sábado, abril 14, 2007

Crítica da razão teatral

Inspirado pela expressão cunhada pela minha parceira, no texto abaixo, resolvi estender a discussão para uma questão mais ampla. Na verdade, o que falta é um diálogo da própria classe teatral com ela mesma.
Não passam dos dedos das mãos as pessoas que me parecem capazes de criticar ou analisar um espetáculo, uma peça, um texto, uma atuação, aqui em Salvador. Mas estas poucas pessoas calam-se diante de um debate que só tem a acrescentar aos poucos que pretendem se enraizar numa tradição que morre mais a cada dia. A tradição teatral que durante séculos fez da atuação, do drama, da direção e da concepção estética de um espetáculo, componentes inseridos em técnicas, discussões, éticas e estruturas.
Destaco este teatro em detrimento daquele que se diz intuitivo, visceral, espontâneo, que tanto pode ter como resultado uma curiosa obra do acaso ou um equívoco, sem traços vinculados a uma corrente que pôde muito bem açambarcar de Beckett a Brecht, de Büchner a Shaw.
É uma pena que as queixas, os comentários e as críticas sejam feitos pelos corredores, pelos botecos, pelas coxias. Existem pessoas gabaritadas para pôr em questão o fazer teatral soteropolitano, mas preferem ficar caladas, na fofoca e no desabafo.
Talvez o medo de causar antipatia, já que em Salvador se você não gosta de uma peça, você praticamente está xingando a mãe de toda a equipe envolvida. Não se tem um distanciamento necessário entre o pessoal e o profissional. E acaba-se por não se compreender críticas construtivas que podem redimensionar o palco de Salvador, numa visão mais ampla, clara e positiva.
Existe espaço. Hoje em dia, qualquer um cria um blog, manda pela internet um comentário para um jornal ou um email coletivo, existem publicações da UFBA, enfim, o que falta é a vontade de alguns de autenticar, desmistificar ou polemizar o fazer teatral.
Cadê os professores? Cadê os profissionais capazes? Será que não há ninguém disposto a debater, criticar?
É uma pena que os meios de legitimização do teatro, na cidade, fiquem nas mãos de incautos e vazios “formadores de opinião”. Deixa-se pra lá a questão que é primordial para que a arte sobreviva; sua legitimização através da crítica, da discussão, advindas de pessoas gabaritadas e preparadas.
Quantas vezes não ouvi uma excelente crítica de um espetáculo ou de um texto, feita por alguém estudado e preparado para ter uma visão mais ampla, rica e consistente da obra teatral? Por que então estas pessoas não se disponibilizam a escrever sobre isso? Artigos sobre o Theatre du Soleil, Peter Brook e Zé Celso são importantes credenciais para um postulante a teórico; tudo bem. Mas teorizar sobre o que está fora, justamente numa arte de alcance reduzido como o teatro, me parece, às vezes, um mero massageador de egos e uma vitrine para exposição de saberes.
É o que uma publicação recente chamou de “o silêncio dos intelectuais”.
Está lançada a provocação.

* * *

A respeito da crítica, em si, seja ela com qualquer finalidade, tem me saltado aos olhos certas características que transformam o ato de criticar em um equívoco estético contínuo. Nos próximos artigos falarei de algumas das características que contaminam a análise de um espetáculo, a saber:


O pensamento politicamente correto;
O paternalismo;
O etnocentrismo;
O caipirismo;
E a falta de um conhecimento satisfatório do fazer teatral.

