terça-feira, maio 29, 2007

Salvador: teatro e público

Mais um xópim foi aberto. Agora, com o nome de nossa cidade de todos os santos. Um fato curioso ocorreu-me, e só a mim, dentre meus interlocutores.
Está divulgado que serão abertas salas mis de cinema neste suntuoso espaço de consumo, mas, em nenhum momento, ocorreu-lhes a pergunta: “por que não um teatro?”?
No Rio de Janeiro, os xópins têm inaugurado teatros em seus interiores numa valorização da arte e num espaço onde – ao fim de uma exaustiva rodada de compras, lanches, passeios –, o “consumidor” pode se deleitar com um pouco de arte. E num ambiente seguro, refrigerado e com estacionamento.
Por que será que ninguém se perguntou sobre uma sala de teatro no atual xópim? Está cada vez mais comum se concentrar todos os costumes do cidadão comum nestes estabelecimentos que – com seus ares-condicionados – resumem as necessidades do homem atual. De cerveja a acarajé, de cafés especiais a revistas, de farmácias a cinema, temos tudo nos xópins, menos teatro.
Contudo, entra aqui uma outra questão. Pra meu infortúnio e de alguns outros, o teatro não faz parte da vida soteropolitana. Não é programa de fim-de-semana de ninguém. O próprio xópim é o reduto daquele bando de classe média que diz não ter nada pra fazer na cidade (esquecendo-se também dos museus, concertos gratuitos, etc.).
Afora alguns sucessos e alguns nomes chamativos que atraem a massa, não há tradição e nem vontade de se ir ao teatro. Ouço muito pessoas dizerem que depois de uma semana estafante de trabalho, elas precisam descansar, estão exaustas, querem relaxar. Então preferem um xópim, um cinema, um caranguejo, uma praia ou um Faustão.
Mas algumas questões são intrigantes. Em São Paulo, Berlim e Nova Iorque as pessoas trabalham menos do que as baianas? Será que lá eles não precisam relaxar? Será que o trabalho do baiano (que sempre que pode, emenda com uma cervejinha depois) é tão mais desgastante e avassalador do que em outras capitais?
Ocorre-me várias vezes de encontrar com amigos e conhecidos que me dizem: “estou acompanhando seu sucesso, vejo sempre seu nome no jornal”. Afora a desproporção quanto ao jornal, é curioso ver como as pessoas nem cogitam a possibilidade de assistir a uma peça sua, é algo fora da realidade. E muitas quando vão, ou não vão, tratam a ida ou não ida como um ato de educação e gentileza.
O teatro é uma ferramenta política, no sentido mais lato da polis. É uma tribuna onde as discussões sobre o homem são colocadas, questionadas, expostas e criticadas. Com humor, com drama, com ação, com absurdo, o homem vai ao teatro – ou deveria ir – como Édipo foi à esfinge; para se decifrar.
Almeida Garret, escritor português, dizia mais um menos isso: “o teatro é um avançado meio de civilização, mas não progride onde não a há”.
E não temos teatro no xópim.

domingo, maio 13, 2007

Artigo gentilmente cedido por Ildásio Tavares, publicado na Tribuna da Bahia de sábado, dia 12 de maio de 2007

