sábado, agosto 16, 2008

O Teatro e a Olimpíada (1ª parte)


Como não se fala, se vê ou se ouve outra coisa por estes dias parece que não dá mesmo para escapar do óbvio. Mas queria aqui fazer um esforço para pensar na Olimpíada com outros ângulos, relacionando-a com o meu tema ad exaustaum: o Teatro.

Os dois são manifestações culturais surgidas na Grécia Antiga, sabemos. Não vou especular muito sobre a causa de uma ter se tornado um espetáculo de interesse mundial, enquanto a prática do outro se transformou em algo pulverizado, de apoio restritíssimo, que movimenta pouca ou nenhuma publicidade e, causa-consequência, tem importância periférica na atual sociedade de consumo mediática.

Só vou lembrar da conversa que tive com minha amiga, a atriz Adriana Amorim, que está no mestrado do PPGAC investigando sobre as relações entre o teatro e o futebol, ou seja, entre o teatro e uma modalidade esportiva.

Depois que ouvi sua angustiada e legítima exposição sobre a diferença da quantidade de públicos, eu dei meu pitaco sobre o interesse massivo de um, em detrimento do desprezo massivo do outro. Em ordem, eu acho que: Em 1º lugar, no futebol há competição; Em 2º lugar, as regras são claras; 3º lugar, o objetivo final é obvio até para aqueles que não conhecem todas as regras: meter a bola na rede.

Acho que, sim, grosso modo, a competição e a simplicidade das regras explica muita coisa sobre o sucesso numa sociedade de espetáculo (qualquer uma). A simplicidade das regras que faz com que todos acompanhem o fenômeno, a competição que faz com que tomem partidos, irmanados em torcidas que promovem a participação e o engajamento. Não vivemos tempos de reclusão e observação. Não queremos a re-presentação, mas a presentificação, etc.

Em outra direção, lembro que o teatro também já teve suas torcidas. Na Grécia mesmo, as peças eram apresentadas em forma de competição. A maturidade da tragédia grega, por volta de 500 a.C, ocorreu graças a concursos públicos promovidos, anualmente, pela pólis.

Sófocles, autor de Édipo Rei, foi vencedor destes concursos dramáticos 24 vezes. Ésquilo levou 13 coroas de louros para casa (bom, não sei se era este o troféu para o teatro também...) e Eurípedes, de As Bacantes, levou outros cinco. Os números estão lá na História do Teatro, de Nelson de Araújo, e em outros livros. Isso para não falar da competição entre Shakespeare, Marlowe e Ben Johnson, da concorrência entre as diferentes casas de óperas, entre as sopranos, entre as primeiras atrizes. Sim, e entre os intérpretes de Shakespeare!

Quando um público, como o inglês por exemplo, conhecedor de um autor como Shakespeare, acostumado a assistir dezena de peças dele, vê um novo ator desempenhado o clássico papel, este público já tem de antemão algumas regras. O ator tem que ser muito bom para superar todas as expectativas da platéia e superar o desempenho dos outros intérpretes ao lado. É como no salto com vara: tudo mundo prende a respiração porque sabe o que vai acontecer. E respira quando o atleta o surpreende. Isto é competição. Isso mexe com o sangue.

É bem diferente do Brasil, por exemplo, pelo menos em relação a Shakespeare, onde a cada geração surge um eleito incomparável. Puxa vida, eu nem sei explicar como isso acontece... E que fique bem claro que obviamente não é culpa dos atores, que estão fazendo a coisa certa, mostrando seu trabalho, dando as caras, assumindo desafios. Mas que é um sistema provinciano no qual estamos cada vez mais inseridos, isto é.

Vale destacar que há muito tempo 'ser provinciano' não é mais associado apenas ao habitante de uma província real, digo, de uma cidade do interior. Ser provinciano, para a história das mentalidades, é estar limitado às suas fronteiras, sendo incapaz de ver e reconhecer o que há de fora delas. A percepção da realidade é "minha aldeia" e, dentro deste círculo (de variados tamanhos), achar que acontece tudo de mais importante no espaço e no tempo. O sistema midiático, claramente sem memória temporal, apresentando tudo como a "última bolacha do pacote", é reconhecidamente um ambiente provinciano. Lembre-se: para o provinciano só importa o que habita naquela aldeia.

Bom, mas voltando a competição, há muito dela na dramaturgia televisiva. Isso é inegável. Competição que, com certeza, provoca a produção, e - vá lá, sejamos humanos - nossos mais elementares instintos. É bom lembrar que tanto as competições teatrais quanto a Olimpíada quando aconteciam suspendiam as guerras em curso. O Teatro e o Esporte substituiam as competições de verdade. Neles continuamos inimigos, mas de 'mentirinha', sublimando nosso espírito de destruição real. Bom, não sei muito sobre Freud, só o suficiente para dizer com ele que é na sublimação dos instintos que está a base da civilização.

Mas, meu Deus, olha como o texto ficou grande só com a abertura... Incrível. Queria escrever sobre o esporte de elite e sua relação com o teatro de elite (e não, teatro DA elite!!!!). Deixo para uma segunda parte.

Beijing a todos.

2 comentários:

caicko disse...

Adorei as associações. Ah, e ator também merecia medalha!! Abração e uma ótima semana.

ALBERGUE MENTAL
http://caioalbergue.blogspot.com

Leonardo Cerqueira disse...

QUERIDA JUSSI!

SOU EU, SEU ALUNO QUERIDO.
PODE ME ADD AGORA PORQUE TAMBÉM TENHO UM BLOG.

BJOCAS!

PS. ADOREI O TEXTO DAS OLIMPIADAS.