quarta-feira, março 28, 2007

O Mundo do Teatro em Salvador – Balanço 2006

Março é o mês do Dia Mundial do Teatro. Apesar da divergência das datas (muitos comemoram no dia 27, outros 20 ou mesmo 21), é sempre uma oportunidade de introduzir o tema na agenda da mídia. E porque não fazermos isso agora, traçando um rápido balanço sobre a situação da cena teatral em Salvador. Não raro mapeamentos como este começam com os desgastados apelos românticos, atribuindo a efetivação do teatro local, sobretudo, ao idealismo e persistência de seus artistas, visto que aqui a dinâmica profissional ocorre mais em termos técnicos (mão-de-obra formada), do que com a existência de um mercado estável que os remunere. Diante disso, parece-nos coerente que esta cena seja compreendida a partir de suas unidades de produção. Afinal, nesta conjuntura, quem produz hoje na cidade? Em 2006, foram apresentados 43 espetáculos. Nos anos anteriores, ocorreram, respectivamente, 50 e 48 montagens. Não são números desprezíveis. Ao menos em termos quantitativos. De imediato, nos chama atenção as realizações associadas às duas unidades históricas de produção da capital: a Escola de Teatro, 51 anos; o Teatro Vila Velha, 43 anos. A graduação da ET apresentou ao “mercado” seus trabalhos de conclusão em direção e interpretação como A Casa dos Espectros, Barrela, Estilhaços, Navalha na Carne. Orinoco e Sábado, Domingo e Segunda. Já a Pós-graduação da ET (PPGAC) trouxe, entre outros, espetáculos direta ou indiretamente desdobrados de pesquisas, como Fato(s) do Brasil, Os Amantes II e O Grande Passeio. Os demais trabalhos ficaram restritos a um certo “circuito acadêmico”, que a cada ano ganha mais vulto no país. Tanto o Curso Livre (22 anos de criação), quanto a Cia de Teatro da Ufba (27 anos) atravessaram 2006 sem nenhuma estréia. De certa forma, mas não exclusivamente, a ausência destas produções está ligada ao fechamento do Teatro Martim Gonçalves, em reforma já há sete anos. Também num certo sentido, uma linha de abordagem estética sempre presente na Cia da Ufba teve prosseguimento na 12a. Montagem do TCA, com o espetáculo Mestre Haroldo...E os Meninos. O TVV estreou e remontou diversos espetáculos com os seus seis grupos residentes. O Bando de Teatro Olodum remontou Sonhos de Uma Noite de Verão; a CTN e o Vilavox trouxeram mais uma vez Primeiro de Abril. O Vilavox estreou ainda Canteiros de Rosa e A Outra Cia. de Teatro, O Contêiner, selecionado para a mostra oficial do Festival de Teatro de Curitiba 2007. O Edital da Funceb produziu (médio porte) Amor e Loucura e Do Lado de Dentro do Canto da Sereia, montagens algo ligadas à Pos, e que tiveram pouca repercussão. A Coelba patrocinou (FazCultura/Rouanet) Irmã Dulce e Família Drama Show. O Prêmio Funarte Myriam Muniz injetou ânimo e recursos a diversos projetos da Cooperativa Baiana de Teatro. Dois grupos que comemoraram dez anos produzindo: o Dimenti, com sua pesquisa pelos clichês e corporeidade dos cartoons; E o Teatro XVIII, reapresentando Esse Glauber e lançando Pague Para Ver, com a recém-criada Tribo do XVIII e A Comida de Nzinga, com Cia Axé. Já a Companhia Teatro Visível (ex- Por um Fio) apresentou o Bloco dos Infames. Nehle Franke e Fernando Guerreiro remontaram, respectivamente, Murmúrios (Petrobrás/Da Rin) e Vixe Maria (30 anos Funceb, em 2004). Artistas performers como Fábio Vidal e Ricardo Castro circularam com o repertório. A Cia Baiana de Patifaria também prosseguiu apresentado seus cases de sucesso, como A Bofetada. A EP Produções se apresenta cada vez mais concentrada na área de dança, enquanto a Fred Soares Produções ganha mercado com peças de forte apelo comercial. Para finalizar, em balanços como este também se costuma festejar a então diversidade de estilos e linguagens presentes na cena local. Contudo, essa multiplicidade de tendências é sua força e fraqueza, pois variedade também é pulverização. De recursos, de público e de diálogo. E não há um pensamento articulado que ouse arriscar um significado geral para esta eclosão de individualidades. Não há um raciocínio que reflita sobre esta prática e suas repercussões na sociedade. Na falta de uma “crítica da razão teatral”, sobra para as assessorias de imprensa, a depender do poderio, a defesa de seus produtos na cobertura jornalística. Por isso é que todos os espetáculos citados foram, à sua maneira, “um dos eventos mais importantes do teatro baiano dos últimos tempos”.

