
Passando por cinco recuperações de matemática na minha vida, olhava praquelas equações cheias de números, logaritmos, esôfagos, ornitorrincos e panturrilhas, enfim, um monte de coisa que eu não sabia o que significava – e tinha imensa preguiça de estudar – e me perguntava; pra que ser obrigado a estudar tudo isso?
Meu primeiro zero foi em química, primeiro ano do segundo grau. Não sabia a diferença de uma ligação de elétrons pra uma ligação de trompas. Mas eu tinha que passar no vestibular. Nós começamos, hoje em dia, a ser alfabetizados para passar no vestibular. O colégio que estudei no Rio de Janeiro, Senador Corrêa, fechou porque preparava os alunos pra vida, e não para o vestibular. Ora, a vida passa pelo vestibular, caros utopistas como eu.
É impossível lutar contra o sistema. A história provou isso. O ideal é entrar nele e demoli-lo por dentro, ou aceitá-lo; como a maioria faz. Principalmente numa sociedade capitalista, mecanicista, tecnocrata e conservadora. Como diria o velho ditado: já que não pode lutar contra eles, junte-se a eles.
É justamente indo nesse caminho que faço uma proposta que abarcaria o ensino de todas as escolas do país, desaguando no vestibular.
A primeira proposta seria que desde a quinta série primária o aluno tivesse aulas sobre métricas, versos, rimas e afins ligados à poesia. Ao final de cada unidade, esse aluno seria obrigado – sim, obrigado como ele é a fazer qualquer tarefa de qualquer disciplina – a escrever um soneto. Esse soneto valeria como nota, seria analisado em termos de métrica, originalidade, ritmo, etc. E teria o mesmo peso que uma prova de matemática.
Isso seguiria ao longo do ensino médio, talvez aprimorando no primeiro e segundo ano do segundo grau para algo mais complexo, uma glosa, décimas, um conjunto de sonetos interligados por um tema, enfim, a cada unidade o aluno seria cobrado e comparado em seu avanço.
No vestibular, o soneto, ou conjunto de sonetos – essa parte eu teria que me aprofundar, caros Fernando Haddad e Adeum Sauer, dentre tantos outros – valeria o mesmo peso que a redação. Depois de seis anos em contato com a poesia, esse estudante poderia fazer faculdade de ciências contábeis, assim como alguém que se virou nos problemas matemáticos a vida inteira pode fazer belas artes.
Muitos podem ter torcido o nariz para a palavra “obrigação” no que se refere à minha proposta. Mas esse papo de que a arte é o espaço do lúdico faz essa disciplina ser uma confusão e uma enrolação que não ensina nada a ninguém, e o adolescente cresce na esculhambação, pesando que fazer arte é recreio. Não. Obrigar o aluno a fazer soneto, sim.
E por que soneto? Bem, depois que o genial Walt Whitman (antes dele Rimbaud, etc) abriu de vez o caminho para o verso livre, tivemos, na poesia, gênios como Pessoa, que se utilizaram do verso livre pra fazer uma obra genial, mas também um monte de coisa ruim, sem critério. Hoje em dia, basta a pessoa fazer um jogo de palavras, criar umas frases de efeito e dizer o que o leitor quer ouvir e já é um poeta. A prisão do soneto dava e dá menos espaço, porque quanto mais limite a arte dá ao artista, mais genial ele tem que ser, e mais desafiado ele se sente. E Pessoa só escreveu o que escreveu em versos livres porque era um excelente versador, com grandes sonetos. Sabia tudo de ritmo, de métrica, e o verso livre, por incrível que pareça, tem também sua métrica e seu ritmo, não são sentimentos jogados no papel.
A outra proposta seria que o aluno, desde cedo, entrasse em contato com a música erudita, clássica, chamem como quiser. Já na quinta série, ele experimentaria – cobrado e com nota – compor suas primeiras peças simples, na partitura, pra piano. Depois, iria evoluindo pra escrever para piano e flauta, fagote e oboé.
Pra não me delongar muito nisso – e peço perdão ao ministro, aos secretários todos de educação por não ter elaborado um plano concreto e efetivo – o fato é que esse aluno teria que compor uma sonata no vestibular, sendo analisado por sua escrita, arregimentação, harmonia, contrapontos, etc, valendo igual nota a uma prova de química, por exemplo.
