domingo, maio 10, 2009

texto originalmente publicado na coluna Teatro & Cidade, no site www.noticiacapital.com.br

Padrão de Qualidade
Qui, 07 de Maio de 2009 15:16

Recentemente, tenho feito duas perguntas a pessoas próximas, para confirmar uma idéia que vem me perseguindo. Primeiro, pergunto à pessoa qual foi o último filme em que a pessoa pensou consigo mesma “que elenco ruim!”. Todas respondem que não se lembram, que é um fato geralmente imperceptível num filme. Logo após, pergunto qual o último espetáculo baiano em que a pessoa pensou consigo mesma “que elenco bom!”. Todas respondem que não se lembram, que é um fato geralmente imperceptível num espetáculo baiano.

A conclusão é muito simples. Num filme, se trabalha com um padrão de qualidade, se pensa um elenco de profissionais que tenham capacidade de realizar o que o roteiro e o diretor pedem. Há uma preocupação com o retorno da crítica especializada – que às vezes realmente é especializada e entende de cinema, por incrível que pareça – bem como há uma preocupação com festivais, e por fim, com a apreciação do público comum, que pode não entender de cinema, mas é pra quem, geralmente, os filmes são feitos (digo geralmente porque há aqueles filmes feitos pra festival, feitos pra ganhar dinheiro público, e/ou que somem por falta de uma distribuição digna ou por falta de interesse e investimento da produtora associada ao diretor).

Essa preocupação com o padrão de qualidade é mais do que válida, ela é fundamental para se conquistar um público, para transmitir confiança ao público de que ele vai sair de sua casa e ver algo que não seja tosco, malfeito e mal produzido.

No cinema brasileiro, esse padrão já cai de qualidade por vários aspectos. Inexperiência da equipe, falta de conhecimento e aparelhagem técnicos, falta de recursos pra contratar os profissionais devidos; e um pouco de soberba, também. Com isso, a maioria dos filmes brasileiros não exclui de sua realização a ambição de ter uma qualidade e uma boa aceitação, e muitas vezes o insucesso se deve a escolhas erradas, falta de visão, bem como tudo (e algo mais) que citei acima.

No teatro baiano, a coisa complica sensivelmente. Há no comportamento das pessoas de teatro, ao redor do mundo, aquela idéia de comunidade, um resquício do desbunde que faz todos se acharem lindos, se juntos por uma empreitada só.

Ora, por trás disso há um forte componente amador, diletante. Criou-se um preconceito com a palavra amador, e isso fez com que ninguém mais se autodenominasse assim nos grandes centros. Mas a simples união de pessoas que querem fazer teatro juntas, por boa vontade, ideologia, afinidades estéticas e desejo não se configura, necessariamente, num grupo profissional de teatro. Bem como pessoas que são capazes de elaborar projetos profissionais não são necessariamente profissionais de teatro.

Parece não haver uma preocupação com o público. Assim como qualquer um pode dizer que faz teatro profissional, ocupar a pauta de um teatro de renome e cobrar ingresso, ao mesmo tempo deixa-se na platéia aquela sensação de que o teatro profissional feito aqui é amador.

O mínimo que um espetáculo que entra no “circuito oficial” pode ter é um elenco uniformemente bom, uma estética que não pareça que se aproveitou lençóis e roupas da casa da avó, e uma consistência cênica. O espetáculo pode não ser bom, e é possível até que o espetáculo amador possa ser melhor, mas a questão não é o acerto do artista, pois todo grande artista pode fazer algo ruim. A questão é que sem uma preocupação mínima com o padrão de qualidade do que se apresenta, acabamos lançados à sorte de ter uma platéia que não confie nos nossos profissionais.

O fato de cem pessoas saberem tocar instrumentos sinfônicos não fazem delas uma orquestra. Há um estudo, um preparo, um apura técnico e, é óbvio, talento. De um grupo amador pode surgir um ator de talento fenomenal, melhor do que qualquer profissional da cidade.

Mas tenho certeza que o público comum não vai ao teatro pra ver se tem a sorte de encontrar um novo talento. Nem tampouco vai gastar seu dinheiro pra ficar arriscando até acertar.

Há, é claro, todo o lado da falta de leitura, interesse e cultura da sociedade, obtusa e ignorante. Mas nós, artistas, despreocupados com nosso padrão de qualidade – e sem uma devida autocrítica (aliada aos editais e prêmios que legitimam o amador) temos uma boa parcela de culpa por afastar o público das salas de teatro.

5 comentários:

Vida Oliveira disse...

