
Wilson Simonal; das paradas ao paredão
Sáb, 30 de Maio de 2009 19:02
"Se não podes agradar a todos com tuas ações e tua arte, tenta agradar a poucos. Agradar a muitos é ruim.”
Friedrich Schiller (1759-1805)
O totalitarismo foi o regime mais combatido e o mais recorrente na história do século XX. Numa tentativa de reconstruir a idéia de império, nações, malucos e fanáticos se lançaram na ambiciosa tentativa de dominar; fosse um quinhão de terra, fosse um continente, fosse a cabeça de um povo.
No pertinente livro de Elias Canetti, Massa e poder, o autor faz um estudo de como nos juntamos em bandos diferenciados de acordo com a hecatombe, com os interesses, com as necessidades. O homem é um animal de bando, como as ovelhas, os búfalos, as formigas. Todos que tentaram remar contra a maré foram atropelados, com raras exceções que, como sempre, confirmam a regra.
O golpe militar, em 64, veio junto com um momento em que as artes brasileiras, até mesmo pelo incentivo ao caráter contestatório de boa parte de suas manifestações, explodiram em talentos e pequenas revoluções estéticas que, juntas, mudariam o panorama das artes no país.
Nesse período surge Wilson Simonal. Um excepcional cantor, embalador de multidões, que só dividia em sucesso, seu espaço, com Roberto Carlos e Pelé; em sua época.
O filme Simonal – ninguém sabe o duro que dei, do humorista baiano Claudio Manoel (juntamente com a dupla Calvito Leal e Micael Langer), consegue acertar em vários aspectos ao tratar da carreira do cantor e da ascensão e queda de Simonal em plena ditadura brasileira.
Com efeitos de animação muito bons, coadunados com a estética do período, entremeando entrevistas e depoimentos, o filme nos mostra o impacto que Simonal causava na imprensa e na platéia. Há um momento marcante onde, num Maracanazinho lotado, vemos uma platéia delirante ao som de “meu limão, meu limoeiro”. É evidente a necessidade de libertação daqueles corpos, presos a uma ditadura que impunha regras estúpidas e violentas, cerceando a liberdade de expressão e de pensamento.
Fenômeno pop, Simonal gravou e cantou com as principais estrelas do país, chegou a fazer um dueto com Sarah Vaughan, e viajou ao estrangeiro com imenso sucesso e repercussão. Criou a “pilantragem”, e várias expressões que se tornaram moda, citadas em gravações como a de “Parque industrial” (Tom Zé) no disco Tropicália, e o famoso “Patropi” que ele inseriu na música de Jorge (ainda) Ben, ao omitir as últimas vogais da famosa canção do compositor.
O filme é imparcial tratando de um momento de polarização, como diz Ziraldo, no filme, e o Brasil se dividia entre bons e maus. Os que não se encaixassem sofriam dos dois lados. Basta ver o caso dos tropicalistas, exilados pela ditadura e considerados alienados pela esquerda, que no mesmo Pasquim que picharia Simonal como dedo-duro, eram apelidados de baihunos.
Muito mais preocupado com o sucesso – apesar de seus momentos de inegável e louvável contestação racial – Simonal queria era rosetar. Carrrões, mulheres, festas, era um playboy circulando pelo Rio de Janeiro. Mancomunado com Carlos Imperial, que não era propriamente o exemplo de um homem santo, vivia gastando, gastando, até que viu que o buraco – em sua conta – era mais embaixo. E a grande reviravolta na carreira de Simonal se deu da seguinte forma. O cantor, com raiva de seu contador – na versão de alguns pela desonestidade deste, na versão do contador porque ele havia sido demitido e tinha posto Simonal na justiça com uma causa trabalhista – resolve dar uma surra, na calada da noite, e forçar o contador a assinar uma carta declarando ser desonesto e ladrão.
Quem faria o serviço? Um pessoal do DOPS, que ele, famoso e bem-relacionado, conhecia, ou teve acesso pelo seu status. O DOPS, polícia especial da ditadura, representava o diabo em pessoa. Truculento, usava a tortura, a perseguição, os meios mais baixos pra interrogar as pessoas, matando muitos brasileiros que contestavam esse período nefasto do país.
Explicações de um lado, indiciamentos do outro, imprensa marrom, sensacionalismos, tentativas equivocadas de livrar a cara de Simonal e pronto; estava armado o circo onde Simonal pegaria fogo junto. Virou dedo-duro, espião da ditadura, entreguista.
A esquerda brasileira, através de seus meios de comunicação e do boicote aos xous e participações do cantor, fez uma ferrenha campanha pra demolir o cantor. Era um alvo fácil, pois a “futilidade” de sua música, aliada ao sucesso que sempre incomoda, foram pratos cheios para o Pasquim, por exemplo, cair de pau em cima do cantor.
Patrulha ideológica. Assim era chamada a ação das pessoas de esquerda do Brasil quanto às atitudes de jornalistas, escritores, artistas, celebridades da época. Qualquer deslize e pimba, ostracismo nele. Antonio Carlos & Jocafi, só pra citar um exemplo, uma dupla de sambistas de primeiro time, sumiu de repente depois de declarações e fotos ao lado de Médici. Simonal sumiu também.
Como bem disse Mário Prata, não anistiaram Wilson Simonal. Ele se tornou persona non grata em todos os meios artísticos, e ninguém teve colhão de ficar do seu lado, ou lhe dar apoio, com medo – justamente – de cair em desgraça e ser mais um patrulhado a se arruinar perante a esquerda.
Glauber Rocha, que elogiou Geisel ao perceber a possibilidade da “abertura” (lenta e gradual – tão lenta e ainda com tantas gradações), foi um dos últimos ícones a serem execrados pela esquerda do período.
O filme merece e deve ser visto. E tira-se dali uma lição. Nenhuma forma de totalitarismo é boa.
A ditadura foi tenebrosa, em todos os sentidos que poderíamos pensar, mas a esquerda do período – por uma necessidade de radicalização que sentia – acabou por destruir carreiras sem nem se preocupar com o futuro delas. A imprensa é sempre assim. Picha alguém, mas se esse alguém se mostra inocente, o espaço na mídia é 99% menor. Ninguém faz campanha pra reerguer um homem. Só pra derrubar.
A esquerda diz que tomou o poder. Meu pensamento de esquerda não é esse que está aí, mas tudo bem. Suponhamos que a esquerda esteja no poder. Entrou chutando portas, se vingando de quem mandava antes, favorecendo amiguinhos, comparsas, empregando famílias inteiras e facções inteiras – a despeito da competência – em cargos públicos. A máxima “se hay gobierno, soy contra” parece se encaixar como uma luva quando percebemos que o poder corrompe e que pra se chegar lá tem que se ter muito pouco caráter e muita esperteza.
O filme tem que ser visto. Os militares cometeram o grave erro de estragar os planos de um país cheio de esperança, matando gente e pensamento. Simonal errou, em sua atitude truculenta e irresponsável, morrendo no ostracismo, como um fantasma do que ele foi um dia. A esquerda errou na oposição e continua errando – pior ainda – no poder. Mas três indivíduos, Claudio Manoel, Calvito Leal, e Micael Langer acertaram nesse retrato do Brasil e nessa metáfora de que o totalitarismo, a opinião da maioria, e os partidarismos só conseguiram levar a humanidade a um lugar: ao paredão.