De alguma forma, esse adolescente teria contato com grandes obras, saberia lê-las. Aos que me dirão que a obrigatoriedade faria muitos detestarem poesia e música clássica, eu respondo com um simples; a maioria dos adolescentes já odeia e nunca vai ter oportunidade clara de contato com essas artes. Se ele vai tomar outro rumo, isso é problema dele. Mas teríamos – assim como temos músicos que sabem fazer cálculos (e música e matemática estão muito perto) – matemáticos que sabem o que é uma sonata, químicos que sabem o que é um soneto – tendo passado pela experiência de ter feito um. E se isso não abrir a cabeça e a sensibilidade dessa pessoa, aí, nem com marreta. O exercício da escrita e a necessidade da inspiração nos obriga a ler, conhecer, tentar imitar e se reconhecer no que fazemos. Ao invés do menino ir pra todos os ensaios de tal grupo de pagode, ou ensaios de bloco, ou perder tardes na frente de uma televisão ou videogueime, esse menino teria que estar elaborando um soneto, contando as sílabas, pensando um tema, buscando inspiração para uma melodia ou contraponto.
Caro ministro e caros secretários de educação, essa idéia precisaria ser implementada com urgência, garanto que geraria bons frutos. Mas, por favor, não façam milhões de reuniões inúteis nem entrem com assuntos ligados a democratização, interiorização, cultura popular e raça. É muito tempo perdido e muita gente que não sabe onde põe a cabeça, mas tem opinião formada sobre qualquer assunto, da microfísica do poder das abelhas à energia quântica do peido das baleias.
Chamem profissionais competentes, experientes (sou um dos excluídos, que isso fique claro), que possam elaborar um plano efetivo e concreto a respeito disso.
Só mais um adendo. Frente a tanta inoperância, corrupção e incompetência do poder legislativo, poderia se pensar um piso salarial equitativo para parlamentares e professores. Pra mim, os segundos são muito mais importantes do que os primeiros. Mas por enquanto, caro Fernando Haddad, torço com você, ao menos, pelo piso de R$950,00; que é uma miséria para um profissional fundamental na nossa vida.
GVT.
Meu primeiro zero foi em química, primeiro ano do segundo grau. Não sabia a diferença de uma ligação de elétrons pra uma ligação de trompas. Mas eu tinha que passar no vestibular. Nós começamos, hoje em dia, a ser alfabetizados para passar no vestibular. O colégio que estudei no Rio de Janeiro, Senador Corrêa, fechou porque preparava os alunos pra vida, e não para o vestibular. Ora, a vida passa pelo vestibular, caros utopistas como eu.
É impossível lutar contra o sistema. A história provou isso. O ideal é entrar nele e demoli-lo por dentro, ou aceitá-lo; como a maioria faz. Principalmente numa sociedade capitalista, mecanicista, tecnocrata e conservadora. Como diria o velho ditado: já que não pode lutar contra eles, junte-se a eles.
É justamente indo nesse caminho que faço uma proposta que abarcaria o ensino de todas as escolas do país, desaguando no vestibular.
A primeira proposta seria que desde a quinta série primária o aluno tivesse aulas sobre métricas, versos, rimas e afins ligados à poesia. Ao final de cada unidade, esse aluno seria obrigado – sim, obrigado como ele é a fazer qualquer tarefa de qualquer disciplina – a escrever um soneto. Esse soneto valeria como nota, seria analisado em termos de métrica, originalidade, ritmo, etc. E teria o mesmo peso que uma prova de matemática.
Isso seguiria ao longo do ensino médio, talvez aprimorando no primeiro e segundo ano do segundo grau para algo mais complexo, uma glosa, décimas, um conjunto de sonetos interligados por um tema, enfim, a cada unidade o aluno seria cobrado e comparado em seu avanço.
No vestibular, o soneto, ou conjunto de sonetos – essa parte eu teria que me aprofundar, caros Fernando Haddad e Adeum Sauer, dentre tantos outros – valeria o mesmo peso que a redação. Depois de seis anos em contato com a poesia, esse estudante poderia fazer faculdade de ciências contábeis, assim como alguém que se virou nos problemas matemáticos a vida inteira pode fazer belas artes.
