quinta-feira, julho 12, 2007

A COISA

Por Jussilene Santana
A Coisa

Parece simples.

Mas definir hoje o que é teatro é um grande desafio.

Talvez porque ex-pós-modernos tenhamos assistido a implosão dos conceitos e ideologias pela tela da TV.

Talvez porque, agora, mais do que nunca, tenhamos percebido que só durante UM CURTO período da História da Encenação o teatro tenha sido aquilo que alguns de nós acreditamos que ele ainda deva ser: um lugar onde uma ou mais pessoas se apresentam para outras que observam. Um lugar (mesmo que forjado momentaneamente) onde a partir de metáforas, símbolos e outras técnicas (não necessariamente com tecnologias), criamos um mundo paralelo, que nos ensina algo sobre este mundo.

E aí, claro, a noção de teatro estaria submetida à história de sua própria arquitetura. Bom, é importante ressaltar que quando falamos em História do Teatro estamos falando de uma porção de coisas ao mesmo tempo: de capítulos da História da Religião, da Dramaturgia, da Literatura, etc... Sim! Também da História da Loucura, por que não?

As diversas tendências cênicas em curso no século XXI demonstram esse não-limite. Desenvolvidas/repercutidas/rejuntadas a partir de meados do século passado (o XX), elas colocam em questão exatamente o que se chama de “três pilares sagrados” do fazer teatral: o lugar (onde), o ator (quem) e o espectador (para quem). O edifício teatral nunca mais foi o mesmo depois de meados do século XX...

O neologismo etnocenologia, criado pelo francês Jean-Marie Pradier, por exemplo, se aplica a uma nova disciplina (coisa da década de 1990) que sonha em ampliar o "estudo do teatro" para TODAS as práticas espetaculares DE QUALQUER lugar do mundo realizadas POR QUAISQUER indivíduo. Ambiciosa e flertando com a antropologia, ela coloca o teatro ocidental, de tradição grega e/ou “teatro que vem da dramaturgia”, no devido lugar: como uma página do livro das práticas e comportamentos humanos espetaculares organizados. Pobre Sófocles... Talvez mereça uma nota de rodapé!

Num outro canto desta Babel, no Brasil, destacamos (o diretor/mestre de cerimônias) Augusto Boal e seu teatro invisível. Com ele, não só o espaço próprio e sacralizado do teatro é substituído pelas ruas, esquinas, bares e até lojas, como muitos modernos já tinham feito. Com ele, é importante que o espectador tenha consciência de que é espectador e não mergulhe na narrativa, esquecendo o que ele é naquele momento. E melhor: modifique a narrativa, que interfira não mais na estória, mas na História. Enfim, na vida... São óbvias as referências a Brecht e outros teóricos europeus.

Num ousado passo boalino (boalense?) posterior, o próprio espectador é eliminado. E Boal (novamente) concebe o teatro do oprimido – sucesso em mais de cem países – com a intenção sócio-política de libertar a platéia da opressão de apenas assistir a um espetáculo (como se já não fosse o bastante!). A idéia de teatro-ação é levada às últimas conseqüências quando o teatro fórum institucionaliza o rompimento da ação dramática pelo próprio espectador. Este passa a palpitar, a todo o momento, de que maneira a narrativa deve ser conduzida (algo como um Você Decide, só que ao vivo). É a encenação a serviço da comunicação, da psicologia, da política... “Se não pudemos fazer a revolução, que façamos teatro!!”. Ou, sei lá, o contrário.

Aristóteles bateu a testa na tumba. Segundo sua Poética, o espectador assume (e, pior, gosta) da observação, delegando “poderes” para o personagem no palco. Este, o personagem/ator, vive por um curto espaço de tempo EM SEU lugar, concretizando fantasias e delírios.

Em tempos de questionamento político e de participação popular, não é bom seguir o conselho do velho grego e o teatro vira/virou espaço de debate. Literalmente. Quebra-se a hierarquia “ator maior que público”.

Todas estas discussões ocorreram mais ou menos simultaneamente até o golpe final: a exclusão do ator. Recapitulemos: do tripé, já tínhamos limado o lugar e o espectador. Os happenings (acontecimentos), de matriz americana, defendiam a transgressão de todas as leis de elaboração de uma obra de teatro e a própria noção de espetáculo é extinta. A arte é viver. “Sobrevivemos à Hiroxima. A... Auschwitz! Isto basta!”