TEMPO PARTIDO
Ildásio Tavares

Não é, Drummond, um poeta da minha predileção. Já foi. Até os 30 anos, mais ou menos quando me exilei nos Estados Unidos e fiz meu mestrado em literatura de língua inglesa, aguçando minha percepção. Mas é inegável que este azedo bardo mineiro produziu alguns poemas significativos para a época – com verdades incômodas. Num desses , ele fala em um tempo partido, tempo de homens partidos. Este poema me impressionou quando eu tinha 18 anos. Na verdade, o texto explora uma conotação do primeiro grau. Partido (político) conota quebrado (partido), e se esgota aí Um recurso fácil, um trocadilho bobo, mas eficaz,para censurar a desunião.
Entretanto, os partidos políticos cada vez mais se fragmentam; se dispersam política e ideologicamente, assumindo a característica de verdadeiros samba-enredos do carnaval carioca, uma música de fachada dividida com inúmeros parceiros, cada um reclamando a autoria do samba.Não há um só partido político que possua verdadeiramente uma fisionomia, uma plataforma, um projeto.
Todos não passam de agrupamentos heterogêneos, dançando de acordo com a valsa fisiológica da conquista do poder e, lá em cima, do frevo da manutenção. Ninguém quer governar coisa nenhuma.
Farinha pouca, meu pirão primeiro, bradam os sobrinhos de Jânio,. O avanço ao cabide de empregos chega a fazer vergonha. O Brasil que se dane. Nada pode ser feito enquanto o país não é loteado pelos vorazes membros do MSC, Movimento Sem Cargo, antes relegados ao ostracismo da oposição, agora situação, querendo emprego no grito e no tapa, indiferentes ao quesito competência. Começa a caça às bruxas e a pichação. Na época da Ditadura, por dá cá aquela pedra, o cara era tachado de comunista e, no mínimo, sofria o vexame de um interrogatório. Agora o piche é carlista. Ele é carlista, vocifera o postulante, como recurso imediato para desobstruir o cargo desejado.
Uma das praxes socialistas é a de suprir o talento individual com o talento partidário, numa transposição da luta de classes do plano econômico para o intelectual, os medíocres unindo-se contra uma pessoa de talento que, por esse falso socialismo, não deve ter cargos nem privilégios. Na Revolução Cultural, Mao botou filósofos e cientistas de alto nível pra limpar cocô de cavalo em estrebarias. A sorte foi que não botou cavalariços para filosofar Bastava ele.
Há algum tempo atrás, o poeta Capinan, uma das melhores cabeças deste país, concorria ao cargo de secretário do então PCB, o partidão. O outro candidato era um zeloso militante, mas intelectualmente medíocre. Um destacado comunista, em conversa comigo, disse que ia votar neste último. Intrigado, aleguei que Capinan era muito mais dotado que o outro, além de ter representatividade nacional. “Por isso mesmo,” o impávido eleitor redargüiu, “Capinan não precisa do cargo” Esta lógica de privilegiar o clero ,compensando com cargos a falta de talento é um dos fatores da derrocada do socialismo real.Drummond estava certo. Inteiro, só mesmo o Partido Alto.

segunda-feira, maio 07, 2007

Jussilene Santana em cena de Os Amantes II (foto de Andréa Viana)


Jussilene Santana em Leitura de Senhorita JULIA

Olá, em breve, estaremos aqui divulgando o CICLO de LEITURAS do TEATRO NU 2007.
Enquanto isso, apreciem a leitura de um clássico da dramaturgia universal com Senhorita Júlia, de August Strindberg, com direção de Ewald Hackler, na Caixa Cultural, nesta quinta, 10 de maio, 'as 18h30. Local: Carlos Gomes.
ESPERAMOS VOCES LÁ!
Segue a matéria de divulgação:

Atriz do TeatroNU na Série de Leituras Dramáticas da Caixa Cultural Salvador
Jussilene Santana participa do evento que resgata a memória do Grande Teatro Tupi

A atriz Jussilene Santana, em cartaz com a peça Shopping and Fucking, de Fernando Guerreiro, participa da leitura de Senhorita Júlia, de August Strindberg, com direção de Ewald Hackler, nesta quinta-feira, 10 de maio, às 18h30, na Caixa Cultural, na Carlos Gomes. O evento faz parte da mostra O Grande Teatro Tupi, uma exposição fotográfica que reúne cenas do teleteatro que existiu entre os anos 50 e 60, na extinta TV Tupi do Rio de Janeiro. Participaram do teleteatro nomes como Fernanda Montenegro, Sérgio Britto, Ítalo Rossi e Nathalia Timberg, esta última que vem à cidade para falar sobre o “Grande Teatro”.

Em Salvador, Jussilene estreou Senhorita Júlia, em 2003, contracenando com Agnaldo Lopes e Lika Ferraro, numa primeira montagem, e depois com Cristiana Ferreira. Nesta nova leitura, participam a atriz Vivianne Laert e Osvaldo Neto.

Idealizado por Guilherme Figueiredo, o Grande Teatro Tupi foi o primeiro programa a exibir encenações dramáticas na televisão brasileira – numa época em que as transmissões ao vivo eram obrigatórias, por falta de tecnologia para registro de imagens. Mesmo depois da chegada do videotape, não havia, na maioria das emissoras, a cultura do registro histórico. No próximo dia 29, Jussilene, que é mestre em Artes Cênicas, realiza na Faculdade da Cidade do Salvador, às 11h, a palestra Impressões Modernas, sobre a cobertura teatral nos jornais baianos nas décadas de 50 e 60.

