quarta-feira, maio 02, 2007

Ionesco, falando sobre o teatro de vanguarda (e parecendo estar mandando recado pra uns e outros...)

"Se não é assimilado por um grande público (o teatro de vanguarda), isso não significa, de jeito nenhum, que não é de vital importância para nossas mentes, e tão necessário como a pesquisa artística, literária e científica. Nós nem sempre sabemos sua utilidade - mas se ele cumpre uma exigência mental, é claramente indispensável. Se este tipo de drama tem uma platéia de cinquenta pessoas toda noite (e pode ter este número) sua necessidade está provada. Este tipo de teatro está em perigo. Política, apatia, maldade e inveja são, infelizmente, ameaças perigosas de todos os lados para escritores como Beckett, Vauthier..."*

Na minha opinião, vou mais além. Nos tempos atuais, onde a informação chega mais rápido e as experiências são cada vez mais divulgadas, criando um público mais atento e com uma leitura mais transversal, o teatro de vanguarda - se é que posso chamar assim - pode e tem como chegar ao grande público. Existe um grande público que adoraria e poderia ser fisgado por este teatro, mas a falta de incentivo, de políticas públicas, de divulgação e de boa vontade dos formadores de opinião faz com que a desarticulação enfraqueça um teatro que continua em perigo. Ainda mais na província, onde as informações não chegam, onde os nomes de dramaturgos soam estranhos, onde os meios de comunicação se perdem em seus fins, onde ainda importa mais ter feito uma novela do que ter ganho um prêmio em Cannes.
Este teatro, sendo de vanguarda, sendo experimental, sendo alternativo, sendo tradicional, chamem como quiser, não pode ser o único, mas também não pode ser alijado. Parece que os que pesquisam, estudam, experimentam, treinam e se aprimoram são os relegados, as exceções, os banidos.
Mas tudo isso pode mudar. Depende, primeiramente, de você que está lendo este texto.


*IONESCO, Eugène. Notes And Counter Notes. Grove Press, Inc. New York, 1964.

Um comentário:

Cláudia Barral disse...

Arrasou, Ionesco.

(Eu acho que o comentário acrescenta, sim.)