Matt, também de Brecht, que Paulo dourado dirigiu tendo a gloriosa Yumara Rodrigues como Puntilla.

Além dos institutos de língua, a própria Escola de Teatro da UFBA conseguia verba federal. Fosse por qual caminho fosse, a lei Fazcultura possibilitou também grandes produções de Guerreiro, Deolindo, o Theatro XVIII passou a ser um espaço de criação para a parceria Aninha Franco/Rita Assemany, bem como convidava outros artistas para criarem trabalhos lá, tudo dentro de uma verba anual viabilizada pelo Fazcultura.

Márcio Meirelles e Angela Andrade resolveram peitar a tarefa de assumir o decadente Teatro Vila Velha, fizeram projetos interessantes, como o 3 & pronto, que consistia em montagens rápidas feitas em 3 semanas para apresentar em outras 3. Márcio dirigia Brecht, fazia suas montagens com o Bando de Teatro Olodum, e conseguiu, através do governo do estado, a tão sonhada reforma do Vila Velha. Muito e merecido recurso foi destinado à reforma, e o teatro pôde – também em sua maioria, pelo fazcultura, outras com recurso direto do estado e outras na cara e na coragem, se aproveitando da estrutura do espaço – acolher grupos de teatro, e por lá passou um Fausto#0, de Goethe, um Material Fatzer, de Brecht/Müller.

O diálogo entre a cultura baiana e a herança européia era saudável. Ao menos em seus resultados. Carmen Paternostro dirigia Os negros, de Genet, e Dendê e Dengo, de Aninha Franco. Deolindo dirigia Angel City, de Sam Sheppard e de sua própria autoria O vôo da asa branca. Dourado fazia suas peças épicas com dramaturgia de Aninha Franco e/ou Cleise Mendes; A conspiração dos alfaiates, Canudos. Guerreiro fazia Equus (Schaffer) e Calígula (Albert Camus), mas também Os cafajestes, e Aninha Franco.

Ainda havia o Núcleo do TCA, que na época fazia grandes montagens, grandes clássicos, sempre com diretores de destaque que eram convidados por mérito, algo esquecido nos tempos atuais. Havia ainda muita gente que esqueci, muitos recursos que não lembrei, até por ser um novato e este texto não é histórico, são lembranças de um adolescente entusiasmado com o mundo que se abria na minha frente, ainda perdido em meio àquilo tudo.

Memórias de um teatro desandado II

Lembro dos meus tempos de aluno da Escola de Teatro. Discutíamos as novas montagens como se discute futebol. Era papo de corredor e de pátio da escola quem ia montar o que, quem tal diretor escolheu pra fazer tal personagem, quem havia sido convidado pro Núcleo do TCA, de quem era a nova montagem da Cia de Teatro da UFBA, que ator estava se destacando.

E não havia, nisso, um sentimento de inveja. Nosso sonho era crescer profissionalmente pra poder trabalhar com essas pessoas. Não havia aquela mentalidade atual de que os profissionais eram privilegiados, que eles já tinham ganhado demais e que era a nossa hora, que a verba tinha que vir pra nós; jovens talentos. Não, o que queríamos era poder estar perto dessas grandes referências. E conquistar, aos poucos, nosso espaço.

Entre 1995 e 1999, período que passei pela Escola de Teatro, vi muita gente boa se formando. E sendo absorvida pelo mercado; que alguns, hoje em dia, pra defender a atual crise, dizem nunca ter existido. Era um processo natural, uma seleção natural da espécie artista. Naturalmente, os que se formavam em interpretação e eram fracos viraram iluminadores, figurinistas, produtores, ou iam procurar coisa melhor pra fazer. E assim com direção, também. Sem rancor, sem remorso, sem disputa desleal.

Vivíamos um período de grandes eventos e pequenas montagens que aconteciam paralelamente e tinham seus espaços na cidade. As peças de formatura dirigidas por Harildo tinham momentos memoráveis, como a montagem de MacBeth, de Shakespeare, com um sensacional cenário de Hackler, um grande figurino de Claudete Eloy, uma luz que Eduardo Tudella fez, com pouquíssimos refletores, que muito peixe grande não conseguiria com milhões de elipsoidais. Lembro de termos no mesmo ano a estréia de O sonho (Strindberg), com direção de Gabriel Villela, e A casa de Eros (Cleise Mendes), com direção de José Possi Neto, comemorando o aniversário de 40 anos da Escola de Teatro. No mesmo ano que tivemos Noite encantada de Hackler.

Era muita coisa acontecendo. Projetos, comemorações, as verbas apareciam, os artistas trabalhavam. Grandes atores no palco, grandes textos em cena, grandes diretores pluralizando o teatro de Salvador. Eu ainda peguei a rebarba disso. Consegui entrar em circuito comercial com minha peça de formatura, Quartett, a convite do diretor do TCA, Theodomiro, sem precisar entrar em edital. E isso ajudou a me projetar, me ajudou a ser convidado por Eliana Pedroso pra dirigir os 40 anos de teatro de Yumara Rodrigues. Assim pude me iludir com a possibilidade de uma contínua carreira profissional, que acabei conquistando com uma razoável marca de ao menos uma produção por ano.

Até chegar 2007. Primeiro ano de PT no poder. Não fiz absolutamente nada. Nem recebi convite, nem consegui recurso pra peça alguma, nada. Este foi o único ano que não fiz teatro desde que entrei na Escola de Teatro, em 1995. Mas 2007 já era um ano que, a despeito da nova gestão que fez tabula rasa e formatou o HD da nossa cultura, apagando todos os nossos arquivos, era um ano que simbolizava o paroxismo de algo que estava desandando.

O Fazcultura declinou. Era claro e evidente que havia, antes, uma política do Q.I., quem indica, pra que as empresas financiassem espetáculos. Bem ou mal, coisas aconteciam e eu, que nunca fui de corriola alguma, conseguia trabalhar com Guerreiro e Márcio Meirelles, com Aninha Franco e Harildo Déda. Os institutos de língua tiveram seus orçamentos apertados. A possibilidade de conseguir verba da ACBEU pra montar um texto americano, ou do ICBA pra montar um texto alemão deixou de existir. As coisas no século XXI já vinham mal das pernas, e a tabula rasa de 2007 tirou do mercado muito gente.

