domingo, maio 13, 2007

Artigo gentilmente cedido por Ildásio Tavares, publicado na Tribuna da Bahia de sábado, dia 12 de maio de 2007

TEMPO PARTIDO
Ildásio Tavares

Não é, Drummond, um poeta da minha predileção. Já foi. Até os 30 anos, mais ou menos quando me exilei nos Estados Unidos e fiz meu mestrado em literatura de língua inglesa, aguçando minha percepção. Mas é inegável que este azedo bardo mineiro produziu alguns poemas significativos para a época – com verdades incômodas. Num desses , ele fala em um tempo partido, tempo de homens partidos. Este poema me impressionou quando eu tinha 18 anos. Na verdade, o texto explora uma conotação do primeiro grau. Partido (político) conota quebrado (partido), e se esgota aí Um recurso fácil, um trocadilho bobo, mas eficaz,para censurar a desunião.
Entretanto, os partidos políticos cada vez mais se fragmentam; se dispersam política e ideologicamente, assumindo a característica de verdadeiros samba-enredos do carnaval carioca, uma música de fachada dividida com inúmeros parceiros, cada um reclamando a autoria do samba.Não há um só partido político que possua verdadeiramente uma fisionomia, uma plataforma, um projeto.
Todos não passam de agrupamentos heterogêneos, dançando de acordo com a valsa fisiológica da conquista do poder e, lá em cima, do frevo da manutenção. Ninguém quer governar coisa nenhuma.
Farinha pouca, meu pirão primeiro, bradam os sobrinhos de Jânio,. O avanço ao cabide de empregos chega a fazer vergonha. O Brasil que se dane. Nada pode ser feito enquanto o país não é loteado pelos vorazes membros do MSC, Movimento Sem Cargo, antes relegados ao ostracismo da oposição, agora situação, querendo emprego no grito e no tapa, indiferentes ao quesito competência. Começa a caça às bruxas e a pichação. Na época da Ditadura, por dá cá aquela pedra, o cara era tachado de comunista e, no mínimo, sofria o vexame de um interrogatório. Agora o piche é carlista. Ele é carlista, vocifera o postulante, como recurso imediato para desobstruir o cargo desejado.
Uma das praxes socialistas é a de suprir o talento individual com o talento partidário, numa transposição da luta de classes do plano econômico para o intelectual, os medíocres unindo-se contra uma pessoa de talento que, por esse falso socialismo, não deve ter cargos nem privilégios. Na Revolução Cultural, Mao botou filósofos e cientistas de alto nível pra limpar cocô de cavalo em estrebarias. A sorte foi que não botou cavalariços para filosofar Bastava ele.
Há algum tempo atrás, o poeta Capinan, uma das melhores cabeças deste país, concorria ao cargo de secretário do então PCB, o partidão. O outro candidato era um zeloso militante, mas intelectualmente medíocre. Um destacado comunista, em conversa comigo, disse que ia votar neste último. Intrigado, aleguei que Capinan era muito mais dotado que o outro, além de ter representatividade nacional. “Por isso mesmo,” o impávido eleitor redargüiu, “Capinan não precisa do cargo” Esta lógica de privilegiar o clero ,compensando com cargos a falta de talento é um dos fatores da derrocada do socialismo real.Drummond estava certo. Inteiro, só mesmo o Partido Alto.

Um comentário:

Pedro disse...

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Laila