Quinta-feira, Março 08, 2012

O artista e o anti-Oscar: sombra e arte fresca em Rembrandt e Greenaway


Dedicado a Eduardo Tudella

Rembrandt tenta desenhar sua mulher moribunda, Saskia, na cama. Ele diz que quando ela não estiver mais por lá, que ele terá que se olhar com mais frequencia no espelho. Em seguida, fala: “digamos que eu ceda e concorde que você está morta. Este desenho diz que você ainda respira”. Em seguida, comenta que é curioso, pois o desenho “para todo o sempre continuará dizendo que você está dormindo”. E (se) pergunta se dá pra distinguir num desenho se um corpo está dormindo ou morto.

Essa é a cena central do filme Nightwatching, de Peter Greenaway; o ponto de virada. A belíssima música do polonês Wlodzimierz Pawlik colore a escura cena criada pela fotografia de Reinier van Brummelen. Uma cena teatral, mas que é puro cinema. Uma cena seca, uma interpretação de Martin Freeman afetada o suficiente para ser muito mais real e viva para o comportamento da época, com palavrões e poesia: como nosso dia-a-dia.

Peter Greenaway, um dos poucos cineastas a quem podemos chamar de artista, (e, talvez, por isso, pouco conhecido) vem construindo uma filmografia que, nalguns momentos, atinge o que de melhor se fez no cinema até hoje. Sua biografia de Rembrandt é de uma delicadeza e ousadia, de uma precisão e loucura, ao mesmo tempo artesanal e extremamente técnica.

O cineasta britânico faz seu filme todo em estúdio, mas deixando claro ser um estúdio. Um grande palco com iluminação artificial, marcações teatrais, excetuando uma cena no campo que se repete sempre sob a mesma perspectiva. Greenaway chega ao ponto de fazer mais de uma cena onde Rembrandt e sua esposa, depois a amante, olham pra câmera e dialogam contando histórias, numa brincadeira clara com o “à parte”, com o distanciamento da cena, fazendo da narração seu momento – paradoxalmente – mais teatral.

A fotografia de Reinier van Brummelen, aliada a uma precisa direção de arte, surpreende em cada pausa que damos no filme: sentimo-nos diante de uma pintura de Rembrandt. O cuidado com a cena e a transgressão que ele faz na forma de criar a cena e os diálogos servem claramente como analogia da própria obra do pintor flamengo.

No projeto Verão cênico, fizemos uma apresentação de Sargento Getúlio no Espaço Xisto e, na pressa, com refletores e mesa diferente, acabamos programando uma luz muito escura. Fiquei tenso o espetáculo inteiro e, depois? Nenhum comentário da plateia. Estranhei, mas ao ver Nightwatching percebi o que Eduardo Tudella fala sobre as sombras que tornam a cena real. E percebi, ainda mais, que nem sempre precisamos ver tudo tão claro para sentir e entender. O filme de Greenaway é propositalmente escuro e cheio de sombras como a pintura de Rembrandt, mas é também um filme que mostra como um quadro pode bagunçar uma sociedade.

Rembrandt van Rijn recebe a encomenda para pintar um grupo de homens que tramaram um assassinato. Na forma como ele trata a cena, há a denúncia de uma filha bastarda, a covardia, a malvadeza, tudo numa pintura que aparenta retratar apenas alguns homens. No filme, logo após o pintor flamengo sofrer com a morte de sua esposa, o quadro é mostrado e, num golpe de mestre, Greenaway põe na boca dos homens retratados a leitura precisa do quadro. Eles percebem a denúncia e crítica do pintor ao passo que decidem manter o quadro. Rembrandt já havia adquirido certa fama e depois de um tempo as pessoas olhariam aquele quadro como um simples quadro. Eles passariam para eternidade nas tintas de um pintor renomado, e a vileza deles seria apagada e borrada pelo tempo.

Engano deles e de muitos. A obra pode ser menosprezada, escondida, renegada e boicotada pelo seu tempo, mas a arte ainda vai respirar, para todo o sempre, como a Saskia do desenho do artista Rembrandt, filme do artista Greenaway.

GVT.

