Terça-feira, Outubro 27, 2009
No tempo das diligências; o Fundo de Cultura do Estado da Bahia
“Prezado Senhor,
De: Ciro Nunes Sales
Diretor de Fomento à Cultura
Fax: (71) 3341-1355
Informamos que a Comissão de Pré-Seleção do Fundo de Cultura da Bahia resolveu não pré-selecionar o projeto “TEATRO NU CINEMA – II EDIÇÃO – MOSTRA BAIANA” - Processo nº. 0800090029521, haja vista que após atribuições de notas individuais de cada Comissário, o mesmo obteve a pontuação final de 29,57 pontos e não alcançou o mínimo estabelecido no item 8.3 da Portaria nº. 051/09 – SECULT.
Para seu conhecimento, informamos ainda que os critérios para os quais o projeto não obteve a pontuação média foram: 8.2.a “valor cultural do projeto”, 8.2.b “viabilidade técnica do projeto” e 8.2.f ”aderência aos objetivos do Fundo de Cultura da Bahia”.
Atenciosamente,
CIRO NUNES SALES
Diretor de Fomento à Cultura”
Esse comunicado é referente – como se evidencia acima, a uma segunda edição que faríamos do projeto Teatro NU Cinema. O projeto consiste em levar teatro para as salas de cinema, através de peças curtas que passariam antes das sessões, em frente à tela do filme.
A primeira edição foi chamada Mostra Tchekhov e contemplava três peças curtas do grande autor russo. O projeto ocorreu de forma satisfatória, e pudemos perceber, pelos questionários preenchidos, a satisfação do público de cinema que, em boa parte, nunca havia ido ao teatro; pasmem.
O retorno que tivemos, para além do público comum, de artistas, do grupo Sala de Arte e tantos outros foi o que nos estimulou a realizar uma segunda edição.
Imediatamente, pensei em contemplar a dramaturgia baiana, sempre com pouco espaço nos palcos da cidade de forma regular. O intuito era também – não só estimular novas criações dramáticas – como difundir o nome e o trabalho de dramaturgos baianos nas salas de cinema, ampliando possibilidades, dialogando com essa abissal distância que separa muitas vezes o público comum dos artistas de Salvador.
Pois bem. Primeiramente o Fundo de Cultura veio com suas famosas diligências. Acho engraçado e me pergunto se alguém já recebeu alguma diligência do Fundo de Cultura contestando valores baixos de cachê para atores, ou exigindo contratação de profissionais amais para o projeto para que ele ocorra em perfeitas condições. Não. Até onde eu sei, as diligências são sempre pra abaixar cachê, cortar pessoal, questionar técnicos, artistas, fichas técnicas, enfim, uma comissão que deveria prezar pela qualidade, pela possibilidade de um artista ganhar bem, parece funcionar na barganha de “até quanto você desce pra gente poder te dar o dinheiro”. E lembro sempre de minha mãe; quem muito se abaixa...
Não pretendo aqui fazer um artigo reclamando de uma reprovação. Faz parte do jogo, perder. E eu também não posso esperar muito das sucessivas comissões de prêmios e editais, carentes, em sua grande maioria, de capacidade, competência e integridade profissionais.
A questão não é essa. É muito mais grave. O mesmo Fundo de Cultura, que aprovou o Teatro NU Cinema – Mostra Tchekhov, fez três considerações totalmente absurdas sobre a segunda edição do projeto. O problema em questão são as considerações. Talvez contemple os pareceres e diligências absurdos que muitos projetos vêm recebendo, e pelos quais muitos proponentes vêm se calando.
Vamos a cada uma:
8.2.a “valor cultural do projeto”
Vivemos uma política terceiromundista ressentida e burra de nos fecharmos em nossa própria cultura, como se nossa cultura não fosse uma contaminação do que acontece no mundo inteiro, e que naturalmente deveríamos dialogar. Mas se a cultura na Bahia está neste histerismo de africanidade, cultura popular, folclore e pobreza, o Fundo de Cultura achou o valor cultural de um projeto com textos de Tchekhov mais valoroso do que um com dramaturgia baiana. Isso é esquizofrenia, palavra que define bem os rumos da cultura no estado. Quer dizer que um projeto que tinha valor ano passado não tem mais esse ano? Por que? Porque a dramaturgia baiana não tem valor? Porque nossa equipe deixou de ter valor de um ano pra outro? É tão desvaloroso levar o teatro aonde o povo que poderia curtir teatro está? Fazendo teatro? Criando um mercado de trabalho, empregando mais de vinte profissionais, em torno da arte?
8.2.b “viabilidade técnica do projeto”
Esquizofrenia. Só pode ser isso. No primeiro ano, que seria um tiro no escuro, conseguimos realizar o projeto e o Fundo de Cultura achou ele viável sem nenhum antecedente que comprovasse a eficácia do mesmo. E realizamos tudo nos conformes, tudo aconteceu de forma normal, sem sobressaltos. Tendo realizado o primeiro, o que faz o Fundo de Cultura do Estado da Bahia considerar o projeto inviável tecnicamente numa segunda edição projetada nos moldes da primeira?
8.2.f ”aderência aos objetivos do Fundo de Cultura da Bahia”
Realizamos o Teatro NU Cinema em abril deste ano. Em seis meses, deixamos de aderir aos objetivos do Fundo de Cultura da Bahia?
O Teatro NU acabou de realizar o “Diálogos sobre dramaturgia contemporânea, ano I” através do Fundo de Cultura da Bahia. Foi um projeto que foi bem-sucedido, a ponto de me fazer pensar, imediatamente após o término dele, em projetar o “Diálogos sobre dramaturgia contemporânea, ano II”. Fico com receio, agora, do projeto não ter mais valor artístico, nem viabilidade técnica e nem tampouco aderir aos objetivos do Fundo de Cultura da Bahia. Será que é proposital deste governo, para além de interromper projetos do governo passado, abortar idéias, que possam ter uma continuidade, surgidas durante sua própria gestão?