Nós tivemos público. Tivemos projetos que atraiam público. Tínhamos uma imprensa que dialogava ativamente com as nossas produções; pro bem ou pro mal. As instituições públicas e privadas começavam a achar que poderia ser um bom negócio apoiar esse “teatro baiano”. Mas tudo isso foi por terra.

Não tenho competência histórica, política e científica pra ficar aqui dizendo os “porquês”. Mas é fato inegável que algo desandou. E, em meio a tudo isso, o retrocesso profissional alavancou um retrocesso estético, em busca de modismos de décadas passadas. E os palcos baianos começaram a se encher de amadorismos, de “pesquisas estéticas” ultrapassadas, fracas, inconsistentes. Muita coisa ruim começou a estrear. Com tão poucas opções, o público, que já arrefecia junto à crise que estava se instalando na cidade, deixou de ir com medo do que pudesse ver.

Eu cheguei a ouvir a alguns anos atrás de muita gente, público comum, leigo, que a qualidade do que nós fazíamos nos palcos da cidade era bem melhor dos que as peças do eixo Rio/São Paulo que vinham pra cá. Chegamos a ser referência. O papel da Escola de Teatro, e de sua pós-graduação, ajudou a estimular que muita gente viesse pra Salvador em busca desse “teatro baiano”, dessa alternativa de produção ao eixão do sudeste.

Mas essas pessoas começaram a vir num momento onde o teatro decaia. E ouço, com muito amargor, o questionamento de muitos sobre “cadê aquele teatro baiano que tanto me falavam?”.

Eu também estou à procura.

Memórias de um teatro desandado III

As questões estéticas do teatro baiano, que apenas toquei acima como outro sintoma de nossa crise, não foram exploradas porque, recentemente, numa conversa com o diretor Fernando Guerreiro, angústias e anseios em comum me levaram a provocá-lo a escrever um texto curto sobre isso tudo.

Se você for, neste exato momento, em qualquer capital do mundo, verá em cartaz um Ibsen, um Brecht, um Shakespeare, um Beckett. Sou dramaturgo, entusiasta da nova dramaturgia, mas não podemos sedimentar uma realidade teatral numa cidade sem dialogar com os clássicos. Sem educar, formar um público que possa ter a oportunidade de conhecer nossa história, apreciar grandes personagens, se deleitar com textos geniais.

Não acredito numa arte que não dialogue com seu passado. Seja pra criticá-lo, seja para citá-lo, seja para ressuscitá-lo ou negá-lo. E não há diálogo com o nada, no vácuo não se produz som. E sem grandes textos no palco, não podemos ter grandes esperanças.

Segue o texto de Fernando Guerreiro:

SOBRE O QUE REPRESENTAR

Sou um diretor à moda antiga, gosto de estudar e dirigir um bom texto. Ao longo de sua estória, o teatro viu seus palcos invadidos por diretores autores, atores autores, ou simplesmente, ausência de autores, as famosas perfomances, criações coletivas, acontecimentos teatrais, ou como se queira denominar montagens em que a palavra perde em importância para todos os outros elementos da encenação.

Como podemos formar platéias sem oferecer-lhe a oportunidade de entrar em contato com grandes obras dramáticas? Para mim, a palavra é a essência do drama, seu elemento principal e o que o personaliza. É fundamental o desenvolvimento de novos dramaturgos, que saibam construir a base para grandes encenações. Mas para isso precisamos trazer o texto de volta aos palcos, sem firulas, sem inovações ( uma ilusão que já perdi, pois sei que tudo se repete), apenas com competência e muito, muito trabalho.

Comecei a minha carreira no final da década de 70 e tive o prazer de ter contato com montagens de pérolas da dramaturgia. De João Augusto, no Vila Velha, à saudosa Cia de Teatro da UFBA, pude assistir Sófocles, Goldoni, Pirandello, Shakespeare, Moliere, Nelson Rodrigues, Oduvaldo Viana Filho, Cleise Mendes, Nélson Araújo, Suassuna e por aí vai. E, o mais importante, em montagens que não brigavam com estes textos, não “recriavam” o que estava no papel. Sempre que converso com jovens diretores eu digo: cuidado com o que vocês vão fazer com o texto! É preciso dissecá-lo, estudá-lo a fundo, descobrir todas as suas nuances e possibilidades. Criar uma relação de respeito e não de competição. Nunca querer aparecer mais que ele, mostrar que é melhor que ele.

Quero começar um movimento pela volta de grandes textos ao tablado, em montagens básicas, sem firulas ou enganosas “inovações”. O teatro baiano está vivendo um momento de ressaca, poucas estréias interessantes, um excesso de pós-modernismo de um lado, um excesso de comédias rasas do outro. Vamos buscar de novo a qualidade, trazer grandes atores de volta, representando textos essenciais. Só assim podemos sair da lama em que estamos chafurdando.

Fernando Guerreiro.

segunda-feira, junho 07, 2010

"Resposta a Jussilene" ou "quero montar Tchékhov, mas não posso"


Jussi,

Ontem, à noite, vinha dirigindo meu carro ouvindo Rachmaninov. Compositor russo que aprendi a admirar profundamente. Ouvia seus “Momentos musicais”, op. 16, quando, mais uma vez - ao ouvir a terceira peça - imagens, desejos e emoções me vieram à mente.

Não posso ouvir essa peça musical que me vêm, à cabeça, não só sentimentos, mas a recorrente vontade de montar “Tio Vânia”, de Anton Tchékhov.

Essa obra teatral é de uma beleza profunda. Trata da frustração dos sentimentos, da castração dos desejos, da impossibilidade da paixão. Temas eternamente atuais e poeticamente escritos por um dos maiores de todos.

Se alguém me perguntasse qual seria minha concepção para essa peça, eu mandaria ouvir o terceiro momento musical de Rachmaninov, contemporâneo de Tchékhov, tão russo e tão inspirado quanto. E mandaria ouvir as quatro versões que tenho das tantas que ainda pretendo conseguir. Nas interpretações dos seguidos pianistas está a dinâmica da peça, a alma da cada personagem, a poética da cena.

