sábado, julho 02, 2011

A Neojibá e os desafinos de um ensaio


No documetário The art of improvisation, Keith Jarrett declara que sua música não vem da música. A inspiração para compor e improvisar vem de outras sensações, outras artes, ideias, filosofias.

Isso significa muito. Percebe-se o grande músico que ele é não pela destreza técnica, mas pela inventividade e particularidade do artista. A técnica existe, tem que existir, mas ser esquecida. É quando o artista se joga da beira do precipício onde a técnica o levou que a grande arte acontece. Sem a técnica, ele não chega à beira. Sem a loucura do salto, ele fica preso somente à técnica e se torna um executor, não um artista.

Na história da música clássica, vemos como grandes compositores foram buscar inspiração fora da música para criar e pensar a música. É muito comum um artista plástico citar uma expressão de teatro, um dançarino citar uma expressão da música, porque é fora do que nos é comum que a provocação vem.

Beethoven e o poema de Schiller, Ode à alegria. Mahler e os poemas chineses que viraram A canção da terra. Schumann e tudo que ele escreveu e pensou e criticou e que voltou, à sua obra, transubstanciado. Mussorgsky e seus Quadros de uma exposição.

Reza a lenda que quando Debussy foi pedir a Maeterlinck a autorização para que a peça Pelléas et Mélisande, de sua autoria, fosse musicada como ópera pelo compositor francês, este se tremeu todo porque ia conhecer “o grande dramaturgo”.

É comum vermos movimentos artísticos mais relacionados a uma arte influenciarem o pensamento de outra arte depois. O artista, enquanto antena da raça, sempre buscou captar, antes de tudo, o seu entorno. Compositores indo a balés, coreógrafos indo ao teatro, dramaturgos indo a óperas.

Digo tudo isso porque fiquei assustado com os integrantes do projeto Neojibá. Um projeto onde jovens estudam e integram uma orquestra que já começa a ter certo destaque inclusive internacional. Capitaneado por Ricardo Castro, pianista de renome que voltou à Bahia para ser diretor da Orquestra Sinfônica no estado, o projeto se tornou seu grande foco, após a sua saída do governo e mudança de gestão.

Há um mês ensaiando Sargento Getúlio no Teatro Castro Alves, e dividindo sala com esses meninos, constantemente somos interrompidos pela entrada deles que, alheios ao que se passa no momento – um ensaio teatral onde o ator, sozinho em cena, necessita uma atenção fenomenal – eles vão invadindo sem pedir licença. Depois de umas duas ou três advertências ao setor de produção do TCA, e conversa com os próprios meninos, a falta de educação e sensibilidade desses músicos neófitos hoje foi uma gota d’água e uma grande decepção.

Entusiasta que sou da música clássica, passei esse mês todo puxando conversa, comentando obras musicais, sempre que encontrava com alguns deles. Mesmo com a má-vontade para se retirarem da sala no meu horário de ensaio, mesmo com eles ensaiando e o som vazando pra sala e desconcentrando o ator, tentei ser simpático, de coração. Mas é assustador perceber que esses meninos parecem mais animais adestrados que projetos de artistas.

Qualquer pessoa de inteligência mediana que estudar horas com afinco um instrumento conseguirá tocá-lo. Ao fim de um ano, de uma década, que seja, estudando 5, 10 ou 15 horas por dia, mas com estudo e aprimoramento técnico, pode-se virar um executor, um repetidor, uma “máquina programada”.

Tocar numa orquestra não completa um artista. Sempre me assustei com a aparência de nerd da maioria dos músicos eruditos de Salvador, bem como a sua ausência em eventos da cidade que não fossem um concerto de alguém famoso. A música clássica, sempre tão distante do público comum, acaba tendo certa culpa nessa distância, por se comportar como uma música alienígena, tocada por marginais da sociedade e da cultura, preocupados, apenas, em executar bem uma partitura.

O húngaro Sándor Végh dizia que preferia as notas erradas de um grande músico às notas certas de um músico medíocre. Um grande músico sabe o que é teatro. Jamais interromperia um ensaio grotescamente, estupidamente. Talvez até entrasse discretamente pra observar, por curiosidade e vontade e necessidade de entrar em outros mundos que não aquele fechado, recluso e limitado mundo de suas partituras e instrumentos.

O projeto Neojibá tem diversos méritos. Ver os meninos ensaiando pelas escadas e corredores do TCA dá uma esperança de que possamos diversificar e enriquecer nossa cultura. Mas tudo isso vai abaixo quando vemos a pobreza de arte e espírito que cerca esses jovens. Dando pulinhos e tocando canções suingadas, eles podem receber aplausos efusivos de europeus e asiáticos, mas parecem não saber, no sentido mais belo e rico da palavra, o que é arte.

A verdadeira revolução é a que muda o homem, o indivíduo, e não o coletivo. Ver um rebanho de moleques tocando bem não é suficiente. É preciso se pensar o artista. É preciso se pensar o homem, sua riqueza, sua compreensão da beleza de outros mundos.