por Jussilene Santana - junesantana@ig.com.br
Artigo gentilmente cedido pelo jornal Notícias metropolitanas

terça-feira, março 27, 2007

DIA DO CIRCO e do teatro

Bastante sintomático. Não vi registro em páginas da internet sobre este "grande" dia. E o espaço dedicado a isso, na emissora mais assistida do país, foi de destaque total para o circo.
Falta de crédito? Mérito? Pretérito?
Não podemos reclamar, pois como bem diz Alain Finkielkraut sobre os tempos atuais, em seu A derrota do pensamento: um par de botas vale tanto quanto Shakespeare...

sexta-feira, março 23, 2007

Um excelente filme médio

Está em cartaz, na sala Walter da Silveira, o filme Em segredo, vencedor do Urso de Ouro de Berlim em 2006.
Porque um filme médio. A diretora e roteirista Jasmila Zbanic não tem pretensão de ser genial, e nem mesmo o filme tem essa vocação. É um simples filme sobre a vida de uma mãe solteira com sua filha, em meio às misérias de uma ex-Iuguslávia esfacelada, empobrecida e desestruturada. Situações cotidianas, relações normais, crises redundantes, tudo isso com uma câmera segura, tão segura a ponto de não aparecer; uma direção de arte muito bem-feita; figurinos bem escolhidos; roteiro discretamente redondo, enxuto, seguro.
Um filme médio; mas excelente. Todas as características que o tornam médio fazem dele um filme especial. Porque o médio é bem-feito, como geralmente não se vê no cinema mundial que pretende tratar de casos particulares, familiares, desesperados, miseráveis, etc.
O filme não realça os dramas do cotidiano com cenas desesperadas, músicas de fundo, clichês românticos e dramatúrgicos. Pelo contrário, o filme surpreende justamente pelas cenas onde o espectador imagina tudo, menos o simples, o médio, o excelente que acontece.
Cenas sensíveis. Bem escritas, interpretadas e filmadas. Coisa rara de se ver no cinema atual, que sempre escapole pro clichê barato ou pro não acontecer dramático, como se a não resolução de conflitos fosse uma salvação para fugir do melodramático.
Prêmios não indicam qualidade. Muito menos coerência. Menos ainda exprimem um reconhecimento por um trabalho acima da média, mesmo sendo médio. Por isso esqueçamos o Urso de Ouro. O que vale no filme é que vemos a realidade de um país, sem maniqueísmos, sem peninha dos pobres e fracos e sem mensagem de que o capitalismo malvado acaba com a vida dos coitadinhos. Através da dignidade, simplicidade e realidade de uma mulher, entendemos seu país, seu mundo, que é nosso mundo, nosso país, nossa casa.

sábado, janeiro 20, 2007

terça-feira, novembro 21, 2006

Lendo Ortega y Gasset...

Ortega y Gasset me chegou pelo mesmo interesse que me fez chegar a Canetti; a análise do homem-massa, este imenso vácuo intelectual que domina os gostos, as razões, as finanças. Sem a piedade e o politicamente correto que inunda de babaquice o pensamento atual, Ortega y Gasset analisa a fundo o homem médio, o homem massa que teve sua ascensão com a burguesia, com o capitalismo, este homem que, segundo Arnaldo Hauser - em seu História social da arte e da literatura - passou a exigir uma arte mais palatável, mais acessível, que falasse de si.
Abaixo, alguns trechos que me remetem à peça, aos personagens, e por conseguinte à indústria cultural, à universidade, aos meios de comunicação, etc.:

"A característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõem em toda parte. Como se diz nos Estados Unidos: ser diferente é indecente. A massa faz sucumbir tudo o que é diferente, egrégio, individual, qualificado e especial. Quem não for como todo mundo, correrá o risco de ser eliminado. E é claro que esse "todo mundo" não é "todo mundo". "Todo mundo" era, normalmente, a unidade complexa de massa e minorias discrepantes, especiais. Agora, todo mundo é apenas massa.
Este é o fato formidável de nosso tempo, descrito sem se ocultar a brutalidade de sua aparência."

