segunda-feira, fevereiro 16, 2009

O silêncio dos culpados...


"O que mais preocupa não é o grito dos violentos,

nem dos corruptos, nem dos desonestos,

nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética.

O que mais preocupa é o silêncio dos bons!”.

(Martin Luther King)


Sempre procurei ouvir os bons. Principalmente pela árdua tarefa de, algum dia, me tornar um deles. Essa pretensão, que está implícita na criação artística, é uma das molas propulsoras para se crescer, para ampliar os horizontes críticos, para se tentar fazer arte de verdade.

O problema é que os bons estão morrendo ou estão calados. Conversando com uma personalidade da dança baiana, deparei-me com seu questionamento sobre a escassez de intelectuais. E estamos num momento que me preocupa muita.

Hoje em dia, a imprensa, a universidade e as classes artísticas são o espaço do lugar comum. Explico melhor. Não temos mais uma crítica que aponte para discussões que problematizem a criação contemporânea. A universidade, por sua vez, legitima o medíocre e incensa a moda, ao invés de questionar os caminhos atuais relativizando-os sob uma perspectiva reflexiva. E as classes artísticas, na onda da mediocrização do pensamento e da informação, assinam embaixo dos modismos e falsas novidades pela própria insegurança de se saberem ignorantes, sem profundidade suficiente para olhar os fenômenos artísticos sob uma ótica particular que dialogue com a tradição e a contemporaneidade ao mesmo tempo, filtrando através de uma lente depurada a criação do nosso tempo.

Penso às vezes que alguns que eu considerava como referências possivelmente tinham pés de barro. Penso também que a atitude de um pretenso intelectual é, preponderantemente, combativa. Pois seu papel é justamente dizer que o rei está nu, que alguém está com a calça de veludo e o rego de fora. E onde estão esses? Muitas referências minhas caem, aos bocados, por terra e a terra fica cada vez mais desolada...

Atrocidades vêm sendo feitas com relação às artes e ao pensamento. E ninguém se pronuncia, ninguém se faz voz contrastante. Covardia? Preguiça? Desilusão? E então, caros preguiçosos, covardes e desiludidos, vocês pretendem com seu silêncio legitimar o erro, a distorção, o equívoco?

É comum ouvir que não se deve levar a sério tal coisa, que tal outra coisa não merece que se despenda um tempo pra questionar, e com isso essas tais coisas vão se fortalecendo, e os pretensos intelectuais dando um tiro no próprio pé. Roubar-lhes-ão a luz, e já não poderão dizer nada.

Estamos num momento de paroxismo do que Ortega y Gasset chamou de “O império das massas”. As figuras pretensamente pensantes pensam pra legitimar o estabelecido. Estamos num eterno presente onde se cultua a troca de favores, elogios, hipocrisias e vantagens. Um abraço de mediocridade onde se sufoca a inteligência.

E onde estarão aqueles que podem apontar para algo além deste eterno presente opressor dos conceitos, das idéias, das críticas fundamentadas?

O intelectual – enquanto figura – está morrendo? Está sendo exilado ou se autoexilando? E isso é ser um intelectual?

Sinto falta deles. Sinto falta de pessoas que possam, com um olhar de madeira – metáfora do historiador Guinzburg referente ao Pinóquio – olhar em torno e ponderar que a festa da mediocridade, que a legitimação da burrice, que o enaltecimento dos modismos ultrapassados estão aí.

Alguns parecem saber. Mas ninguém diz.



GVT.

4 comentários:

Vida Oliveira disse...

Parece sem sentido gritar, quando parece que os gritos não passarão de gritos mudos, como já dizia uma certa cantora francesa: "mon cri muet e mon silence"...

Bruna disse...

mudos ou não, serão gritados. Nem que seja com gestos.

Prof. Geraldo disse...