Infelizmente, a falta de educação e sensibilidade desses meninos não parece levar para esse lado. A música perde artistas. O mundo perde arte. E eu hoje perdi a paciência.

sábado, junho 11, 2011

Teatro NU Facebook

Enquanto reformatamos o site, a melhor forma de acompanhar as novidades do Teatro NU será através de seu perfil, no facebook. Adicionem o perfil para obter informações, saber dos processos, ler sobre as novidades e ver fotos dos projetos e montagens do grupo!

quinta-feira, junho 09, 2011

O Teatro em 200 anos de jornalismo na Bahia

O texto abaixo foi publicado hoje (09 de junho de 2011) no jornal A Tarde 2+. Salvador - Bahia, por Jussilene Santana

O jornalismo na Bahia comemorou seu bicentenário no dia 14 de maio. Enquanto a área aguarda quem proponha uma interpretação sobre a história dos 200 anos da atividade no estado, o presente texto – apesar de evidentes e concretos limites – ousa uma mirada panorâmica sobre como o tema teatro tendeu a ser abordado pelos periódicos locais.

A ‘primeira gazeta’ da Bahia, a Idade d’Ouro do Brazil, nasceu em 1811 para defender a fidelidade da colônia a Portugal. Nas 04 folhas do 1º número, o teatro não foi notícia. A Idade d’Ouro deixou de ser publicada em 1823, depois da Independência do Brasil, dias antes da Independência da Bahia, posto que a razão política do panfleto havia deixado de existir.

E é uma ‘razão política’ similar o que move o jornalismo baiano, geração após geração, criando veículos para atuarem como instrumento – a maioria das vezes de face político-partidária – na arena política. Também em 200 anos, sobretudo os diários pertenceram quase que exclusivamente a diferentes grupos políticos e econômicos que formavam a elite social, atuando primordialmente para defender tais interesses.

Nessa atmosfera, o teatro tendeu a ser aproveitado como mais um tema possível de ser cultivado/mantido politicamente; pouquíssimas vezes, compreendido em sua originalidade.

Logo após o lançamento da Idade d’Ouro, é inaugurado, em 1812, o Teatro São João, palco central da representação dos valores culturais, estéticos e políticos da elite baiana durante o século XIX e início do XX. Ele foi o ‘centro das letras dramáticas’ praticamente por todo Império e I República até quando, em 1923, foi destruído por um incêndio. O São João, suas atividades e freqüentadores foram os principais assuntos teatrais da imprensa baiana por todo o período.

Entre 1910/1940, o teatro na Bahia acusa o impacto da transformação do cinema e do rádio em atividades basilares da sociabilidade e do entretenimento. A mudança de foco é sentida nos jornais e revistas. Após a II Guerra, os eventos intermitentes de grupos amadores de diferentes perfis são os principais motivadores de notícias, geralmente exploradas no formato nota e crônica e que podiam ou não ser enquadradas em colunas.

Tal situação se mantém de forma praticamente inalterada até meados dos anos 1950, nos 05 diários impressos existentes, quando há a criação da Escola de Teatro, instituição participante das ações culturais modernizadoras promovidas/amparadas, sobretudo pela então Universidade da Bahia.

No final dos anos 1950 e anos 1960 tanto o exercício do teatro quanto do jornalismo passam por profundas mudanças. A diversificada atuação da ET sob a direção de Martim Gonçalves (1956-1961), promovendo sistematicamente a pedagogia e a prática do teatro moderno, favorece, pela primeira vez no estado, o esboço de um caminho para a área do teatro como um ‘campo autônomo’ artístico e profissional, propondo que tal campo não mais precisaria estar – mesmo quando aproveitando as possibilidades de interface – a reboque das necessidades estabelecidas para ele em outras áreas.

A batalha para o fortalecimento do teatro como ‘um campo’ também é exercida nos jornais, através de textos dos suplementos culturais, sobretudo do Diário de Notícias e Jornal da Bahia. Por conta da intensa movimentação teatral, são criadas novas colunas, publicadas mais entrevistas e matérias.

Articulador central da ação, Martim tem, no início, apoio dos jornais, mas, à medida que se evidencia onde tal autonomia e capacidade crítica poderiam chegar, passa a ser atacado, sobretudo por campanhas jornalísticas que pedem e conseguem seu afastamento do estado. A mutilação de inúmeros fatos que compõem esse complexo episódio e o silenciamento sobre o sucesso de Martim ao sair da Bahia afetaram profundamente a mentalidade da área teatral baiana.

Assinale-se ainda certo fervor sobre teatro nos anos 1960/1970, em revistas e nas TVs recém-criadas. Nos 1990, uma nova onda de profissionalização (ligada de forma truncada e mal compreendendo àquela primeira) promove 02 especializações que colaboram para movimentar a cena: o produtor e o assessor de imprensa. No novo milênio, o tema teatro na Bahia procura fazer as pazes com o passado enquanto trafega pela internet.

quarta-feira, junho 08, 2011

Ser ou não ser....Profissional?

Esse debate sobre teatro profissional em Salvador veio transmigrado do blog de minha amiga Adriana Amorim, o Arte do Espectador. Acompanhem no link!