"... pensar é, queira-se ou não, exagerar. Quem prefere não exagerar tem que se calar; mais ainda: tem que paralisar seu intelecto e encontrar um modo de se imbecilizar."

"... tentei adotar um novo tipo de homem que hoje predomina no mundo: chamei-o de homem-massa, e ressaltei que sua principal característica consiste em que, sentindo-se vulgar, proclama o direito à vulgaridade e nega-se a reconhecer instâncias superiores a ele."

"Ter uma idéia é crer que se possui as razões dela e é, portanto, crer que existe uma razão, um mundo de verdades inteligíveis. Idear, opinar, é a mesma coisa que apelar para essa instância, submeter-se a ela, aceitar seu código e sua sentença, crer, portanto, que a forma superior de convivência é o diálogo em que se discutem as razões de nossas idéias. Mas o homem-massa setir-se-ia perdido se aceitasse a discussão, e instintivamente rejeita a obrigação de acatar essa instãncia suprema que se acha fora dele."

Trechos extraídos de A rebelião das massas, de José Ortega y Gasset (tradução de Marylene Pinto Michael, Martins Fontes - 2002).

Lendo Canetti...

"A repugnância ao matar coletivamente é de origem assaz moderna. Não se deve superestimá-la. Ainda hoje, pelos jornais, todos participam das execuções públicas. Como tudo, também isso fez-se apenas mais confortável. Sentado tranquilamente em casa, o home pode, dentre centenas de detalhes, deter-se naqueles que mais o excitam. A aclamação só se dá depois de tudo terminado; nem o mais leve vestígio de culpa turva o prazer. Não se é responsável por coisa alguma: nem pela sentença, nem pelo jornalista que testemunhou-lhe a execução, nem por seu relato, nem pelo jornal que publicou tal relato. Mas sabe-se mais a respeito do ocorrido do que em tempos passados, quando se tinha de caminhar e permanecer de pé durante horas para, por fim, ver apenas muito pouco. No público formado pelos leitores de jornal conservou-se viva uma massa de acossamento abrandada, mas, em função de sua distância dos acontecimentos, ainda menos responsável; conservou-se aí, é-se tentado a dizê-lo, a sua forma ao mesmo tempo mais desprezível e estável. Como sequer precise reunir-se, ela evita também sua desagregação; a repetição cotidiana do jornal a provê de varieadade."

Trecho de Massa e Poder (Tradução de Sérgio Tellaroli, Companhia das Letras - 2005), obra seminal de Elias Canetti, escritor búlgaro vencedor do prêmio Nobel em 1981. O trecho escolhido me fez lembrar muito de algumas questões concernentes à peça Os Amantes II.

domingo, outubro 15, 2006

TEATRO NU - apresentação

Aarrh! Como é cansativo para nossa geração começar qualquer coisa... É que daqui, deste pedaço insular da América do Sul, parece que paradoxalmente todos os projetos já foram feitos ou... Ainda aguardam serem inventados. Neste território atravessado por teorias, assistimos de camarote ao mito do ‘encontro das culturas’ e contemplamos a margem (ou o fim?) da Civilização Ocidental.

Afinal, o que nos resta?

Esta pergunta acompanha minhas conversas com Gil Vicente há uns quatro anos. Desde quando interpretei um de seus monólogos em Quartos, no Julho em Salvador. De lá para cá, fizemos muita coisa sozinhos, mas o projeto de criarmos um grupo, ou melhor, um ambiente para que algumas de nossas idéias em comum se fortalecessem, continuava.