Video de "Senhorita Júlia" na Caixa Cultural - Salvador

quarta-feira, maio 02, 2007

Ionesco, falando sobre o teatro de vanguarda (e parecendo estar mandando recado pra uns e outros...)

"Se não é assimilado por um grande público (o teatro de vanguarda), isso não significa, de jeito nenhum, que não é de vital importância para nossas mentes, e tão necessário como a pesquisa artística, literária e científica. Nós nem sempre sabemos sua utilidade - mas se ele cumpre uma exigência mental, é claramente indispensável. Se este tipo de drama tem uma platéia de cinquenta pessoas toda noite (e pode ter este número) sua necessidade está provada. Este tipo de teatro está em perigo. Política, apatia, maldade e inveja são, infelizmente, ameaças perigosas de todos os lados para escritores como Beckett, Vauthier..."*

Na minha opinião, vou mais além. Nos tempos atuais, onde a informação chega mais rápido e as experiências são cada vez mais divulgadas, criando um público mais atento e com uma leitura mais transversal, o teatro de vanguarda - se é que posso chamar assim - pode e tem como chegar ao grande público. Existe um grande público que adoraria e poderia ser fisgado por este teatro, mas a falta de incentivo, de políticas públicas, de divulgação e de boa vontade dos formadores de opinião faz com que a desarticulação enfraqueça um teatro que continua em perigo. Ainda mais na província, onde as informações não chegam, onde os nomes de dramaturgos soam estranhos, onde os meios de comunicação se perdem em seus fins, onde ainda importa mais ter feito uma novela do que ter ganho um prêmio em Cannes.
Este teatro, sendo de vanguarda, sendo experimental, sendo alternativo, sendo tradicional, chamem como quiser, não pode ser o único, mas também não pode ser alijado. Parece que os que pesquisam, estudam, experimentam, treinam e se aprimoram são os relegados, as exceções, os banidos.
Mas tudo isso pode mudar. Depende, primeiramente, de você que está lendo este texto.


*IONESCO, Eugène. Notes And Counter Notes. Grove Press, Inc. New York, 1964.

terça-feira, abril 24, 2007

Robert Hughes, famoso crítico de arte, falando sobre Duchamp...

"A influência de Duchamp* sobre a arte contemporânea foi liberadora, mas também catastrófica. (...) Porque ser o pai dessa bobagem chamada arte conceitual não é uma distinção de que se orgulhar. Para compreender o tamanho do estrago, basta dizer que sem ele hoje não haveria as chamadas instalações, aquelas obras tolas em que o espectador é convidado a passar por túneis e outros recursos infantis. Ou precisa ler uma bula para entender o que o artista quer dizer."

In: Revista Veja, edição 2005 - ano 40 - nº16, p.11, 14 e 15.

*Pra quem não sabe, ou não lembra, Marcel Duchamp foi um artista do século XX que colocou um urinol exposto numa galeria e o intitulou "A fonte". Iniciativa que provocou um intenso debate posterior sobre o que é arte, artista e obra.