Sexta-feira, Março 02, 2012

Jussilene Santana na MUITO - fevereiro de 2012



Jornal A Tarde, Revista MUITO

05 de fevereiro de 2012

Abre Aspas - JUSSILENE SANTANA, Atriz e pesquisadora


“Salvador é cheia de mistérios a decifrar”

Texto Cássia Candra; Foto Raul Spinassé


Quem vê a moça simpática de gestos simples não a imagina brava em cena. Com a mesma garra com que defendeu Bastos, personagem de Budro, que lhe rendeu o prêmio Braskem de Teatro 2004 de Melhor Atriz,[1] a intérprete, jornalista e professora Jussilene Santana, 35, estava de volta à arena, na última terça-feira (31/01). Desta vez, em defesa de sua tese de doutorado em artes cênicas, Martim Gonçalves: Uma Escola de Teatro contra A Província, que mostra o porquê do afastamento do diretor da Escola de Teatro da Ufba, instituição que criou e administrou entre 1956 e 1961. Orientada pelo professor Ewald Hackler – que a dirigiu em Senhorita Júlia, de August Strindberg –, ela esquadrinha o imaginário da intelectualidade da época e bebe em fontes que vão do Centro de Estudos Afro-Orientais à Fundação Rockefeller, em Nova York. No caminho, Jussilene se depara com outros mistérios, que a levam a conclusões contundentes. “Foi como destampar a porta do inferno”, diz. A pesquisa é só parte da rotina incomum desta moça, que ainda inclui os projetos do Teatro Nu, do qual é cofundadora, da Universidade Veiga de Almeida (Rio de Janeiro), onde ensina, e de intervenções no teatro e cinema.

O teatro arrebatou a pesquisadora?

Desde que entrei no ambiente cultural baiano, fiz as duas coisas, jornalismo e teatro. Venho de uma família muito humilde. Meu pai saiu do interior para vender farinha, frutas e verduras em um pequeno comércio em São Caetano. Sempre estive nessa posição de ter que trabalhar, mas minha mãe me incentivava a estudar. Eu tinha sonhos, sonhos impossíveis para uma menina de São Caetano. A Escola Técnica (atual IFBA) foi um atalho, abriu meus olhos para a cidade. Depois, veio a escolha pelo jornalismo e, simultaneamente, o teatro.

E o interesse por Martim Gonçalves?

Sempre ouvi falar em Martim Gonçalves. Extremamente mal e extremamente bem. Era o herói que havia trazido a vanguarda para a Bahia ou o vilão, um reacionário que trabalhava apenas com teatro clássico ocidental e queria empurrar um gosto colonizador a Salvador. Nunca consegui entender o meio-termo.

Foi isso que a levou à pesquisa?

Sim. Ouvi muita gente que viveu, estudou, trabalhou ou assistiu Martim Gonçalves e fui colhendo informações. Quando entrei no mestrado, sobre a cobertura do jornalismo baiano, orientada por Albino Rubim, hoje secretário da Cultura, vi a campanha contra Martim ser executada pelos jornais baianos. Quando veio para a Bahia, ele foi acolhido por uma elite cultural – e veio por conta dessa elite –, mas, por uma série de motivos que estudo, ele se desentende com essa elite, que depois faz uma campanha política para afastá-lo.

Em suas andanças pelos arquivos, o que mais chamou sua atenção?

Para um pesquisador, Salvador é cheia de mistérios a decifrar. Há possibilidades de pesquisas com as quais me deparei e que não pude dar conta. Por exemplo, a influência de Odorico Tavares, diretor dos Diários Associados na Bahia, entre 1942 e 1980, na formação da mentalidade e da figura política de ACM. Também chama a atenção o fato de não haver uma pesquisa que decifre as contas da Ufba na administração Edgard Santos. Esse reitor caiu, em grande medida, por seus apoios financeiros, que a intelectualidade baiana não entendia ou não queria aceitar. Até hoje, isso não foi investigado. Nas pesquisas que fiz, vi os jornais baianos se constituindo como atores sociais, determinando a direção das instituições, apoiando, ou não, seus líderes e promovendo muita mentira, inverdades que, pelo ambiente da época, não foram checadas, mas que determinaram o que somos hoje.

Essas informações vão permitir reconstruir aquele panorama.

