sábado, outubro 14, 2006

outro texto do PROGRAMA, por Rodolfo di Giammarco, crítico italiano

Seria interessante conhecer a possível reação de Sarah Kane à afirmação que a sua peça Blasted – com os mecanismos canibais de um “ele” e uma “ela” (e um soldado) na margem do caos – pode ter, entre as outra matrizes, a dos mecanismos de canibalismo verbal de um “ele” e uma “ela” (e só in extremis de um soldado), criados como exercício de estilo metafísico por Ionesco em Delírio a dois. Seria interessante, igualmente, conhecer a reação de Gil Vicente Tavares se alguém lhe dissesse que o seu ato único Os Amantes II, onde a cena e os diálogos são dominados por uma cópia do quadro homônimo de Magritte, está curiosamente ligado às digressões a partir do infinito discurso à volta de um quadro (branco, neste caso), ao longo da estrutura inteira da comédia Art de Yasmina Reza. Ou então seria interessante conhecer a sua reação se alguém lhe dissesse que a vontade-dependência-fetichismo de televisão do “ele”/marido pequeno burguês, nesta sua peça em três quadros, onde se chega a falar num «Cristo crucificado na televisão», está profundamente ligada à penúltima peça de Arthur Miller, Resurrection Blues, onde assunto de primária importância é a vontade patológica e consumista de ver a crucificação, na televisão, de um revolucionário conhecido como Che Guevara. Ou, ainda, seria interessante conhecer a reação de Gil Vicente Tavares, se alguém notasse que a fórmula da dinâmica de casal invadida por um terceiro estranho, que em Os Amantes II é um mecanismo-estímulo mais que uma intrusão-chave, tem semelhanças anômalas, mas substanciais, com autores como Harold Pinter ou Jon Fosse.
E a matéria inalcançável e implacável deste jovem autor brasileiro tem, como vocês perceberam, um horizonte imenso de semelhanças com autores importantes, e afinidades, ligações, causas-efeitos. Mas, como já eu tinha tido oportunidade de confirmar numa outra peça dele, é com uma certa parte do teatro não-figurativo de Eugène Ionesco que eu identifico (mais uma vez aqui, em Os Amantes II) um laço especial pelo tipo de linguagem e de estrutura: os mesmos modelos de desestruturação, a mesma crueldade amarga, o surrealismo e o minimalismo de comédia-paródia, e a banalidade da tragédia da vida. É suficiente pensar nos dois cônjuges pequenos & burgueses de Vítima do dever, de Ionesco, um pseudo-drama onde um policial chega de repente apenas perguntando qual é a pronúncia correta do nome do vizinho. Ou então é suficiente pensar naquilo que acontece na casa de A cantora careca, quando entra o capitão dos bombeiros, que anotou na sua agenda que numa certa hora, mesmo ali, devia rebentar um incêndio. Ou então, examinando a fala final de Os Amantes II, porque não se lembrar da Roberta II, escolhida por Jacques em Jacques ou la Soumission de Ionesco?
Cada vez que Gil Vicente Tavares se afasta do naturalismo, re-interpreta também os modelos do absurdo, os assuntos da crueldade, a vaidade do amor, a psico-patologia do quotidiano. O casal de Os Amantes II parece um casal lobotomizado, num futuro para-berlusconiano com a televisão grande manobradora da inutilidade dos homens: a televisão que deixa de funcionar é a própria vida que deixa de funcionar, e aí é que faz sentido a entrada de um estranho forçado a pedir, por esmola, uma horinha de programas televisivos. Mas nesta casa, a casa de Os Amantes II, até se chega ao pedido de trasfiguração dela por parte dele, para que ela se transforme em apresentadora do vídeo, porque a única coisa importante é conseguir reproduzir mais uma vez o ritual virtual, de parasitas.
É inevitável que da boca da personagem (filha de um poeta) saia o horror: não há luz no fim do túnel. Errado. Ela não viu aquele tal filme com Humphrey Bogart em que Bogey afirma, pelo contrário, que até na escuridão mais profunda há sempre uma pequena luz.

Rodolfo di Giammarco
Crítico do jornal La Repubblica e diretor artístico de vários festivais, entre os quais Garofano Verde, Trend e Under 13, di Giammarco foi um dos responsáveis pela ida de Gil Vicente Tavares a Roma em julho deste ano. Lá, foram lidos seus textos Os Javalis e Os Amantes II; ver informações mais abaixo.

Um comentário:

Cláudia Barral disse...

Jussi, Gil,

Antes de tudo, saudade dos dois.
O cartaz da peça está lindo, o quadro de Magritte, que inspirou o texto é lindo, as fotos, estão muito bonitas, fortes.
Quero muito ver a montagem. Fiquei feliz de saber que vai haver uma montagem!
E a idéia de podermos acompanhar um pouco pelo blog é muito boa.
Eu sempre quis acompanhar um diário criativo de uma montagem. Sei que não é o caso do blog de vocês. Mas já sacia um pouco meu voyerismo.
Estou curiosa e feliz.