segunda-feira, abril 23, 2007

O politicamente correto

Sempre entendi o teatro – a arte, em geral – como uma manifestação de discussão da realidade. Uma expressão de embate, de crítica contra a sociedade.
Através da negação, do questionamento, o teatro – para mim – era uma tribuna onde se instalava um problema. Se a sociedade era azul, perguntava-se: por que azul? Por que não vermelha? Se a sociedade caminhasse para a direita, perguntava-se: por que não para a esquerda, por que para a direita e não apenas ficar parada?
Através de metáforas, metonímias, hipérboles, alegorias e tantos outros recursos estilísticos, o teatro funcionaria então, como um local aonde o espectador iria para procurar se entender, se questionar, e até quem sabe, num laivo de romantismo extremo, se transformar.
Por outro lado, sempre coexistiu o teatro como primeira prostituta artística do sistema. De Péricles a Hitler, o teatro foi também o local da idéia oficial a ser divulgada, numa “goebbelsiana” tática de coerção.
Entrementes, o teatro que me chegou – fosse através de meus mestres na Escola de Teatro –, fosse através de profissionais e amadores do teatro, foi sempre o teatro não-oficial, esse teatro que – através do incômodo – tinha o intuito de se diferenciar do corriqueiro, do comum, do demasiado humano e real.
Atualmente, a bola da vez é o social. Discutir o social e vincular seu projeto a uma iniciativa social é a pedra de toque para patrocínios, prêmios, estímulos e aplausos entusiasmados. Tudo dentro de uma perspectiva politicamente correta e paternalista.
Ao invés de questionar, o teatro se tornou um espaço de denúncia, tentou virar um mero repetidor de jornais, revistas, estatísticas e fatos. Não somente isso como a questão da inclusão social veio a “agregar valor” – como dizem todos os que querem se manter nas expressões da moda – e transformar o palco num imenso centro de assistência social (falarei mais a respeito disso no próximo artigo, sobre paternalismo).
A inclusão e a discussão são necessárias. Acho que a arte transforma. Mas confunde-se o profissional e o social, o artístico e o meramente político, ideológico.
A arte presa a uma ideologia, é como bem diz Ionesco, natimorta. A arte existe, justamente, para – através da relativização – ser um espaço de reflexão. Qualquer periódico me dará mais informações do que um espetáculo. Mas parece que a classe média, no fundo com sentimento de culpa ou de revolta, se compraz com a manifestação de pessoas no palco denunciando a violência, o preconceito, a desigualdade, o abandono, a miséria. Seremos órgãos informativos e demonstrativos, agora? Reproduzir no palco a chacina da TV adianta em quê? Denunciar a violência do Rio de Janeiro modifica em quê o cidadão? Ele já não sabe daquilo tudo? Já não se questiona sobre isso? Não precisaria, ele, de uma outra provocação? Recentemente, li de um filósofo contemporâneo, que não me recordo o nome, que a única alternativa para a arte, hoje em dia, seria ela ser politicamente incorreta.
Talvez este teatro “social” sirva apenas de regozijo para que o espectador se sinta em um ambiente onde pessoas pensam como ele, se incomodam como ele. E daí? Se é pra chover no molhado, que leiamos notícias no palco, reproduzamos imagens de TV. A dramaturgia servirá apenas de moralizadora, de catalisadora de tragédias e denúncias? E a subjetivação da arte? E a relativização? O social tomou conta do artístico, pois mais uma vez estamos numa realidade que o teatro entrou, no século XVIII, quando precisou agradar à burguesia em ascensão. O teatro, agora, deve se contentar em deixar o espectador satisfeito por ter visto no palco o que ele leu na revista, no jornal, na discussão de sábado num bar da moda, onde todos se sentem profundos entendedores de qualquer assunto mundial por terem lido notícias de duas páginas. É a rebelião das massas, como bem diz Ortega y Gasset*.

GVT.

*Conferir trechos, mais abaixo, no blog.

sábado, abril 14, 2007

Crítica da razão teatral

Inspirado pela expressão cunhada pela minha parceira, no texto abaixo, resolvi estender a discussão para uma questão mais ampla. Na verdade, o que falta é um diálogo da própria classe teatral com ela mesma.
Não passam dos dedos das mãos as pessoas que me parecem capazes de criticar ou analisar um espetáculo, uma peça, um texto, uma atuação, aqui em Salvador. Mas estas poucas pessoas calam-se diante de um debate que só tem a acrescentar aos poucos que pretendem se enraizar numa tradição que morre mais a cada dia. A tradição teatral que durante séculos fez da atuação, do drama, da direção e da concepção estética de um espetáculo, componentes inseridos em técnicas, discussões, éticas e estruturas.
Destaco este teatro em detrimento daquele que se diz intuitivo, visceral, espontâneo, que tanto pode ter como resultado uma curiosa obra do acaso ou um equívoco, sem traços vinculados a uma corrente que pôde muito bem açambarcar de Beckett a Brecht, de Büchner a Shaw.
É uma pena que as queixas, os comentários e as críticas sejam feitos pelos corredores, pelos botecos, pelas coxias. Existem pessoas gabaritadas para pôr em questão o fazer teatral soteropolitano, mas preferem ficar caladas, na fofoca e no desabafo.
Talvez o medo de causar antipatia, já que em Salvador se você não gosta de uma peça, você praticamente está xingando a mãe de toda a equipe envolvida. Não se tem um distanciamento necessário entre o pessoal e o profissional. E acaba-se por não se compreender críticas construtivas que podem redimensionar o palco de Salvador, numa visão mais ampla, clara e positiva.
Existe espaço. Hoje em dia, qualquer um cria um blog, manda pela internet um comentário para um jornal ou um email coletivo, existem publicações da UFBA, enfim, o que falta é a vontade de alguns de autenticar, desmistificar ou polemizar o fazer teatral.
Cadê os professores? Cadê os profissionais capazes? Será que não há ninguém disposto a debater, criticar?
É uma pena que os meios de legitimização do teatro, na cidade, fiquem nas mãos de incautos e vazios “formadores de opinião”. Deixa-se pra lá a questão que é primordial para que a arte sobreviva; sua legitimização através da crítica, da discussão, advindas de pessoas gabaritadas e preparadas.
Quantas vezes não ouvi uma excelente crítica de um espetáculo ou de um texto, feita por alguém estudado e preparado para ter uma visão mais ampla, rica e consistente da obra teatral? Por que então estas pessoas não se disponibilizam a escrever sobre isso? Artigos sobre o Theatre du Soleil, Peter Brook e Zé Celso são importantes credenciais para um postulante a teórico; tudo bem. Mas teorizar sobre o que está fora, justamente numa arte de alcance reduzido como o teatro, me parece, às vezes, um mero massageador de egos e uma vitrine para exposição de saberes.
É o que uma publicação recente chamou de “o silêncio dos intelectuais”.
Está lançada a provocação.