Nosso reencontro na pós-graduação em Artes Cênicas da Ufba foi fundamental. Discutíamos (e muito) cada um de nossos projetos e a velha vontade persistia... Em junho deste ano, escrevi um ensaio para o A Tarde Cultural sobre os 50 anos da Escola de Teatro, e Gil Vicente foi um dos meus primeiros leitores. Concluímos que seria um estímulo abrir este debate num ambiente digital. Criamos um blog (http://teatronu.blogspot.com) e iniciamos o projeto Teatro NU.

Dando carne a este sonho, se integraram, generosamente, dois grandes atores do teatro baiano: Carlos Betão e Carlos Nascimento. Dois Carlos, dois mestres que, a cada ensaio de Os Amantes II, ensinam ao Teatro NU uma maneira nova de continuar amando o teatro.

A nudez, desta vez, não vem dos corpos nus expostos ao sol, mas da tentativa de ser simples e essencial. Daquilo que nos é essencial.

O Teatro NU acredita na força do texto e da dramaturgia. Pretende pesquisar e montar textos da dramaturgia clássica e contemporânea; assim como busca criar canais de debate entre autores locais com centros nacionais e internacionais que ainda acreditam neste “teatro da palavra”. Mesmo – ou exatamente – sabendo dos limites e impossibilidades impostos à palavra em todo teatro do século XX. Afinal, o que nos resta? Ora, vamos... Tanto você quanto eu sabemos que ainda temos muito que conversar.

Jussilene Santana


sábado, outubro 14, 2006

outro texto do PROGRAMA, por Rodolfo di Giammarco, crítico italiano

Seria interessante conhecer a possível reação de Sarah Kane à afirmação que a sua peça Blasted – com os mecanismos canibais de um “ele” e uma “ela” (e um soldado) na margem do caos – pode ter, entre as outra matrizes, a dos mecanismos de canibalismo verbal de um “ele” e uma “ela” (e só in extremis de um soldado), criados como exercício de estilo metafísico por Ionesco em Delírio a dois. Seria interessante, igualmente, conhecer a reação de Gil Vicente Tavares se alguém lhe dissesse que o seu ato único Os Amantes II, onde a cena e os diálogos são dominados por uma cópia do quadro homônimo de Magritte, está curiosamente ligado às digressões a partir do infinito discurso à volta de um quadro (branco, neste caso), ao longo da estrutura inteira da comédia Art de Yasmina Reza. Ou então seria interessante conhecer a sua reação se alguém lhe dissesse que a vontade-dependência-fetichismo de televisão do “ele”/marido pequeno burguês, nesta sua peça em três quadros, onde se chega a falar num «Cristo crucificado na televisão», está profundamente ligada à penúltima peça de Arthur Miller, Resurrection Blues, onde assunto de primária importância é a vontade patológica e consumista de ver a crucificação, na televisão, de um revolucionário conhecido como Che Guevara. Ou, ainda, seria interessante conhecer a reação de Gil Vicente Tavares, se alguém notasse que a fórmula da dinâmica de casal invadida por um terceiro estranho, que em Os Amantes II é um mecanismo-estímulo mais que uma intrusão-chave, tem semelhanças anômalas, mas substanciais, com autores como Harold Pinter ou Jon Fosse.
E a matéria inalcançável e implacável deste jovem autor brasileiro tem, como vocês perceberam, um horizonte imenso de semelhanças com autores importantes, e afinidades, ligações, causas-efeitos. Mas, como já eu tinha tido oportunidade de confirmar numa outra peça dele, é com uma certa parte do teatro não-figurativo de Eugène Ionesco que eu identifico (mais uma vez aqui, em Os Amantes II) um laço especial pelo tipo de linguagem e de estrutura: os mesmos modelos de desestruturação, a mesma crueldade amarga, o surrealismo e o minimalismo de comédia-paródia, e a banalidade da tragédia da vida. É suficiente pensar nos dois cônjuges pequenos & burgueses de Vítima do dever, de Ionesco, um pseudo-drama onde um policial chega de repente apenas perguntando qual é a pronúncia correta do nome do vizinho. Ou então é suficiente pensar naquilo que acontece na casa de A cantora careca, quando entra o capitão dos bombeiros, que anotou na sua agenda que numa certa hora, mesmo ali, devia rebentar um incêndio. Ou então, examinando a fala final de Os Amantes II, porque não se lembrar da Roberta II, escolhida por Jacques em Jacques ou la Soumission de Ionesco?
Cada vez que Gil Vicente Tavares se afasta do naturalismo, re-interpreta também os modelos do absurdo, os assuntos da crueldade, a vaidade do amor, a psico-patologia do quotidiano. O casal de Os Amantes II parece um casal lobotomizado, num futuro para-berlusconiano com a televisão grande manobradora da inutilidade dos homens: a televisão que deixa de funcionar é a própria vida que deixa de funcionar, e aí é que faz sentido a entrada de um estranho forçado a pedir, por esmola, uma horinha de programas televisivos. Mas nesta casa, a casa de Os Amantes II, até se chega ao pedido de trasfiguração dela por parte dele, para que ela se transforme em apresentadora do vídeo, porque a única coisa importante é conseguir reproduzir mais uma vez o ritual virtual, de parasitas.
É inevitável que da boca da personagem (filha de um poeta) saia o horror: não há luz no fim do túnel. Errado. Ela não viu aquele tal filme com Humphrey Bogart em que Bogey afirma, pelo contrário, que até na escuridão mais profunda há sempre uma pequena luz.