Por Jussilene Santana





sábado, maio 14, 2011

A culpa de Sibelius


Madrugada de uma sexta-feira 13 pra um sábado com cara de semana. Dedicado à minha tese, que pretendo concluir ainda em maio, e dividindo a atenção nela com os ensaios de Sargento Getúlio – é difícil mudar a sintonia na cabeça, acreditem – tomo cerveja e vinho. Nada demais. Uma ou duas taças de cada.

Antes mesmo disso, escutava, para passar o tempo e chegar o sono, um pouco de música pra descansar a cabeça da herança do Absurdo e seus vestígios no drama contemporâneo; minha tese. Após ouvir um dos momentos de maior inspiração do século XX, o concerto/CD Nude ants, resolvi ouvir o quarteto de cordas op.56, Voces intimae, de Jean Sibelius.

Esse compositor finlandês, que parece sempre compor desenhando auroras boreais, fez este quarteto que, junto aos dois de Leos Janacek, são um resumo da música moderna. Unir a dor ao etéreo é pra poucos, e as vozes íntimas de Sibelius começaram a me tocar até chegar o terceiro movimento, o adagio di molto. A beleza foi me tomando e comecei a pensar sobre meu ensaio de hoje.

Ainda em fase de leitura, hoje foram ao ensaio o iluminador da peça, Eduardo Tudella, e o compositor da trilha, Ivan Bastos. Quando Carlos Betão terminou o texto, a conversa que se iniciou, ali, foi tão poeticamente eficiente e criativa para o processo, que a música de Sibelius me remeteu de novo a ela.

Ouvir Ivan Bastos falar de teatro – ele analisava a montagem do texto de Claudia Barral, Sal, pimenta, alho e noz moscada, feita pelo Teatro NU –, e ouvir Tudella falar de música – ele citava o Don Giovanni de Mozart e Os planetas de Holst –, tudo aquilo me deu uma alegria imensa.

Estar ao lado desses artistas, com sensibilidade e cultura tão ampla e consistente, me diminuiu da melhor forma que podemos ser diminuídos. Vamos ao nosso centro, às nossas falhas e faltas, e agradecemos por existirem pessoas que possam fazer você crescer.

 A arte nos transporta à beleza, ao que perdemos de telúrico e ao que não ganhamos de etéreo. Faz a gente crescer pra dentro.

Eu ia escrever um simples comunicado à meia dúzia de três ou quatro que acompanham o blog, avisando que por conta da fase final de escrita do doutorado, eu e Jussilene Santana estávamos em recesso de escrita para o Teatro NU. Também que assim que eu desse o ponto final na versão da tese que vai ser massacrada pela banca, eu iria voltar a pleno vapor.

Mas Sibelius não deixou.

terça-feira, abril 12, 2011

Aí, é com Tadashi, Luis Arrieta e as baleias...

Luis Arrieta, por João Meirelles
A orca e o tubarão-branco são os dois maiores predadores dos mares. Num combate entre ambos, ganha a orca. Esse imenso mamífero desenvolveu uma técnica de atacar o tubarão e virá-lo de ponta-cabeça. Assim, o tubarão-branco entra num estado de imobilidade que o leva, acreditem, ao afogamento.

Esse conhecimento é passado através de gerações. Uma orca nova, mesmo sem ter visto uma mais experiente em combate, sabe o que fazer nessa hora. É algo que faz parte de sua cultura, que vem como memória corporal.

Não, este texto não se propõe a sugerir que o governo crie um edital desses sobre diversidade e cultura que contemple as orcas. Este é um texto sobre dança. Sobre a cultura e a memória do corpo. Sobre a história do movimento.

Assisti, final de semana passado, no âmbito do Festival Viva Dança, a dois mestres da dança. Tadashi Endo, japonês nascido na china, e Luis Arrieta, argentino residente há tanto tempo no Brasil que se tornou uma referência para a dança no país.

Do primeiro sei pouco. Assim como, lamentavelmente, sei pouco de sua cultura. Minhas referências são todas através da arte – muito mais que pela história –, mas são referências que me fazem respeitar, contemplar e traduzir, traindo como toda tradução, o que aquele corpo me disse em cena.

O título do trabalho, One-Nine-Four-Seven, refere-se à sua data de nascimento, e, na mais banal e eficiente maneira, o artista nos mostra através do movimento sua vida, paixão e morte; e vida. O ciclo não termina, pois “é necessário morte para que haja vida, num ciclo infinito”, ele nos diz no programa. E acabei sendo conduzido por sua movimentação tão verdadeira, sólida, coesa. Nada fora do lugar. Tudo em seu tempo e com legitimidade. Vemos a história de um corpo, em cena, e o quanto seus movimentos revelam sua essência. E fazemos um passeio pelo Japão, pelo mundo e pelo seu mundo.

Movimentos revelando sua essência, assim eu poderia resumir o trabalho de Arrieta. Deste eu posso falar mais. Ainda adolescente, pegava meu buzu lá na Barra pra ir assistir ao Balé Teatro Castro Alves, sozinho, apaixonado que sempre fui pela dança. E não era por acaso que a maioria das coreografias que me interessavam era de Arrieta. O coreógrafo argentino explorou, com o BTCA, a essência do candomblé, em Orixás, numa arrojada coreografia que desconstruía os códigos da dança brasileira, até a escolha da trilha, na qual Egberto Gismonti abusada e inteligentemente fugia do óbvio escrevendo para uma orquestra de cordas. Também insistiu no minimalismo e na circularidade do Bolero de Ravel para a criação de Mandala, com ecos da coreografia de Maurice Béjart para o filme Retratos da vida. E eu poderia desfilar ainda Berimbau (a que eu mais gosto, numa irresponsável lembrança), Trindade, diversas criações que deixaram sua assinatura nos tablados do TCA.