Com todo respeito que tenho a Ciro Nunes Sales, receber esse comunicado assinado por um menino sem nenhuma história na cultura baiana, que ficou responsável, de repente, pelo principal órgão de fomento às artes na Bahia – sabe-se lá pela indicação de quem – não sei se me deixa mais incomodado ou mais resignado.
Muitos fazem campanha pra que as leis de incentivo cada vez mais se enfraqueçam em prol de um Fundo de Cultura onde o estado tenha a decisão sobre os recursos, e não a iniciativa privada. O grande argumento é que a iniciativa privada só pensa no lucro, só pensa no retorno financeiro, só pensa em artistas de peso. E a gestão pública? Pensa em que? Pensa?
Viva Kafka, Beckett e Ionesco
Pimenta no dos outros é refresco.
Quarta-feira, Outubro 14, 2009
Oropa, Chile e Ceará
Nos dias 5, 6 e 7 de outubro, realizamos o Diálogos sobre dramaturgia contemporânea, evento que trouxe a Salvador o chileno Ramón Griffero e o espanhol Darío Facal, dois dramaturgos que tiveram seus textos lidos pelo Teatro NU, com a participação de atores convidados. No terceiro dia, lemos a peça Agreste, de um dramaturgo brasileiro que, no dia de seu debate, ligou alegando problemas de saúde na família e não veio ao evento, propiciando uma discussão com Claudio Simões, Marcelo Praddo e com a minha mediação, sobre dramaturgia contemporânea (e) baiana.
O evento, de caráter internacional, foi um pontapé inicial pra todos os anos consigamos – de uma forma ou de outra – realizar esses diálogos e botar a dramaturgia em questão, em xeque e em discussão.
Causou-me certo espanto a quantidade de alunos da Escola de Teatro presentes ao evento. Numa Escola onde circulam cerca de quatrocentos alunos por semestre, ver pouco mais de dez presentes me causou espanto, ainda mais levando em consideração que 90% dos que estavam ali tinham algum contato comigo, tendo sido meus alunos ou colegas. Da classe teatral de Salvador eu não esperava muito como na verdade nunca espero muito, seja em presença ou em reivindicações, debates e discussões. Tampouco esperava que fossem muitos professores, só me assustou que não fosse nenhum – com exceção de um que apareceu por alguns minutos e não voltou mais.
Já quero me articular pra pensar a ampliação do projeto com algumas mesas, um ou dois ateliês de dramaturgia, e quem sabe fechar ou iniciar com alguma apresentação do Teatro NU, pros dramaturgos conhecerem o grupo no palco, e o público que pode não ter visto muito ou tudo que fizemos ver também.
Após um breve descanso de um dia, viajamos dia 9 pra Fortaleza, no âmbito do Festival do Teatro Brasileiro – cena baiana. Este projeto, encabeçado por Sérgio Bacelar e co-produzido por Selma Santos, tem levado – num apanhado diversificado – parte do que vem sendo produzido em alguns estados para outros do Nordeste.
Assim, o FTB – cena baiana em Recife levou diversos espetáculos baianos para Pernambuco, o FTB – cena pernambucana trouxe tantos outros aqui pra Salvador, e assim, com várias edições, um panorama eclético foi apresentado do que vem sendo produzido por aí, Nordeste afora. Nessa etapa agora, Sérgio e Selma tiveram a hercúlea tarefa de produzir, concomitantemente, a cena baiana em São Luís e Fortaleza.
O Teatro NU viajou com Os Javalis, espetáculo que passou quase em branco por Salvador, e foi surpreendente a receptividade do público cearense. Ficou mais clara ainda a idéia que tenho de que o público soteropolitano é viciado. Há, em Salvador, nichos que têm seus preconceitos e posturas inabaláveis e vê-se nitidamente que o público espontâneo, aquele que sai de casa sem conhecer ninguém da peça, com o simples intuito de ver uma peça porque deu vontade, sentando num teatro pra assistir uma história, é algo escasso em Salvador.
O público cearense riu, franziu a testa, acompanhou a peça com a pureza de alguém que está ali pra ser espectador, e não cumprir uma tarefa social ou uma obrigação de classe. A reação da platéia confirmava isso, e a vontade de voltar a Fortaleza ficou bem grande.
Foi a primeira viagem do Teatro NU. E com um saldo positivo, após termos realizado um evento que, pros pouquíssimos que estivem presentes no Teatro Martim Gonçalves, deve ter servido para ampliar idéias, conhecer novas vozes, discutir conceitos. Ao menos pra mim o evento serviu pra isso.
Estamos ampliando fronteiras. Tom Jobim dizia que a saída pro artista brasileiro era o aeroporto. Espero que o aeroporto seja pra que possamos trazer gente, nos levar e nos trazer de volta a Salvador.
Espero que a nossa saída não seja uma passagem só de ida.
E que tenhamos um retorno.
GVT.
Domingo, Outubro 04, 2009
Diálogos com Mercedes, Griffero e a Latinoamerica
Terça-feira, Setembro 29, 2009
habemus site!
Sexta-feira, Setembro 18, 2009
Ninguém dorme melhor que os assassinos
Qui, 17 de Setembro de 2009 07:57
texto originalmente publicado na coluna Teatro & Cidade do site http://www.noticiacapital.com.br/
erá tema eterno dos jornais, das mesas de bar e das salas de estar. Há um componente do “querer se dar bem” que envolve a maioria da sociedade. Mas como dizia o ditado; macaco não olha o próprio rabo.Terça-feira, Setembro 08, 2009
Mea culpa

Domingo, Setembro 06, 2009
MARIA JOÃO PIRES NA MÃO
MARIA JOÃO PIRES NA MÃOSáb, 05 de Setembro de 2009 19:56
texto originalmente publicado na coluna Teatro & Cidade do site http://www.noticiacapital.com.br/
O conceito de arte, e do que é artista, a cada dia que passa se torna mais confuso – recheado de questões que põem a cultura no meio de um ringue onde todos perdem e a arte, coitada, só faz se enfraquecer.
Mas me arrisco a identificar algumas poucas pessoas que para além de exercer seu ofício nas artes eu posso definir como artista; no sentido mais raro da palavra. Uma delas, e das muito poucas, chama-se Maria João Pires.