Com isso, meu bem, surge espaço para todo tipo de coisa. Os grandes eventos de improvisação, o recital lírico-poético, a platéia sobe no palco e tudo vira festa. Bom, é aquela máxima que eu pergunto sobre a Bahia: "Se todo mundo é artista e está no palco, quem está na platéia?"
Quem está na platéia que apague a luz!

É evidente que hoje, de uma maneira ou de outra, herdamos todas essas coisas. Para muitos, inclusive, o que JÁ ERA é o teatro como lugar sagrado, com “texto” decorado, ensaiado e com público sentado. Não necessariamente a melhor coisa a se fazer. E não que muita gente ainda saiba fazer isso...

Por aqui, pelo menos, a platéia quer é participar. Se não pode, apenas ri. Alto.
Jussilene Santana

12 comentários:

Halber Mensch disse...

Adoro quando vc pensa em voz alta.
Pequena correção necessária: no parágrafo que vc fala de Boal tem uma crase antes de Brecht. Tire.

by. Celso Jr.

Lulu/Juju disse...

Cel,
Já está corrigido.
E entendo quando vc fala isso de pensar em voz alta... Eu resisto muito, mesmo no blog, que é o lugar mesmo deste "gênero" de escrita... Geralmente tento escrever como se fosse para a grande imprensa, um texto mais objetivo, mais factual, com informações ao máximo e opiniões controladas. Quando penso em voz alta eu transbordo em ironia, vc sabe.
beijos!

p.s.: ai que vontade de estar em sao paulo! muito frio?

Monica disse...

Eu não ia escrever sobre isso, mas já que li seu comentário acima, fui obrigada a escrever. Engraçado, eu escrevo o contrário. Quando no espaço do blog, eu ligo o "foda-se" para a orientação jornalística de não ser opinativo, de controlar as sensações. Sempre penso, se o blog é a casa da minha escrita (virtual pelo menos), eu vou fazer tudo o que não faço no mundo lá fora: escrevo, ironizo, rio, choro, poetizo, despoetizo, me questiono, afirmo que não sei, ou que sei.
Claro, evitando ser leviana. Mas pensando alto ou em sussurros.
Digo isso, pq acho engraçado notar essa diferença.
E quanto ao texto, realmente, me faço essa pergunta todos os dias diante da cena, ou quando nela estou. Que é isso que é teatro? Para que serve isso que é teatro?
Quando me deparo com um teatro de 1000 lugares, mas só têm 10 pessoas na platéia, eu me pergunto "a quem interessa isso que é teatro?"
Não sei das respostas. Acredito nisso que é teatro, muito embora já não saiba o que ele é. Desconfio que estejamos num tempo outro, fazendo algo de antigamente. Como se andassemos em carroças na Avenida Paralela. Mas também, não o sei. Não o quero fora da minha vida, ainda que o sinta anacrônico.
Enfim...tergiversações.

junesantana disse...

Mônica! Olá!

É verdade, há uma diferença... Inclusive entre mim e meu companheiro de blog. Ele sabe que eu sofro muito para escrever qualquer coisa, porque quero escrever "a coisa" (juro, sem trocadilhos..!) É um vício do jornalismo não-diário (sobretudo do Correio Repórter) e meu mesmo, sei lá... Sempre me senti assim diante de meus textos...
Enquanto que os blogs possuem MESMO esta qualidade de escrita: mais leve, aberta e possível. Esta é a proposta do formato. Na verdade, vejo que é uma resistência minha. Inclusive como leitora. 'As vezes acho que estou perdendo tempo e fazendo os outros perderem o seu.

Quanto ao teatro, caramba, está difícil na contemporaneidade... Tem de tudo um pouquinho. E sem quantidade de gente suficiente para levar UMA idéia adiante, sem qualidade suficiente para torná-la imprescindível para a comunidade.
A solução? A meu ver, é decidir coletivamente o que deve permanecer e o que deve ser esquecido. Sei, isso é polêmico... Mas memória requer seleção. Aprofundamento exige concentração.

beijo!!!
p.s.: e eu fiquei com o gostinho de seu texto de shopping and f...

Manu disse...