Mas a surpresa me veio, mesmo, ao ver Luis Arrieta fazendo um solo dentro do estupidamente extinto Ateliê de Coreógrafos Brasileiros (imaginem o Ateliê e o VIVADANÇA acontecendo na cidade, duas grandes ações, a dança só ganharia). Um projeto abortado a fórceps – coisas da Bahia, onde se paga 50 pro outro não ganhar 20 – e que continha, dentro de sua programação, a mostra Solos > 40, na qual bailarinos mais experientes mostravam curtos trabalhos que, na maioria das vezes, eram mais interessantes que as atrações principais do projeto. A partir do segundo movimento da Sinfonia n.3, opus 36, de Henryk Górecki – um marco da música recente –, pude ver aquele coreógrafo que tanto explorava o movimento, que tanto criava para corpos novos, ágeis, belos e flexíveis, algo muito mais próximo do butoh de Tadashi; menos é mais, como diria outro mestre, Harildo Déda.

Arrieta apresentava ali, para mim ao menos, o tempo moendo o homem, o homem driblando o tempo e a dor da partida, movimentando-se pela angústia da chegada. E num olhar, num gesto mínimo, o corpo de Arrieta nos contava uma história que era dele, mas que eram muitas.

A arte tem esse dom que nos passar a história do homem, os sentimentos do mundo, tudo aquilo que não vivemos, em forma de poesia. E assim pude ver Arrieta dançando seu solo Tango aDeus, semana passada, no Teatro Molière, da Aliança Francesa.

Ver um homem de 60 anos se mover – assim como Tadashi, aos 64 – ao som do tango se torna, ainda mais, um momento de respeito e admiração. Há muito que se provou que dança não é só virtuose e técnica pura, nem tampouco fôlego e elasticidade simplesmente (mas isso não significa negar esses atributos). Cada vez mais os velhos dançam, e cada vez mais só os velhos dançam. E Arrieta dançou seguidos tangos, cantou, ficou estático, extático e exato. Eu podia ver, num abrir de braço seu, toda uma história de vida se desenhando no ar em diálogo com uma luz que dançava com ele. Eu via a Argentina, via sua avó, que ele citou emocionado durante um bate-papo no Vila Velha, via a solidão num solo criado para uma dança a dois, que era a Deus? Um adeus? Um homem de 60 anos com suas dores, amores, silêncios e perdas. Tudo no movimento. Parecia, assim como no trabalho de Tadashi, que aqueles gestos carregavam o ancestral e abriam o caminho pro novo, rasgavam a história para inundar o palco com o mais íntimo que se podia sentir em cena.

Um corpo sem história não transmite verdade em cena. Uma cena sem história não transmite verdade num corpo. A história pode ser mínima, íntima, ínfima. O corpo tem que ser um corpo para a cena, mas não um objeto para a ação. É preciso contar algo através do gesto. É preciso ter conhecimento, respeito ao mais velho, ao antigo, à história, e a ousadia de reinventar tudo isso à sua maneira. O aprendizado na vida se dá na transmissão das gerações, no acúmulo de cultura e tradição.

O corpo tem que se reinventar. O movimento tem que seguir. Nem sempre podemos trazer em nós o tamanho da história que queremos. Então, como fazer? A arte tem a resposta. Senti boa parte da dor e alegria do mundo, ao longo dos séculos, através da arte. De forma muito simplista, talvez possamos dizer que a arte serve para isso. Pra nos recordar o afeto que não se encontra na geografia, nos livros técnicos, nas enciclopédias e teorias. Infelizmente, vê-se cada vez mais uma formação frouxa nos aspirantes a artistas, um conhecimento raso, uma falta de interesse por explorar outras linguagens e conhecer a sua minimamente.

O artista tem que ver e sentir e respirar e conhecer arte. Tem que conhecer a história da arte. Conhecer sua própria história para saber contá-la. Bobagem achar que construímos no nada. Nós somos a afirmação e negação de nosso passado. E só nos inventamos nele e a partir dele. Construímos nosso corpo através da arte e da história que ele traz, que ele viu, sentiu,viveu ou imaginou.

O tubarão-branco é o dono do pedaço. Está ali sozinho, tudo dominado. Mete medo em todo mundo, está sob os holofotes marinhos como o porreta. Mas então vem a orca, sua história, sua cultura, sua manada dentro de si, e liquida o tubarão. Não adianta mostrar os dentes, ser valente, achar que é o “rei da selva”. Porque o corpo com história, com cultura, em diálogo com a tradição e a técnica, vem e põe – e expõe ao ridículo – o peixe de barriga pra cima. E afoga esse valentão, cheio de dentes, mas cego. Burro. Limitado à ação de matar sem criar.

E a arte de criar através da história de um corpo?

