segunda-feira, janeiro 12, 2009

Meia-entrada, públicos, políticos, todos estes em estados críticos...

Atendendo ao pedido de um leitor do blog, vou tentar me pronunciar sobre a nova lei da meia-entrada, aprovada no congresso. Mas, como sempre, terei que ampliar o debate para dois conceitos que já queria discutir aqui no blog; o público-massa e o público-espontâneo (com todos os hífens anti-reforma hortográphika possíveis). Para definir um, estarei inevitavelmente caracterizando o outro.

Ir ao teatro deixou de ser lazer depois que a televisão, o cinema e a preguiça mental tomaram conta do público comum. Poucos são os que vão espontaneamente ao teatro. Quando digo espontaneamente, me refiro a uma pessoa que – por vontade pessoal e desejo particular – pega um jornal, acessa um sítio na rede ou pergunta a algum amigo pra saber sobre espetáculos que possam estar passando na cidade (gerundismo anti-telemárquetim).

Conseqüentemente, esse “público”, a partir de suas referências culturais (hum...) vai analisar a ficha técnica daquele espetáculo, de quem é o texto, se ele dialoga com algum tema, linguagem, estética ou literatura que lhe interesse, e decidirá sair de casa para ter uma noite de apreciação artística, deleite – ou não, mas na vida tudo é experimento – num determinado teatro de sua cidade onde ele já conhece e acompanha, vez por outra, a programação, e já foi recentemente ver algo que lhe agradou ou decepcionou profundamente.

Esse público espontâneo sabe que um mesmo artista – se for um artista (e está difícil achá-los cada vez mais) – pode acertar ou errar, o elenco pode brilhar ou se equivocar, mas ele vai procurar ver o que, daquela equipe, pode surgir de novo, ou repetidamente acertado ou errado, e com isso chegar à sua própria avaliação, seu próprio sentimento. Aquilo ali vai ajudá-lo a ver, por qualquer via que seja, o mundo que está à sua volta, dentro de si, num lugar que ele não imagina ou que desejaria mudar.

Esse público deve existir, mas está tão escasso quanto o verdadeiro artista, a arte que valha a pena, e chego a me perguntar certos momentos sobre as várias culpas e a história do ovo, da galinha, da granja e do galo vão se interligando, se misturando, e no fim tem culpa eu, tem culpa tu, tem culpa o rabo do tatu.

O público-massa é aquele que vai para o espetáculo por indicação, porque aquele espetáculo o diverte com piadas preconceituosas e lugares-comuns melodramáticos ou políticos que o levarão às suas referências da TV, do cinema comercial e das músicas velozes, já que nem as ligeiras (procurem algo sobre Adorno, quem não conhece e se interessar) servem mais. Esse público vai ao teatro ver o ator da novela, e liga de lá dizendo que está vendo fulano. A encenação, o texto, as atuações dos coadjuvantes – que, em sua maioria, superam a da estrela – não interessam, ali está o status social de se sentir na Ilha de Caras (não das cabras; conferir postagem abaixo...).

A lei da meia-entrada propõe que o produtor só tenha a obrigação de vender 40% da lotação da casa para estudantes, maiores de 65 anos e, principalmente, os falsificadores que – em sua maioria – pagam contas (inteiras) em xópins e bares, mas só vão ao teatro por se sentirem levando vantagem em roubar dos artistas a bilheteria que muitas vezes nem paga o transporte destes.

O público-massa se acotovela para ver o sucesso da temporada, a peça com ator de novela, a baixaria feita por artistas duvidosos. Pra estes, será um imenso lucro essa lei. Quem quer assistir, acaba pagando a inteira pra poder realizar seu fetiche – e não apreciar a obra artística – e a equipe do espetáculo sai lucrando, pois 75% da platéia sempre são de meias-entradas e isso diminuiria sensivelmente, aumentando a renda da produção.

Agora vamos pensar nas produções que não se ancoram em estrelas, em apelações, em sucessos fáceis e na sorte – de uma em mil – de agradar ao público com algo diferente, experimental e novo. Pensemos num teatro de 200 lugares. 40% disso são 80 lugares. Ter 80 pessoas por dia – em média – numa casa de 200 lugares, durante uma temporada, já seria um bom público. Mas imaginemos metade da casa. 100 pessoas. Se 75% são de meias-entradas, significa que 75 pessoas pagarão meia. Não se chega nem às 80 pessoas previstas pela lei.

Ao fim e ao cabo, a meia-entrada – que não é coberta por nenhum órgão, portanto é tirar metade do cachê de um artista que não paga metade do lanche que ele faz no teatro, não paga metade da passagem de ônibus que ele pega pra ir e voltar ou metade da gasolina que ele põe no carro, enfim, essa lei acaba enchendo mais o bolso de quem já ganha e quase não interfere na produção mais alternativa; que é a grande produção deste país e que geralmente produz coisas bem melhores que o que vemos com preços altíssimos e filas imensas (salvo honrosas e desastrosas exceções para os dois lados, é claro).

Gilberto Gil passou seis anos pedindo mais dinheiro pra cultura. E o máximo que a imprensa fez foi caricaturá-lo como chorão, e os parlamentares deram as costas como algo insignificante, bem como o executivo deu um jeitinho, mas nada de muito expressivo aconteceu. No Estado, vemos a pouca verba ser mais ainda pulverizada e democratizada entre profissionais, amadores e aventureiros, sem distinção de formação, valor artístico ou relevância cultural, na maioria das vezes. Municipalmente, vereadores não sabem nem discutir cultura e arte, e a prefeitura ignora tudo isso há anos (me aterei mais à Prefeitura da cidade de Salvador na próxima postagem, aguardem).

Enfim, não há interesse de criar e aprovar leis que beneficiem as artes. Políticos de todas as esferas são tremendos analfabetos artísticos, não tiveram nem querem ter uma formação cultural sólida, e parecem não querer o mesmo para a população, pois um povo com cultura vasta se torna um grande povo, e não vai aceitar políticos de merda.

Quem sabe se os governantes e parlamentares, com suas plataformas de campanha, consigam mudar esse panorama, educando e dando cultura ao seu povo? Se isso foi uma piada apelativa? Bem...

Tendo salas de espetáculo sempre cheias de um público-espontâneo, talvez essa lei possa ser repensada. Aposto que 95% dos artistas brasileiros adorariam ter suas casas lotadas de meia-entrada, ou quem sabe, como dizem alguns que vai acontecer, com preços mais reais, únicos, que não pesem nem no bolso do estudante e nem esvaziem ainda mais o do artista.


GVT.

Um comentário:

Bruna Scavuzzi disse...

arrasou...