Oi, Jussi!!! Agora mesmo que me senti na obrigação de achar a entrevista com Amin Haddad...já tua relação com o blog, também sinto isso, como se eu fizesse os "leitores" perderem o tempo com o que escrevo, embora eles jurem que adorem aquilo lá....bom, gosto não se discute...kkkk. Mas seria isto mania de jornalista? Nunca havia pensado nisso...xiii....no mais....saindo um pouco do tema "Coisa"...lembrei muito de você durante a exibição de " Baixios das Bestas"...não sei, vi muito uma coisa Shopping and Fucking ali...mas não vou contar pra você matar a curiosidade por conta própria...kkkk...mas bem que vontade de gritar: Jussilene Santana ia ficar bem melhor fazendo esta cena!!!!

Beijo!!!

Manu

Anônimo disse...

Manú Furtado pelo Orkut...

Interessante
Bem interessante este teu texto justo na semana em que saiu entrevista com Amir Haddad no Globo , em que se fala justamente do "teatro Você decide" que ele faz...vou te mostrar o texto..tenho ele guardado..mas assim...eu ainda fico com o teatro mais tradicional...é o que ainda me encanta...

Anônimo disse...

Ivan Espinheira Filho

Metamorfocoisificação do Teatro
Essa "metamorfocoisificada" do teatro me assusta, no entanto me instiga, contudo ainda me emociono e faço reverência ao teatro "JÁ ERA" com texto decorado e aquela caixa mágica na minha frente.

Gostei muito do seu texto.

bartter disse...

ju! minha mãe, na sabedoria dos seus 89 anos, diria "é o final dos tempos minha filha".
eu digo que é a história acontecendo, gostando ou não. nas artes visuais (que já foi artes plásticas, que já foi pintura e escultura e arquitetura ... q já foi e é muita coisa e coisa alguma) tem o mesmo processo.
eu continuo fazendo o meu trabalho. se vão chamar de arte ou de etnografia ou etnobarter ou etnoqqcoisa ... eu continuo é trabalhando. não me deixaram alternativa, então sigo eu, mas é bom saber que meus amigos do teatro tb sentem o mesmo, qq coisa compartilhada fica mais leve.

beijos daquela q quer saber qual é da etnocenologia para as artes visuais rsrsrsrs

André Setaro disse...

Sempre é bom e salutar debater e ter um espaço, como o que oferece o blog, para a reflexão sobre o teatro.

Marta Sousa disse...

Em nome do estudo das "práticas e comporatmentos humanos espetaculares organizados", tem gente que está estudando "a maneira como os deputados gesticulam na assembléia"...

Rita Passos disse...

Cara Jussilene,

Este seu comentário sobre "A coisa" reverberou contundente no meu pensar sobre o fazer teatral... Eu também me assusto com esta possível "morte" de um teatro, daquele "teatron", daquele lugar de onde se vê. Bornheim, no seu capítulo "A cena dividida" me deixa um pouco na crença "Não, está crise é criativa..." mas o mesmo também mostra caminhos insondáveis.
Nossa, a multiplicidade vivida na contemporaneidade é fértil, depois que quebrou-se as fronteiras do espaço e com o avanço da tecnologia, as linguagens diluiram-se, ampliaram-se as possibilidades, enfim o caos se tornou criação. Mas também tudo é permitido... Tudo bem!! É uma vantagem estar diante desta multiplicidade e poder sentir o deleite estético de cada uma delas... mas tornar tudo "cena" me dá um frio na barriga...
Acho que ás vezes caminho na contra mão, estou fazendo mestrado no PPGAC e escolhi uma personagem da antiguidade e suas leituras modernas a fim de atualizá-la. Nos SPAs já me falaram "Mas vc tem q descobrir vc mesma nesta personagem..." Já viu não é? Pois é... e aquele trabalho prazeroso e abismal de lapidar o texto, suas falas, suas repirações, de edificar um outro ser na sua estrutura, como é que fica? E a dramaturgia? Dei muita risada quando vc escreveu... Sófocles em nota de rodapé...
Xii, tenho que parar senão minha prosa vai ficar longa demais...
Enfim muito bom e necessário este espaço para o teatro nesta terra. Espero mesmo que estas discussões gerem MOVIMENTO e agente tente "recomeçar por entre os escombros..." B.B.
P.S.: Como estive fora, começei a acompanhar seu trabalho de atriz com "Amantes" e em "Shopping e..." consolidou o que pensava. Vc tem uma construção de personagem realmente peculiar, lúcida e intuitiva. Uma verdadeira "intérprete" de uma boa dramaturgia.

Lulu/Juju disse...

Rita, obrigada por sua gentileza e pela atenção para com meu trabalho.
beijo!