Fui ao concerto dessa pianista portuguesa, dia 03/09, no Teatro Castro Alves, com a Orquestra Sinfônica da Bahia, e pude sentir uma coisa que poucas vezes sinto. Um estado de êxtase me tomou o corpo, ao ponto de não conseguir nem sequer aplaudir a genialidade dessa artista que estava ali fazendo nada mais do que arte.
O segundo concerto pra piano de Beethoven acabou sendo coadjuvante da maestria com que Maria João debulhava as notas, coloria os sons, acariciava as teclas. Sempre que ouço uma música, tento entrar em sintonia com o que o autor poderia realmente querer com aquela passagem, aquele arpejo, aquela entrada lenta, aquele arremate preciso. E muitas vezes me decepciono ao perceber na interpretação do solista, ou da orquestra, ou nas escolhas do regente uma ineficiência no diálogo com a pretensão da obra. Sim, digo da obra porque nem sempre o autor sabe até onde pode ir aquilo que ele criou. Além de ser, na maioria das vezes, seu pior crítico, o autor muitas vezes pode não ser o melhor intérprete de sua obra.
Era impressionante a generosidade de Maria João em conversar com a orquestra, o diálogo preciso, e seu semblante que discretamente entristecia com uma nota triste e sorria numa passagem exuberante, tudo isso muito bem regido pelo maestro Christopher Warren-Green. E fica aqui uma dica para Ricardo Castro; acorrente este maestro a alguma coluna do teatro e obrigue-o a ficar um ano regendo a orquestra. Impressionante como ele consegue conduzir a OSBA. E isso já era perceptível desde o Mahler que ele regeu em outro concerto até o Rachmaninov que se seguiu ao Beethoven da apresentação do dia 03/09.
O concerto fez parte da Série TCA, um dos poucos projetos interessantes que o governo atual não abortou. Um projeto que há quatorze anos traz a Salvador, numa programação anual, grandes nomes das artes mundiais. E foi numa semana, inclusive, que a Série TCA colocou, em sua programação, duas apresentações de grande porte; além de Maria João Pires, uma velha guarda cubana sob a alcunha de Buena Vista Social Club.
Algumas coisas me vieram à mente essa semana, ainda mais depois de assistir a um concerto como poucas vezes vi aqui ou em outra capital do mundo, com uma pianista que está entre as grandes deste e do outro século; uma artista que, com suas vestes simples, uma saia indiana, contrastava com os cetins e rendas e paetês tão comuns em nossos concertos, em nossas festas de formatura, em nossos casamentos e quinze anos e batizados...
No dia do concerto de Maria João Pires, passou na principal rede de televisão local chamadas para o tal BVSC. À primeira vista, estranho. Primeiro porque se tratava de um concerto dentro do mesmo projeto – o que deveria ser então prioridade para a divulgação de Maria João Pires, já que era no dia de sua apresentação. E, segundo, porque os ingressos para BVSC estavam esgotados para a sessão e para a sessão extra.
Qual a intenção do Governo Estadual e de seus apoiadores ao deixar de divulgar um concerto que – vergonhosamente (e com preços em conta) – estava com pouco mais de meia-casa e com uma excepcional artista no palco, para divulgar algo esgotado?
Como falei no artigo anterior, a mídia venceu a gente. E nada melhor para a mídia do que uma marca. E a marca BVSC é uma marca forte, pois esteve no Oscar, lançou CD, teve produção americana e foi um sucesso estrondoso no mundo quase inteiro. Isso interessa aos apoiadores e ao Governo Estadual, possivelmente; mostrar como eles conseguem trazer para a província essa “marca” de sucesso.
As pessoas consomem marcas, e não qualidade. Todos querem ter tal etiqueta, tal brasão, tal selo em seus objetos de consumo. E as duas sessões de BVSC traduzem muito bem isso. Alguns músicos da velha guarda cubana já estiveram aqui – no Mercado Cultural – sem a marca BVSC, e pouca gente se interessou. Esses grandes músicos de agora seduziram pela marca, e não pela qualidade. O que é uma lástima, visto que a qualidade desses músicos está além e independente do que a massa pretende consumir. Na verdade, as pessoas se interessam em estar presentes ao fenômeno, e não em fruir um objeto artístico.
BVSC está lotado com antecedência e com propaganda na TV. E vai ser um bom espetáculo que, infelizmente, não irei. Maria João Pires foi preterida de chamadas na TV e fez um concerto memorável. Talvez fosse mais interessante pra um governo que pensa em formação, em democratização, em educação e sensibilização, fazer de tudo pra que os baianos pudessem admirar – e para além disso ter as ferramentas para tal, que só a educação e a cultura podem dar – um momento tão especial como o do dia 03/09. Mas é melhor trabalhar com marcas. Com números. Divulgar uma cacetada de editais, uma cacetada de reuniões com representantes de periferias e cidades do interior. Divulgar que o BVSC lotou o TCA.
A arte continua com Pires na mão; e parece que quase ninguém vê.
GVT.
Segunda-feira, Agosto 17, 2009
Mídia, média e louca
Mídia, média e louca Dom, 16 de Agosto de 2009 23:26
(texto originalmente publicado na coluna Teatro & Cidade do site www.noticiacapital.com.br)
A mídia venceu a gente. Quando digo isso, não ponho a culpa nela, como muitos fazem, mas em nós mesmos, que nos deixamos ser vencidos por ela.
É muito fácil culpar fracassos criticando sucessos, e essa me parece a pior alternativa de briga. Como se diz comumente, a gente está brigando errado. Criticar a ação dos outros quando a nossa se mediocriza e acovarda, é uma fuga e uma falta de visão da vitória da mídia nos últimos anos. E não vitória dela como algo inexorável e incombatível, mas como algo resignadamente permitido por nós; ressaltando que “nós” são aqueles que almejam não simplesmente consumir o que a indústria manda e gostar do que é dito para ser gostado.