Rodolfo di Giammarco
Crítico do jornal La Repubblica e diretor artístico de vários festivais, entre os quais Garofano Verde, Trend e Under 13, di Giammarco foi um dos responsáveis pela ida de Gil Vicente Tavares a Roma em julho deste ano. Lá, foram lidos seus textos Os Javalis e Os Amantes II; ver informações mais abaixo.

sexta-feira, outubro 13, 2006

mais equipe técnica...


Eduardo Tudella, que fará a luz do espetáculo Os Amantes II, já de longa data vem trabalhando com o diretor Gil Vicente Tavares, sendo este o oitavo trabalho de parceria dos dois. Contando com a montagem de textos clássicos do teatro moderno e contemporâneo, a dupla já realizou peças como Quartett (Heiner Müller), Antes da reforma (Thomas Bernhard) e O despertar da primavera (Frank Wedekind, ver imagem acima).
Tudella é mestre em cenografia e iluminação pela New York University, professor da Escola de Teatro e vem atuando como iluminador de vários espetáculos da cidade, ressaltando aqui a constante parceria de Tudella com dois grandes diretores da cidade; Harildo Déda e Ewald Hackler. Com o último, a "luz" de Tudella está em cartaz no espetáculo Mestre Haroldo e os meninos.
Mais uma contribuição de peso para o Teatro Nu.

* * *
Outra boa contribuição para o Teatro Nu e para nossa peça de estréia, Os Amantes II, é Marcos Póvoas. Kico, como é mais conhecido, já fez a direção musical dos espetáculos José Ulisses da Silva (Viladança) e Candaces (Companhia de Teatro dos Comuns – RJ). Com este último, recebeu o Prêmio Shell 2003/2004 de Melhor Direção Musical.
Assinou a edição e/ou produção de documentários e curtas premiados como Marias do Charuto, Cega Seca (35mm), Caçadores de Saci, Vermelho Rubro do Céu da Boca, O Anjo Daltônico e Hansen Bahia (35mm).
Agora está com a gente...

* * *
Luz, som, ação...

quarta-feira, outubro 04, 2006

novas notas sobre a montagem...


