sábado, novembro 08, 2008

Mahler, OSESP e a anti-Bahia

Gustav Mahler é um dos meus compositores preferidos. Rechaçado por alguns radicais que tacham suas composições sinfônicas de irregulares, Mahler veio bagunçar o coreto restabelecido por Brahms, numa reação ao wagnerismo que assolava a Europa.

Pela via clássica, Brahms buscava as antigas estruturas, pela via filosófica, Nietzsche combatia o pessimismo, o catolicismo, o anti-semitismo e o misticismo exacerbado de Wagner, buscando antídotos a algo que se agigantava aos poucos e que culminaria, no povo germânico, em algo não muito bom para o século XX. Mas isso são outros quinhentos...

Voltemos a Mahler. Mesmo de sangue judeu, Mahler continuou sua reverência a Wagner, mas trouxe um molho especial à sua música, que misturava o popular com o cerebral, o militar com o telúrico, sua música representava a crise dos impérios, o ruir de século XIX, a dissolução de verdades que pareciam dominar o mundo e sucumbiriam com a primeira grande guerra.
Sua primeira sinfonia em ré maior, apelidada Titã, já revela o compositor que criaria algumas das mais belas, estranhas e marcantes melodias do século passado. Destaque para o terceiro movimento, onde a canção popular Bruder Martin (versão alemã do Frère Jacques) começa a levar-nos a um mundo sombrio – num solo de contrabaixo – e que vai, de forma genial, descambar para uma música de cabaré, com naipes de metal soando como numa big band. O popular como inspiração. Como princípio e meio. E a arte como fim.

A OSESP, sob a batuta de John Neschling, soube traduzir muito bem este espírito, e merece aplausos por conseguir tocar este compositor difícil e complexo, cuja obra pode sofrer de certa miopia por conta de caretices. Mahler sempre buscou o popular, buscou ser popular – em sua medida – e dialogou em seus lieds e sinfonias (a obra dele é praticamente dividida entre essas duas formas) com melodias folclóricas, com poemas folclóricos de vários continentes (ele não era um nacionalista estúpido), como também assim o fizeram quase todos os compositores eruditos, que de eruditos não tinham quase nada – boêmios, festeiros e sem aquela pompa digna dos acadêmicos que se seguram nisso para ter respeitabilidade, pois não passam de carreiristas sem talento, em sua maioria.

Penso que o artista deva transubstanciar a realidade que o cerca. A arte começa onde acaba a vida. É naquele ponto onde a criação se ilumina e transcende o real, o palpável, que vemos brotar a obra particular de um mundo fantástico, onírico, espelho retorcido de uma realidade dura, metamorfose efusiva de uma vida morna.

Por motivos que não quero perscrutar, uma histeria generalizada tomou conta da nossa terra em busca de raízes, de identidade, um desespero em se apegar ao passado, em categorizar, delimitar e dividir a sociedade. Buscamos uma legitimidade que nunca existiu, e vemos a todo instante uma segregação pensada para encher o bolso dos que organizam congressos, movimentos, associações e grupos artísticos que – ao contrário do nosso querido Mahler, se apegam sofregamente ao que de mais real existe para eles, num equívoco cultural imenso, para se fortalecer – empobrecendo a linguagem, a obra, a arte.

Pelo menos, John Neschling não precisou dizer como os aspectos de uma música estrangeira seriam incorporados ao universo da Bahia, dos artistas e dos espectadores. E nem precisou esclarecer como a sinfonia pretendia exercer impacto e diferenciação no contexto soteropolitano. E trouxe um pouco de anti-Bahia para aqueles que, como eu, ainda acreditam na arte como algo universal, sem fronteiras, e que só nos faz crescer ao nos fazer apreciar o diferente, o novo e o inusitado.

Palmas para a OSESP, que trouxe um Mahler bem executado e com o molho na medida certa. Fico até curioso em saber se a levantada dos metais, em partes pontuais da obra, era algo previsto ou invenção da orquestra. Ficou bem interessante.

Palmas aos sucessivos governos de São Paulo que legitimam a arte mais complexa, subvencionam a pesquisa – ao contrário de alguns estados que questionam a existência de núcleos de criação artística, apontam pretensos favorecidos, pulverizam verbas numa estúpida reparação não sei de quê –, e criam novas salas, novos espaços, pesquisa e dignidade, trazendo para o Brasil prêmios como os dois Diapason D´Or (um dos três maiores prêmios de música clássica do mundo) que a OSESP ganhou pelas suas gravações dos Choros de Villa-Lobos.

Um povo só cresce se avança, se olha pra frente, se estuda e se aprimora. Uma sociedade que louva seu primitivismo e faz dele a mola-propulsora de sua cultura e de sua arte, acaba por se enredar numa trágica caricatura de si mesma. O popular é o que existe, o que emana, é nossa vida, nosso dia-a-dia, nosso jeito de ser. O popular é nossa essência misturada, inautêntica e forte. E além disso, somos o que? Apontamos pra onde? Ficaremos sempre passeando entre a Casa Grande e Senzala?

Não há maior opressão do que segregar legitimando a diferença.
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4 comentários:

Ana Paula Carneiro disse...

... E pensar que essa febre de identidade vem falsamente embasada em algumas idéias de homens como o sociólogo Darcy Ribeiro, que chamou o produto das nossa matrizes étnicas de NINGUÉMDADE. Um neologismo proposto para dar conta de tudo que podemos ser. não só como um espelho baço do que já foi, mas com a concretude de todas as somas possíveis.
Ana Paula Carneiro

drmukti disse...

Creio que há opressoes maiores, mas esta é a maior perversão social das últimas décadas.

Vicente de Percia disse...

SEM DÚVIDA A OBRA DE MALER É UM REFERÊNCIAL NA MÚSICA CLÁSSICA.HÁ COMPOSITORES QUE SE DESTACAM POR RUPTURAS E ABERTURAS DE NOVAS TAREFAS CRIATIVAS.O MUNDO DA MÚSICA CLÁSSICA,NO SEU HISTÓRICO,DIAGNÓSTICA E RETRATA CICLOS IMPORTANTES.UM DOS EXEMPLOS É A QUESTÃO DO ROMANTÍSMO NA OBRA DE RICHARD WAGNER.EM JANEIRO LANÇAREI PELA EDITORA BOW ART INTERNATIONAL E DEMAIS FILIADAS O LIVRO:"VERTENTES DO AMOR E MORTE",COMO TÔNICA A ÓPERA TRISTÃO E ISOLDA.NO ORKUT ACESSEM A COMUNIDADE AMO RICHARD WAGNER.EM TEMPO PARABÉNS PARA O NOVO IMORTAL DA A.B.L. LUIS PAULO HORTA(crítico de música clássica de O Globo,Rio,RJ) Vicente de Percia

Vicente de Percia disse...

Errata:Mahler -Vicente de Percia.
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