Por Gil Vicente Tavares

O teatro está cada vez mais deslocado da sociedade. È uma manifestação à parte, marginal. Vejo isso em minha cidade, onde batalho por um espaço maior de abrangência e relevância.
Mas reflexos do deslocamento são apontados em vários exemplos claros. A começar pelo público, tão perdido quantos os artistas com essa coisa (pra citar minha parceira, no texto abaixo) chamada teatro.
Estamos cada vez mais informados, antenados; mas ignorantes. Sabemos de tudo um pouco, mas não nos aprofundamos em nada. O público alimenta-se de Dan Brown, de Steven Spielberg, e a mídia transforma em cult o que era pra ser cultura de massa, e a cultura de massa vira cult. Há uma ditadura da mediocridade que une revistas semanais, prêmios, jornais e público numa espiral de elogios ao que é medíocre, e todos se alentam de poder ler Paulo Coelho, assistir ao vencedor do Oscar (nada contra eles, não os conheço muito bem) e se achar no rol de pessoas com excelente atividade cultural.
Inclusive, o termo cult já me dá coceiras, e acho que não há nada menos cult do que o teatro. Basta ver o lado artesanal dessa arte. È feita no momento, sujeita a falhas, mal-remunerada e sempre querendo ser popular, em qualquer âmbito que seja esse popular.
Não imagino um dramaturgo, diretor ou ator que não queira público. E público especializado é uma balela. Qualquer ser humano capaz de se comprazer com Machado de Assis pode curtir um Beckett. E Beckett não é difícil, os outros é que muitas vezes estão acostumados com o fácil, mastigado, que não estimula uma leitura mais intensa (atividade a qual todos são capazes se tiverem uma fromação para isso).
O que falta é esta leitura; clara, transversal, consciente, crítica, sistemática. Sem isso, o cérebro atrofia e entra num registro de ondas de mero consumidor, pronto a ser mandado sobre o que assistir, pronto a aceitar o que os meios de comunicação incensam. Pronto a ser massa dessa cultura.
Mas vivemos num certo limbo. Salvador é a terceira cidade do país. Todo dia ergue-se um novo prédio de luxo na cidade. O preço do teatro não é caro – basta ver as filas imensas nos cinemas de xópim. E cadê o público?
Estamos deslocados da mídia. Uma atriz como Yumara Rodrigues era pra ser apontada na rua como uma sumidade, mas ela é muito mais insignificante do que o apresentador do jornal do meio dia ou do que o cantor da nova banda. Não consigo acreditar que uma peça que contenha o nome dela não atraia multidões. Uma excelente atriz. E nossa atriz.
Mas aí entra a grande questão. Não valorizamos nossos artistas. Se qualquer pau-de-arara aparece na novela das seis da Globo, num instante é içado a estrela e vira sumidade. Sei que não podemos combater o poder da TV, mas a própria TV, bem como jornais, os meio de comunicação em geral, não abrem espaço pra artistas locais. Basta ver a profusão de boa música que há na cidade. Costumo dizer que Jarbas Bittencourt, Ray Gouvêa e Arnaldo Almeida (que compõem, juntos, a Confraria), são melhores compositores do que toda essa safra de novos talentos que infestam nossas rádios, com violão de aço tocando aquela batidinha insuportável de funk que mais parece trilha sonora de filme adolescente de sessão da tarde. E quem sabe de Jarbas, Ray, Arnaldo?
Não se estampa a cara desse povo, do artista do palco, que precisa ser conhecido. Formam-se pequenos guetos de resistência que se retro-alimentam de forma subnutrida.
Estamos deslocados do empresariado baiano. Temos leis de incentivo que não oneram o empresário e ele ignora, como o Viva Cultura, da prefeitura. Temos o fazcultura, que onera em 20% do valor do projeto o bolso do empresário. E por que não um patrocínio direto? Impossível.
Parece que os empresários esquecem que uma peça de teatro divulga o nome de sua empresa durante um mês, ou mais, tanto em outdoor, como busdoor, como chamada em Tv, rádio, banner na frente do teatro, agradecimentos e eles. Com isso, têm um retorno claro do seu investimento, pois são capazes de pagar R$18.000,00 para ter meia página de um jornal, por um dia só, mas não liberam verbas que retornarão pro seu bolso através de isenção fiscal, por exemplo.
Deslocados, perdemos a noção da nossa arte. Não temos parâmetros, retorno crítico, numérico, nem entusiasta. Ficamos uma coisa à parte, se debatendo pra achar identidade, rumo, público, verba, espaço, notoriedade, mas marginais a toda uma malha social de funcionamento da cidade.
Vejo o entusiasmo incauto de certos públicos que fazem uhu ao final da peça, e de alguns que se julgam capazes de analisá-la, e percebo que algo ficou pra trás. Não houve um acompanhamento da evolução da linguagem, da estética, inclusive por parte dos artistas. Todos parecem cegos em meio a um tiroteio de achismos, de vanguardimos obsoletos, de fórmulas teledramáticas.
É difícil pensar no profissionalismo. Ainda mais quando o discurso do poder e dos editais e patrocínios é pulverizar as verbas. Faz-se mais coisas sem que ninguém ganhe pelo seu trabalho dignamente. Será que teremos que voltar aos tempos em que se “trabalhava” de dia pra se “fazer teatro” de noite?
É difícil repensarmos-nos. Deslocados, ficamos qual Sísifo, inutilmente a nos avaliarmos, nos criticarmos, nos profissionalizarmos e criarmos. Nossa referência é endógena. A distância entre nós mesmos e entre nós e o grande público é grave. O teatro alternativo, experimental, conectado com estéticas que reverberam mundo afora, está mais deslocado ainda. Nossa referência é somente a da novela das oito e do filme do oscar. Teremos que no vender?
Modigliani, pobre pintor genial, recusou um contrato, pois o empresário queria que ele colocasse as bolinhas dos olhos das mulheres que ele pintava.
Ele recusou.
GVT.