Seria insuficiente para um edital? Bem, montar Tchékhov em Salvador será, por um bom tempo, insuficiente e impossível.  Eu jamais teria um projeto de montagem de “Tio Vânia” aprovado em Salvador. Nos editais, minha razoável experiência me mostrou que é quase impossível eu ser aprovado com os meus projetos pessoais, a partir da minha dramaturgia, ou a partir de João Ubaldo Ribeiro, que seja, com o melhor elenco possível que seja. Quanto mais um autor russo, morto, esquecido. Aliás, esquecido não! Pra ser esquecido é primeiro preciso ser lembrado, e Anton Tchékhov não faz parte da realidade nem dos estudantes de teatro, nem da população em geral.

“Por que não tenta a Lei Rouanet ou o Fazcultura?”, me perguntariam alguns. E temos, na minha resposta, a resposta ao insucesso atual das leis de incentivo em Salvador; o Fazcultura depende de decisão local, e não há interessados em outra coisa que não seja festa e camarote nas gerências de márquetim das empresas. Rouanet? As decisões são nacionais. E que representante nacional aprovaria verba pra Salvador, pra uma peça de um autor russo, com atores desconhecidos dele, numa perspectiva de naufrágio quase garantida?

Naufrágio, sim. Tchékhov escreve para a alma das pessoas. E, atualmente, as almas estão inacessíveis. A carapaça de insensibilidade e estupidez blindou o soteropolitano médio de qualquer possibilidade de percepção artística. Ele só ouve o que espera ouvir, só lhe interessa o texto que ele não precisa “traduzir”, não precisa se esforçar por adentrar um universo que fuja do lugar comum, do cotidiano, do medíocre e vulgar.

Não acho que o teatro deva ser museu. O Teatro NU, por exemplo, vem tentando dialogar com as atuais expressões dramáticas por aí afora. E me interessa deveras a produção contemporânea, as novas linguagens, as possibilidades do drama e da cena. Mas, parodiando um ditado antigo; “às vezes, pra se ir em frente, antes é preciso olhar pra trás”. Atrás está a grande estrada da vida, que fez o passado caminhar até a gente. E por ela eu adoraria voltar e me encontrar com essa obra belíssima de Tchékhov. E poder mostrá-la nos palcos da minha cidade. E poder tocar as pessoas com a poesia do mestre.

Acho que essa resposta dialoga, por linhas tortas, com sua carta. Não poder montar Tchékhov em Salvador diz muito de tudo o que você falou.

Enquanto isso, vou fazendo do momento musical de Rachmaninov um momento teatral; vou montando e remontando “Tio Vânia” na minha cabeça.

Isso, ao menos, Salvador não pode tirar de mim. 



GVT.

quarta-feira, maio 26, 2010

Cartas a um jovem Gil Vicente


Querido Gil,
Sim, recebi seu último e-mail, mas confesso que não o compreendi. Por isso minha demora em responder...

Não compreendi como a "opinião pública" soteropolitana que ainda mantém o mínimo interesse nessa arte - os segundos cadernos, os professores de teatro, os estudantes de teatro e a gente que faz teatro - pode acreditar que se há uma crise no teatro baiano, esta crise se deve a uma "falta de criatividade dos artistas da terra". Confesso, não entendi.

Queria ter mais informações, fatos, depoimentos para compreender... Uma análise, um artigo, sei lá, com bons argumentos. Algo que não caísse no démodé BAxVI que se tornou o debate (sic) "sobre os rumos da 'cultura' (sic) na Bahia", debate que esterilizou um ambiente racionalmente já rarefeito, debate que anestesiou um ambiente há décadas já perigosamente absorto em suas próprias entranhas e paixões.

Aqui no Rio leio jornal todo dia.
Na internet, lógico. Não sou assinante de nenhum, mas meu google chrome abre simultaneamente as páginas que mais acesso: atarde.com, globo.com, jb.com, uol.com e etc.com. Meu dia só começa depois que eu blábláblá, aquela coisa... E, deus sabe até quando, mas ainda mantenho o hábito de começar lendo as páginas de 'cultura' (de 'entretenimento'). Sou leitora ativa, vasculho no meio do lixo, vou à caça, mas não tenho encontrado nada a respeito disso por aqui, nem no terramagazine.com, que é editado por um baiano... Parece que o teatro baiano já não é mais mesmo uma matéria que interessa a tanta gente...

Mas eu realmente não entendo do que reclamam...

E quem é mesmo que reclama?? E o que seria esta tal "criatividade" que antes tinha e hoje não tem mais? O que é o ANTES??? A que antes estão comparando os já famigerados anos 00?! Ao engajamento da turma dos anos 60 ou a energia desmedida dos anos 70? Bom, talvez o antes se refira àquela alegria selvagem do fim dos anos 1980, que terminou desembocando na onda de profissionalismo ímpar dos 90, a onda à qual recentemente acabamos de ver terminar?

Sou realista.
Sei que a nossa memória social é curta. Portanto a crise só pode ser em comparação ao momento anterior imediatamente vivido: os anos 1990. É triste, mas enquanto sociedade, a nossa memória não tem o fôlego nem de 2 gerações, apenas sabe/acredita no que cada indivíduo por si viveu como "testemunha ocular". Por isso tudo vira memorialismo...

Numa arte tão efêmera quanto o teatro, com a freqüência de público que temos, não dá nem para imaginar os estragos que este tipo de comportamento social causa. A cada dez anos sabemos de uns três "pela primeira vez na Bahia", que causariam frouxos risos, se antes não provocassem náuseas profundas. E também não escondo minha dor lancinante quando conversando com as "novas gerações" cito um grande ator baiano "do meu tempo (!), dos anos 1990 (!!!)", e ouço um inocente desdenhoso: "nunca ouvi falar". No fundo, isso se torna apenas outra forma do mais vulgar dito popular: "Não vi, então não é bom". Ou, sendo na Bahia, o copyleft: "Não sei, não quero saber E TENHO RAIVA DE QUEM SABE".

Mas, tudo bem. Ninguém me obrigou a amarrar nesta pradaria o meu jegue.