Eu vou a um espetáculo, acho o elenco muito ruim e as pessoas me dizem "mas olha o esforço, olha aquela luz, olha o processo, isso é que vale"!

No entanto, quando tiro um pouco o olhar do palco e me reporto à platéia, só estão assistindo amigos, parentes, pessoas de teatro. O grande público já foi embora, ou sequer se deu ao trabalho de tentar assistir ao espetáculo.

Eu comento sobre isso nos corredores da faculdade e os artistas me dizem: "Mas eu faço teatro não para o público, para mim mesmo, para ser reconhecido no futuro"

Com tudo isso, me pergunto: porque então não vai para o seu quarto, chama uns amigos e vai fazer o seu teatro? Deixem os palcos, os editais, etc para quem pensa que o teatro é feito para o público.
Pq o público quer ver teatro, mas quer ver um teatro de boa qualidade... E não tem encontrado o que assistir!

ENFIM... apoiado, companheiro!
\o/ =)

Pensando com Relva... disse...

Gil,

Lendo seu texto resolvi refletir e acabei escrevendo sobre:

Não vou aqui discutir sobre qualidade artística para diferenciar o que é amador e profissional. Obviamente que nenhum artista chega ao profissionalismo sem passar pelo amadorismo. Em teatro aqui em Salvador o que percebo é que existem artistas que já nascem “predestinados” a serem geniais de acordo com os seus próprios julgamentos ou até da classe artística. Outros precisam se descobrir através de experimentos ou da busca incessante de uma estética, linguagem, de um caminho ou até de uma verdade. Ainda outros não encontram espaço para viabilizarem seus projetos ou até artistas que possam se juntar a estes e dividirem afinidades até por receio da exposição.
O que é um bom Teatro? O que é um bom Ator? O que é um bom Diretor? O que é um bom Espetáculo? O que é um bom Texto? Estamos em pleno século XXI, novos paradigmas batem o tempo todo a nossa porta. Obviamente que não podemos esquecer de todo um legado teatral que já se configura desde a Grécia antiga, mas também não se pode desejar que se faça apenas o que já foi feito. O novo assusta, é verdade, mas é tão importante e vital quanto o que já não é tão novo. Por exemplo, sou eternamente grata pelas aulas que tive na Escola de Teatro – UFBA sobre os clássicos da História do Teatro. Como não estudar a poética de Aristóteles, as tragédias e comédias gregas, Shakespeare, Commedia Dell´arte, Ibsen, Tchecov, Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna, Plínio Marcos, Brecht, Artaud, Beckett e tantos outros? E a história dos grandes atores e encenadores? Qualquer aluno de teatro precisa passar por esta base até para negá-las ou buscar nelas algum tipo de suporte para construir sua própria história. Tive sim motivação, curiosidade, prazer e a necessidade de experimentar no palco de maneira amadora ou acadêmica, o que era teorizado em sala de aula sem me preocupar em acertos ou erros. Sem ter ou buscar em professores (alguns acham que não, mas o que posso fazer?) um escudo para me proteger de minhas investidas sem redes de segurança em tais experimentos até porque precisava de autonomia naquele momento e não era aluna de direção e sim de interpretação. Quando me descobri diretora dentro da referida Escola percebi que minha aptidão natural era para direção então, resolvi terminar o curso de interpretação e acho que foi uma decisão sábia da minha parte. Me joguei em diversos atos de quatro, leituras dramáticas, sozinha, mas com colegas que acreditavam em algo da proposta, corri atrás de cada possibilidade que tive para experimentar direção. Sou diretora, penso como diretora.
Discutir criatividade também é algo complexo. Discutir linguagem e estética também. Pior ainda é discutir sobre avaliação artística quando sabemos que o que geralmente está em jogo não é apenas o que é proposto em um projeto. Não tenho nada contra espetáculos que de um pedaço de tecido fazem algo mágico no palco. Gosto também de cenários realistas e detalhistas. Mas gosto muito mais quando vejo concepções que me arrebatam pela simplicidade e criatividade. Espetáculos que valorizam o trabalho do ator, sendo ele amador ou profissional. Durante os meus 17 anos de teatro vi um pouco de tudo que é produzido aqui e espetáculos produzidos fora de Salvador feitos por grandes nomes de teatro ou também feitos por desconhecidos. Um que me deixou na época que assisti, acho que 1993 ou 1994, extremamente tocada e com motivação para enfrentar todos os desafios que é fazer