Muitos podem ter torcido o nariz para a palavra “obrigação” no que se refere à minha proposta. Mas esse papo de que a arte é o espaço do lúdico faz essa disciplina ser uma confusão e uma enrolação que não ensina nada a ninguém, e o adolescente cresce na esculhambação, pesando que fazer arte é recreio. Não. Obrigar o aluno a fazer soneto, sim.
E por que soneto? Bem, depois que o genial Walt Whitman (antes dele Rimbaud, etc) abriu de vez o caminho para o verso livre, tivemos, na poesia, gênios como Pessoa, que se utilizaram do verso livre pra fazer uma obra genial, mas também um monte de coisa ruim, sem critério. Hoje em dia, basta a pessoa fazer um jogo de palavras, criar umas frases de efeito e dizer o que o leitor quer ouvir e já é um poeta. A prisão do soneto dava e dá menos espaço, porque quanto mais limite a arte dá ao artista, mais genial ele tem que ser, e mais desafiado ele se sente. E Pessoa só escreveu o que escreveu em versos livres porque era um excelente versador, com grandes sonetos. Sabia tudo de ritmo, de métrica, e o verso livre, por incrível que pareça, tem também sua métrica e seu ritmo, não são sentimentos jogados no papel.
A outra proposta seria que o aluno, desde cedo, entrasse em contato com a música erudita, clássica, chamem como quiser. Já na quinta série, ele experimentaria – cobrado e com nota – compor suas primeiras peças simples, na partitura, pra piano. Depois, iria evoluindo pra escrever para piano e flauta, fagote e oboé.
Pra não me delongar muito nisso – e peço perdão ao ministro, aos secretários todos de educação por não ter elaborado um plano concreto e efetivo – o fato é que esse aluno teria que compor uma sonata no vestibular, sendo analisado por sua escrita, arregimentação, harmonia, contrapontos, etc, valendo igual nota a uma prova de química, por exemplo.
De alguma forma, esse adolescente teria contato com grandes obras, saberia lê-las. Aos que me dirão que a obrigatoriedade faria muitos detestarem poesia e música clássica, eu respondo com um simples; a maioria dos adolescentes já odeia e nunca vai ter oportunidade clara de contato com essas artes. Se ele vai tomar outro rumo, isso é problema dele. Mas teríamos – assim como temos músicos que sabem fazer cálculos (e música e matemática estão muito perto) – matemáticos que sabem o que é uma sonata, químicos que sabem o que é um soneto – tendo passado pela experiência de ter feito um. E se isso não abrir a cabeça e a sensibilidade dessa pessoa, aí, nem com marreta. O exercício da escrita e a necessidade da inspiração nos obriga a ler, conhecer, tentar imitar e se reconhecer no que fazemos. Ao invés do menino ir pra todos os ensaios de tal grupo de pagode, ou ensaios de bloco, ou perder tardes na frente de uma televisão ou videogueime, esse menino teria que estar elaborando um soneto, contando as sílabas, pensando um tema, buscando inspiração para uma melodia ou contraponto.
Caro ministro e caros secretários de educação, essa idéia precisaria ser implementada com urgência, garanto que geraria bons frutos. Mas, por favor, não façam milhões de reuniões inúteis nem entrem com assuntos ligados a democratização, interiorização, cultura popular e raça. É muito tempo perdido e muita gente que não sabe onde põe a cabeça, mas tem opinião formada sobre qualquer assunto, da microfísica do poder das abelhas à energia quântica do peido das baleias.
Chamem profissionais competentes, experientes (sou um dos excluídos, que isso fique claro), que possam elaborar um plano efetivo e concreto a respeito disso.
Só mais um adendo. Frente a tanta inoperância, corrupção e incompetência do poder legislativo, poderia se pensar um piso salarial equitativo para parlamentares e professores. Pra mim, os segundos são muito mais importantes do que os primeiros. Mas por enquanto, caro Fernando Haddad, torço com você, ao menos, pelo piso de R$950,00; que é uma miséria para um profissional fundamental na nossa vida.
GVT.