O silêncio é fundamental na arte. O que faltou ser dito, pintado, ouvido, é justamente o espaço profícuo do apreciador da obra. É naquele instante mínimo que a pessoa refaz aquela arte, redireciona, redimensiona sua percepção.
Este espaço sagrado, que é o hiato, a abissal presença do nada, é onde estão ecoando a carga dramática, lírica ou épica da obra de arte.
Contudo, este nada não é propriamente o vazio absoluto. Assim como seria intragável uma água que fosse realmente insípida, inodora e incolor, o vazio momentâneo da obra artística deve estar permeado por todo o seu antes e/ou seu depois.
Sendo mais preciso. O silêncio de Galileu ao comer seus gansos (eram gansos?), o silêncio dos últimos quartetos de Beethoven, o silêncio das últimas obras de Picasso, o silêncio final de Sargento Getúlio, todos estes silêncios estão prenhes de significado pelo que o autor construiu, ou seu intérprete, ou – na melhor das hipóteses – ambos; o que nos leva a pensar na comunhão do resultado final de uma apresentação como um entendimento de criadores em torno de uma obra, e não em torno de seu ego ou satisfação.
Será, realmente, que Liv Ullman pensava em alguma coisa significativa na clássica cena do espelho, em Gritos e Sussuros, de Bergman? Mesmo que ela estivesse pensando no calo em seu pé, a atriz havia criado uma atmosfera com sua interpretação, com a fala do outro personagem, com a fotografia de Nykvist e a direção de Bergman, que aquilo ali acabou por se tornar sufocante, mesmo que pra ela não fosse (afinal, o poeta é um fingidor).
Já que falei de cinema, não posso deixar de lembrar de Tarkovski. Este cineasta russo trabalhava com os silêncios de forma quase sublime, deixando que o tempo da pausa se tornasse o nosso próprio tempo, o silêncio tornando-se nossa voz interior contracenando com a tela.
No teatro não podia deixar de ser diferente. Quem olha a foto acima, pode fazer várias leituras. Lendo o título da peça, já se impõe um limite. Sabendo do que se trata o texto, a redução mistura-se a uma mudança de perspectiva, e por aí vai.
Será, justamente, no antes e depois deste silêncio dos atores que o público achará os artifícios para puder ler a pausa. E nela deve se concentrar todo o peso ou leveza da ação. A anti-ação é muitas vezes mais dramática. O Teatro do Absurdo descobriu isso (e antes dele tantos outros, separadamente...). A angústia – muitas vezes – é mais avassaladora do que uma historinha bem contada, do que um discurso bem feito, do que uma ação arrojada.
É também na pausa que o objeto artístico, muitas vezes, se torna a pedra necessária às palavras, como diz João Cabral de Melo Neto, no poema Catar Feijão. Vale a pena lê-lo. É uma perfeita metáfora do incômodo que a arte deve trazer, pelo menos que a nossa arte, do Teatro Nu, pretende trazer.
Cada vez mais me comprazo com as pausas da nossa peça. São, muitas vezes, mais importantes do que o texto que eu mesmo escrevi. A pausa já é teatro, e as palavras ainda não; são apenas trilhas onde os atores vão criar seus caminhos.
É engraçado, pois elas incomodam mais aos atores do que a quem está assistindo os ensaios, que vê nas pausas o alívio e a angústia da cena. E por que não ter a pretensão de – nos silêncios – desvelar as verdades dos personagens para que os espectadores pensem nas suas próprias verdades? A palavra é a coisa. E o resto é silêncio...

GVT.

domingo, outubro 01, 2006

Texto do PROGRAMA, por Letizia Russo, escritora e tradutora de Os Amantes II

Se existe um dever do teatro contemporâneo, com certeza é a obrigação a não ser inócuo, nem confortável. Assumir e levar para frente uma reflexão o mais honesta possível. Nos anos em que vivemos talvez mais do que em qualquer outra idade, honestidade intelectual e desconforto do público (pra não falar da crítica, por sua própria natureza em eterno atraso no reconhecimento dos impulsos vitais da cultura e, ironicamente, sempre pronta a trocar vícios antigos por falsas novidades), andam, justamente, de mãos dadas.