O fato é que os anos 1990 não foram chamados de "os anos do profissionalismo teatral" na Bahia à toa. Ele aconteceu depois de um verdadeiro levante provocado ainda no final dos anos 1980 por peças movidas por self-made-men/women (os Los Catedrásticos, as esquetes da Companhia Baiana de Patifaria, a Oficina Condensada), peças criadas por jovens, que na época nada tinham a perder, que trabalhavam em outras atividades para sobreviver, que lançaram mão de suas pequenas economias pessoais para fazer as montagens, que conseguiram atrair um público de amplo espectro (não mais apenas os amigos e os parentes e os alunos e os pares) e que tiveram também a maldita sorte de pegar carona num espírito do tempo provocado pelo New Carlismo que queria novamente contar as "coisas da Bahia através das artes", sobretudo utilizando-as como ferramenta de marketing. E a resposta da cena foi: "Por que não?"

Na seqüência da década de 1990, diferentes estruturas de apoio à produção teatral na Bahia foram montadas ou reestruturadas. A simbiose da "classe" com o governo Carlista não foi apenas no apoio dado a certa temática (a Bahia como o "grande e quase único tema" de diferentes espetáculos teatrais apoiados), mas ocorreu também na relação patrimonialista e paternalista entre alguns gestores e artistas.

Se pudéssemos analisar de forma apartidária, inclusive de fora do "partido do teatro", perceberemos que parte da crise "que se vive hoje" já estava sendo engendrada nestes dois grandes aspectos do sistema produtivo montado: 1. Pelo próprio desgaste temático provocado pela moda do "vamos pensar a baianidade nos palcos", que teve seu frescor no início, claro, mas que como TEMA também encontrou seu esgotamento em pouco menos de dez anos. A Bahia poderia ser um TEMA bom quando era um tema entre os demais num roteiro cultural que ainda se pretendia amplo. Depois, se tornou quase que a fórmula do sucesso! E da forma como sucedeu não deixou herança, deixou apenas replicantes.

E 2: No desgaste provocado pela exclusividade do uso da lei de incentivo Faz Cultura no capitaneamento das produções teatrais. O Faz Cultura era uma caixa preta, descriptografado apenas para alguns, com os problemas inerentes ao modo de produção via renúncia fiscal que mais tarde seria debatido nacionalmente também. Ou seja, é uma questão colocada para o país, o caminho ficou cheio de armadilhas, mas POSSIBILITOU A ESTRUTURAÇAO DE UMA RESPEITÁVEL REDE de trabalhos, de artistas atuantes, de valores de cachê, de periodicidade de produções! E de estruturação de um MERCADO TEATRAL!!

O fato, amigo GVT,
é que esta turma toda que era jovem e deliciosamente irresponsável nos anos 1980, já chegou aos anos 1990 mais pragmática e realista. Exigiu (e conseguiu!!) condições para continuar trabalhando. Se não fizessem isso, com certeza, pessoas como eu e você não teríamos visto nem um quarto deles em ação nos palcos! Boa parte continuou com o filão BAHIA, mas o sucesso geral possibilitou a montagem de outros estilos de encenação e também se arriscou fugir do estilo (por si só nem bom e nem mal, porque não há isso em poética) próprio de ambientes desorganizados: a dependência do ator-estrela e/ou do ator-comediante.

Essa geração começou a cobrar cachês e, pasmem, a SOBREVIVER daquela atividade que simplesmente lhes tomava 99% do tempo. Incrível? Que isso um dia tenha acontecido? A gente também já conversou o quanto o surgimento e aparelhamento das casas de teatro deve à música baiana, que terminou reformando espaços e preparando técnicos, sobretudo de luz e som, que se revezavam na música e no teatro. A gente também, numa conversa, já listou de cabeça uns quinze nomes de profissionais de primeira linha que hoje só encontra trabalho remunerado na música. Trabalhar para teatro? Só se for uma dívida antiga para um amigo... Voltamos ao 'teatro só para amigos”... Em todos os aspectos. O público voltou a ser majoritariamente formado por amigos.

Mesmo a "classe teatral" sabia dos problemas inerentes àquele "mercado embrionário" que se formava, também fazia suas queixas. Mas de forma acéfala, para não variar, as reclamações só pipocavam quando o arroz queimava na própria cozinha. Mas os ganhos geracionais, de todo modo, estavam se acumulando. Qual é o principal ganho? Ter diferentes gerações de atores baianos trabalhando! Porque está é a única chance para os atores mais novos que surgem. No teatro, ver gente boa é a única fórmula para gerar mais gente boa.

É claro que o governo Wagner não teria perícia técnica e artística para fazer a mudança cirúrgica necessária ao cenário que encontrou. Ao invés disso, fez terra devastada, quis "Começar um novo tempo". Não foi NADA sensível ao "mercado" que funcionava antes. Sequer considerou-o como tal! Ouvi de inúmeros trabalhadores do governo que me disseram Hãhn? quando perguntei sobre o que ia acontecer com o mercadinho teatral baiano. A questão não seria mais o teatro baiano dando seus pulos para se inserir na economia capitalista, mas o teatro (mais uma vez!) como caminho para a mudança social. Cansativo. Não nego que muitas pessoas se salvem assim, mas a arte que elas fazem com certeza será condenada.

E nesse bojo houve ainda um tremendo erro de julgamento! Acreditou-se numa versão determinista da realidade, num "é o meio que faz o homem!" E raciocinaram: "Ora, ora, aquela turma lá dos anos 1980 não se produziu de forma criativa sem grana, sem salário, sem tempo, sem condições? Então? A chave do sucesso está NESTAS condições!" Triste. Como disse, seria hilário se...

Acontece que esqueceram como foi difícil para esta geração 80 re-começar depois de um longo inverno. Depois de todos os desmandos que quebraram a "produção" anterior. Numa outra oportunidade eu me repito, conto sobre os anos 1960 "quebrando" o que foi montado nos anos 1950 (você não agüenta mais me ouvir falando isso... Confesse...), mas não preciso nem dizer que mais uma vez presenciamos a dança de Shiva. Essa imensa turma de artistas baianos que se profissionalizou na década de 1990, formada por artistas DE DIFERENTES idades (! dos 7 aos 70!) se retraiu ou foi retraída do "cenário", aí o espaço literalmente sobrou para os novatos de todos os tipos. No grupão que "saiu de cena" estavam: 1)A turma das antigas que não topava mais passar por um retrocesso e trabalhar recebendo miséria ou não recebendo; 2) Parte grande da turma jovem que desceu para o Rio de Janeiro e São Paulo; 3) A outra parte da turma jovem que continuou atuante na Bahia "lascando de banda" para escalar um elenco que ainda tope trabalhar nas condições oferecidas; 4) E uma turma considerável das antigas simplesmente cansou.