Aí, é com Tadashi, Luis Arrieta e as baleias...



GVT.

quinta-feira, março 31, 2011

Parabéns, senhor prefeito, pelo nosso aniversário!!!

O prefeito de Salvador está de parabéns. A nova coreografia do Balé Municipal, acompanhada da Orquestra Sinfônica da Cidade de Salvador, embelezou ainda mais nosso novo Teatro Municipal.

Este espaço, recém inaugurado, caiu como uma luva pra cidade. Localizado no centro de Salvador, as dez salas de ensaio, o espaço experimental, com capacidade pra 300 pessoas, e a sala principal, com um total de 1.200 lugares, acabou vindo na esteira da criação da Secretaria de Cultura do Município.

Com o novo recapeamento da cidade, que agora conta com ruas asfaltadas em nível internacional, pode-se chegar ao Teatro Municipal através dos bondes modernos que foram criados para interromper o fluxo contínuo de carros. Agora, com esses bondes, basta se deixar o carro ou chegar de ônibus ou metrô no estacionamento subterrâneo, e de lá passear pelo centro admirando a reforma que trouxe uma nova vida à cidade.

Com a interrupção do desmatamento, nosso prefeito seduziu as construtoras a revitalizar prédios antigos, ao invés de construir mais e mais coisas, numa ação que era totalmente burra; deixava-se imóveis belíssimos, espaços obsoletos no centro pra fugir para a periferia da cidade, fazendo fronteira, já, a outros municípios.

Fiquei também orgulhoso de ver como todas as nossas praças foram reformadas. A ideia de fazer anfiteatros e barraquinhas nas praças, retirando ambulantes das ruas, acabou por trazer as famílias de novo ao seu passeio de fim de tarde, às atrações de final de semana porque, sim, a Secretaria de Cultura passou a incentivar as artes da cidade e não tem final de semana que não haja programação de boa qualidade nas praças.

As novas lixeiras, banheiros públicos e passeios planejados vieram a deixar mais belo ainda o projeto das novas barracas de praia. Pistas de ciclismo, boa acessibilidade, tudo isso transformou a orla de Salvador num espaço moderno e sedutor.

A política de incentivar uma urbanização limpa e pensada já há tempos cessou com os engarrafamentos. Pouca gente pensa em sair de carro de sua casa, pois a interligação entre metrô, ônibus climatizados e bondes modernos, funcionando de forma regular até às 2hs da madrugada, trouxe menos barulho, menos poluição e menos violência e mortes no trânsito.

É bom ver que agora as pessoas vêm a Salvador pra assistir sua arte, apontando para o futuro. Viramos uma referência em todos os ramos da arte e o Museu de Arte contemporânea inaugurado há pouco tempo nos colocou de novo no cenário internacional de forma sensacional.

Foi-se o tempo em que as pessoas vinham ver aquela cidade folclórica, de gente suja e pobre, de arte tosca e carnaval desorganizado. O prêmio concedido pela UNESCO ao planejamento feito no nosso último carnaval trouxe investimentos e o carnaval do ano que vem promete revolucionar a economia local. Agora, as pessoas não vêm mais para o carnaval, elas aproveitam o período para assistir bons espetáculos, coreografias, ver nossa orquestra e balé no Teatro Municipal. O incentivo da Secretaria de Cultura do Município à música local potencializou nossa criação e hoje dificilmente se consegue assistir apresentações musicais se não se comprar o ingresso com antecedência. Os grupos instrumentais de Salvador acabaram por esvaziar as grandes bandas de carnaval devido à demanda dos espaços novos, dos anfiteatros nas praças, o soteropolitano, depois dessas iniciativas do governo, passou a consumir todo tipo de arte local e paramos de ser os provincianos que ficavam atrás de xous de Lenine, Ana Carolina, etc., bem como espetáculos de globais. Com os novos incentivos da prefeitura, a produção local tomou um gás e hoje em dia está difícil achar espaço pra atrações de fora, visto que o prestígio local dos artistas vêm lotando teatros e praças.

Claro que tudo isso se deve, também, à revolução na educação. A qualificação, reciclagem e capacitação dos professores, que tiveram aumentos na ordem de quase 300%, tudo isso acabou se refletindo nas salas de aula. As escolas municipais, reformadas, ficaram mais atraentes e uma geração de meninos preparadíssimos começou a surgir. Grandes professores da rede privada migraram, devido às condições e metas da prefeitura, para o ensino público e uma pequena revolução foi feita.

Muito se poderia falar, parabenizando nosso prefeito. Não citei nem metade. Mas, pra eu não perder a fama, faço aqui uma crítica da minha área, a arte.

Com essa urbanização fantástica, essa revolução na educação e o surgimento de novos teatros, espaços e museus, nossa produção aumentou muito. O governo conseguiu dar conta disso através de recursos próprios e acordos com a iniciativa privada. Temos, hoje, vários grupos de teatro, de dança, grupos musicais residentes em espaços públicos e privados, com programação constante e rica. Nossa orla virou referência nacional e nosso sistema de transporte, também. Com o fim da violência urbana, o soteropolitano passou a sair mais, ter mais tempo com trânsito livre, passou a frequentar mais a cultura local.