* * *

A respeito da crítica, em si, seja ela com qualquer finalidade, tem me saltado aos olhos certas características que transformam o ato de criticar em um equívoco estético contínuo. Nos próximos artigos falarei de algumas das características que contaminam a análise de um espetáculo, a saber:


O pensamento politicamente correto;
O paternalismo;
O etnocentrismo;
O caipirismo;
E a falta de um conhecimento satisfatório do fazer teatral.

quarta-feira, março 28, 2007

O Mundo do Teatro em Salvador – Balanço 2006

Março é o mês do Dia Mundial do Teatro. Apesar da divergência das datas (muitos comemoram no dia 27, outros 20 ou mesmo 21), é sempre uma oportunidade de introduzir o tema na agenda da mídia. E porque não fazermos isso agora, traçando um rápido balanço sobre a situação da cena teatral em Salvador. Não raro mapeamentos como este começam com os desgastados apelos românticos, atribuindo a efetivação do teatro local, sobretudo, ao idealismo e persistência de seus artistas, visto que aqui a dinâmica profissional ocorre mais em termos técnicos (mão-de-obra formada), do que com a existência de um mercado estável que os remunere. Diante disso, parece-nos coerente que esta cena seja compreendida a partir de suas unidades de produção. Afinal, nesta conjuntura, quem produz hoje na cidade? Em 2006, foram apresentados 43 espetáculos. Nos anos anteriores, ocorreram, respectivamente, 50 e 48 montagens. Não são números desprezíveis. Ao menos em termos quantitativos. De imediato, nos chama atenção as realizações associadas às duas unidades históricas de produção da capital: a Escola de Teatro, 51 anos; o Teatro Vila Velha, 43 anos. A graduação da ET apresentou ao “mercado” seus trabalhos de conclusão em direção e interpretação como A Casa dos Espectros, Barrela, Estilhaços, Navalha na Carne. Orinoco e Sábado, Domingo e Segunda. Já a Pós-graduação da ET (PPGAC) trouxe, entre outros, espetáculos direta ou indiretamente desdobrados de pesquisas, como Fato(s) do Brasil, Os Amantes II e O Grande Passeio. Os demais trabalhos ficaram restritos a um certo “circuito acadêmico”, que a cada ano ganha mais vulto no país. Tanto o Curso Livre (22 anos de criação), quanto a Cia de Teatro da Ufba (27 anos) atravessaram 2006 sem nenhuma estréia. De certa forma, mas não exclusivamente, a ausência destas produções está ligada ao fechamento do Teatro Martim Gonçalves, em reforma já há sete anos. Também num certo sentido, uma linha de abordagem estética sempre presente na Cia da Ufba teve prosseguimento na 12a. Montagem do TCA, com o espetáculo Mestre Haroldo...E os Meninos. O TVV estreou e remontou diversos espetáculos com os seus seis grupos residentes. O Bando de Teatro Olodum remontou Sonhos de Uma Noite de Verão; a CTN e o Vilavox trouxeram mais uma vez Primeiro de Abril. O Vilavox estreou ainda Canteiros de Rosa e A Outra Cia. de Teatro, O Contêiner, selecionado para a mostra oficial do Festival de Teatro de Curitiba 2007. O Edital da Funceb produziu (médio porte) Amor e Loucura e Do Lado de Dentro do Canto da Sereia, montagens algo ligadas à Pos, e que tiveram pouca repercussão. A Coelba patrocinou (FazCultura/Rouanet) Irmã Dulce e Família Drama Show. O Prêmio Funarte Myriam Muniz injetou ânimo e recursos a diversos projetos da Cooperativa Baiana de Teatro. Dois grupos que comemoraram dez anos produzindo: o Dimenti, com sua pesquisa pelos clichês e corporeidade dos cartoons; E o Teatro XVIII, reapresentando Esse Glauber e lançando Pague Para Ver, com a recém-criada Tribo do XVIII e A Comida de Nzinga, com Cia Axé. Já a Companhia Teatro Visível (ex- Por um Fio) apresentou o Bloco dos Infames. Nehle Franke e Fernando Guerreiro remontaram, respectivamente, Murmúrios (Petrobrás/Da Rin) e Vixe Maria (30 anos Funceb, em 2004). Artistas performers como Fábio Vidal e Ricardo Castro circularam com o repertório. A Cia Baiana de Patifaria também prosseguiu apresentado seus cases de sucesso, como A Bofetada. A EP Produções se apresenta cada vez mais concentrada na área de dança, enquanto a Fred Soares Produções ganha mercado com peças de forte apelo comercial. Para finalizar, em balanços como este também se costuma festejar a então diversidade de estilos e linguagens presentes na cena local. Contudo, essa multiplicidade de tendências é sua força e fraqueza, pois variedade também é pulverização. De recursos, de público e de diálogo. E não há um pensamento articulado que ouse arriscar um significado geral para esta eclosão de individualidades. Não há um raciocínio que reflita sobre esta prática e suas repercussões na sociedade. Na falta de uma “crítica da razão teatral”, sobra para as assessorias de imprensa, a depender do poderio, a defesa de seus produtos na cobertura jornalística. Por isso é que todos os espetáculos citados foram, à sua maneira, “um dos eventos mais importantes do teatro baiano dos últimos tempos”.

