terça-feira, junho 05, 2007

Essa platéia é um espetáculo

Por Jussilene Santana
Cena 1
A platéia numerosa compra baldes de pipoca, irrequietos bombons e indiscretos refrigerantes. Sento para assistir uma sessão ininterrupta, que recomeça a cada duas horas. Um estímulo a mais, já que posso ir logo depois do trabalho, na quarta-feira, que é mais barato. Se fosse apenas sábado à noite, às 21h ficaria com uma preguiça... Como está tudo pronto, o modo como me comporto assistindo não interfere na realização do produto. No máximo, na recepção dele. Mas isso é um problema para o casal ao lado.

Cena 2
Interna. Casa. Noite. Jantar. Comento sobre o dia com minha mãe, enquanto passo a saladeira. Ouço a gargalhada da atriz e olho para a TV. Continuo conversando, comendo e observando.

Cena 3
Terceiro toque. Silêncio. Um pigarro. Outra tosse. Olhares impacientes. Silêncio ainda maior. A luz se acende e um ator aparece. Imóvel eu observo tudo, sinto até que a cadeira é bastante desconfortável. E ainda faltam 2h!...

Cena 4
Ela é Julieta. Ele é Romeu. Eles se amam. O público acompanha a narrativa como se assistisse ao final de um Ba-Vi. Gritam: fica com ela! Ou: ela é feia para você! Gargalhadas. Detalhe: quem interpreta Julieta é um belo rapagão de peruca loura. Alguns riem. A maioria está de pé. Se o público não gosta, atira frutas podres. Aplausos e assovios ansiosos não esperam as cortinas, que sequer existem. Shakespeare assistindo a tudo, sorri.

Aposto que você achou que a cena três é, se não a mais fácil de se representar, pelo menos o ideal para se escolher. Afinal, não esperamos tudo de uma platéia, apenas que ela se comporte como tal!

O engraçado é que o comportamento da platéia em relação a uma encenação passou por grandes mudanças nestes últimos dois mil anos. Às vezes mais, às vezes menos discreta. O certo é que público, e mesmo atores, já não sabem qual é o certo. Dizem: no teatro é silêncio sempre.

Contudo, por volta de 1550, Shakespeare realmente não era encenado com tanta deferência. A turba, recém saída da Idade Média, assistia ao futuro clássico com a mesma atitude que tinham frente aos autos medievais. E interferiam, zombavam, urravam. Foi a platéia aristocrática e, depois burguesa, nos dois séculos posteriores que colocou ordem na casa. Sacralizou a encenação teatral. A arte era, mais do que nunca, uma religião e deveria ser res-pei-ta-da. Silêncio. Schhiii.

A maioria das convenções teatralizantes e distanciadoras surge nesta época. A quarta parede (a linha invisível que separa a cena do público e que faz com que os atores “não vejam a platéia") nem sempre existiu. Mas, na vera, sabemos que são atores fazendo personagens ali em cima. O aplauso e as vaias são as únicas maneiras de “combater” a imobilidade proposta ao espectador (sente-se, comporte-se e assista!). É, por excelência, o momento onde platéia e atores sempre se encontram para além da ficção.

Curioso é notar porque entre as palmas e o muxoxo, ninguém vaia mais neste país! Acho que o último espetáculo vaiado no teatro brasileiro foi Dorotéia, na primeira montagem carioca, isso em 1950!! E isso com Nelson Rodrigues, um marco do modernismo teatral no Brasil, já alvo de outras polêmicas! Hoje a platéia está careta, perdida e amorfa. E pior: se achando o máximo! Só quer ser paparicada! "Me dêem o que eu nem sei que quero. Mas me satisfaça". Também, entre tudo que é possível se mostrar num palco e depois de tudo que o século XX fez, o que é mesmo teatro, ein?

Um grande ponto para a confusão de modos é a quebra de linhas rígidas de encenação. Muito se discutiu depois de Brecht sobre a opressão do espectador. Outra influência mais clara é o modo peculiar de assistir produtos pré-gravados, como o cinema comercial (que possui diversos horários à disposição da minha atribulada vida) e a TV (a grande invasora do cotidiano). “A TV, na verdade, é que me assiste”.

Um ponto para nossa reflexão é lembrarmos, por exemplo, que no Japão, o teatro burguês não fomentou em nenhum momento o rompimento entre platéia e palco. E o público, ainda hoje, tem liberdade de falar, comer e beber durante o espetáculo. Pobre dos atores...
Por Jussilene Santana, re-editado em 05 de junho de 2007
junesantana@gmail.com


2 comentários:

Caio Ferrão disse...

Maravilhoso o texto, jussilene!

Cláudia Barral disse...

Teatro será o que eu sentir que eu quero que ele seja. Como platéia, eu queria poder voltar a falar, às vezes.