Sim, e qual é a crítica? O problema é que a maioria dos teatros está com as temporadas dos grupos de dança e teatro esgotadas. Essa ideia de vender ingressos pra temporadas inteiras está afastando o turista. Precisa-se de uma política pra que o turista que chega num de nossos novos hotéis baratos e confortáveis possa curtir a cidade e sua cultura. Referência que somos, agora, de arte, as pessoas vêm aqui assistir nossas criações e não acham ingressos. Claro que sempre haverá opções, com as barracas de praia novas, nossa orla fantástica, todo o sistema turístico implantado na cidade... Ah, não falei dele!

Bem, o NST, Novo Sistema Turístico, aliou  avançado sistema de transportes, a revitalização das praças, calçadas, a criação de banheiros públicos, lixeiras, barracas para atendimento, tudo isso se juntou a um mapa turístico pensado da cidade. Hoje em dia, você chega em qualquer lugar histórico da cidade e encontra um sistema informatizado com toda a história do local e explicando como foi o processo de revitalização do entorno. O mesmo sistema está sendo implantado, agora, nos espaços culturais da cidade. Mas isso seria um outro texto.

Senhor prefeito. Não adianta criar um teatro municipal maravilhoso como esse, subvencionar as artes, revitalizar monumentos, espaços, praças, ter um sistema de transporte qualificado. Como o turista poderá usufruir disso? Quis assistir à nova coreografia do Balé da Cidade de Salvador e a mulher da bilheteria disse que os ingressos para a temporada 2011/2012 estão esgotados. Eu, como soteropolitano, não estou tendo chance de ver o balé da minha cidade, a orquestra da minha cidade. Imagine o turista?

Parabéns, senhor prefeito. E espero que um dia você exista. Porque a atual conjuntura é desesperadora e as perspectivas dos próximos prefeituráveis são péssimas.

Parabéns, senhor prefeito. E conte com meu voto.



GVT.

sexta-feira, março 25, 2011

O amor sem tempos de cólera


Deixe ela entrar era um daqueles filmes que, sempre que alguém comentava, eu ficava com vontade ver. Mas passado um tempo, eu esquecia e deixava o filme sair da minha cabeça.

Dessas TVs por assinatura, aproveito praticamente o futebol, os desenhos animados de Seth MacFarlane e os programas do History Channel e do National Geographic. Tenho aversão a seriados e não gosto da imposição de horários dos filmes que, sem aviso da empresa, muitas vezes me pregam a peça de serem filmes dublados.

Pois hoje um canal de filmes anunciou Deixe ela entrar, filme sueco que haviam dito pra mim que era um filme sobre vampiro, filme de terror, sei lá o que mais. Na descrição do canal, eles botaram “romance” e eu pensei; que idiotas. Ao final do filme, vi que o idiota era eu.

O filme não é de terror, não é de suspense. É um filme sobre o amor, da forma mais pura que ele pode aparecer; acontecendo.

Centenas de filmes são despejadas no mercado mundial por semana, e boa parte deles tenta pegar o espectador pela emoção, pelo sentimento. São filmes comerciais, praticamente todos, que são alçados a algo mais valioso porque tocam as pessoas, porque tratam de assuntos que as pessoas se identificam e, no fundo, querem ver, ouvir aquilo.

Assistindo a um episódio de American dad, do qual um dos criadores é o Seth MacFarlane citado acima, vemos o alienígena do desenho fazendo um papel de vilão que quer matar o mundo todo de emoção. Ele havia criado um filme que faria as pessoas chorarem até morrer. Era um filme de um retardado mental judeu que tinha um cachorro com câncer. Enfim, uma sátira mais do que óbvia dos artifícios usados pelo cinema, em geral, pra emocionar, tocar e ganhar Oscar.

Por isso, também, e, talvez, principalmente por isso, são filmes descartáveis. A arte que eu acredito não se encontra na esquina. Uma obra se torna especial pelo que ela traz de incomum, pelo ângulo diferenciado que ela vê a realidade, pelo deslocamento de perspectiva que provoca algo que seja mais do que lágrimas rasas, risos bobos e adrenalina excitante nas veias.

Deixe ela entrar é um filme que fala de amor, e do amor mais puro que pode existir. Não aquele pré-fabricado, pré-moldado, pré-estabelecido pelas convenções, pelos clichês, pelas regras de conduta moral, social e religiosa. É um amor que tem que ser como é o amor; espontâneo, puro, sem conceitos nem preconceitos, sem regras nem receios.

A menina é uma vampira. Mata pessoas para chupar seu sangue. Ela precisa disso. Antes de realmente o menino descobrir que sua amada é uma vampira, ela diz por duas ou três vezes que ela não é uma menina. Ele diz que a quer mesmo assim. Em nenhum momento, se entra na discussão babaca de crises da vampira porque ela terá eternamente doze anos e ele envelhecerá e morrerá. O menino não julga os assassinatos da menina. Não há, no filme, momento algum onde a voz dos adultos nos mostre o que é correto, nos dê lições de moral e nos mostre os caminhos do amor. Os adultos são histéricos, egoístas, frágeis, tensos, alcóolatras, insensíveis.

