quinta-feira, maio 21, 2009

Nós, animais da escuridão... (texto originalmente publicado na coluna Teatro & Cidade do site www.noticiacapital.com.br

Nós, animais da escuridão
Qua, 20 de Maio de 2009 22:27

Há uns cinco anos, eu me reunia na casa da atriz Joana Schnitman com Andréa Elia, Celso Júnior e Carlos Betão para lermos a peça de Juan Mayorga Animais noturnos. Tempos antes, havia recebido um e-mail de Jorge Silva Melo, encenador português, onde ele dizia que acabara de ver uma estréia em Madrid e, ainda em espanhol, me enviou um texto que ele achava que eu ia gostar. Era o texto de Mayorga, que depois consegui em tradução portuguesa, enviada pelo próprio Jorge.

O tempo passou, e depois de algumas tentativas frustradas de criar um grupo ou núcleo onde pudéssemos pesquisar dramaturgia contemporânea, novos autores, e focar a encenação no trabalho do ator, fundo o Teatro NU com Jussilene Santana.
Estreamos no palco com Os amantes II, texto meu, com Carlos Nascimento e Carlos Betão, remanescente daquela leitura, e que viria a ser parte integrante de todo o processo do Teatro NU até hoje.

Segundo projeto? Não tínhamos um segundo projeto, tínhamos “segundos projetos”. Dentre eles Animais noturnos, de Juan Mayorga.

Isso era em 2006. Inscrevemos o projeto em editais do Governo Estadual e do Governo Federal, aprovamos o projeto em leis e, nestes três anos, fomos reprovados e ignorados em todos os âmbitos, com justificativas como a de um edital da Fundação Cultural do Estado que questionava a relevância artística de se montar um texto espanhol em Salvador e trazer o autor pra falar de sua obra (sim, ele viria).

Ora, Salvador teve estréias nacionais de grandes autores. A Escola de Teatro da UFBA traduzia e montava o que de mais interessante se produzia no mundo e era pioneira – muitas vezes – em relação à dramaturgia produzida fora daqui. Diretores curiosos e ousados buscavam coisas recentes de fora pra serem montadas na cidade.

Isso trazia uma renovação, um diálogo constante, puxava o foco de atenção, automaticamente, pra produção local, e servia como um processo de reciclagem. Era uma forma de Salvador se relacionar com o resto do mundo e com o sul maravilha de igual pra igual.

A coisa foi se esvaindo, e um Ewald Hackler, com um atraso incrível (antes era o contrário com ele, que revelava autores de fora pro Brasil) monta uma Yasmina Reza ou um Athol Fugard, Fernando Guerreiro monta um Ravenhill, enfim, peças de décadas anteriores chegam pra gente num intervalo cada vez mais espaçado, com um atraso imenso, como se estivéssemos à margem da produção mundial.

Mas estamos à margem da produção mundial, sim. E não porque queremos, mas porque os poderes públicos, a classe teatral, em sua maioria, e as empresas querem que assim seja. Não se olha para o contemporâneo com olhos inteligentes. O que de contemporâneo possa ser de interessante a estes é ligado a movimentos sociais, assistencialismo e contrapartidas, ou experimentalismos egoístas de artistas atrasados esteticamente que acham que fazem novidade. Digo egoístas porque, ao contrário do que deveria ser, as pessoas fazem teatro, na maioria das vezes, em Salvador, pra satisfação pessoal e pra se realizar. Não se preocupam em fazer algo que, questionando a sociedade, seja uma obra que possa dialogar com ela e que tenha vida longa. Parece que há uma resignação em se montar algo, ficar um ou dois meses em cartaz, depois se voltar ao dia-a-dia, sem alimentar uma carreira do espetáculo e daquela estética pesquisada, estudada e realizada no palco.

Estamos para trás na dramaturgia, e é ela que dialoga com as encenações, ao contrário dos que pensam estar revolucionando e rompendo com o teatro caduco e empoeirado fazendo peças que são pastiches da década de 70, com menos profundidade e sem nenhuma ambição maior no seu objeto artístico; e subestimando a dramaturgia.

Dentro deste panorama, o Teatro NU tenta dialogar com o que se produz fora – sem esquecer o que se faz aqui (basta ver que montamos duas peças autorais e estamos com um projeto ligado à dramaturgia baiana) – mas dá com os burros n´água.

Por menor que isso possa parecer, nossa montagem de Animais noturnos seria a primeira montagem no Brasil de uma peça de Juan Mayorga, segundo disse o próprio e, obviamente, seria a primeira montagem no Brasil da peça Animais noturnos. Por menor também que o foco fosse, ele se desviaria do eixo-sul pro Nordeste, seria uma forma de podermos estar inseridos na imensa rede que interliga países, grupos e artistas que estão num caminho e numa busca parecida pelas trocas, pelas idéias, pelas estéticas, por um contemporâneo real, sólido, palpável.

Não será mais. Juan Mayorga, que anunciou que não poderá vir pra um encontro sobre dramaturgia que estamos organizando, acaba de nos dizer que uma montagem de Animais noturnos acontecerá em setembro. Aonde? Em São Paulo, lógico. A Bahia não poderia estrear nacionalmente um autor de renome internacional. Mesmo que quisesse, como nós tentamos. Ficamos à mercê de comissões medíocres, de mentalidades tacanhas, e continuamos oprimidos por um comportamento que, fechando as portas pra possibilidades que fujam do coleguismo, dos favorecimentos, do folclorismo, da mesquinhez que se agiganta na cultura soteropolitana, fica ensimesmado em sua mediocridade e achando que está entre o que há de mais novo e inusitado. Afogamo-nos em nossa cegueira, em nossa mediocridade, em nossa falta de visão.