Sim, e reconstruir o panorama cultural dos anos 1950 e 1960 é crucial para entender a Bahia de hoje. A Ufba foi criada em 1946, mas a relação dela com as artes, aclamada e reconhecida, foi estabelecida entre 1954 e 1956, (com a criação das escolas de arte), com a criação do Museu de Arte Sacra, (em 1959), com a criação do MAM, em 1960, e do MAP, 1963. Minha pesquisa revela que a Escola de Teatro comanda (apoia/direciona) a criação das maiores instituições culturais baianas ainda hoje em ação, (sobretudo através da transferência de verbas e serviços), quebrando a ideia de que Martim Gonçalves, o seu primeiro diretor, era alienado, alheio ao que se passava em Salvador.

Ele orquestrou uma revolução?

Sem dúvida. Apoiado por muitos outros atores sociais, como Lina Bo Bardi, Agostinho da Silva e Pierre Verger. Mas a primeira coisa que me chamou a atenção foi uma carta de Lina dizendo que a famosa exposição Bahia, na V Bienal de São Paulo, de 1959, não tinha sido organizada por ela, como os jornais baianos estavam dizendo. Ela veio a público – no meio da campanha contra o diretor da Escola de Teatro – com essa carta, onde dizia: “Essa exposição foi pensada, planejada e organizada por Martim Gonçalves”. E explicava que sua participação foi mais no aspecto arquitetural, de disposição das peças. Não corrigir isso, segundo ela, poderia ocasionar um grave equívoco para a formação da memória do Estado (e foi o que infelizmente acabou acontecendo).

Até onde poderemos chegar investigando esta história?

Eu aponto mais ou menos 18 novos estudos que precisam ser realizados a partir das questões que levanto, da documentação que apresento. A Bahia que conhecemos hoje foi criada nesse período. E essas instituições, todas, em seus primórdios, tem relação com a Escola de Teatro.

O que poucos sabem sobre Martim Gonçalves e a Escola de Teatro?

Eu tinha a ideia do Martim Gonçalves adepto de estrangeirismo. Mas descobri um homem que tinha uma relação ampla com a cultura autóctone, baiana, brasileira. A grande novidade trazida pela minha tese, porém, é que há fortes indícios, documentos e declarações de que Martim, embora tivesse o apoio de Edgard Santos, tenha ido longe demais em sua independência com a Escola de Teatro. Nos anos 1960, os anos áureos da escola, ele fez um projeto e recebeu 28 mil dólares da Fundação Rockefeller – na época, um milhão e seiscentos mil cruzeiros (uma geladeira custava 100 cruzeiros).

Como era a cena na época?

Antes da chegada de Martim, existiam alguns grupos amadores (os números são muito divergentes e, até hoje, não foi feita uma pesquisa específica sobre isso). Eram amadores, e isso não é um demérito. E é isso que é preciso esclarecer, no que depois vai se construir sobre Martim. Porque muito se disse que Martim disse, exatamente depois do caos informativo realizado pelas campanhas. No fim da administração Martim Gonçalves, ele pediu que a reitoria abrisse uma comissão de investigação sobre sua administração e foi inocentado.

E o resultado dessa Comissão de Investigação nunca foi divulgado?

Nunca.

Qual a herança desse período para a cena teatral baiana?

Ficou toda a obra, só que a autoria jamais foi associada a Martim Gonçalves ou a ideia ou o apoio. Não estou falando de intelectuais de pouco fôlego. Eles não eram marionetes de Martim. Uma pessoa como Lina Bo Bardi, uma arquiteta, pensadora, ou como Pierre Verger... Eles dialogaram, foram acolhidos, foram incentivados. Pesquisadores de Agostinho da Silva, criador do Ceao, me mandaram cartas (e eu também descobri), em que ele pede apoio a Martim Gonçalves para interceder junto ao reitor Edgard Santos. Isso foi na virada de 1958 para 1959, antes da criação do Ceao. A obra continuou, mas os bastidores do processo, por conta da campanha e das rixas políticas, jamais foram associados a Martim Gonçalves.

Sua pesquisa aponta para vários caminhos. Você pensa em dar continuidade ao trabalho com Martim Gonçalves?

Tenho um acervo doado pela família, uma responsabilidade absurda. Esse acervo deve ter ficado fechado por 50 anos e, agora, ter sido aberto por mim é menos um mérito meu que um demérito a qualquer outro pesquisador. Preferimos, como sociedade organizada, ficar no disse me disse, não só com relação à história de Martim Gonçalves na Bahia, como a outras tantas em outras áreas. Quem vai ser o pesquisador, jornalista ou quem quer que seja que vai investigar as 238 escutas ilegais realizadas pelo carlismo? Eu passo a bola para outro pesquisador, porque tenho que continuar meu destino.

