sábado, junho 09, 2007

Artigo gentilmente cedido por Ildásio Tavares, publicado na Tribuna da Bahia de sábado, dia 9 de junho de 2007

A DISTRIBUIÇÃO DA CULTURA
Ildásio Tavares

Quando venho aqui, prestar minha modesta contribuição para uma cultura, da qual faço parte como criador e como gestor assíduo, não me limito a emitir palpites baseado exclusivamente no meu referencial, arvorando-me a dono da verdade. Não. Procuro discutir realidades a partir de uma longa vivência da coisa cultural, com quem lidei em épocas diversas; com diversos enfoques políticos; a partir de estratégias diferentes. Quero crer que a minha experiência e tirocínio sirvam para abrir uma janela para os que conduzem o barco cultural nesta transição Bahia. Janela onde poderão se debruçar sobre um representante de classe com a melhor das intenções e uma considerável folha de serviços prestados.
Ouço falar numa mentalidade descentralizadora que buscaria dividir melhor o apoio cultural do governo, ampliando a intervenção no interior, ou seja, despir um santo para vestir o outro. Tivéssemos uma capital pujante artisticamente, com atividades prósperas em todas as áreas, e mesmo assim haveria um esvaziamento no todo. Os fatos sociais ocorrem por capilaridade, imitação. Capital vem do latim caput que quer dizer cabeça. Antes de fortalecer um corpo, é necessário ter uma cabeça sadia e equilibrada. O interior não quer fazer arte interiorana, assim como a capital não quer fazer arte estadual. Todo projeto artístico é um caminho de crescimento.
Um estado com um movimento artístico e literário estruturado tem na capital um pólo de atração e aperfeiçoamento que depois se redistribui. Um surto cultural não virá por dirigismo nem geração espontânea no interior. Numa primeira etapa, urge que se estruture a capital e Salvador fica atrás até de Curitiba, pra não falar no Rio, São Paulo e Porto Alegre. O que ocorre é que a cultura popular da Bahia é tão forte, rica e sedutora que ela causa uma atrofia no setor erudito, mais desenvolvido nas capitais que citei, exceto aqui por alguns guetos de excelência, como o Balé do TCA, por exemplo. E o Viladança, que ganhou o Prêmio Nacional Petrobrás. É babaquice pensar a arte erudita como burguesa. No auge do stalinismo, a URSS jamais pensou em extinguir o Balé Bolshoi.
Arte de boa qualidade custa caro. Uma tentativa horizontal de democratizar a arte vai mediocrizá-la. Deve-se investir nos focos de excelência para depois distribuir o seu “know how”, socializar a sua experiência. Uma bolsa cultura seria impossível, porque a fome de arte varia de pessoa a pessoa, de lugar a lugar, e seria impossível satisfazer esta fome sem uma estrutura montada que pensasse as diversidades locais e administrasse o dinheiro, evitando a corrupção que existe até na bolsa família. Nossa arte nos representa.Vamos repensar a experiência da Bahia e não castrá-la. Em Lisboa, nas comemorações dos 500 anos do Descobrimento, assisti a uma récita consagradora do Balé do TCA, ovacionada de pé pelo público. Saí do teatro de peito estufado. Orgulhoso de ser baiano.

2 comentários:

Claudia Cristina de Santana disse...

concordo!sobre o geral, mas não acho que o btca era mais excelência... já foi!

Gustavo Felicíssimo disse...

Mestre Ildásio Tavares, faz muito tempo que, infelizmente, nossos governantes, de maneira vertical, fizeram opção pela chamada "cultura popular". Cultura de Massa para agradar o povão porque dá mais voto, acredito. No entanto, "massa" a gente come com um bom molho à bolonhesa e um tinto seco, de preferência. Há grande contradição nisso tudo, pois o popular pode tanto ser acadêmico quanto não, assim como a erudição. Depende do ponto de vista. Certo mesmo é que nossos governantes só dão bola fora quando o assunto é cultura. Eu mesmo acho que o Selo Letras da Bahia não deveria existir, mas isso é um outro papo uu existir com severas restrições.