Bom, tenho que falar sobre mim?
Detesto argumentar usando experiências pessoais... Eu demorei 6 anos para montar minha última peça na Bahia, Joana d'arc. Nosso projeto foi primeiro reprovado, depois renegado, posteriormente escolhido como suplente e, por fim, ganhou um edital. Haja Paciência... Saiba que oferecíamos sempre O MESMO projeto, só alterávamos o orçamento. E mesmo depois de premiado, demoramos 14 meses para receber a grana. Eu literalmente concebi e pari uma criança, a doce Ana Luísa, enquanto aguardava a verba.

O prêmio recebido, depois de reduzido, só dava para promover 13 apresentações!!! Montamos o espetáculo com 1/3 do orçamento original lá de 2004. A diretora voltou novamente a se multiplicar em sonoplasta e operadora. A atriz voltou a se revezar na assessora de comunicação. Voltamos ao "se vira nos 30" porque não tinha como pagar a todo mundo, era um espetáculo que exigia um elenco grande. Não era um monólogo. Não era um binólogo. Não vou discutir mais isso, mas chegamos a pensar em montar um monólogo só comigo, chamado Eu, Joana, devido às sérias restrições orçamentárias. Mas utilizar a restrição orçamentária como tema para um espetáculo/monólogo soava como cópia para mim, já tinha visto esta peça. Graças a Deus conseguimos um elenco que aceitou um cachê praticamente simbólico para o talento e empenho que demonstraram. Os 2/3 que TIVEMOS que retirar do orçamento foi basicamente da área de mídia!!!! Mídia...Esta coisa essencial no mundo de hoje para não isolar mais a já isolada manifestação teatral na contemporaneidade. Outro revés.

Não... Também não quero falar do estrago que causa para toda uma turma que agora está se formando/entrando para o teatro não assistir freqüentemente os "artistas de diferentes idades que se profissionalizavam nos anos 1990". Os meninos dos anos 1980 ainda tinham seus ícones baianos, inclusive para COMBATER! Professores, atores e diretores simultaneamente em cartaz para RENEGAR!!!! A história do teatro baiano pode ser divertida se a gente encara algumas montagens como respostas a outras montagens! Inclusive “os grandes sucessos”! Isso é teatro: mimese contínua, angústia da influência, o ver e copiar, dizer que não copiou, melhorar, acumular...

Nêgo, isso para não dizer da luta pelo Teatro NU, ein? Os diferentes projetos reprovados, nosso primeiro edital, no qual recebemos 9 mil contos... ai...

Pois é. Cansei por hoje.

beijos carinhosos,
JU

terça-feira, maio 25, 2010

Palestra sobre dramaturgia, dia 27/05!


Dia 27 de maio, às 19:30hs, no Campus da Lapa da UCSAL, o diretor artístico do Teatro NU, Gil Vicente Tavares, estará dividindo uma mesa com o renomado e premiado dramaturgo, Prof. Dr. Marcos Barbosa, da UFBA. Na ocasião, os dois farão uma palestra sobre dramaturgia brasileira a partir de suas obras, vinculando ao tema da XI Semana de Letras; "Literatura e Trangressão". Apareçam e divulguem! 

(na foto, Marcos Barbosa, eu, Claudio Simões e Gideon Rosa, no "Diálogos sobre dramaturgia contemporânea ano 0" com Letizia Russo)

sábado, maio 22, 2010

Elegia


Damário 
              se foi
Calvário  
             se fez
Poesia 
            desfaz
Imagem 
            da Cruz

segunda-feira, maio 17, 2010

UNDERGROUND faz 15 anos

O filme Underground, de Emir Kusturica, completou 15 anos, agora em 2010.

15 anos se passaram, mudou-se a década, o milênio, e por mais que muitos queiram, ainda vivemos os ecos do pós-segunda guerra mundial. Nem a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética foram suficientes pra mudar o panorama mundial.

Uma ordem mundial só muda quando as urgências são outras. E, infelizmente, o filme de Kusturica está debutando atual e necessário.

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, quando ainda não se premiava Michael Moore e outras bobagens, este foi o segundo prêmio do cineasta, chegando ao status de ganhar duas palmas de ouro, feito só realizado por mais dois ou três cineastas do mundo.

Kusturica consegue ser uma mistura de Bertolt Brecht com Federico Fellini. De Eugène Ionesco com Ettore Scola. Sem a mínima preocupação com o que herdou, o cineasta sérvio conseguiu chegar ao patamar de ser um dos maiores cineastas do mundo, de todos os tempos.

Se me perguntassem sobre quais obras cinematográficas me inspirariam mais, dentre todas já feitas, Underground estaria entre as três. Para as outras duas vagas a briga seria boa entre filmes de Scola, Bergman, Fellini, Tarkóvsky, Greenaway, Sokurov, e talvez eu não soubesse listar.

Acabei de ver o filme, e me emocionou mais do que das primeiras vezes. É impressionante como o cineasta consegue unir o trágico e a bufonaria, a festa e a dor, e fazer um filme que mexe com todos os sentimentos de uma vez.

Ser político sem ser panfletário, ser trágico sem ser melodramático, ser poético sem ser cafona, ser palhaço sem ser ridículo.

Se todos os artistas conseguissem dosar isso, com certeza teríamos obras mais complexas, desatreladas de ideologias, modismos, questões politicamente corretas e idéias rasas.

Nas mais de duas horas e meia de filme, Kusturica tem muito a nos dizer. É clara e evidente a complexidade do tema que ele aborda, pois ele está falando de si, de sua dor, mas criando uma fantasia para isso. É um fingidor que chega a fingir que é dor a dor que realmente ele sente pelo seu país, pelo seu povo.

Adoro arte política, mas só tenho visto arte ideológica.

Adoro arte que emociona, mas só tenho visto melodrama.

Adoro arte com humor, mas só tenho visto humor sem arte.

Underground é uma lição de como se fazer uma obra-prima se utilizando dos elementos da arte sem que eles pareçam gastos, rasos, maneiristas.

Consistência. Complexidade. Conhecimento. Esses são os princípios da arte. Só consigo ultrapassar a barreira do racionalismo na arte quando esses princípios são alcançados. Aí, então, sou pura emoção.