por Jussilene Santana - junesantana@ig.com.br
Artigo gentilmente cedido pelo jornal Notícias metropolitanas

terça-feira, março 27, 2007

DIA DO CIRCO e do teatro

Bastante sintomático. Não vi registro em páginas da internet sobre este "grande" dia. E o espaço dedicado a isso, na emissora mais assistida do país, foi de destaque total para o circo.
Falta de crédito? Mérito? Pretérito?
Não podemos reclamar, pois como bem diz Alain Finkielkraut sobre os tempos atuais, em seu A derrota do pensamento: um par de botas vale tanto quanto Shakespeare...

sexta-feira, março 23, 2007

Um excelente filme médio

Está em cartaz, na sala Walter da Silveira, o filme Em segredo, vencedor do Urso de Ouro de Berlim em 2006.
Porque um filme médio. A diretora e roteirista Jasmila Zbanic não tem pretensão de ser genial, e nem mesmo o filme tem essa vocação. É um simples filme sobre a vida de uma mãe solteira com sua filha, em meio às misérias de uma ex-Iuguslávia esfacelada, empobrecida e desestruturada. Situações cotidianas, relações normais, crises redundantes, tudo isso com uma câmera segura, tão segura a ponto de não aparecer; uma direção de arte muito bem-feita; figurinos bem escolhidos; roteiro discretamente redondo, enxuto, seguro.
Um filme médio; mas excelente. Todas as características que o tornam médio fazem dele um filme especial. Porque o médio é bem-feito, como geralmente não se vê no cinema mundial que pretende tratar de casos particulares, familiares, desesperados, miseráveis, etc.
O filme não realça os dramas do cotidiano com cenas desesperadas, músicas de fundo, clichês românticos e dramatúrgicos. Pelo contrário, o filme surpreende justamente pelas cenas onde o espectador imagina tudo, menos o simples, o médio, o excelente que acontece.
Cenas sensíveis. Bem escritas, interpretadas e filmadas. Coisa rara de se ver no cinema atual, que sempre escapole pro clichê barato ou pro não acontecer dramático, como se a não resolução de conflitos fosse uma salvação para fugir do melodramático.
Prêmios não indicam qualidade. Muito menos coerência. Menos ainda exprimem um reconhecimento por um trabalho acima da média, mesmo sendo médio. Por isso esqueçamos o Urso de Ouro. O que vale no filme é que vemos a realidade de um país, sem maniqueísmos, sem peninha dos pobres e fracos e sem mensagem de que o capitalismo malvado acaba com a vida dos coitadinhos. Através da dignidade, simplicidade e realidade de uma mulher, entendemos seu país, seu mundo, que é nosso mundo, nosso país, nossa casa.

sábado, janeiro 20, 2007

terça-feira, novembro 21, 2006

Lendo Ortega y Gasset...