A urgência da arte, e do teatro contemporâneo especialmente, é não mais nem menos do que aquilo que Aristóteles chamava à arte: uma atitude de procura da verdade. Aquilo que mais atinge em Os Amantes II de Gil Vicente Tavares é a sua capacidade desapiedada de retratar cada um de nós. Com um pequeno aperto no coração descobrimos que, nesses três personagens que andam perdidos nos poucos metros quadrados de uma casa, à procura do único contacto com o mundo que para eles é possível, há o retrato do nosso vizinho, do nosso amigo, do nosso familiar, até descobrirmos que é também de nós próprios que este texto fala.

Só podemos aceitar essa descoberta como um fogo que sara ou, então, recusá-la completamente. Nós, cada vez mais “livres” de atingir informação, diversão, crescimento, cada vez menos livres de distinguir entre um e outro, e de distinguir um e outro no seu próprio interior. Cada vez mais condenados a sermos governados por uma elite, de geração em geração mais oligárquica, elite de pessoas que terão em suas mãos as chaves da verdadeira cultura ou sabedoria, ou seja, a capacidade de discernir.

Nós, condenados, de regime em regime, de pseudo-democracia em pseudo-democracia, a votar em pessoas que do verdadeiro poder serão cada vez mais apenas a sombra. Mas Os Amantes II não é só uma peça política, apesar de que este elemento de reflexão não-ideológica e sem partido político está à base da peça.

Os Amantes II é um texto profundamente humano, cuja força poética está no seu esforço de universalização, na recusa da lógica das nações, do folclore, e longe também da crônica bruta: nesses três laivos de solidão é possível reconhecer uma humanidade ofendida, pisada e despida da possibilidade de procurar a felicidade, mas ainda digna, ainda capaz de gritar, ainda capaz, se só quisesse, de dar a vida.

Letizia Russo - autora italiana

Letizia Russo nasceu em Roma em 1980. Escreveu para teatro:

1. Niente e Nessuno (Una Cosa Finita), representado em 2000 em Castelnuovo di Farfa, no âmbito do festival “Per Antiche Vie" organizado por Mario Martone, então director do Teatro di Roma;
2. Tomba di Cani (Prêmio Tondelli 2001);
3. Asfissia, encomendada pelo "Festival di Candoni – ArtaTerme" (2002);
4. Binario Morto, encomendada pelo National Theatre de Londres (2004);
5. Babele, primeiro texto de uma trilogia sobre o poder.

Participou, em 2002, da International Residency do Royal Court de Londres. Escreveu para a rádio: I Conigli Sulla Luna, Lo Spirito Nell'acqua, La Via Del Mare, Qoèlet, Kilmainam Gaol, transmitidos pela Rai3 em 2002. Venceu em 2003 o prémio UBU como revelação do ano pelo texto Tomba di Cani. Foi escritora-residente nos Artistas Unidos, em Portugal, entre 2004 e 2005 com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

Tomba di Cani estreou em 2001 na Saletta Gramsci do Teatro de Pistoia com participação em vídeo de Antonio Casagrande, encenação de Cristina Pezzoli, num produção do Teatro di Pistoia / Teatro del Tempo Presente. O espectáculo recebeu três nomeações (Isa Danieli, melhor intérprete feminina; Cristina Pezzoli, melhor encenação; Letizia Russo, melhor autor) para o Prémio ETI – Gli Olimpici del Teatro.

Fim de Linha (Binario Morto) estreou dia 8 de Julho no Royal National Theatre em Londres, na versão do Bath Theatre Royal Area, uma das catorze escolas de teatro inglesas que escolheram a peça entre as comissionadas pelo Festival Shell Connections. Os Artistas Unidos realizaram uma leitura no âmbito do Festival de Almada 2004 dirigida por Pedro Marques.

texto retirado do http://www.artistasunidos.pt/letizia_russo.htm