quinta-feira, janeiro 08, 2009

teatro e ritual; uma diáspora necessária...


Acabei de vir de um enterro. Não um enterro qualquer. Ultimamente, tenho acompanhado alguns enterros de gente de candomblé, e é um ritual à parte que se faz no cemitério.

Ao retirar o caixão do velório, começa-se a entoar cânticos da nação correspondente à pessoa que faleceu, e os ogãs, ou tatas, vão levando o caixão até o lugar de seu sepultamento. No caminho até lá, pessoas incorporam, ou viram no santo – como comumente se diz – e vão dando seu ilá (grito característico de cada entidade) até o final. Outra cântico é entoado enquanto vedam a sepultura e, ao final, todas as pessoas incorporadas dão um último ilá como forma de adeus àquela pessoa falecida.

É um ritual emocionante, puro, sincero e desapegado de qualquer sentido de mostrar, aparecer, ser visto, é um rito – talvez mais forte até que a própria festa no barracão, onde egos se inflam – de passagem, de despedida, manifestação primeva que nos remete aos ancestrais dos ancestrais dos ancestrais...

Hoje, num lapso de desatenção, passando ao lado de jazigos monumentais, ao lado de Castro Alves e de tantos desconhecidos importantes para alguém, pensei sobre a grande bobagem que me parece esse resgate (seqüestraram?) que querem fazer do ritual no teatro.

Mais do que natural, foi necessária a separação do rito para que o teatro chegasse aos nossos dias como o conhecemos; jogo, apresentação, ludicidade. A seriedade do ritual não pertence ao teatro. O sagrado palco que pisamos é espaço de profanação. Pelo seu próprio caráter transgressor e revolucionário o teatro se desvincula do ritual por este ser o lugar da tradição, da conservação, enquanto o teatro rompe e questiona, critica e transcende o padrão.

Vem-me logo à cabeça o trabalho de Zé Celso, à frente do Teatro Oficina. Diz-se ali que eles procuram uma volta do teatro ligado ao sagrado, mas qualquer um mais atento vai perceber na transgressão de Zé Celso que ele reinventa o mito, portanto desconstrói o rito. Logo, não há ritual, há o jogo, inadmissível para quem cultua suas obrigações e liturgias, todas elas seriamente ligadas às divindades e, portanto, rito, não jogo.

O teatro está muito distante daquele enterro que eu fui. Não são aquelas pessoas naquela crença e naquele momento que podem trazer uma imagem teatral na minha mente. Nem tampouco passa pela minha cabeça que aquele momento possa ser vampirizado por mim, como fazem aqueles que se promovem vendendo o exótico. Aquela “procissão” acaba ali. Pode até me inspirar uma imagem cênica, mas aí já é teatro, não é ritual.

Acho engraçado aqueles atores que acham que entram num certo transe pra fazer teatro. Respeito o processo de cada um, mas a incorporação, por mais que venha de ações físicas, é um processo que envolve a criação artística, e não um processo litúrgico sedimentado por qualquer religião (e, no fundo, todas as liturgias se parecem...). E há fiéis seguidores que parecem vindos da Universal do Reino de Deus, acreditando que aquela incorporação quase mágica, quase mítica, enleva-os aos píncaros do fazer teatral, píncaros estes que a platéia, geralmente, não percebe, só quem está fazendo e levando a sério aquilo.

É óbvio que – parodiando Pessoa – há um pouco de tudo em cada coisa. Estamos constantemente contaminados pelo que vem de fora, pelo que nos inspira, pelo que vemos, ouvimos, sentimos e imitamos. No teatro não é diferente; seja ele físico ou metafísico, visceral ou cerebral – e no fundo todos eles se contaminam entre si e não há pureza.

A etnocenologia estuda a espetacularidade de manifestações folclóricas e religiosas, e, há, sim, o que estudar. O teatro bebe de várias fontes, inclusive daquelas donde, enquanto nascente, ele surgiu. Mas o teatro existe quando se separa do rito, vira jogo, representação e se distancia do sagrado.

Apesar de o teatro ser mais sagrado pra mim do que qualquer religião.





GVT.

3 comentários:

Luiz Alberto Machado disse...

Naravuilha este espaço, parabens. Indicarei nas minhas páginas.
Abração
www.luizalbertomachado.com.br

Anônimo disse...

Oi,

foi aprovado em novembro, no Senado, o projeto que estabelece que os organizadores de espetáculos de teatro, shows ou cinemas podem limitar o numero de ingressos destinados à meia-entrada (estudantes ou idosos) em 40%, nunca menos que isso.

A lei aprovada pelo Senado estabelece ainda que as carteirinhas de meia-entrada serão confeccionadas exclusivamente pela Casa da Moeda e que a distribuição será de responsabilidade dos diretórios da UNE.

A proposta precisa passar por nova votação na Câmara dos Deputados antes de seguir para a aprovação do presidente Lula.

Eu, como estudante e freqüentador de espetáculos culturais, que tem como renda apenas uma bolsa de IC, acho a idéia absurda, particularmente no que diz respeito ao estabelecimento de cotas. Acho positiva a proposta de padronizar e centralizar na Casa da Moeda a produção das carteirinhas, o que talvez atenue o problema da falsificação.

Mas, vocês, que estão diretamente inseridos no processo de criação e produção teatral, talvez pensem de outra forma.

Enfim, achei o tema relevante e proponho que vocês (equipe do blog e leitores) problematizem a questão (se for do interesse...) neste espaço que tem se mostrado aberto a discussões.

Salve, salve!

Danilo Moraes
SSA/BA

P.S.: escrevi na caixa de comentários da última coluna do blog, mesmo sabendo que a mensagem não está relacionada com o texto de Gil Vicente, mas essa foi a forma que encontrei para entrar em contato com vocês.

Bruna Scavuzzi disse...

sem palavras. Leria esse texto todos os dias...