E qual é o seu destino?

Vou com Martim Gonçalves por onde ele for. Ele foi para São Paulo, Olinda, Recife, Nova York, Paris, e eu quero ir atrás dele, porque ele é um homem muito corajoso. Depois dessas descobertas, ele não pode voltar a receber a pecha simplória de que era um alienado. Ele era um homem independente. A Bahia tem o costume de confundir a alienação com a independência, a autoridade com o autoritarismo. E de confundir a relação mestre-aprendiz com a relação protetor-afilhado. São coisas bem diferentes. Que loucura é essa colocada dentro do imaginário do teatro baiano de que o Teatro não tem técnica? Isso é um desserviço! E se hoje me perguntam por que a cidade virou um caos, por que a cultura baiana virou um caos, só posso responder que é uma questão histórica. Se parássemos agora para reconstruir o futuro, precisaríamos antes esgotar esse lixão sobre o qual construímos a nossa memória. Não dá para construir o imaginário de Salvador em cima de um lixão. Não dá para construir em cima da desgraça, da velhacaria, da politicagem da pior espécie. Todas essas práticas continuaram numa relação política de comunicação que vem do carlismo, puxando do odoriquismo (Odorico Tavares). Eles eram coligados. Um passou suas técnicas para o outro (e minha tese defende que as técnicas são as mesmas que ainda são empregadas hoje, é a nossa “cultura política”).

Você mergulhou na pesquisa, mas é uma atriz premiada, no teatro. Como está a carreira de atriz no meio disso tudo?

Entre 2007 e 2008, quando eu estava escrevendo menos a tese, consegui participar de três filmes lançados só agora.

O que te leva por esses caminhos?

São os convites. Sempre me considerei uma comunicadora, uma pessoa que se comunica por meio da arte, do discurso objetivo ou da dramaturgia. E tenho muita sede, muitos projetos guardados. Gosto de escolher os meus convites.

Você falou desta “sede”, não dá para imaginar como concilia carreira acadêmica, arte e maternidade.

Há dias em que praticamente não durmo. Por exemplo, 2010 e 2011 foram uma selvageria. Com esta tese de doutorado tão grande, nem sei como não esqueci meu nome.



[1] No impresso saiu com uma pequena imprecisão de datas, agora corrigida. Outros comentários eventuais seguem entre parênteses.

Domingo, Outubro 23, 2011

Uma mensagem para Getúlio ou a poesia deslizando pelo rosto

Depois de momentos de emoção à porta do camarim de Sargento Getúlio,  com artistas como Nilson Mendes, Margareth Menezes e Geraldo Cohen, fomos eu, Carlos Betão, Cristina Vilanova e Alba Cristina beber uma cerveja e papear.

O assunto, claro, girava em torno da peça, Alba tinha visto pela primeira vez e sempre temos o que falar sobre arte. Mas num momento em que Alba levantou e Betão foi falar algo com Cristina, acessei despretenciosamente meu facebook pelo celular e me deparei com esse texto. Resolvi lê-lo em voz alta para os dois, antes mesmo de saber tudo que estava ali.


A voz embargou, em certo ponto. Olhei pros dois e Betão enxugava uma lágrima que insistia em querer descer, junto com a minha. Cecília Accioly, pernambucana, baiana e do mundo, havia me (nos) mandado essa mensagem que resolvi compartilhar. 


Nessas horas me vem a compreensão profunda do que é fazer arte. Um "ainda vela a pena" me soa na alma. As lágrimas de Geraldo Cohen e Nilson Mendes no camarim eram as mesmas no caminho de Cecília, que eram as minhas e as de Betão. 