Só, então, “a minha alma sangra”.

Vejam, revejam o filme. As lágrimas de vocês serão as mesmas que as minhas.



GVT.

domingo, maio 09, 2010

"Selvador", civilização em ruínas?


No caminho para as duas últimas apresentações d’Os Javalis, em Camaçari, deparei-me com uma grande construção à esquerda da pista, saindo da Avenida Paralela. Ao perguntar o que seria aquilo, a resposta – quase que natural e óbvia das pessoas – foi que ali seria o Norte Shopping, ou algo que o valha.

Como já disse tantas vezes, Salvador é uma cidade boa pra tomar cachaça e beijar na boca. A referência explícita à idéia de um balneário, de um lugar de diversão e festa, se alia aos grandes programas do soteropolitano nos finais de semana. Se não se está na praia, se está no xópim. Ou numa daquelas festas adolescentes que os marmanjos retardados culturais passam a vida freqüentando.

O Teatro Maria Bethania fechou, virou bingo. O Iemanjá serve mais a colégios e formaturas. O Espaço Xisto Bahia está em reforma há tempos, bem como o Solar Boa Vista (ambos do Estado), onde fui ensaiar Os Javalis e, após reforma anunciada pelo Governo, as goteiras ainda caíam no palco; uma lástima.

Se formos falar da prefeitura da cidade, vira piada. Não temos um teatro municipal, o único espaço de apresentações, o Teatro Gregório de Mattos, está fechado e não vemos nenhum movimento para que a prefeitura da cidade tenha uma relação obrigatória e automática com a cultura da cidade. Passe-se em branco e fica-se por isso mesmo.

Agora, em meio à reforma do Teatro ACBEU, recebemos a notícia que o Teatro Jorge Amado vai fechar. Um teatro particular, que, diferente de alguns outras da cidade, não recebia mesada do governo e vivia das pautas, caras e sempre cheias, advindas de um processo quase que natural de peças com caráter extremamente comercial, possibilidade plausível de se tentar sustentar os custos da casa.

Mas não deu. O espaço será leiloado, possivelmente, por não ter conseguido cumprir um empréstimo feito ao Desenbahia. Ficaremos sem mais um teatro na cidade, não sabemos por quanto tempo, isso aventando a possibilidade mínima de que quem compre resolver reabri-lo; o mais fácil é virar um prédio de negócios na árida Pituba burguesa.

É engano achar que uma cidade como Salvador chegará algum dia ao status de metrópole civilizada culturalmente de forma natural e espontânea. Vivemos numa terra onde nossa cultura que é exaltada pela TV, pelos folclores sobre nosso povo, está vinculada a mijar na rua, a falar alto e ser esculhambado, a requebrar, a tomar todas, a pegar mulher, a se embriagar na praia ou nos ensaios de pagode e música de carnaval, vivemos uma cultura rasteira e folclórica que, ao invés de ser dosada com antídotos de sofisticação, simplesmente fica sendo exaltada como identidade.

É sempre bom lembrar que a iniciativa de Edgar Santos, de tornar Salvador um centro de excelência e vanguarda do mundo, na década de 50, foi combatida por jornais, pelos estudantes da Universidade Federal da Bahia em passeatas, enfim, uma política cultural efetiva tem que ser estruturada, organizada e imposta. A criança sempre preferirá o chocolate à sopa; o povo sempre preferirá o raso ao profundo.

Ambos podem coexistir, e ambos se alimentam. Não existe fundo sem raso, nem raso sem fundo. São complementos do universo. Pra que exista o belo, precisamos da referência do feio. Pra que exista o leve, precisamos conhecer o pesado. Com uma referência só, a cabeça entra num estado letárgico de aceitação e preguiça; e é isso que vemos na cultura soteropolitana.

É preciso lutar pra que a Prefeitura de Salvador tome vergonha na cara. É preciso lutar pra que o Governo do Estado olhe mais pela outra arte, aquela que não flui naturalmente pelas praças e becos da cidade. É preciso que a iniciativa privada, que enche os bolsos de dinheiro, entenda seu papel social de fomentar um desenvolvimento da sociedade, e não se preocupe apenas em vender suas marcas em camarotes de carnaval e eventos popularescos, no famoso capitalismo selvagem que não percebe que noutros centros a economia da cultura é uma realidade que permite investimento em orquestras, companhias de dança, galerias de arte particulares, teatros e espaços culturais.

Mas por enquanto, o que temos é a construção de novos xópins e o fechamento de velhos teatros. "O teatro é um avançado meio de civilização, mas não progride onde não a há", dizia Almeida Garret.

E regride onde a civilização é trocada pela barbárie. 


GVT.

quarta-feira, abril 28, 2010

Itabuna, Camacan, e a cidade que não mora mais em mim...

O desejo deveria sempre mover o homem.


Em nossa sociedade, o desejo foi substituído pelo interesse, pela ganância, pela usura, pelo consumismo. Os homens agem não pelos seus desejos, mas porque devem satisfação aos seus pares, porque devem seguir determinado padrão, casar com determinada pessoa, ver tal filme, vestir-se de tal jeito, comportar-se de tal maneira.

Mesmo quem nega padrões, acaba por seguir outros, movido não pelo desejo, mas pela vontade de negar o sistema. Nossa sociedade não é, definitivamente, movida pelo desejo.

Viajei semana passada pro interior da Bahia, para as cidades de Itabuna e Camacan, onde o Teatro NU apresentou o espetáculo Os Javalis. E pude ver, na experiência toda cheia de desejos, o quanto estamos afastados da nossa essência e verdade.

Havia, ali, um desejo mútuo de Carlos Betão e de Itabuna, ele voltando à cidade, a cidade sem vê-lo há 20 anos; terra onde ele começou a fazer teatro. E era um desejo puro, simples, sem grandes holofotes, interesses, trocas de favores.

Havia, naquele povo que foi ao teatro, em Itabuna, uma vontade de ver arte. Sem estrelas, sem a grande mídia empurrando goela abaixo algum produto. Era um desejo advindo da carência da cidade em relação à arte. Um Centro de Cultura caindo aos pedaços, com teto desabando, um equipamento de som e luz que foi comprado há três anos e que até agora não foi instalado por nada mais do que incompetência pública. Equipamento que está se deteriorando, tecnologia ultrapassada, como tantas outras coisas nesse estado que sempre era pra ter sido e não foi (será algum dia?).