Havia uma lenda muito contada em todas as famílias de tradições judaicas, na festa do Hanukhá que assustava muito às criancinhas, mas que para mim, sempre me foi esclarecedora. Era para mim a metáfora-matriz de toda poesia, de toda arte, talvez, de toda criação humana. Trata-se do mito do Golem. Golem era a criatura criada pela criatura. Uma estátua antropomórfica (invariavelmente grotesca e imperfeita, como todas as coisas criadas pela criatura) feita de barro virgem. Na boca, colocavam-lhe um "mezuzá" (espécie de pergaminho com fórmulas mágicas da Kabalah ou citações bíblicas que se põem à soleira do casario hebraico). Depois, um rabino de alma pura e poucos pecados chegava-lhe à boca e soprava-lhe o pneuma da vida. Daí por diante, o Golem criava vida própria. Era indestrutível a qualquer outra criatura. Atropelava quem se pusesse no seu caminho, destruía quem lhe ousasse contestar. E a cada dia se tornava mais demoníaco, esdrúxulo e assustador. Tornava-se um problema de graves proporções, já que indestrutível e altamente deletério. Tentaram de tudo para destruir a besta, sem sucesso. O mundo mergulhava cada vez mais na destruição. Criavam novos Golens para tentar destruir o primeiro, mas estes, ao invés de se tornarem uma solução, passavam a ser novos problemas. Certo dia, um tonto, tolo, obsoleto, velho homem que vivia no ostracismo (um artista?), foi arrancado do chão por um Golem. Quando estava a ponto de ser trucidado pela criatura horrenda, o velho tirou-lhe da boca o pergaminho e a criatura desfez-se em pó - o barro que lhe dera forma, continuava barro. Só possuía um poder destrutivo e uma forma assustadora, mas, humanamente projetado, sua natureza continuava a mesma: barro do chão, poeira que se pisa.
Sempre entendi esta história como uma metáfora. Seus sentidos eram muitos. Talvez explique a sua angústia, amigo GVT.
Nós os burgueses, criamos uma arte burguesa, uma comunicação burguesa com todos os argumentos burgueses de convencimento (palavras mágicas). Justificamos todos os sucessos da nossa criação burguesa, com argumentos burgueses; eliminamos, aqui e ali, umas almas bem-intencionadas, embora tolas (pois ousaram opor-se à marcha dos nossos Golens); confundimos o artesanato vendável, rentável com a arte inegociável. Isto é, passamos a chamar de arte à artesania agradável e entretenedora, porém esvaziada de vida, que nos desse um troco para nosso alpinismo social pequeno burguês, provinciano. Da exata mesma forma que se confundia os Golens com outra coisa, que não, barro. Matamos iniciativas autônomas em prol do estrangeirismo que nos soasse a um discurso articulado (palavras mágicas), normalmente elogioso da nossa mediocridade suburbana e nada criativo. Argumentamos bem. A criatura tornou-se forte e o que se vê é um cenário de destruição e insensibilidade produzido pela nossa criatura projetada para ser sólida e resistente ao tempo, a fim de que nos dê frutos por mais tempo quanto seja possível. Aí, vamos sendo devorados pela nossa torpe criatura e nos desesperamos. Mas a solução é simples: tiramos de suas bocas os pergaminhos, e os Golens se esvaem em pó que se pisa.
Você, p. ex., me parece um intelectual capaz de retirar da boca do Golem a mezuzá que os anima. Talvez eu também. A receita é modificar a lógica de produção dos nossos monstrengos e estrovengas. Como fizemos nos fins da década dos setenta, início dos oitenta, quando criamos os primeiros Golens. Naquele tempo, a gente se reunia, conversava. Sentávamos às mesas para criar possibilidades de vencer o discurso oficial opressor e ignóbil. Nem sempre dava certo. Vivíamos duros, mas criávamos coisas menos extravagantes que os Golens (e quando davam certo economicamente, aparecia sempre um "rabino" para querer produzir em série, nos entupir de dinheiro e fazer-nos transformar a beleza da nossa poesia em Golens). Tanto que sentimo-nos saudosos daqueles tempos que criávamos porque nos era necessário à nossa vida, não para produzir estrovengas. Produza novos sons, novas imagens (como o Sade que eu li e não foi ao ar, os Javalis, suas músicas e sonetos e tantas outras belezas que me seduziram a ser teu amigo). Quem sabe um desses laivos, não seja o suficiente para tirar da boca do Golem a sua mezuzá. Sinto saudade do tempo em que a falta de dinheiro e apoio não era desculpa para não produzir obras de arte e revoluções. O resto é poeira que se pisa.

(Geraldo Cohen)

relva.barreto@gmail.com disse...

Até a toda poderosa Ivete Sangalo não está imune as injustiças das bancas, comissões,sei lá eu, que julgam os atistas para serem premiados, por exemplo. Ela se irritou ao receber o prêmio de revelação, pode? Como disse Caetano Veloso: "o júri é simpático, mas é incompetente!". Fora que a música Dalila, pode não ser uma obra prima de Brown interpretada por ela, mas justiça seja feita: foi uma das mais executadas e com certeza, todos assimilaram com facilidade. Cada um que vá buscar a sua Dalila, né não Ivete? Cris Barreto

Frase da semana:

"O que é que vocês estão bebendo, seus filhos da p*&¨%? Revelação de quê? Eu sou revelação para meu namorado, entre quatro paredes. Eu faço ele gemer sem sentir dor."
Ivete Sangalo, dando uma de Amelinha, ao confrontar a entrega do prêmio de cantora revelação do Carnaval 2009, anunciada pelo radialista Walter Júnior.
Fonte: http://www.bahianoticias.com.br/index.html