teatro foi o Vau da Sarapalha de um grupo paraibano até então desconhecido no Brasil, mas que de maneira simples conquistou o respeito dos mais exigentes críticos ou nomes teatrais. Muitas vezes os novos ou desconhecidos me arrebatam mais do que os grandes nomes, é verdade. Não se pode julgar um espetáculo apenas pelo currículo de quem o faz. Obviamente que o currículo é uma rede de segurança para todos os envolvidos e também para quem paga o ingresso para assistir. O que seria, por exemplo, de A Bofetada sem os seus 20 anos de sucesso? Será que se estreasse hoje teria a mesma repercussão que teve há 20 anos atrás? Não sei. Deixo a pergunta no ar. Mas não é só isso. Defendo que o que a classe artística baiana necessita é de disposição, respeito e, sobretudo ética. É difícil, é. Mas fazer teatro hoje é difícil em qualquer lugar do mundo. Acho que existe espaço para todos: os de fora, os de dentro, os que estão começando, os que já não estão começando, os com grupo, os sem grupo, o teatrão, o acadêmico, o besteirol, o experimental, a pesquisa, os que ainda acham que estão na década de 70, os que acham que são contemporâneos, os geniais ou os que acham que estão sempre descobrindo o ovo. Claro que um ator experiente ou profissional é uma dádiva divina nas mãos engenhosas de qualquer diretor. Claro que o ator experiente possui técnica aprimorada e muitas vezes, é responsável pela concepção e condução do espetáculo. O que se espera de um ator experiente ou profissional? Que ele se supere a cada espetáculo, não é verdade? Para isto ele precisa ser versátil, ter embaixo da manga a carta mais esperada para o jogo teatral. Óbvio. Mas em alguns atores tidos profissionais ou experientes o que tenho visto é a falta de motivação, do brilho nos olhos, das vísceras, de humildade, de disposição e de generosidade. Fora aqueles que fazem teatro, mas acham que fazem TV, não pela interpretação apenas, mas pela maneira “glamourizada” que pensa ou age. Acabam se repetindo. Toda regra tem exceção. Ator precisa está no palco se reciclando. Se não é chamado, se não passa nas poucas audições que existem aqui, corra atrás de um projeto pessoal. Aprenda a se produzir, procure um texto, busque um diretor, enfim, se reinvente. Também não precisa apenas produzir solos. Teatro é jogo, é suor, é diálogo, é contracena. Claro que no monólogo o ator pode jogar com o público e com ele mesmo, mas não precisa se isolar no solo eternamente. Bom, esta é uma opinião minha. Salvador possui grandes atores e atrizes. Muitos estão fora do palco porque não possuem a disposição solitária para enfrentarem um processo de produção. Li hoje, no encarte da revista Muito de A Tarde, uma entrevista do ator Ricardo Castro que descobriu há tempos o segredo de ser autossustentável: 1,99. Mas ele hoje na revista afirma que possui um personagem que gostaria muito de fazer: o Bobo de Rei Lear. Imaginem? Arrasaria, com certeza! Mas porque o talentoso ator não abraça este projeto da mesma forma que abraçou o seu solo? Parta para um diretor que tenha afinidade e se tornem parceiros? Ganha todos e o público baiano agradece. Enfim, é a minha humilde opinião. Para finalizar, tem algo nos amadores que aprecio: a disposição pulsante e contagiante que se debruçam nas suas empreitadas. Dia desses entrei em uma escola e li a seguinte frase de Gilberto Freyre: “Se depender de mim, nunca ficarei plenamente maduro, nem nas idéias, nem no estilo, mas sempre verde, incompleto e experimental”. Acho que tenho muito ainda a aprender sempre.

Cristiane Barreto

Pensando com Relva... disse...

Obs: Li o texto de Gil...e minha reflexão talvez tenha se ampliado... porque tenho isso...acabo abrindo outros links...mas para bom entendedor...meia palavra basta. Não acho q fugi do tema..talvez tenha entrado nas entrelinhas do texto..talvez. Bom, é isso. Dei minha opinião. Quem tiver afinidade ou não, discutam,comentem, deletem. O importante é que se é um espaço aberto e democrático...

Cristiane Barreto

Anônimo disse...

gil:

o gerald thomas falou bem de vc lá no blog dele. vc viu? repete o q ele falou a respeito de vc aqui no seu blog

Gil Vicente Tavares disse...

Pra quem tiver interesse, segue aqui o link para o blog de Gerald Tomas, cuja valor vai infinitamente além do que ele possa ter falado de mim. Ele sempre cria textos provocativos, reflexivos sobre sociedade, política e cultura.

http://colunistas.ig.com.br/geraldthomas/