Um exemplo pra que tudo clareie. Ivete Sangalo lançou um CD e DVD com participações especiais. Até Maria Bethania foi lá na casa dela gravar uma música de Carlinhos Brau. Esse fato mobilizou uma camada da sociedade de forma marcante, quando talvez nem devesse. Acho Ivete um fenômeno, faz muito bem o que propõe, e não é seu sucesso que diminui a projeção de outros. Falarei mais sobre isso depois.
Ouvi de amigos, de conhecidos, de pessoas que se pretendem alternativas ao mercado, críticas, elogios, esculachos ao projeto de Ivete. E isso é mais surpreendente pra mim do que se possa imaginar. O projeto dela não tem relevância pra mim por não estar num círculo de interesses meus. Não porque seja ruim, alienado, ou qualquer desses adjetivos bobos que usam pra criticar a cultura de massas. É simplesmente pelo fato de não mexer comigo, não me estimular a ouvir aquelas músicas, nem ao menos perscrutar a internet à procura de imagens de faixas do CD.
Há tempos atrás, quando um artista como João Bosco lançava um disco, havia uma mobilização no meio que eu freqüentava, todos se perguntavam quem já tinha ouvido, quem já tinha comprado, que já tinha gravado o novo disco dele. Havia muito menos mídia, muito menos formas de divulgação, os meios de comunicação eram mais elitizados e restritos aos que tinham acesso a eles, e, no entanto, o burburinho acontecia, era um acontecimento artístico que perpassava as conversas de bar, de cama, de festa e praia.
Pois é tal minha surpresa ao ver que o próprio João Bosco, um dos mestres da nossa música, lançou um excelente disco – “Não vou pro céu”, daqueles que já surgem como clássico, e proporcionalmente passou despercebido de todos. Nesse ponto posso até culpar, em parte, a mídia, pois basta lembrar o programa Fantástico, da Rede Globo, há vinte anos atrás e comparar com hoje. Há tempos, o programa finalizava com Gilberto Gil e Chico Buarque cantando “a mão de limpeza”, de Gil. Hoje em dia, se não for essa nova já velha música sertaneja, é algo pior ou do mesmo nível. Claro que isso influencia, mas aos nobres detentores da revolta da mediocrização da mídia isso não poderia afetar. Todos eles, pela lógica, deveriam resistir buscando em outras fontes outras perspectivas e possibilidades; e isso não acontece.
Como insinuei acima, afirmo que o sucesso da cultura de massa não atinge tão diretamente – como alguns falam – um tipo de arte mais, digamos, refinada e complexa. Tivemos Menudo, tivemos Michael Jackson, tivemos artistas lotando estádios de futebol, e nada disso impediu que os grandes nomes da nossa música vendessem e estivessem na mão dos interessados.
É claro que talvez o fato de eu morar em Salvador me dê uma outra perspectiva. Aqui, na província, os defeitos são aumentados. De repente, no sul maravilha e adjacências a percepção seja outra, mas na minha cidade que vem emburrecendo a passos largos, um excepcional disco como o de João Bosco fugiu das rodas de bar, dos comentários, do entusiasmo daqueles que se dizem, na aparência, interessados em tal música.
Talvez essas pessoas não percebam que o capitalismo é tão esperto que transforma em cultura de massa tudo que interessa e poderia ser alternativa. É aquela velha história de empresas americanas faturando com camisas de Che Guevara, vendendo a pessoas que consomem o produto sem a profundidade do mito – que tem, em si, controvérsias suficientes pra não estar numa camisa, como lampião e muitos outros. E quando menos se pensa, certos produtos encaixotados para serem vendidos são – equivocadamente – vistos como algo alternativo ao estabelecido.
Basta ver a profusão de discos de samba. Agora, todo mundo faz samba. Não agüento mais samba. Qualquer cantora que quer se destacar grava samba, faz disco com samba antigo, samba de compositor novo que tem o mérito de parecer antigo, em qualquer esquina vemos jovens com cavaquinhos e pandeiros. É bom pro samba? Sim, não deixa de ser. Mas tudo isso já é o padrão. É o vendável. Nós vamos, como rebanho, sendo tangidos pelo estabelecido.
Mas um dos mestres do samba, João Bosco, passa despercebido desse bando de ovelhas. A volta das parcerias dele com Aldir Blanc – um dos maiores letristas do mundo – é algo ignorado e negligenciado por pessoas que talvez até ignorem quem é esse senhor. Mas o artista consegue driblar as adversidades com sua arte. E como diz o próprio Aldir, numa das letras do disco de João; “neguinho me vendo em Quixeramobim, e eu andando de elefante em Bombaim”...GVT.
Terça-feira, Agosto 11, 2009
A verdade sobre Martim Gonçalves, Terra Magazine
Jussilene Santana
A VERDADE SOBRE MARTIM GONÇALVES, André Setaro
Terça, 11 de agosto de 2009, 08h05
Passado o tempo, que, muitas vezes, desfaz a mentira e a hipocrisia, e faz emergir a verdade dos fatos, é interessante observar como um homem da importância de Martim Gonçalves sofre, na velha província da Bahia dos anos 50, a mais severa perseguição e, até hoje, não fossem os esforços de Jussilene Santana, em sua pesquisa perfuratriz sobre o teatro baiano publicado no imprescindível livro "Impressões Modernas - Teatro e Jornalismo na Bahia", não se saberia de episódios que, antes de serem ilustrativos da efervescência criadora, mais servem para denegrir a imagem de certos "homens de cultura" que deram as cartas naquele cenário de "avant-garde" na feliz expressão do ensaísta Antonio Risério.
Se todos os homens possuem acertos e desacertos, Martim Gonçalves tem mais os primeiros do que os segundos, pois criou uma mentalidade moderna, uma concepção madura, para um incipiente teatro que cresce e se estabelece sob as suas coordenadas. Alguns que o detestam, dizem-no um déspota ou até mesmo um ditador. Outros reconhecem a sua lúcida percepção da literatura dramática e sua perfeita inclusão numa província acanhada, como a da Bahia, que, por causa dele, e de muitos outros, faz surgir, nas décadas de 50 e 60, um movimento cultural e erudito de insólita importância no panorama das artes nacionais.