Getúlio fala da "morte deslizando pelo rio". Eu mostro aqui embaixo um texto que fez a poesia deslizar pelo rosto:

Fiquei sem palavras e sem ação no momento em que as luzes se apagaram. De uma delicadeza que só sente quem tem nos pés a terra do chão amarelo (e tão poucas vezes verde) de que se fala! Posso passar horas falando da parte técnica, do trabalho de corpo, do ritmo e entonação das falas, dos tons, das texturas... mas eu prefiro falar do espelho que a peça foi pra mim. Me vi, vi minha família, de machos que preferem uma vida curta, de mulheres que se chamam "Justa", e enxerguei - mesmo caecilia que sou - as histórias que existem em mim, através de mim, tudo o que me põe de pé e me faz viva! Getúlio fala pra todos e pra cada um. Ele fala com a força e o estalar dos pés e da bexiga do boi na coxa do Mateus, do cavalo-marinho que brincava nos natais de minha infância no Sítio da Trindade em Casa Amarela. Ele fala pra mim, comigo, me conta a história dele que também é minha...e entendo porque tenho tanta dificuldade de viver nesse mundo de velhos frouxos. Sou de um mundo de velhos machos, sou uma! Minha alma o é! E vim do Itaigara até os Barris rindo, chorando, lembrando e vendo uma beleza nas pessoas que há muito eu não via. Pode ser piegas, pode ser qualquer coisa, mas escrevo com uma sinceridade de me desnudar quase que completamente.
E, ao final, quis te dar um abraço, e te agradecer, e agradecer àquele homem belíssimo de cima do palco, pela experiência de um re-olhar...pra mim mesma!

Cecília Accioly

Sexta-feira, Outubro 21, 2011

HOJE, dia 21/10/2011, excepcionalmente, o espetáculo "Sargento Getúlio", da obra de João Ubaldo Ribeiro será às 19hs. Por favor, se estiverem pensando em ir ou souberem de alguém que vai ou pensou em ir, compartilhem essa notícia para evitar constrangimentos e viagens perdidas!!! Dias 22,10, 27, 28 e 29 seguem normais, às 20hs. ÚLTIMAS APRESENTAÇÕES!!!

Sábado, Outubro 15, 2011

Carta aberta a Luiz Marfuz


Caro Luiz Marfuz,

Surpreendeu-me, hoje, ler nas redes sociais um artigo seu publicado no jornal A Tarde de 14/10/2011 (abaixo na íntegra). Intitulado “Mais respeito aos artistas baianos”, vi seu incômodo em relação aos critérios na seleção de espetáculos baianos para o Festival Internacional de Artes Cênicas.

Os dois pontos que você toca também foram questionados internamente pelo meu grupo, o Teatro NU, quando da publicação do artigo de Eduarda Uzeda, em 06/10/2011, no mesmo jornal A Tarde. O primeiro deles, de que “os artistas locais sabiam como participar” soou estranho, pois também não vimos divulgação alguma em nenhum lugar. Absolutamente nenhum indicativo de prazos, seleção, critérios, qual e para onde enviar material do(s) espetáculo(s).

O segundo, como você cita, é “que a linha editorial era ‘questionar o lugar do espectador’”. Sobre esse, que nos causou confusão, vale a pena discorrer um pouco mais.

Acostumados a não nos encaixarmos em linhas editorias e critérios de seleção de festivais e editais – talvez pela baixa qualidade do que apresentamos como proposta e resultado, tal qual você cita em relação a As velhas – nunca fizemos, nós do Teatro NU, muito barulho pela nossa não seleção. Apenas pontuamos seguidamente nossa infelicidade em perder sucessivos editais e não poder participar de eventos que pudessem projetar o grupo de alguma forma.

O Teatro NU surge de uma ideia minha e de Jussilene Santana de privilegiar o trabalho do ator e sua relação com e texto, e buscar uma dramaturgia que possa, sem oba-oba e modismos, questionar certos limites da cena: seja no trabalho do ator, seja na estrutura do texto, seja na temática e na abordagem da cena, da ação, do conflito, da ideia.

Sendo um grupo praticamente autoral – demorei anos para “obedecer” Ewald Hackler e passar a dirigir minha própria dramaturgia –, montamos com nosso grupo duas peças minhas, na sequencia, Os amantes II (2006) e Os javalis (2008), após a boa repercussão que tive em Roma, na Itália, com os dois textos.

Em seguida, tive uma súbita ideia. Percebendo um pequeno palco na Sala de arte da UFBA, pensei em fazer peças curtas antes de sessões de cinema. Levar teatro às salas de projeção. De imediato, pensei nas deliciosas peças curtas de Anton Tchekhov. Aprovados pelo Fundo de Cultura do Estado, montamos, com nossos atores Carlos Betão e Marcelo Praddo, e a participação mais que especial de Fafá Menezes, O pedido de casamento, O urso e Dos males do tabaco.

