because I am involved in mankind; and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee.
John Donne

O pianista Ricardo Castro é uma ilha no atual governo. Principalmente no que tange à cultura. Em entrevista recente à revista dominical Muito, no jornal A Tarde, Ricardo Castro expôs idéias – algumas que eu já conhecia – que reafirmaram o que eu já pensava; ele é uma nota dissonante na atual gestão – ou falta de gestão – das artes na Bahia.
Sem precisar ir pra nenhum congresso nem simpósio na FACOM-UFBA pra discutir o que é cultura, nem tampouco sem fixar a nota única que os gestores da cultura arranjaram pra dizer que fazem algo, que é descentralizar e interiorizar a cultura, Ricardo expõe idéias, utopias, conceitos, é objetivo e claro.
Se espremermos das pessoas que estão ferindo, digo, gerindo nossa arte, ouviremos questões vagas, idéias difusas, enfim, uma falta de direcionamento, de uma efetiva política cultural que contemple nossa riqueza, nossos profissionais, um pensamento que aponte para um futuro melhor, mais digno e sofisticado.
Ricardo Castro quer ter uma orquestra completa, que possa tocar Mahler. Sim, Mahler, ele não falou Maracatu. E qual o problema? Ele acha uma vergonha não termos uma orquestra completa. Ele quer contratar mais músicos, ao contrário do desmanche que tentam fazer em outras áreas, pois na atual gestão um artista ganhar dinheiro é privilégio. E mais, acha um absurdo não termos um teatro – ele até já deu o nome; João Gilberto – onde a orquestra possa tocar em dias nobres. O congestionamento do Teatro Castro Alves, pra ele, é um despautério. Ele quer que a Orquestra Sinfônica da Bahia cresça, se aprimore, tenha um programa mais efetivo, um teatro próprio (enquanto os gestores deixam os poucos que temos às moscas, basta ver o Solar Boa Vista, o Espaço Xisto, etc.).
Seu projeto Neojibá pretende profissionalizar meninos de todas as cores, cidades, crenças e castas sociais, para serem futuros excelentes músicos que possam enriquecer nossa orquestra e fazer parte do corpo estável de qualquer boa orquestra do Brasil e do mundo. As fronteiras já estão se abrindo, e bons músicos estão surgindo. Não é projeto social de inclusão pra formar um bando de desafinados, é um projeto de profissionalização. Coisa que a música erudita traz em sua organização, sua estrutura, sua formação, diferente de áreas como o teatro onde tudo pode, tudo serve e ficamos soltos num amálgama difuso de valores e princípios.
Quando Ricardo Castro fala em fundar uma escola de música, de nível internacional, na Chapada Diamantina, por exemplo, ele não enfeita seu discurso com uma comiseração e culpa, mas sim com objetividade e clareza. É um processo de abrir portas através de uma estrutura sólida, competente, baseada em técnica, estudo, eficiência. Não é dar esmola ao interior, mas ampliar o raio de ação da cultura, da arte, que pode e deve ser universal e atingir todos os cantos; mas sem perder de foco a excelência.
Ricardo Castro tem, em seu discurso, uma evidente política pública para a música clássica, de concerto, erudita, como queiram. Critica as estruturas, pensa grande, tem sonhos, quer uma profissionalização. Sua objetividade contrasta com a falta de idéias, conceitos e políticas que possam delinear algo de interessante para as artes. Passaram-se dois anos e ainda discutimos, nos reunimos, e o governo vem com a desculpa de que “nos últimos 16 anos”, blábláblá, ainda. Botem nos últimos 18, agora. E daqui a dois anos, nos últimos 20. O tempo passa e não vejo políticas públicas, não vejo um visionário que pense grande, pra frente, objetivamente e com idéias arrojadas para tirar as artes baianas do fosso que eles mesmos estão ajudando a cavar, cada vez com mais evidência.
Ricardo Castro é uma ilha. E eu já sei por quem dobram os sinos.
GVT.