Convidado pelo reitor Edgard Santos (outro que tem opositores radicais, mas que consegue dar uma transformação radical no direcionamento da Universidade Federal da Bahia para as artes com a criação não somente da Escola de Teatro, mas do Seminário de Música, Museu de Arte Moderna etc), Martim Gonçalves, de origem pernambucana, com residências de estudo no exterior e no sul do país, toma a frente da Escola de Teatro desde o seu nascedouro. Com o passar do tempo, no entanto, uma dissidência dá origem ao Teatro dos Novos (liderado por João Augusto) que tem como sede o Vila Velha.
Mas não estamos aqui para contar a história do magnífico teatro que se estabelece na Bahia nos anos 50. O "móvel" do artigo é denunciar uma omissão que muito esclarece o preconceito vazio, a hipocrisia e a mentira em torno do nome e da pessoa de Martim Gonçalves. O livro de Jussilene Santana vem ao encontro dos esclarecimentos necessários e, neste sentido, desmistifica fatos que se encontram assentados.
Conta a autora de "Impressões Modernas - Teatro e Jornalismo na Bahia", que o nome de Martim Gonçalves é omitido de importante exposição, embora tendo sido ele o principal autor da pesquisa. Segundo as palavras de Jussilene, "nas investigações para o livro, vasculhando aquela centena de jornais antigos, entre tantas coisas fascinantes, acabei por descobrir uma informação. A autoria do início do acervo "Nordeste de artefatos populares", exibido na V Bienal de SP (1959) e mais tarde desdobrado no famoso Museu de Arte Popular da Bahia, foi de Martim Gonçalves e não de Lina Bo Bardi como até hoje se acredita."
E é ainda Jussilene Santana quem diz: "O imaginário intelectual soteropolitano, após série de desavenças com o diretor Gonçalves, riscou seu nome do evento, atribuindo sua organização APENAS à arquiteta italiana. Curioso é que tal procedimento teria começado já em 1961, quando a própria Lina então vem à público defender Martim, em carta fotografada e já anexada em meu livro e transcrita logo abaixo para você".
Mais: Tudo isso poderia ser apenas águas passadas de um tempo confuso, mas o equívoco persiste, com gravidade para a escrita de nossa memória. Neste primeiro semestre de 2009, a Exposição "Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi", ainda em exibição no Solar do Ferrão, está sendo divulgada nos jornais como o "acervo garimpado por Lina Bo no NE e cuja mostra foi exibida pela primeira vez no evento Bahia no Ibirapuera, durante a 5a Bienal Internacional de São Paulo", como atestam várias reportagens, em especial as dos jornais 'A Tarde', 'Folha' e 'Estadão'."
A própria Lina Bo Bardi, num gesto de coerência, escreve uma carta para o jornal soteropolitano 'A Tarde' à procura de esclarecer as omissões em 6 de setembro de 1961. Que vai aqui, por histórica, na íntegra:
"Senhor Redator de UNIDADE numa nota da edição de 04 do corrente dessa página universitária, assinada por R.Andrade, houve a afirmativa de que Lina Bardi "planejara e preparara" a Exposição Bahia na 2ª Bienal de São Paulo.
A nota, por seu caráter pessoal não mereceria retificação se UNIDADE não fosse um órgão dos estudantes que de mim tem toda amizade.
Creio ser meu dever, assim, procurar desfazer graves equívocos que informações mal recolhidas podem causar no desenvolvimento dos legítimos valores que atuam na luta pela cultura na Bahia.
A Exposição Bahia apresentada na V Bienal de São Paulo (e não na 2ª, como disse o articulista) e que tanto despertou o interesse dos meios artísticos e sociais do Brasil e do estrangeiro foi pensada, planejada e realizada pelo diretor da Escola de Teatro da Universidade da Bahia, prof. Martim Gonçalves, que procurou revelar, com meios estéticos de uma apresentação "teatral" as raízes populares da cultura baiana, em contraste com as correntes de importação que caracterizam a grande manifestação paulista.
Minha colaboração foi especialmente na parte arquitetônica, estreitamente ligada ao conteúdo da Exposição. A descoberta daqueles elementos da cultura baiana, por mim antes desconhecidos, fora resultado de minha aceitação de dirigir o Museu de Arte Moderna da Bahia.
Solicito à consciência que tanto define as novas gerações intelectuais a publicação desta carta na página de UNIDADE onde a nota acima comentada foi publicada, porquanto esta retificação constitui para mim um ato de ética profissional, rigorosamente necessário.
Com agradecimentos
Arquiteta Lina Bardi"
"A verdade, toda a verdade"! (Diderot).
André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).
Quarta-feira, Agosto 05, 2009
CONVERSA NUA III
O Teatro NU abre o debate e convida Chico Oliveira, Cláudia Cunha e Fernando Marinho para conversar sobre a situação da música e da cultura na Bahia e claro, falarem sobre as políticas voltadas para as artes.
Aqui apenas alguns fragmentos dessa discussão. Participe também!
A Miséria Cultural Baiana, Terra Magazine
André Setaro, De Salvador (BA)
Diz-se que a Bahia já teve seu Século de Péricles, uma alusão ao período efervescente que se situou nos anos 50 e na primeira metade dos 60, quando Salvador congregava o que havia de mais criativo na expressão artística. Estimuladas pela ação da Universidade Federal da Bahia, comandada, e com mão de ferro, pelo Reitor Edgard Santos, as artes desabrocharam com o surgimento do Seminário de Música, da Escola de Teatro, do Museu de Arte Moderna, dos inesquecíveis concertos na Reitoria, da porta da Livraria Civilização Brasileira na rua Chile, dos papos ao por do sol frente à estátua do Poeta, no bar e restaurante Cacique, dos debates calorosos da Galeria Canizares (no Politeama), da "boite" Anjo Azul (na rua do Cabeça), entre tantos outros pontos que faziam da Bahia um recanto pleno de engenho e arte.