Depois disso, repetimos o projeto que foi chamado Teatro NU Cinema, mas já nos interessava um diálogo com a dramaturgia contemporânea e selecionamos duas peças curtas de autores baianos para a segunda edição e, depois de umas dez derrotas em editais, a VIVO resolveu patrocinar Sargento Getúlio, monólogo a partir da obra de João Ubaldo Ribeiro, com dramaturgia minha, novamente.

Vale ressaltar que as peças curtas de Anton Tchekhov estão tendo vida longa. Foram apresentadas, a convite de Rose Lima, diretora artística do Teatro Castro Alves, para abrir o projeto Domingo no TCA, para mais de seis mil pessoas, durante seis meses, e resolvemos juntar duas delas, O pedido de casamento e O urso e fazer o espetáculo “Dos males dos casamentos: Tchekhov em dois tempos”, que teve curta temporada de sucesso no Theatro XVIII e no Cine Cena Unijorge.

Todo esse blablablá foi para retornar à questão da linha editorial que era “questionar o lugar do espectador”. Já acostumados à nossa não seleção, reservei-me o papel de anônimo espectador do FIAC, esse ano, até que a produtora do Teatro NU, Fernanda Bezerra, me liga dizendo que o espetáculo “Dos males dos casamentos...” havia sido convidado para o festival, sem que ao menos tivéssemos sondado, enviado material ou coisa parecida.

Depois do primeiro susto, e satisfação pela lembrança e escolha, pensamos: um festival é uma vitrine, para onde se leva o que de mais representativo da estética de um grupo se pode ter, e resolvemos fazer uma contraproposta. Ao invés de dois dias de “Dos males...”, faríamos pelo mesmo preço um dia dessa peça e outro com Sargento Getúlio, por ser nossa obra mais recente e nos interessar difundi-la por ser representativa da nossa estética enquanto grupo.

O festival recusou.

Entendendo que ter o Teatro NU representado por um espetáculo que não é um “cartão de visita” do grupo, a despeito da qualidade das peças de Tchekhov, da excelente atuação dos três atores e do satisfatório resultado final, preferimos então declinar do convite. Interessa-nos muito participar do FIAC, e ainda queremos vida longa a “Dos males...”, mas não como estética representativa do grupo para um festival que parece privilegiar as diferentes abordagens estéticas da cena contemporânea.

Causa-nos surpresa saber desse critério de “questionar o lugar do espectador”. As peças curtas de Anton Tchekhov questionam a sociedade, da qual o espectador faz parte. Mas se o convite havia sido por isso, penso que Sargento Getúlio, assim como As velhas e toda e qualquer obra de arte, digo, de arte, também o faz. E, pensando sob a ótica do FIAC, me parece que essas duas últimas têm mais “cara de festival”, ou o que se pode entender por isso.

Há um festival imcompreensível de abordagens e critérios para o Teatro NU. E, pelo visto, para você também.

Um abraço,

Gil Vicente Tavares
Diretor artístico do Teatro NU.

Jornal A Tarde, 14 de outubro de 2010.
MAIS RESPEITO AOS ARTISTAS BAIANOS
Luiz Marfuz