O riso simples, fácil, os aplausos calorosos, a pureza de espectadores que foram ali acompanhar uma história e se divertiram com um texto aparentemente cheio de filosofias e “discussões complexas”; pura bobagem, pois a verdadeira arte comunica e ali se estabeleceu uma comunicação verdadeira, sincera e efetiva; para além de afetiva.

Dois dias de casa lotada e a certeza cada dia maior de que Os Javalis ainda tem muito a dar, precisa correr este interior, o Brasil, (só) existe vida inteligente fora de Salvador.

Nunca subestimei ninguém. Em minha curta vida de professor, sempre procurei tratar todos como iguais e sempre acreditei na capacidade e inteligência de todos; esquecendo, claro, da preguiça de pensar que nos acomete hoje em dia. Mas, apesar de não subestimar ninguém, fiquei surpreso ao ver mais de 120 pessoas no Centro de Cultura de Camacan curtindo Os Javalis. Desde crianças até pessoas mais velhas, pude ver nos olhos e nos depoimentos ao vivo ou por escrito o quanto a peça havia mexido com as pessoas, levado a reflexões, a idéias “avançadas” sobre o homem e a sociedade.

Tudo isso aconteceu por causa do desejo daquelas pessoas. Muitas vezes ignoramos, menosprezamos e deixamos de lado coisas importantes pelo excesso que temos, pela arrogância, preguiça e comodidade. Mas numa cidade do interior do interior, onde as pessoas são totalmente carentes de arte e cultura diversificada – através do próprio depoimento delas notava-se isso – o desejo de ver algo diferente, que as tocasse de outra forma, por outro viés, fez com que, na pureza do desejo, a peça acontecesse e vibrasse dentro delas.

Desejo voltar com a peça. Circular pelo interior com a peça Os Javalis. Pude me sentir artista, pude comunicar, provocar, mexer com aquelas pessoas. As pessoas na minha cidade estão duras, perdidas, soltas num lugar que não deixou de ser interior, mas ainda não chegou a ser uma metrópole. Calça de veludo com rego de fora.

Enquanto Salvador ignora sua arte, o interior, carente e cheio de desejo abraça Os Javalis. Chego a pensar se aquele verso de Chico Buarque “a cidade não mora mais em mim” se aplica ao artista que sou.

Enquanto quase toda a equipe se dedicava a desmontar a estrutura que fizemos para a apresentação em Camacan, a sensação que eu tinha era de dever cumprido e de um vazio que começava a surgir.

Obrigado Itabuna e Camacan.


GVT.

domingo, abril 18, 2010

Dança contemporânea; o inferno pra fora dos bolsos...


Uma velha. Um careca barrigudo. Dois banquinhos surrados. Corpos que fogem à ditadura estética do bailarino clássico. Movimentos que fogem da pirueta, grand battement, tendus devant. Cenas mais conceituais do que dançadas, texto em cena, falado pelos dançantes. Música de Arvo Pärt misturada com salsa. Desconstrução do movimento.

Se eu lesse isso tudo, com certeza não teria ido assistir ao espetáculo El cielo en mi bolsillo, da Provisional Danza, de Madrid. Viria-me à cabeça as porcarias que tenho visto em cena, amparadas em modismos e conceitos, mas sem profundidade, verdade, propriedade e dança.

Os bailarinos Allejandro Morata, autor da coreografia, e Carmen Werner, diretora da companhia, fizeram um trabalho com sensibilidade e dignidade, sem qualquer preocupação em inovar e questionar, sem a preocupação de seguir linhas estéticas, muito menos em fazer performance, uma manifestação típica das décadas de 70 e 80 (já um pouco démodé), e que as pessoas por ignorância, burrice ou falta de capacidade artística insistem em empurrar nos palcos com a nomenclatura “dança contemporânea”.

Talvez o que mais eu sinta falta hoje em dia seja de uma poética da cena. Assim como tenho uma percepção de que as pessoas cada vez mais fogem da arte. Na dança, isso é claro. Só há duas explicações para as bobagens munidas de conceitos que vemos nos palcos de hoje em dia. Ou criou-se uma vergonha de se fazer arte, ou a falta de competência em criar um trabalho artístico, e sua decorrente execução, fez com que os trabalhos de dança ficassem na paródia, no conceitual, na desconstrução.

Todo grande artista desconstruiu a partir de uma base sólida. Hoje em dia, se desconstrói o que nem sequer tem capacidade de ser erguido. A arte confessional tirada de diários íntimos, com poesia de péssima qualidade, bem como criações que citam outras obras sem recriá-las, mas trazendo delas uma referência que se basta e não evolui em termos de criação, tudo isso tem sido a derrota da dança.  Pior é quando se parte pra gozação de arquétipos. Rebaixa-se a cena ao nível de um programa humorístico de terceira categoria. Gozar com os cânones é tão facilmente medíocre...

Allejandro Morata e Carmen Werner criam um trabalho dentro do limite de seus corpos. Mas corpos que têm história, que têm o que dizer, que têm dança. Talvez, o que aconteça hoje em dia é que não haja artistas que possam trazer uma técnica, uma história e uma poética para a cena. E por se saberem incapazes, criam – na ditadura da mediocridade – fórmulas performáticas que disfarçam a falta de uma poética no trabalho.

Confissões pessoais também podem ser matéria para a arte, mas a partir do momento em que essas confissões se transforma numa poética da cena. A arte é a transubstanciação da realidade. E é muita pretensão que alguns exponham sua vida no palco com uma música de fundo bonitinha, com objetos de cena delicados, com efeitos banais de luz e gestos, e digam que isso um trabalho artístico. Pior é trazer conceitos pra cena sem que isso se transforme em arte. Ou ficar a meio entre as linguagens para, na indefinição, disfarçar a falta de competência em assumir uma delas que seja pra se fazer bem-feito, dentro de uma criação sólida de uma obra artística.

El cielo en mi bolsillo não é uma obra-prima. Mas é arte num momento de desastre.

Ou desarte.



GVT.

sexta-feira, abril 09, 2010

Nosso Zé, um alguém

Acabo de saber do falecimento de "Seu Zé".