Ortega y Gasset me chegou pelo mesmo interesse que me fez chegar a Canetti; a análise do homem-massa, este imenso vácuo intelectual que domina os gostos, as razões, as finanças. Sem a piedade e o politicamente correto que inunda de babaquice o pensamento atual, Ortega y Gasset analisa a fundo o homem médio, o homem massa que teve sua ascensão com a burguesia, com o capitalismo, este homem que, segundo Arnaldo Hauser - em seu História social da arte e da literatura - passou a exigir uma arte mais palatável, mais acessível, que falasse de si.
Abaixo, alguns trechos que me remetem à peça, aos personagens, e por conseguinte à indústria cultural, à universidade, aos meios de comunicação, etc.:

"A característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõem em toda parte. Como se diz nos Estados Unidos: ser diferente é indecente. A massa faz sucumbir tudo o que é diferente, egrégio, individual, qualificado e especial. Quem não for como todo mundo, correrá o risco de ser eliminado. E é claro que esse "todo mundo" não é "todo mundo". "Todo mundo" era, normalmente, a unidade complexa de massa e minorias discrepantes, especiais. Agora, todo mundo é apenas massa.
Este é o fato formidável de nosso tempo, descrito sem se ocultar a brutalidade de sua aparência."

"... pensar é, queira-se ou não, exagerar. Quem prefere não exagerar tem que se calar; mais ainda: tem que paralisar seu intelecto e encontrar um modo de se imbecilizar."

"... tentei adotar um novo tipo de homem que hoje predomina no mundo: chamei-o de homem-massa, e ressaltei que sua principal característica consiste em que, sentindo-se vulgar, proclama o direito à vulgaridade e nega-se a reconhecer instâncias superiores a ele."

"Ter uma idéia é crer que se possui as razões dela e é, portanto, crer que existe uma razão, um mundo de verdades inteligíveis. Idear, opinar, é a mesma coisa que apelar para essa instância, submeter-se a ela, aceitar seu código e sua sentença, crer, portanto, que a forma superior de convivência é o diálogo em que se discutem as razões de nossas idéias. Mas o homem-massa setir-se-ia perdido se aceitasse a discussão, e instintivamente rejeita a obrigação de acatar essa instãncia suprema que se acha fora dele."

Trechos extraídos de A rebelião das massas, de José Ortega y Gasset (tradução de Marylene Pinto Michael, Martins Fontes - 2002).

Lendo Canetti...

"A repugnância ao matar coletivamente é de origem assaz moderna. Não se deve superestimá-la. Ainda hoje, pelos jornais, todos participam das execuções públicas. Como tudo, também isso fez-se apenas mais confortável. Sentado tranquilamente em casa, o home pode, dentre centenas de detalhes, deter-se naqueles que mais o excitam. A aclamação só se dá depois de tudo terminado; nem o mais leve vestígio de culpa turva o prazer. Não se é responsável por coisa alguma: nem pela sentença, nem pelo jornalista que testemunhou-lhe a execução, nem por seu relato, nem pelo jornal que publicou tal relato. Mas sabe-se mais a respeito do ocorrido do que em tempos passados, quando se tinha de caminhar e permanecer de pé durante horas para, por fim, ver apenas muito pouco. No público formado pelos leitores de jornal conservou-se viva uma massa de acossamento abrandada, mas, em função de sua distância dos acontecimentos, ainda menos responsável; conservou-se aí, é-se tentado a dizê-lo, a sua forma ao mesmo tempo mais desprezível e estável. Como sequer precise reunir-se, ela evita também sua desagregação; a repetição cotidiana do jornal a provê de varieadade."

Trecho de Massa e Poder (Tradução de Sérgio Tellaroli, Companhia das Letras - 2005), obra seminal de Elias Canetti, escritor búlgaro vencedor do prêmio Nobel em 1981. O trecho escolhido me fez lembrar muito de algumas questões concernentes à peça Os Amantes II.