Na Escola de Teatro, por exemplo, que, inicialmente, foi dirigida por Martim Gonçalves, montava-se, lá, de Bertolt Brecht, passando por Ibsen, Eugene O'Neill, entre tantos, a Strindberg, com um rigor inusitado, e tal era a excelência de seus espetáculos que vinham pessoas do sul do País, e até do exterior, vê-los encenados "in loco". No curso de preparação de ator, o estudante levava alguns anos para poder participar de uma montagem teatral, iniciando a sua trajetória como um mordomo mudo ou de poucas falas. Somente ter o seu nome no programa da peça já era um prêmio, uma alegria, um consolo.
O recente livro, "Impressões Modernas - Teatro e Jornalismo na Bahia", de Jussilene Santana, analisa a configuração do teatro como temática na imprensa baiana em meados do século XX e, pela primeira vez, faz justiça a Martim Gonçalves, o responsável pela excelência das montagens teatrais, criador da Escola de Teatro (que hoje tem o seu nome), mas muito criticado na sua época e até mesmo denegrido pelos opositores. Após a leitura deste livro imprescindível, a conclusão é única e inequívoca: sem Martim Gonçalves não se teria um teatro baiano do nível a que chegou, ainda que, décadas depois, tenha perdido todo o seu vigor, transformando-se num grande proscênio destinado à proclamação de "besteiróis", honradas as exceções de praxe.
Cinqüenta anos depois, meio século passado, a realidade cultural baiana é uma antípoda da efervescência verificada, uma época que foi chamada, inclusive, de "avant garde" pela sua disposição de inovar, pela marca de vanguarda da mentalidade de seus artistas e intelectuais. Atualmente, a Bahia regrediu muito culturalmente a um estado, poder-se-ia dizer, pré-histórico, e o "homo sapiens" do pretérito se transformou no "pithecantropus erectus" do presente. Aquele estudante do parágrafo anterior, por exemplo, não existe mais.
Na Bahia miserável da contemporaneidade, qualquer um pode pular em cima de um palco, qualquer um se sente apto a dirigir uma peça, "mexer" com cinema, fazer filmes. Com as sempre presentes exceções de praxe, o teatro que se pratica na Bahia é um teatro besteirol, que faria corar aqueles que participaram da antiga escola de Martim Gonçalves.
A Bahia não está apenas mergulhada em bolsões de pobreza, na violência diuturna e desenfreada, com seu povo excluído de tudo - e até mesmo dos cinemas, mas do ponto de vista cultural a miséria é a mesma. Miséria cultural, descalabro, ausência do ato criador, apatia, desinteresse. Eventos existem para a satisfação de pseudo-intelectuais que não possuem as bases referenciais necessárias para a compreensão do que estão a ver ou a ouvir. O momento presente, se comparado aos meados do século passado, assinala uma regressão cultural sem precedentes. Como disse Millor Fernandes, a cultura é regra, mas a arte, exceção, o que se aplica sobremaneira sobre o estado atual da cultura baiana. Cultura se tem em todo lugar, mas arte é difícil, e a arte baiana praticamente não existe.
Com o desaparecimento dos suplementos culturais e o advento de normas editoriais que privilegiam o texto curto, além da incultura reinante pela assunção do império audiovisual em detrimento da cultura literária (vamos ser sinceros: ninguém hoje lê mais nada), a crítica cultural veio a morrer por falência múltipla das possibilidades de exercício da inteligência numa imprensa cada vez mais burra e superficial.
Sérgio Augusto, crítico a respeitar, que militou nos principais jornais cariocas, em entrevista ao "Digestivo Cultural", site da internet (vale a pena lê-la na íntegra: http://www.digestivocultural.com/entrevistas/entrevista.asp?codigo=10), do alto de sua autoridade no assunto, afirmou que o jornalismo cultural está morto e enterrado, ressaltando que se fosse um jovem iniciante não entraria mais no jornalismo porque não vê, nele, perspectivas para a crítica de cultura (área de sua especialidade).
Dava gosto se ler o Quarto Caderno do Correio da Manhã com aqueles artigos copiosos, imensos, que abordando cultura e artes em geral, eram assinados por Paulo Francis, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, José Lino Grunewald, Antonio Moniz Viana, entre tantos outros. A rigor, todo bom jornal que se prezasse tinha seu suplemento cultural. Aqui mesmo em Salvador, vale lembrar o do Diário de Notícias e o do Jornal da Bahia (em folhas azuis). Atualmente, resiste o Suplemento Cultural de A Tarde (mas, mesmo assim...).
A inexistência da crítica de arte não diz respeito apenas ao soteropolitano. É uma constatação geral no jornalismo brasileiro. Mas, e os cadernos culturais e as ilustradas da vida? Caracterizam-se pela superficialidade e servem, apenas, como guia de consumo, com suas resenhas ralas. Atualmente, os cadernos dois, assim chamados, são até contraproducentes porque elogiam o que deveriam criticar, colocando na posição de artistas personalidades que deveriam, no máximo, estar no departamento de limpeza de estações rodoviárias.
A crítica de arte serve justamente para isso: para, construtivamente, sem insultos, mas com argumentos sólidos, desmontar aquilo que não presta. Que falta não faz uma crítica de teatro séria, que, semanalmente, venha a apreciar o que se está a apresentar na cidade como literatura dramática! Ou uma crítica de artes plásticas. A interferência de um crítico faria corar muitos pintores que estão expondo na Bahia e posando como artistas. Assim também uma crítica de cinema que fosse menos paternalista com os "coitados' dos cineastas baianos cujas imagens são a de "franciscanos" em busca da expressão cinematográfica, mas cujos resultados, em sua grande maioria, remetem o espectador aos braços de Morpheu, quando não à aporrinhação.
Se a miséria da cultura baiana é cristalina, a miséria da crítica cultural é, também, imensa. Que esmola pode ser dada para se acabar com ela?
André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).
Quinta-feira, Julho 30, 2009
uma charada apropriada ao momento...