Os meninos, não. São eles mesmos no que o amor pode lhes deixar ser sem culpa ou medo, receio ou dúvida.

Há uma cena, no filme, que carrega toda uma simbologia. O menino corta sua mão pra fazer um pacto de sangue com a vampira. Ela fica doida com o sangue dele, lambe o chão onde pingou o líquido e manda ele ir embora. Ela sai correndo desesperada, porque poderia ter matado ele, tentada pelo sangue. Mas também porque um pacto de sangue poderia matar o amor deles. A ideia de eternidade, de laços profundos talvez trouxesse ao amor o peso que ele não tem.

O amor é leve, como os voos da menina. Acontece porque houve o olhar, a vontade, a verdade daquele momento. Não se fala em passado. Não se fala em futuro. Não se fala nos outros, em quantos, em quais, nos porquês e nos senões. Eles apenas se amam.

Deixe ela entrar é um romance. Fala de diferenças. Fala de intolerância. Fala de preconceito. Fala do inevitável. Fala da vida. Haverá uma refilmagem roliudiana do filme. Quero ver o quanto os estadunidenses matarão a amoralidade do filme. As quatro primeiras letras da palavra amoral são a m o r. O prefixo “a” entra para negar a moral e se reinventar fora dela.

O filme não é uma obra prima, cai em alguns clichês, se excede nas músicas de fundo. Mas no que ele realmente pretende focar, ele pega na veia. Como a menina, que deixa morto um cara que vai se vingar da morte do amigo e, ao tentar matá-la, o menino atrapalha a ação a tempo de a vampira voar no pescoço dele e matá-lo. E sugar seu sangue. E pronto. Não há discussão sobre o “devia ou não devia ter matado”. O que eles fizeram ou farão. Eles não estão interessados nisso. Estão mais preocupados em olhar o mundo com olhos ainda de crianças e ficar brincando de se comunicar pelo Código Morse.

E ficar, espontaneamente, decifrando o código do amor.


GVT.

quinta-feira, março 10, 2011

Carnaval dos animais


Havia acabado de escrever um texto sobre a “síndrome de Peter Pan” que acomete Salvador, essa vontade de não crescer, e caio no carnaval da cidade.

O carnaval de Salvador é um simulacro, em sete dias, do que é a cidade o resto do ano. Uma soma da inoperância e falta de planejamento dos poderes públicos, um domínio voraz de empresários que fazem o que bem entendem e de forma tosca e a selvageria de um povo que, há muito, parece ter perdido a delicadeza.

Peço, então, que o que se lê aqui sobre o carnaval sirva, guardada suas proporções e alvos, como uma metonímia dos outros 358 dias de civilização e barbárie.

Salvador tem que profissionalizar seu carnaval. E o que seria isso?

Há anos vamos empurrando nossa maior festa sem planejamento, organização e planejamento urbano para o real funcionamento da folia. Como já foi estudado em pesquisas, o carnaval de Salvador é mais pra turista que pra soteropolitanos, visto de mais de 60% deles preferem ficar em casa, outros tantos viajam e a cidade se infesta de estrangeiros, sulistas, mineiros e por aí vai.

Primeiramente, tem-se que ter uma organização pensada, que vá da ordem dos desfiles a cumprimento de horários e tempo de percurso. Passando pela escolha das atrações dos trios independentes e seus artistas, bem como apoios a blocos afros e adjacências.

Não dá pra deixar um bloco da beleza do Ilê Aiyê desfilar na avenida de madrugada, assim como não dá pra se jogar dinheiro fora com afoxés e blocos afro que têm meia dúzia de três ou quatro pessoas que conseguem patrocínios por que “mantêm a tradição das nossas raízes blablablá”. Não dá pra deixar desfilar um trio independente, como eu vi alguns, sem ninguém na pipoca, enquanto o projeto Três na Folia, o Baiana System, artistas da cena local ficam à mercê de convites e xous no Pelourinho; que acho bacana, mas não é carnaval de rua, atrás de um trio, e mesmo assim muitos ficam de fora. Seria preciso repensar a sequência das apresentações para intercalar um bloco com um trio independente, e assim contemplar todos, ou algo do gênero. Pensar o circuito, sua sequência de atrações, um planejamento justo e por mérito.

Segundamente, deveria haver um acordo entre os empresários dos camarotes e os poderes públicos. Tudo bem que o camarote é aquele esquema de “todo mundo na praça e muita gente sem graça no salão”. Ou, como na canção “Carolina”, de Chico, pessoas que ficam vendo o tempo passar na janela. Música eletrônica, animação zero, ou, quando há, algo meio fora do que é o carnaval. Passei por vários, pulando, e vi um monte de gente debruçada com cara de nada, mas deixa pra lá. Os camarotes existem e não dá pra ser bobo de ficar com um discurso “abaixo os camarotes”. 60 demais. O que se precisa é organizar, dialogar, fazer troca de benefícios com a cidade.