Seu Zé era uma pessoa estranha, diferente. Pesava sobre ele questões engraçadas e estranhas. Soube que ele era funcionário da Escola de Teatro da UFBA, foi realocado pra outro lugar, não quis ir e pediu demissão pra ficar na Escola.

Ele havia sido colega de Harildo Déda, mestre do teatro baiano, no colégio. Mas tomou um rumo na vida desconhecido, misterioso, mas no entanto bem simples. Resolveu viver o dia-a-dia de uma Escola de Teatro, onde ele conseguiu colegas que duravam três anos e meio, quatro anos, dez anos, e alguns que se foram antes dele, outros que ficaram pra contar história.

A figura do Zé-Ninguém aqui se torna paradoxal. Seu Zé poderia ter sido um Zé-Ninguém ou alguém mais que um Zé?

Ele assistia a todos os espetáculos da Escola de Teatro, emitia opiniões (às vezes comentava alto, durante, inconvenientemente), e era um quebra-galho pra tudo. Perguntava sempre pra gente sobre alguém, tecia comentários repentinos sobre assuntos dos mais diversos.

Não poderia ser oficializado como funcionário da Escola, pois não o era, mas soube recentemente que o câncer que o derrubou não foi suficiente, assim como o realocamento dele, pra que ele saísse de lá. Disse que queria morrer na ETUFBA, segundo eu soube; possivelmente não tinha muito pra onde ir.


Não sei se deixou filhos. Família. Não sei se deixou casa, não sei se deixou algum dinheiro - que não sei como conseguia - nem tampouco se deixou alguma história fora da Escola de Teatro.

Mas foi lá que ele deixou um vazio, inexplicável. Professores se aposentam, alunos de formam, funcionários são realocados, montagens são feitas e desmontadas a cada semestre. A Escola de Teatro, em tudo, representa o que de mais efêmero existe.

Seu Zé não. Sendo um Zé-Ninguém, sendo alguém, sendo todo mundo, personagem de uma farsa ou de uma tragicomédia, seu Zé conseguiu, por ser muito pouco, por querer muito pouco, mas estar sempre presente, ser uma figura que, não sei como, não sei porque, não sei aonde, fará uma imensa falta a todos que o conheceram. A partir de agora, ao entrarem naquela Escola de Teatro da UFBA, tenho certeza que será estranho a todos a falta daquele baixinho com cara de enfezado, mas que abria um imenso sorriso a qualquer sinal de carinho ou humor.

Estranhamente, Seu Zé, na Escola de Teatro, será uma das poucas coisas a que não poderemos chamar de efêmeras.


GVT.

terça-feira, março 30, 2010

Arquitetura da destruição

Um governo assume o poder. Como meta principal, motivar as massas através da cultura. Recriminando a arte que vinha sendo feita, taxando-a de degenerada, esse governo busca em culturas passadas, nas raízes da raça preponderante no país, a força e o incentivo para fortalecer seu povo. Uma aparente uniformização retira os méritos individuais e a massa passa a ser privilegiada, e aqueles que se adequam ao novo padrão, unidos no resgate das raízes culturais e tradições, são parte fundamental da estratégia política vigente.

Não. Não estou falando de nenhum governo recente da América Latina, Brasil ou Bahia. Estou falando do Nazismo, que chegou ao poder através da condução de Hitler ao cargo de chanceler da Alemanha em 1933.

Assisti, recentemente, ao filme Arquitetura da destruição, de Peter Cohen, narrado pelo grande ator Bruno Ganz; que mais tarde faria o papel de Hitler no filme A queda, que teve relativo êxito no cenário mundial recente.

O filme Arquitetura da destruição tem um mérito especial na “construção” de Hitler enquanto arquiteto de uma idéia louca e maligna, uma das maiores chagas da história da humanidade.

Vemos, no documentário, como a ópera Rienzi, de Wagner, mexeu com seus brios nacionalistas e suas idéias de democracia e estado, e como depois as idéias antissemitas e a exaltação da cultura nórdica das obras do compositor de Tristão e Isolda formataram o pensamento de Hitler.

Percebemos como sua frustração como arquiteto e artista plástico fez ele se vingar dos grandes artistas do passado recente. Bem como nos faz entender melhor seu ódio aos judeus, sua fúria e loucura em dominar o mundo e, de forma sutil, como seu discurso nacionalista, totalitarista, foi usado de forma sedutora pra convencer uma população traumatizada pela derrota da Primeira Guerra Mundial e as sanções estrangeiras, a inflação galopante, etc.

Arquitetura da destruição deveria ser um filme obrigatório para entendermos o século XX e, principalmente, o século XXI. Estamos num momento onde a burrice impera e os preguiçosos intelectuais preferem se agarrar aos modismos e agrupamentos sociais do que dialogar com a tradição, o passado e a história. E isso é nefasto. Só olhando nosso passado podemos compreender nosso futuro.

A América Latina, o Brasil e a Bahia estão passando por um momento onde semelhanças preocupantes com os movimentos totalitaristas do início século passado deveriam nos deixar atentos. Nosso politicamente correto e nosso medo em falar das “minorias” nos obnubila o pensamento quanto ao fato de que o resgate que o Nazismo pretendia fazer da cultura nórdica como legítima e autêntica de seu povo pode se assemelhar ao histerismo dos resgates culturais ligados às raízes da América Latina, do Brasil e da Bahia.

Pode-se perceber conglomerados se locupletando de movimentos sociais e étnicos, grupos defendendo idéias quando no fundo querem se aproveitar do momento histórico, bandeiras que são desfraldadas para conquistar cargos públicos, ganhar dinheiro do estado e sensibilizar a opinião pública, vendida ao sistema, também.

O filme Arquitetura da destruição mostra como através da cultura se pode dominar, lobotomizar e conduzir um povo ao seu fracasso, a uma falsa auto-estima que no fundo disfarça uma estratégia de dominação e poder.

Nunca a cultura esteve tão em foco como agora, ao menos no Brasil e na Bahia. O que poderia ser bom pode ser perigoso e danoso para a sociedade. Assistam Arquitetura da destruição e tentem enxergar paralelos com a atualidade. E se não enxergarem, por favor, me digam. Será um peso do tamanho do mundo que vocês tirarão das minhas costas, Sísifo que sou de idéias marginais.




GVT.