Sexta-feira, Julho 17, 2009
Jacques Wagner; sou viúva? Porém, honesta

Jacques Wagner; sou viúva? Porém, honesta
Ter, 14 de Julho de 2009 20:56
(texto originalmente publicado na coluna Teatro & Cidade do site www.noticiacapital.com.br)
O Exmo. Governador da Bahia, o sindicalista Jacques Wagner, chamou um grupo de artistas, que contestavam a atual política cultural do Estado, de viúvas do carlismo (leia-se, coronelismo baiano a partir do político Antonio Carlos Magalhães). Com essa pedrada digna do presidente Lula, quando escorrega feio em suas colocações, Wagner comete uma imensa estupidez e burrice.
Como bem disse Jussilene Santana, vivemos num eterno BAxVI (http://www.teatronu.com/2008/06/esttica-ba-x-vi.html). A questão, nesse caso, se tornou – para o governador – a guerra dos petistas ignorantes artísticos e desestruturados contra os favorecidos pelas benesses de um governo que elegia os escolhidos e os alijados.
Talvez como sindicalista, como oposição, desatar a falar certas ofensas funcionasse muito, mas no caso, senhor governador, a sua inabilidade política é constrangedora e estrategicamente errada.
Há uma insatisfação geral na classe teatral. Nunca ganhei um edital nos governos carlistas, vim ganhar dois agora, mas respondo por uma realidade, e não por necessidade pessoal – ao contrário de muitos que enfraquecem seus discursos porque reclamam pelo fato de não estarem ganhando ou sendo favorecidos; e isso enfraquece qualquer movimento que não sabe, ao certo, o que contestar.
Um dos pontos principais da reclamação geral vai se encontrar com a declaração infeliz do petista. A duras penas, o teatro em Salvador conseguiu um diálogo mais efetivo com as empresas privadas. Como bem dizem os gestores culturais do atual governo, os artistas precisam sair dessa total dependência do estado. Ou seja, buscar a iniciativa privada (ou assaltar bancos e trabalhar no tráfico de drogas?), pra com ela conseguir uma sustentabilidade que não faça do artista um necessitado de dinheiro público o tempo todo. Vale ressaltar que só na Broadway os artistas conseguem uma total independência do estado, e nem sei se continua assim, assim como penso que não é esse modelo de arte a que os gestores se referem.
Com erros, acertos, favorecimentos e – há que se registrar – com competência, alguns artistas e produtores conseguiram estabelecer esse diálogo aos poucos. De forma ainda frágil e sem uma total independência do governo. Com as atuais declarações de que o Fazcultura estava funcionando às margens de uma ilegalidade, e com a perseguição a certos artistas e produtores locais, com declarações estapafúrdias, com o desvio do foco para a arte soteropolitana, as empresas se afastaram, as peças diminuíram suas apresentações, projetos foram diminuindo, artistas foram ficando fora dos palcos, muita coisa ruim acabou sendo legitimada por editais e pela benevolência em incentivar o artista pela sua condição de coitado, e não de artista. E assim, nessa bola de neve, o teatro retroagiu sensivelmente.
Salvador vive num hiato. Um fosso entre os grandes centros urbanos e as capitais de menor alcance de realização. Não conseguimos nos tornar uma capital madura artisticamente, com uma arte pujante, as empresas se interessando em patrocinar a arte, espaços culturais diversos, patrocinados pelo capital privado, um SESC com poder de fogo, grandes realizações artísticas e de grande porte financeiro, projeção nacional e até internacional de seus grupos e trabalhos individuais, etc. Nem tampouco somos aquela capital de poucos eventos, amparados pelo Estado e pela Prefeitura, com uns dois ou três artistas de destaque que recebem patrocínio e são adotados pela cidade, com grupos poucos – geralmente amadores e/ou universitários – abrigados na estrutura dos governos, dos SESCs, dos SESIs.
Sou viúva de Edgar Santos e Anísio Teixeira, que resolveram modernizar as artes daqui, trazendo grandes nomes. E renovar num sentido real, não no sentido que uma mentalidade que paira sobre a cidade tem, que é acabar com o estabelecido pra voltar a se fazer o teatro da década de 60; ignorância e burrice da nossa gente de agora.
Chegamos a ser referência nacional, mas golpes, mudanças de governo e desastrosas gestões da cultura dessa cidade destruíram um projeto que exilou dessa província – que, tal um personagem de histórias infantis, tem medo de crescer – alguns de seus maiores talentos, por estes não suportarem a falta de reais perspectivas de realização artística.
Ao invés de alimentar a eterna picuinha que atravanca nosso progresso, o Governador do Estado da Bahia poderia estar procurando meios de atrair a iniciativa privada e botar em foco a outra arte produzida nesta terra; pois há certo tipo de arte que desenvolveu sua relação com o mercado e não precisa e nem devia depender do estado em absolutamente nada, devia era pagar os impostos devidos, ao menos.
O governador poderia cobrar dos gestores da cultura em nosso estado que a produção artística merece uma atenção diferenciada – nem mais, nem menos – e deveria entender que, fortalecendo nossa arte, estamos elevando a cultura do povo, os bens imaterias adquiridos por uma população, estamos empregando artistas, técnicos, estamos mobilizando um outro tipo de turismo, estamos avançando no processo civilizatório ao qual estamos inexoravelmente ligados; e fugir dele é atraso, e não combate.
Temos uma cidade com enorme potencial artístico que é ignorado pela iniciativa privada, é negligenciado pelo Estado e esquizofrenicamente esquecido pelo Município. Não há como pensar em auto-sustentabilidade, em autonomia, em independência, em fortalecimento, se nenhuma instância se interessa pela arte. Somente uma real política cultural da prefeitura e do governo estadual, aliada a uma saudável pressão do poder público frente ao investimento privado, poderão despiorar o atual quadro. Articulações, negociações, tudo isso pode ser feito para que tenhamos um CCBB, um Teatro Oi, um Espaço Petrobrás, para que tenhamos editais privados, pequenos festivais, circuitos alternativos, investimento real na cultura dessa terra.
E não será com declarações estúpidas que conseguiremos isso.
Que imenso tapa de luva
Levou a arte, surpresa
Não sabe por que é viúva
Wagareza ou malvadeza?
