segunda-feira, abril 23, 2007

O politicamente correto

Sempre entendi o teatro – a arte, em geral – como uma manifestação de discussão da realidade. Uma expressão de embate, de crítica contra a sociedade.
Através da negação, do questionamento, o teatro – para mim – era uma tribuna onde se instalava um problema. Se a sociedade era azul, perguntava-se: por que azul? Por que não vermelha? Se a sociedade caminhasse para a direita, perguntava-se: por que não para a esquerda, por que para a direita e não apenas ficar parada?
Através de metáforas, metonímias, hipérboles, alegorias e tantos outros recursos estilísticos, o teatro funcionaria então, como um local aonde o espectador iria para procurar se entender, se questionar, e até quem sabe, num laivo de romantismo extremo, se transformar.
Por outro lado, sempre coexistiu o teatro como primeira prostituta artística do sistema. De Péricles a Hitler, o teatro foi também o local da idéia oficial a ser divulgada, numa “goebbelsiana” tática de coerção.
Entrementes, o teatro que me chegou – fosse através de meus mestres na Escola de Teatro –, fosse através de profissionais e amadores do teatro, foi sempre o teatro não-oficial, esse teatro que – através do incômodo – tinha o intuito de se diferenciar do corriqueiro, do comum, do demasiado humano e real.
Atualmente, a bola da vez é o social. Discutir o social e vincular seu projeto a uma iniciativa social é a pedra de toque para patrocínios, prêmios, estímulos e aplausos entusiasmados. Tudo dentro de uma perspectiva politicamente correta e paternalista.
Ao invés de questionar, o teatro se tornou um espaço de denúncia, tentou virar um mero repetidor de jornais, revistas, estatísticas e fatos. Não somente isso como a questão da inclusão social veio a “agregar valor” – como dizem todos os que querem se manter nas expressões da moda – e transformar o palco num imenso centro de assistência social (falarei mais a respeito disso no próximo artigo, sobre paternalismo).
A inclusão e a discussão são necessárias. Acho que a arte transforma. Mas confunde-se o profissional e o social, o artístico e o meramente político, ideológico.
A arte presa a uma ideologia, é como bem diz Ionesco, natimorta. A arte existe, justamente, para – através da relativização – ser um espaço de reflexão. Qualquer periódico me dará mais informações do que um espetáculo. Mas parece que a classe média, no fundo com sentimento de culpa ou de revolta, se compraz com a manifestação de pessoas no palco denunciando a violência, o preconceito, a desigualdade, o abandono, a miséria. Seremos órgãos informativos e demonstrativos, agora? Reproduzir no palco a chacina da TV adianta em quê? Denunciar a violência do Rio de Janeiro modifica em quê o cidadão? Ele já não sabe daquilo tudo? Já não se questiona sobre isso? Não precisaria, ele, de uma outra provocação? Recentemente, li de um filósofo contemporâneo, que não me recordo o nome, que a única alternativa para a arte, hoje em dia, seria ela ser politicamente incorreta.
Talvez este teatro “social” sirva apenas de regozijo para que o espectador se sinta em um ambiente onde pessoas pensam como ele, se incomodam como ele. E daí? Se é pra chover no molhado, que leiamos notícias no palco, reproduzamos imagens de TV. A dramaturgia servirá apenas de moralizadora, de catalisadora de tragédias e denúncias? E a subjetivação da arte? E a relativização? O social tomou conta do artístico, pois mais uma vez estamos numa realidade que o teatro entrou, no século XVIII, quando precisou agradar à burguesia em ascensão. O teatro, agora, deve se contentar em deixar o espectador satisfeito por ter visto no palco o que ele leu na revista, no jornal, na discussão de sábado num bar da moda, onde todos se sentem profundos entendedores de qualquer assunto mundial por terem lido notícias de duas páginas. É a rebelião das massas, como bem diz Ortega y Gasset*.

GVT.

*Conferir trechos, mais abaixo, no blog.

2 comentários:

Claudinha. disse...

É de lascar. Eu bem sei.

Anselmo Chaves disse...

Muito interessante o seu texto!

O teatro, enquanto arte, só tem sentido, realmente, se se dispor a ser um espaço de experimentação, modificação e criação de uma nova percepção social.

Do contrário, é espaço de ratificação dos valores instituídos, não contribuindo em nada para a alteração da percepção social e, com ela, da maneira de pensar, conceber e tratar (e, no caso dos intratáveis, pelo menos, embelezar!) os problemas e conflitos sociais da atualidade.