Resta-nos ir pra São Paulo assistir teatro. Resta-nos curtir com ares de reverência as montagens que vem de fora, como se não fôssemos capazes de realizá-las aqui, como se nossos grandes profissionais não pudessem – e podem – realizar tal empreitada. Resta-nos correr atrás dos clássicos – antigos e contemporâneos – que vem pra cá, mas que não podem e nem são mais montados aqui.

E resta, a mim, tentar, de alguma forma, montar a peça ano que vem. Como um mero repetidor do que o sul maravilha fez primeiro. Como província que somos. Como marginal que sou.

GVT.

10 comentários:

Vida Oliveira disse...

Infelizmente, Gil, não tenho muitas esperanças de que isso vá mudar tão cedo, afinal...

1- Pra que montar coisas de fora, se baino nem nasce, estréia !?!?!
2- Na verdade, inclusive, não há nenhuma necessidade de se montar qualquer coisa de fora, afinal, temos a melhor escola de teatro da America Latina, quiçá do mundo, não é o que nos dizem no primeiro semestre?!
3- Pra que mesmo que serve a dramaturgia? Basta começar a fazer teatro na Bahia e a primeira coisa que te dizem é: esquece esse negocio de texto, isso é ultrapassado "realistão", essas coisas...

ENFIM...

Rita Passos disse...

Prezado Gil,


Seus comentários sempre "rasga" a realidade do teatro bahiano e a mostra nua e crua. Leio-os sempre... algumas discordâncias, algumas reverências, nem sempre posso responder, mas sempre eles (os comentários) me fazem realizar conexões pertinentes sobre o fazer teatral.

Bem, não posso aqui fazer um resumo da minha história... mas deixo algumas impressões que parecem corroborar com o que escrevestes. Passei um tempo fora do Brasil, voltei entusiasmada para fazer o Mestrado no PPGAC, o qual o fiz e já aprovada com distinção. Também tinha uma necessidade de voltar a "cena" bahiana... mas é impressionante como não me senti estimulada, instigada, ou melhor não encontrei terreno para plantar toda a minha ânsia de construir, pesquisar, bisbilhotar, experimentar linguagens estéticas com fundamentos teóricos/prático... Me senti um peixe fora d`agua!!!! A angustia trouxe uma certa imobilidade... Mas a minha forma de fazer teatral precisa de treino, de descobertas, de mergulhos em caminhos enigmáticos e obscuros, para só assim me sentir criando... não pertenço aos que "não nascem, estreiam"... preciso de me reconstruir a cada instante.Confesso que me sinto perdida!!!
E o textos, que os "contemporâneos" de carteirinha não me ouçam... Que saudade do textocentrismo... sei que a explosão do fazer teatral não permite mas uma linguagem engessada, mas o que falta talvez é redefinir a importância de bons textos em nossso teatro... Espero que "Animais Noturnos" venha fazer esta diferença...

Abraços, esperando algo de novo no horizonte...

Rita Passos

Rita disse...

Gil,

Meu Deus, quanto "sempre" no primeiro parágrafo do meu comentário!!! Desculpa ai viu...

Vida Oliveira disse...

Mtu bom, Rita!
apoiada!
Prazer em conhecer!
rsrs
\o/

Rita disse...

Prazer é meu Vida, gostei também do que escrevestes. É muito bom saber que não estamos tão solitários assim!!
Abraços e Boa Sorte,

Rita

Julie fly disse...

Há uns dias, fui assistir a uma peça, até com certa esperança de tanto que me falaram bem dela, mas para o meu descontentamento, mais uma vez assisti as mesmas “inovações”.... rsrs
Fragmentos e mais fragmentos.
Então parei, e tentei lembrar a ultima vez que tinha visto uma peça com um enredo, uma historia, já fazia um tempo, e por coincidência realizada pelo teatro nu.

É... qdo vejo o que Rita e Vida falam sobre terem se encontrado, me sinto incluída. Estava cansada já... de ficar enchendo todos a minha volta, inconformada com a cena teatral, não exatamente a baiana, pois com minha pouca experiência, antes de ler o post não tinha refletido sobre o fato de que existem mais coisas alem do que acontece aqui, na minha busca não encontrei ninguem, mesmo entre as pessoas de teatro que desfrutassem das mesmas ideias ou pelo menos quisessem falar sobre teatro... que ironia naum.. rsrs
isso me faz sentir como Rita um peixinho fora de seu espaço, (minha parte) uma chata reclamando das coisas.

A única parte, sobre o que falam que discordo, é sobre não ter esperança, ou que ela esteja quase por esvair-se, por mais que seja meio fora de tudo, eu tenho. Posso ser uma guria da graduação... rsrs Mas acredito que o espaço entre realizar as coisas e não realizar é muito pequeno é tudo uma questão de comunicação, união de forças e o melhor de tudo, é sabermos que nao somos um.
As vezes o peixinho não é tão pequeno assim...


=*

Vida Oliveira disse...

Pois é, Julie.
Só por esse post, pelo- já somos 4, já dá pra se unir. rsrs
E, sim, é muito bom ter com quem falar!

=*

Julie fly disse...

que bom que pensas assim, vida.

quem sabe unidos não vamos longe, apesar de alguns atrasos que o mundo dá.
Fico bem feliz mesmo em ter pessoas para discutir idéias.


=*

Gil Vicente Tavares disse...

Bom saber que podemos dialogar. A grande mídia está vendida e/ou preguiçosa, e os espaços se fecham para a discussão. E quando surgem, são chapa-branca, feitos intencionalmente para tergiversar uma real discussão sobre nosso ofício e nossa situação.
Continuem dialogando com o blog, entre si, isso é bom pra todos nós...

Anônimo disse...

É uma merda esta cidade petista. Tacanha, burra, mediocre que alimenta uma política cultural míope.