TRÉPLICA AOS 15 PONTOS DA SECULT

Como muita gente sabe, atualmente me encontro no Rio, com uma filhinha de dois meses. Apesar do pouco tempo e da distância, venho acompanhando com grande expectativa o debate da classe artística - sobretudo de sua representação teatral - com a Secult.
Espero que a proposta de uma comissão de artistas não tenha se arrefecido mas, pelo contrário, que seus representantes tenham analisado o texto de "Esclarecimento aos 15 pontos" como o documento transitório que é e que de forma alguma sentencia respostas definitivas para a área.
Tendo está idéia como norte e percebendo que tais esclarecimentos na verdade se desdobram numa série de outras questões para a administração do fazer artístico na Bahia, venho aqui lançar algumas perguntas à guisa de tréplica ao debate.
Apesar do sentido de URGÊNCIA, afinal estamos nos 45 minutos do segundo tempo deste governo, e ano que vem, com eleições, as coisas tendem a ficar caóticas, acredito que cada ponto deva ser discutido com certa autonomia, porque afinal eles precisam de ritmos diferentes de solução (de longo, médio e CURTÍSSIMO! prazos).
Por Jussilene Santana - junesantana@gmail.com
1.LANÇAR EDITAIS SEM VERBAS PARA REPASSE

Obviamente que não importa tanto se o termo técnico é "descompasso entre o orçamento programado e o fluxo financeiro para quitação dos pagamentos" e não o "não há verbas para repasse" utilizado...
O que interessa é: o que significa então a suspensão dos editais já lançados pela Funceb para o primeiro semestre de 2009? E o que significa os Editais Funceb 2008 (!!) só agora, em julho, terem recebido a verba de suas primeiras parcelas??
Se o dinheiro dos editais é montado via Fundo de Cultura e Tesouro Estadual, qual o percentual de cada um destes no montante? Sim, porque a parcela do Tesouro Estadual foi de FATO contingenciada e não será repassada para os editais...
Outra coisa: Quantas e quais são as empresas mantenedoras do Fundo? O governo está fazendo alguma coisa no sentido de ampliar este número? Ou trabalha com as mesmas da gestão passada? Porque se o Fundo de Cultura/editais são a menina dos olhos da política cultural deste governo eles NECESSITAM, entre outras coisas, de ampliação do número de empresas mantenedoras.
2. FECHAR MUSEUS E TEATROS

Claro que vamos nos ater aqui nos espaços administrados/apoiados pelo Estado, visto que a resposta foi dada pela administração Estadual...Mas A MESMA questão deveria ser lançada e pressionada à esfera municipal, que (se aproveitando?) patina lépida e faceira frente ao barulho provocado pelo choque da administração estadual na classe...
Em primeiro lugar, não sei até que ponto é uma resposta condigna o fato do Espaço Cultura Alagados e do Teatro Iceia estarem fechados desde antes de 2007, ou seja, desde a administração carlista...
Pelo contrário, ao iniciar o governo, esta gestão já deveria tê-los como prioridades já dadas e certas, não? Digo isso apesar de saber dos crônicos problemas do Teatro do Iceia, sobretudo pelo seu perfil que afasta(ria) a maioria das peças "profissionais" da cidade.
Mas como a prioridade do governo atual é, ACIMA DE TUDO, descentralizar, ambos os casos se encaixariam perfeitamente nesta proposta!
Agora, vamos aos prazos. Se o projeto de reforma de Alagados foi CONTINGENCIADO para 2009, isso significa que ele NÃO ABRIRÁ nesta gestão? É isto? Afinal, 2010, é ano eleitoral e etc, etc...E outra: Em que pé está a captação de R$ 8 milhões para o Iceia? E também QUANDO poderemos esperar algo dele?
E sobre o Xisto Bahia, palco com boa requisição por parte da classe e que faz falta na programação até então estabelecida na cidade, que está parado há dois meses por causa de infiltrações? Esta reforma está prevista com R$ 3 milhões do Minc para quando afinal?? Sobre o Solar Boa Vista abrir em setembro, resta fiscalizar.
Sobre os espaços privados apoiados pelo governo/fundo houve o citado "problema no fluxo financeiro para liberação dos recursos 2009". Mas, ao lado deste atraso do dinheiro público, atraso que praticamente inviabiliza a sobrevivência de instituições culturais privadas, acredito que o maior debate da Política Cultural deste governo ainda esteja por ser realizado: Como a cultura pode/deve sobreviver SEM o Estado? Ou SÓ com o estado?
Se PRECISA ter apoio de empresas de CAPITAL PRIVADO então, como o Estado DEVE aproximá-las mais das instituições culturais? E com que mecanismos? Visto que os de renúncia fiscal (como o FazCultura/Rouanet) foram/estão combalidos e combatidos nas esferas estadual e federal?
E se há POUCO DINHEIRO para todas as "instituições privadas que querem dinheiro público" como selecioná-las? Digo isto, porque o discurso da Secult/Ba me parece esquizofrênico: ora prega que os artistas e suas instituições se virem no "mercado" sem a "dependência total" do governo, ora coloca o governo como única tábua de salvação para sua existência...
Bom, vou postando as minhas outras questões nos dias seguintes, para não acumular a leitura e embotar a reflexão.
Quinta-feira, Julho 16, 2009
3. CONTRATAR ARTISTAS E NÃO PAGAR

Com relação à pendência do pagamento de artistas e técnicos, outra ação (des)motivada pela baixa arrecadação dos últimos meses, resta fiscalizar e continuar pressionando.
Mas gostaria de saber quantos artistas e quais valores estão em jogo e desde quando. Quanto é a CONTA, afinal? Alguém fez este levantamento mais+que+necessário? Sempre carecemos de números desta "economia da cultura" e, sem eles, o debate todo fica muito primário....
Novos contratos ainda estão sendo feitos, mesmo sem pagar os anteriores? Não preciso nem dizer o quanto um atraso de pagamento para quem vive de projeto, sem carteira assinada, é desestruturante...Desestabiliza o cotidiano.