Nada contra os camarotes que ocupam casarões, andares de prédios e de bares. Mas as megaconstruções que atrapalham, espremem e enfeiam o circuito mereciam ser limitadas urbanisticamente, e construídas num prazo mínimo, sob pena de multa. A cidade parar um mês antes pra construção de mondrongos que beneficiarão o capital privado é algo louco, absurdo. Se fosse ao menos para obras públicas, que beneficiariam a população com um todo... Enfim, fazer o que? Propor aos camarotes que em seus andares térreos fossem construídos postos de saúde, banheiros, propostas de utilidade pública. Por que não a instalação de câmeras no circuito, que poderiam ficar ali para futuramente ajudar na segurança das ruas? O simples pagamento de imposto não serve, sabemos que é um poço sem fundo e, entre sonegação, fiscal corrupto e políticos que desviam verbas, sabemos que pagar imposto é um benefício que garante, no máximo, o exorbitante salário que os políticos ganham para, em sua maioria, fazer apenas pelo seu bolso e partido, e nada pro povo.

Terceiramente, quero falar das empresas patrocinadoras e os governos estadual e municipal. O grande nó. A tragédia.

O carnaval de Salvador precisa de organização. Pensada. Planejada. Precisa que as transversais dos circuitos, os chamados “becos”, sejam áreas de livre circulação, proibindo isopores, foliões parados para observar a folia. E com banheiros públicos dos dois lados. Banheiros públicos mais viáveis, com canaletas e uma porta única, para complementar com os químicos, para necessidades maiores e para as mulheres. E banheiros do Itaú, da Schin, da Credicard. Ao invés de balões, leques e aqueles porretes chatíssimos infláveis, que os babacas usaram nesse carnaval de forma insistente e desagradável, essas empresas tinham que patrocinar banheiros públicos. As cervejarias deveriam criar espaços para venda de cerveja, e receptáculos para se jogar as latinhas. Por que não imaginar uma festa com pessoas jogando lixo no lixo? Precisa a barbárie de mijar e jogar latinhas no chão?

O lucro é muito grande. Mas só se pensa no lucro, nunca nos benefícios que poderíamos ter. Quando acontece uma copa do mundo, uma olimpíada, a cidade sempre fica com estruturas, construções e resoluções urbanas como herança, há sempre benefícios para a cidade. Com nosso carnaval, que é anual, teríamos que ter o mesmo. Imaginem 10 anos de carnaval com benesses para a cidade como banheiros públicos, estruturas de segurança, planejamento da funcionalidade dos serviços?

Em algumas capitais, para se pegar um táxi comum, tem-se que se dirigir a um guichê, onde o preço por local é tabelado, e de lá a pessoa é encaminhada ao primeiro da fila de táxis. Impossível fazer o mesmo em pontos estratégicos da folia? Não, falta vontade política. Falta se pensar a segurança do carnaval com prevenção, com postos de observação, policiais infiltrados em blocos, atenção a grupos que, claramente, estão à procura de confusão. E não aqueles brucutus empurrando a gente com cassetetes e socando e estapeando as pessoas (algo que às vezes é inevitável, não sejamos politicamente corretos para ter pena de vagabundo excessivamente, também, até a hora que acontece com a gente).

Bem, eu poderia falar do quanto as cordas de bloco, a segregação provoca a violência, visto que saí em trios sem corda e não vi confusão. Poderia esculhambar mais com camarotes. Falar da iniciativa de Saulo que deveria ser obrigação de todos os artistas, sair um dia sem cordas pro povo como contrapartida por usar a via pública para encher as burras de dinheiro. Poderia falar do babaca que, em pleno século XX, ainda vê cor e opção sexual como questões que diferenciam os homens, na cena deplorável com Márcio Vitor. Mas isso muita gente já falou demais; o que acho importante e fundamental.

Eu quis, aqui, apenas sugerir e provocar coisas que fogem ao meu controle, pois sou um ignorante quase completo em termos de organização, produção e urbanismo. Mas que ao menos as asneiras que eu falei possam provocar alguém a repensar nosso carnaval de forma profissional. Mesmo com tudo isso, vi muitos se manifestarem dizendo que esse foi o melhor carnaval de suas vidas. Eu também adorei. Mas é preciso profissionalizar nosso carnaval, vê-lo como um investimento para a cidade, para o turismo, para a cultura. Não deixar ele ser essa bagunça vergonhosa que foi esse ano. Essa porcaria institucionalizada. Essa desorganização que muitos querem que seja nossa forma de ser.

Aliado a tudo isso, ainda há o comportamento cada vez mais bárbaro, bruto, deselegante, maleducado, porco e desleixado que é o espetáculo dado pela nossa população de todos os níveis sociais. Não podemos fazer vista grossa a esse lamentável fato de que não colaboramos em nada com o bem geral. Como disse no texto anterior, queremos sempre culpar governos, empresas, mas macaco não olha o próprio rabo, e precisamos tomar consciência e sermos mais delicados e gentis com os outros. Gentileza gera...

Bem, o carnaval é um investimento. Onde, por enquanto, as empresas investem em si; os governos disfarçam ações; a elite se isola em cordas e campos de concentração; e o folião se mascara de alegre e deixa a banda passar...

E, com licença, que depois da maravilha que foi Moraes Moreira, Armandinho e seus irmãos e mais alguns, vou ali ouvir Saint-Saëns, se é que me entendem...


GVT.

ps: Desculpem pela dimensão do texto... E ficou tanta ideia de fora...