Deboche é pouco para definir as declarações de Felipe Assis, porta-voz da curadoria do Festival Internacional de Artes Cênicas- FIAC-BA, sobre a seleção das peças baianas, ao dizer que a linha editorial era “questionar o lugar do espectador” e que os artistas locais sabiam como participar. Ora, senhor Felipe, acha que a classe teatral é idiota? Em que veículo público isto foi divulgado? Pergunto: quem soube de inscrições, seleção e conceito do FIAC? Só agora a curadoria se pronuncia forçada por A Tarde, em 06/10/11.
Sem referências, e em atenção ao elenco de As Velhas, procurei o FIAC, há dois meses. Lá me foi dito que a curadoria, composta também por Ricardo Libório e Nehle Franke - informação dada por Felipe Assis – veria as peças locais. Um mês depois, ele anuncia que a peça estava fora da programação, apesar dele não ter visto o espetáculo. Não sei quem foi selecionado, mas respeito os trabalhos de meus colegas. Devo dizer que as peças que dirigi nunca passaram pelo crivo do FIAC. Policarpo Quaresma foi caso à parte: era parceria do Festival com TCA. Núcleo. Critérios de seleção? Um deles, certo ano, – em teatro tudo se sabe – era checar se a peça tinha “cara de festival”. Alguém sabe o que é isso?
Ou talvez a questão não seja esta; no caso de As velhas, a curadoria deve ter achado o espetáculo sem qualidade, atores ruins ou mal dirigidos, tema sertanejo anacrônico, direção medíocre. Agora, com a declaração de Felipe, concluo que a peça As velhas - apesar de ocupar espaço de modo não convencional, aberto a olhar múltiplo - não “questiona o lugar do espectador”. Urgente se faz questionar “o lugar do curador”!
FIAC é evento internacional, mas deve trazer resultados para a Bahia. Fazer investimento deste porte só para dizer que estamos na rota do primeiro mundo seria outro deboche. Há incentivos governamentais, inclusive da SECULT. O Festival deve gerar ações que instiguem e insiram no cenário nacional a produção local, que nunca deveu nada aos espetáculos de fora selecionados pelo FIAC. Senhores curadores, mais respeito aos artistas baianos!

Luiz Marfuz é diretor teatral, jornalista, Doutor em Artes Cênicas, Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas e professor da Escola de Teatro-UFBA

Domingo, Outubro 09, 2011

Santarrita, santa paciência, sem ter companhia...


Meu pai me enchia o saco. “Você tem que falar com cicrano. Você tem que conhecer beltrano”. Muito chato. Mas era mais chato ainda ter que aguentar os meses que ele ficava “de mal” comigo. Era melhor obedecer e andar com os velhos intelectuais que ele listava numa folha de papel quase ilegível.

Fui pro Rio, numa das minhas idas ao Rio que eram voltas. O Rio é minha casa, tanto quanto a Bahia, e mesmo os amigos novos que faço por lá, ou amigos velhos que faço por intermédio (ainda) de meu pai, parecem ter origem num ponto lá atrás onde eu ainda não era alguém. E por isso me formavam em tudo.

Pois bem. Numa dessas idas ao Rio, meu pai, que saco, me legou a incumbência de falar com zilhões de amigos dele. Eu, idiota, achando tedioso cumprir essa via crucis, me deparei com uma lista (zzz) de amigos que eu devia ligar, prestigiar e (saco!) convocar a um encontro.

Incorri no erro de ligar para alguns. Dentre eles, Marcos Santarrita. Segundo meu pai, merecedor de cadeira da ABL, como ele (que os estúpidos me condenem), grande tradutor e escritor de um dos grandes romances contemporâneos (segundo meu pai), Mares do sul.

Tive uma noite de chopps com ele e Alda Porto (outra daquelas grandes e diminuídas). Uma noite especial, conversa de alto nível, daquelas que me mostra minha pequenez da forma mais deliciosa que existe. Ele me falou de uma peça sua, inédita, e me ofereceu. Disse que ia mandar pra mim e eu, com meu preconceito e petulância de artista que não dá ousadia a ficcionistas, acabei por nunca ler.

Meu projeto mais recente (sim, porque projeto não é o ganha-pão, mas um objetivo de vida) era ir ao Rio. E estava, entre minhas obrigações de prazer, tomar chopps com Alda e Marcos.

Mas, ao verificar emails, recebo a notícia de uma missa de sétimo dia. Câncer no pulmão. Santarrita durou dois anos a mais que meu pai. Morreu aos 72. Sem ninguém saber quem ele era em Aracaju ou Salvador. Homem maior, morreu lá pelo Rio, no sul maravilha, e, vida maravilhosa, foi mais um daqueles de rodas pequenas, de notícias tímidas, de repercussão modesta.

Tudo bem que ele não seja reconhecido. Tudo ótimo que ele não faça parte da Academia Brasileira de Letras, para a qual até meu cão foi indicado. Tudo perfeito que ele não saia na Veja, na Istoé, no Faustão ou na Cult ou Bravo. Tudo isso é muito pouco, é muito pequeno.

Eu quero saber é quem vai compensar meu chopp em Ipanema com ele e Alda se engalfinhando e se amando na exata proporção que cabe na arte e na poesia.

GVT.