
Chico Buarque é um compositor rasteiro. Revendo alguns de seus DVDs dirigidos por Roberto de Oliveira, percebo o quão rasteiro ele é. Suas letras são triviais. Seus assuntos, também. Chico pertence a uma linhagem que ele fez questão de seguir – recusando, em certa medida, a Tropicália, o desbunde, as “mudernizações” –, e vem de Noel, Ary Barroso, Caymmi, Tom Jobim. Uma linhagem de compositores rasteiros, simples, cotidianos e – naturalmente – populares (apesar da própria Tropicália ser uma tentativa de diálogo entre o pop e o popular, um outro caminho de aberturas e possibilidades).
Chico Buarque não é um compositor rasteiro. Deveria ser. Como deveriam ser rasteiros, corriqueiros e populares Tom Jobim, Noel, Caymmi. E tantos outros que nesse tempo da indelicadeza soam como sofisticados, refinados, distantes do gosto popular.
A poesia é o natural refúgio da subjetividade, da metáfora, da metonímia, da onomatopéia, de várias figuras de linguagem que são seu tijolo e cimento. Mas que são figuras que constroem uma casa onde poucos habitam, nos dias atuais.
O próprio Chico versava: “fume Ary, cheire Vinícius, beba Nelson Cavaquinho”. Mas isso não acontece. Num país onde Edu Lobo é deixado de escanteio, as coisas me parecem estranhas, distorcidas.
A percepção da arte, passando pela indústria, pelo poder da mídia, pela massificação e fórmulas prontas, fez surgir subprodutos artísticos que – tal qual aquele chocolate ao lado da sopa – fazem salivar um público acostumado ao mais que fácil, ao óbvio detestável e medíocre de certa música.
Chico Buarque poderia atingir, com suas letras, o porteiro, o dentista, a doméstica, o engenheiro. Mas para as novas gerações, ele é difícil, “cabeça”, complicado. Que tipo de gente está assumindo aos poucos este país? Minha geração e a geração anterior à minha considera Chico difícil. E por que? Porque não lê e não se interessa por arte, no sentido de fruição que transporta a pessoa de seu mundo cotidiano para uma releitura fantasiada, poetizada, romantizada deste.
As gerações consumidoras de produtos vão gerando subprodutos. E assim as gerações se tornam subprodutos de outras gerações. É muito complicado, pra mim, aceitar que as pessoas não ouçam Chico como, ao invés, ouvem o sertanejo de má qualidade, o bolero de má qualidade, enfim, uma profusão de músicas óbvias que, sem se inserirem nesta longa estrada que nossa riqueza musical produziu, geram um objeto pouco artístico e – longe de alimentar a alma de poesia e imagens inusitadas – mais uma vez produzem o óbvio que a vida pragmática e sem arte da gente pede.
O projeto da Tropicália redimensionou a música brasileira. Mas como o próprio Caetano declara em seu livro
Verdade tropical, os tropicalistas legitimaram e/ou abriram a porta por um lado para o luxo e por outro para o lixo da maioria do que se produziu nas décadas posteriores ao advento do tropicalismo na música brasileira.
Sou contra radicalismos que destroem com pagodes, arrochas e sertanejos sem o filtro dos valores intrínsecos que possuem muitas dessas manifestações. Eu mesmo sou um apaixonado por carnaval. Que, diga-se de passagem, sempre teve letras bobas e melodias fáceis, ao contrário do que alguns parecem querer dizer quando dançam ao som de “mamãe eu quero” dizendo; isso é que era carnaval.
Há uma linha evolutiva e transformadora em nossa música. Com ritmos, estilos, palavras e versos. Há que se encarar as coisas de forma consciente e responsável. Mas sem deixar de registrar que um Chico Buarque, ao se inserir na longa tradição popular de nossa música, deveria estar em vários lares ao lado de tantos outros que – sumidos do grande público insensibilizado – amargam um ostracismo que talvez revele a necessidade de repensar nossa cultura, nossa educação, nossa formação enquanto indivíduos.
Vale registrar que Chico talvez tenha sido um dos poucos que sobreviveram numa escala um pouco maior de popularidade, mas que isso se deve muito ao fato de ele ser encarado como um fetiche, um símbolo de algo que designa status e sabedoria ao público que, sabendo dois ou três temas de sucesso dele, vai perpetuar nos outros trezentos e tantos dias do ano a mediocridade preocupante da apreciação artística do público médio brasileiro.
"A minha música não é de levantar poeira, mas pode entrar no barracão onde a cabrocha pendura a saia no amanhecer da quarta-feira..."
Piano na mangueira (Tom e Chico)
GVT.