Adolescente não combina com teatro. Calma. Não falo aqui da juventude em si, dos jovens de fato e de idade. Mas daquela pessoa que, se por um lado não se descolou da infância em seus raciocínios, comportamentos e conhecimentos, tem necessidades e desejos de um adulto, bem como a necessidade e o desejo de se parecer com ele (ou negá-lo).
Nesta fase, a “crise da adolescência” traz rebeldia, desatenção, falta de concentração, necessidades sexuais que se embaralham com a necessidade de auto-afirmação, comportamentos inusitados, “depressivos” ou “excitados”, e uma postura de cagar solenemente para a cultura de seu lugar, de seu país, de sua realidade.
Mapeando de forma superficial, vemos aqueles que só pensam em baladas, em ficar com as mulheres nas baladas, curtir festas, eventos, passar ao largo de outra música que não seja a de sua tribo, passar a anos luz de distância de algo que contenha mais do que duas linhas escritas, e consequentemente, nem pensar em teatro.
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Logo o teatro, que na Grécia antiga era recomendado por médicos como remédio para algumas doenças... E não me espanta o fato de estarem usando filmes com este intuito, como pude ler recentemente numa notícia publicada aí na rede. A arte, de uma forma geral, vem suprir a tríade educacional proposta por Platão em sua República (e, que, curiosamente, rechaça o teatro, mas aí são outros quinhentos, entra mimetismo, caverna, é papo pra outra hora).
Diz que ele achava que arte (ele se referia mais à música), filosofia e educação física era a base para formar o cidadão. Com a sensibilidade, subjetividade e fantasia da arte, o raciocínio da filosofia e a saúde física através dos esportes, o homem poderia estar completo em sua formação. O poder da arte, de transpor o homem para um mundo de sonhos, pesadelos, utopias, desastres, desejos e culpas que fujam da mesquinhez do dia-a-dia dão um potencial à arte de formadora do espírito, da alma, do pensamento, do íntimo de cada um; chame-se como quiser essa coisa.
Parece que o "adolescente" não está preparado nem quer isso. Ele não quer sentar pra ler um livro que tire ele do real. O virtual pra ele é o videogueime, a internet e seus acessórios cada vez mais complexos e baratos; celulares, tocadores de mp3, etc. Ficar num teatro, por uma hora e meia, ouvindo um texto? Nem pensar. Ainda mais um texto que não fale do seu cotidiano, que não dialogue com ele diretamente. E acho, mesmo, que essa não é a função da arte.
Pra isso temos jornais, programas de televisão, a própria internet e até mesmo a sala de aula. Discorri mais sobre isso num texto aqui do blog, mais abaixo, que dividi em três partes, falando sobre arte e vida.
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Em Salvador, vivemos um problema crônico de adolescência tardia. Os desejos e preferências de adolescentes de 18 anos são os mesmos de um jovem de 28, de um homem de 38 e de um “coroa” de 48. Evolui-se apenas na idade. Lógico que o trabalho, as referências vão aumentando... Uma lida na revista Veja e já encontramos um sabichão que pode lhe explicar tudo sobre a política atual no Brasil. Uma passada de olho numa revista masculina ou numa citação de livro de auto-ajuda, e encontramos um homem sensível que tenta ver a vida de forma menos estressada e mais lúcida. Ou então encontramos ávidos leitores de best-sellers que conseguem o feito invejável de ler um livro por ano e chamar os outros de iletrados.
Mas no fundo, o soteropolitano de classe média continua indo às mesmas festas do menino de 18, continua tendo os mesmos interesses, as mesmas demandas, a mesma superficialidade da cidade que é boa pra beber e beijar na boca. E ganhar dinheiro, claro (e aí, vamos até Weber, mas é outra história, também...).
Pois os empreendimentos em Salvador estão crescendo e, a cada prédio novo com 4 suítes que vejo com a placa 100% vendido, imagino mais um condomínio de pessoas pra lotar as festas de Sauípe e o Xópim Salvador.
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Há quem diga que esta classe média, que está na faixa etária de 18 a 48, é filha e neta da ditadura. Mas talvez eu vá mais longe. Salvador recebeu os reflexos culturais da última grande monocultura brasileira, a do cacau. E foi uma geração que, ao invés de construir casas de ópera e comprar um piano pro filho estudar, mandava os rebentos para Disney e Miami.
O ciclo do cacau, em sua última fase de pujança, já estava encaixado no padrão do século XX, totalmente capitalista, ligado à indústria cultural e à ascensão estadunidense pós-segunda guerra. Essa influência demorou a chegar um pouco, pois a Bahia vinha já, de muito tempo, como um pólo de referência intelectual.
Tivemos a geração de Jorge Amado, Caymmi, Walter da Silveira e tantos outros, depois a geração de Glauber Rocha, Gilberto Gil e João Ubaldo Ribeiro, e mais uma cacetada de gente boa que é destaque no país e no mundo, mas depois disso, com ditaduras, crise na educação e estreiteza da classe-média, acabamos por viver um esvaziamento de cultura, uma falta de diálogo entre a sociedade e a arte de seu tempo, de seu local, como ferramentas de formação, conscientização e sensibilização do homem em nossa cidade.
Claro que posso registrar aqui os que tentam ser alternativos, mas que não passam muitas vezes de pessoas rasas que passam carnaval em Recife e ouvem Lenine e acham que são o antídoto cultural que nossa terra precisa (mas isso, também, é uma outra história).
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Enfim, a arte está sufocada numa cidade que não dialoga com ela. As tentativas de ida ao teatro são muito mais por uma cobrança interna de fazer programas diferentes e mais “adultos”, do que uma necessidade interna de dialogar com estéticas e conceitos, quando não para acompanhar de perto algum sucesso baiano que vira obrigação de lazer mas que não reflete em nada a relação com o teatro em si.
Não se tem a arte como provocação e estímulo, como válvula de escape e um meio de tirar da secura da vida um pouco de sonho. É desesperador, pois ficamos entre a resistência e a rendição. O artista está cada vez mais desamparado pelo estado, que acha que devemos nos virar na iniciativa privada, correr atrás de patrocínios e públicos. Mas como, se são justamente estes adolescentes tardios que decidem o que apoiar, patrocinar e assistir?
E o capital da cidade circula apenas entre restaurantes, bares, xópins e festas. O deslocamento do teatro, frente à sociedade, e já tratado aqui neste blog em outros artigos, me dá – muitas vezes – aquela sensação de que eu devia desistir, jogar a toalha, ou – seguindo o conselho de uma maioria absoluta que me cerca – me mudar daqui pra um lugar 'menos' "alienado". O que me faz resistir é que um dos motivos maiores que me faz fazer teatro, ter um grupo e escrever pra este blog, é justamente poder sonhar em conseguir provocar, mexer, modificar, nem que seja uma pessoa da platéia, um leitor do blog, um adolescente, de qualquer idade, potencialmente capaz de apontar para uma realidade menos vazia, mesquinha, pobre e sem utopia.
Gil Vicente Tavares