
Salvador tem 3 milhões de habitantes. Com imensa desigualdade social, cultural e intelectual, estamos numa imensa província. Contudo, mesmo na província, existem guetos de resistência onde se podem achar afinidades e coerências estéticas minimamente afinadas.
Estive ontem no TCA para assistir a uma récita empolgante de Cristina Ortiz, pianista baiana que muito cedo, pra sua sorte, trocou a Bahia pelos palcos estrangeiros. Num concerto de repertório variado, pude ouvir o que ela chama de “mostrar o colorido da música”. Talvez, para os ortodoxos acostumados às versões pesadas e austeras de certos pianistas europeus, o concerto tenha sido um tanto quanto exagerado.
E talvez esteja aí a pedra de toque de Cristina Ortiz, brasileira e baiana. Ela relê com olhos novos e sensuais a música, dissecando a partitura como um bom diretor de teatro disseca uma peça, pra extrair dali tudo que ela pensa ter passado pela cabeça do compositor ao escolher tal nota, tal frase melódica, tal arpejo. Arte de primeira. Clássica e baiana.
Enquanto discute-se, incansavelmente, o berimbau, me vi num TCA incompleto, sem uma casa cheia que pudesse apreciar um momento de música universal. Sim, porque a Bahia talvez seja um dos últimos redutos onde se tem a idéia equivocada de se combater uma “cultura européia”. Os próprios europeus, bárbaros em sua grande maioria, tiveram a grande esperteza de copiar, roubar ou se inspirar em outras culturas pra criar a sua, sem constrangimento, sem que nenhum europeu lutasse pela legitimação da cultura européia.
Alguns podem até dizer que o preço era caro: havia ingressos a 30 reais (inteira). Bem, se paga isso ou mais do que isso para muitos eventos na cidade. Poderiam dizer: a música erudita é pra poucos, poucos consomem. Posso até concordar, mas vamos aos números. Salvador tem 3 milhões de habitantes. 10% disso são 300 mil. 1% é 30 mil. 0,1% são, portanto, 3 mil pessoas. Preocupa-me (ou até mesmo desespera-me) que 0,05% da população da cidade não tenha se interessado pelo concerto de uma pianista baiana de renome internacional.
Em Salvador, as pessoas têm desculpas inusitadas para não ir a concertos, espetáculos, recitais. Dizem que estão cansados do dia inteiro de trabalho e só pensam em descanso ao fim do dia ou no final de semana. Certo. Isso significa que o baiano trabalha bem mais que os paulistas, os parisienses, os novaiorquinos? Possivelmente. Pois lá, se vai a concertos, espetáculos de dança, de teatro, de música. Preço dos ingressos? Os bares de Salvador vivem entupidos de pessoas torrando dinheiro em lugares que cobram fortunas por um tira-gosto e uma cerveja. E não há xou de pagode, de Ivete, Barradão e xópim center que não esteja lotado.
Enquanto se defende por aí uma cultura primitiva, rudimentar, dissociada de padrões e técnicas que evoluíram ao longo dos séculos em todos os continentes, Salvador vai ficando pra trás em questões artísticas, forçando seus talentos a saírem daqui. O artista, cada vez mais deslocado, não tem espaço em nossa sociedade que, superficial, não consegue dialogar com a arte que fuja dos padrões pré-concebidos pela mídia e pelo apelo popular.
Sabe-se de toda desigualdade, diferença, falta de uma boa educação em casa e nas escolas, falta de leitura, tudo isso. Mas se 0,1% dos baianos fosse ao teatro, pagando ingressos e sem carteiras falsificadas, teríamos espetáculos lotados, gente voltando da porta do TCA pra assistir Cristina Ortiz, e, consequentemente, artistas podendo pensar na hipótese de viver de sua arte em sua terra.
Será 0,1% pedir demais?
GVT.