domingo, abril 18, 2010

Dança contemporânea; o inferno pra fora dos bolsos...


Uma velha. Um careca barrigudo. Dois banquinhos surrados. Corpos que fogem à ditadura estética do bailarino clássico. Movimentos que fogem da pirueta, grand battement, tendus devant. Cenas mais conceituais do que dançadas, texto em cena, falado pelos dançantes. Música de Arvo Pärt misturada com salsa. Desconstrução do movimento.

Se eu lesse isso tudo, com certeza não teria ido assistir ao espetáculo El cielo en mi bolsillo, da Provisional Danza, de Madrid. Viria-me à cabeça as porcarias que tenho visto em cena, amparadas em modismos e conceitos, mas sem profundidade, verdade, propriedade e dança.

Os bailarinos Allejandro Morata, autor da coreografia, e Carmen Werner, diretora da companhia, fizeram um trabalho com sensibilidade e dignidade, sem qualquer preocupação em inovar e questionar, sem a preocupação de seguir linhas estéticas, muito menos em fazer performance, uma manifestação típica das décadas de 70 e 80 (já um pouco démodé), e que as pessoas por ignorância, burrice ou falta de capacidade artística insistem em empurrar nos palcos com a nomenclatura “dança contemporânea”.

Talvez o que mais eu sinta falta hoje em dia seja de uma poética da cena. Assim como tenho uma percepção de que as pessoas cada vez mais fogem da arte. Na dança, isso é claro. Só há duas explicações para as bobagens munidas de conceitos que vemos nos palcos de hoje em dia. Ou criou-se uma vergonha de se fazer arte, ou a falta de competência em criar um trabalho artístico, e sua decorrente execução, fez com que os trabalhos de dança ficassem na paródia, no conceitual, na desconstrução.

Todo grande artista desconstruiu a partir de uma base sólida. Hoje em dia, se desconstrói o que nem sequer tem capacidade de ser erguido. A arte confessional tirada de diários íntimos, com poesia de péssima qualidade, bem como criações que citam outras obras sem recriá-las, mas trazendo delas uma referência que se basta e não evolui em termos de criação, tudo isso tem sido a derrota da dança.  Pior é quando se parte pra gozação de arquétipos. Rebaixa-se a cena ao nível de um programa humorístico de terceira categoria. Gozar com os cânones é tão facilmente medíocre...

Allejandro Morata e Carmen Werner criam um trabalho dentro do limite de seus corpos. Mas corpos que têm história, que têm o que dizer, que têm dança. Talvez, o que aconteça hoje em dia é que não haja artistas que possam trazer uma técnica, uma história e uma poética para a cena. E por se saberem incapazes, criam – na ditadura da mediocridade – fórmulas performáticas que disfarçam a falta de uma poética no trabalho.

Confissões pessoais também podem ser matéria para a arte, mas a partir do momento em que essas confissões se transforma numa poética da cena. A arte é a transubstanciação da realidade. E é muita pretensão que alguns exponham sua vida no palco com uma música de fundo bonitinha, com objetos de cena delicados, com efeitos banais de luz e gestos, e digam que isso um trabalho artístico. Pior é trazer conceitos pra cena sem que isso se transforme em arte. Ou ficar a meio entre as linguagens para, na indefinição, disfarçar a falta de competência em assumir uma delas que seja pra se fazer bem-feito, dentro de uma criação sólida de uma obra artística.

El cielo en mi bolsillo não é uma obra-prima. Mas é arte num momento de desastre.

Ou desarte.



GVT.

2 comentários:

floresurbanas disse...

judiaria este meu tempo curto, quase inexistente...

tantas mangas de panos preciosos daria um comentário, nesta hora!

tanto a dividir de um sentimento que é quase vergonha de comunicar, poetizar, marcar em coisas delicadas e profundas a composição artística. acreditar na potência humana de, junto, viajar.

não me envergonho e nem recuo, mas canso. sim, a dança contemporânea pontuada de qualquer coisa, como aval de qualquer um que sequer tateou seu amplo corpo, é desanimadora.

outro dia, ao derramar-me em ruas, com um movimento qualquer, nascido lá nos anos 80, me assaltou um pensamento assustador: a desconstrução desconhecedora do caminho de construirmos vem construindo o fim da arte e suas poéticas. perguntei a mim mesma se isto poderia ser fruto de uma desatualização de sermos humanos, de termos sentidos, de percebermos e vivermos em dimensões múltiplas...

quem sabe! isto dá um gigantesco trabalho e os frutos amadurecem no tempo, sem chances de colheita imediata ou prematura: um contramão das ambições da modernidade da nação.

daggi dornelles

Leonardo disse...

Caro amigo,

Ao ler estas linhas cheias de intenso e verdadeiro desabafo, reconheço a inquietação do apreciador apaixonado pela arte, e a frustração de quem observa o panorama artisco da dança em Salvador nesses últimos anos.
Como bailarino, e de certa forma, contribuinte desta situação, sinto uma certa vergonha em reconhecer tamanha inabilidade na nossa produção.
Eufemismos à parte, tenho a sensação que caminhamos a passo largo, rumo ao que chamo particularmente de "pseudo-fim", de uma linguagem, e para o meu próprio espanto, chego a desejar que esse fim se apresente o mais rápido, pois só assim os resignados e abnegados artistas do domínio e da poesia poderão recomeçar.
Entendo também que a questão não está em debrussar-se ou não sobre conceitos, mas, como vc acertadamente o diz, transmuta-lo em ARTE, sólida assumida e sem subterfúgios.
Talvez assim possamos voltar a ter alto grau de fruição nos espetáculos de dança, ao invés de ataques histéricos! rsrsrs
Grande abraço.

Leonardo Luz