quinta-feira, março 10, 2011

Carnaval dos animais


Havia acabado de escrever um texto sobre a “síndrome de Peter Pan” que acomete Salvador, essa vontade de não crescer, e caio no carnaval da cidade.

O carnaval de Salvador é um simulacro, em sete dias, do que é a cidade o resto do ano. Uma soma da inoperância e falta de planejamento dos poderes públicos, um domínio voraz de empresários que fazem o que bem entendem e de forma tosca e a selvageria de um povo que, há muito, parece ter perdido a delicadeza.

Peço, então, que o que se lê aqui sobre o carnaval sirva, guardada suas proporções e alvos, como uma metonímia dos outros 358 dias de civilização e barbárie.

Salvador tem que profissionalizar seu carnaval. E o que seria isso?

Há anos vamos empurrando nossa maior festa sem planejamento, organização e planejamento urbano para o real funcionamento da folia. Como já foi estudado em pesquisas, o carnaval de Salvador é mais pra turista que pra soteropolitanos, visto de mais de 60% deles preferem ficar em casa, outros tantos viajam e a cidade se infesta de estrangeiros, sulistas, mineiros e por aí vai.

Primeiramente, tem-se que ter uma organização pensada, que vá da ordem dos desfiles a cumprimento de horários e tempo de percurso. Passando pela escolha das atrações dos trios independentes e seus artistas, bem como apoios a blocos afros e adjacências.

Não dá pra deixar um bloco da beleza do Ilê Aiyê desfilar na avenida de madrugada, assim como não dá pra se jogar dinheiro fora com afoxés e blocos afro que têm meia dúzia de três ou quatro pessoas que conseguem patrocínios por que “mantêm a tradição das nossas raízes blablablá”. Não dá pra deixar desfilar um trio independente, como eu vi alguns, sem ninguém na pipoca, enquanto o projeto Três na Folia, o Baiana System, artistas da cena local ficam à mercê de convites e xous no Pelourinho; que acho bacana, mas não é carnaval de rua, atrás de um trio, e mesmo assim muitos ficam de fora. Seria preciso repensar a sequência das apresentações para intercalar um bloco com um trio independente, e assim contemplar todos, ou algo do gênero. Pensar o circuito, sua sequência de atrações, um planejamento justo e por mérito.

Segundamente, deveria haver um acordo entre os empresários dos camarotes e os poderes públicos. Tudo bem que o camarote é aquele esquema de “todo mundo na praça e muita gente sem graça no salão”. Ou, como na canção “Carolina”, de Chico, pessoas que ficam vendo o tempo passar na janela. Música eletrônica, animação zero, ou, quando há, algo meio fora do que é o carnaval. Passei por vários, pulando, e vi um monte de gente debruçada com cara de nada, mas deixa pra lá. Os camarotes existem e não dá pra ser bobo de ficar com um discurso “abaixo os camarotes”. 60 demais. O que se precisa é organizar, dialogar, fazer troca de benefícios com a cidade.

Nada contra os camarotes que ocupam casarões, andares de prédios e de bares. Mas as megaconstruções que atrapalham, espremem e enfeiam o circuito mereciam ser limitadas urbanisticamente, e construídas num prazo mínimo, sob pena de multa. A cidade parar um mês antes pra construção de mondrongos que beneficiarão o capital privado é algo louco, absurdo. Se fosse ao menos para obras públicas, que beneficiariam a população com um todo... Enfim, fazer o que? Propor aos camarotes que em seus andares térreos fossem construídos postos de saúde, banheiros, propostas de utilidade pública. Por que não a instalação de câmeras no circuito, que poderiam ficar ali para futuramente ajudar na segurança das ruas? O simples pagamento de imposto não serve, sabemos que é um poço sem fundo e, entre sonegação, fiscal corrupto e políticos que desviam verbas, sabemos que pagar imposto é um benefício que garante, no máximo, o exorbitante salário que os políticos ganham para, em sua maioria, fazer apenas pelo seu bolso e partido, e nada pro povo.

Terceiramente, quero falar das empresas patrocinadoras e os governos estadual e municipal. O grande nó. A tragédia.

O carnaval de Salvador precisa de organização. Pensada. Planejada. Precisa que as transversais dos circuitos, os chamados “becos”, sejam áreas de livre circulação, proibindo isopores, foliões parados para observar a folia. E com banheiros públicos dos dois lados. Banheiros públicos mais viáveis, com canaletas e uma porta única, para complementar com os químicos, para necessidades maiores e para as mulheres. E banheiros do Itaú, da Schin, da Credicard. Ao invés de balões, leques e aqueles porretes chatíssimos infláveis, que os babacas usaram nesse carnaval de forma insistente e desagradável, essas empresas tinham que patrocinar banheiros públicos. As cervejarias deveriam criar espaços para venda de cerveja, e receptáculos para se jogar as latinhas. Por que não imaginar uma festa com pessoas jogando lixo no lixo? Precisa a barbárie de mijar e jogar latinhas no chão?

O lucro é muito grande. Mas só se pensa no lucro, nunca nos benefícios que poderíamos ter. Quando acontece uma copa do mundo, uma olimpíada, a cidade sempre fica com estruturas, construções e resoluções urbanas como herança, há sempre benefícios para a cidade. Com nosso carnaval, que é anual, teríamos que ter o mesmo. Imaginem 10 anos de carnaval com benesses para a cidade como banheiros públicos, estruturas de segurança, planejamento da funcionalidade dos serviços?

Em algumas capitais, para se pegar um táxi comum, tem-se que se dirigir a um guichê, onde o preço por local é tabelado, e de lá a pessoa é encaminhada ao primeiro da fila de táxis. Impossível fazer o mesmo em pontos estratégicos da folia? Não, falta vontade política. Falta se pensar a segurança do carnaval com prevenção, com postos de observação, policiais infiltrados em blocos, atenção a grupos que, claramente, estão à procura de confusão. E não aqueles brucutus empurrando a gente com cassetetes e socando e estapeando as pessoas (algo que às vezes é inevitável, não sejamos politicamente corretos para ter pena de vagabundo excessivamente, também, até a hora que acontece com a gente).

Bem, eu poderia falar do quanto as cordas de bloco, a segregação provoca a violência, visto que saí em trios sem corda e não vi confusão. Poderia esculhambar mais com camarotes. Falar da iniciativa de Saulo que deveria ser obrigação de todos os artistas, sair um dia sem cordas pro povo como contrapartida por usar a via pública para encher as burras de dinheiro. Poderia falar do babaca que, em pleno século XX, ainda vê cor e opção sexual como questões que diferenciam os homens, na cena deplorável com Márcio Vitor. Mas isso muita gente já falou demais; o que acho importante e fundamental.

Eu quis, aqui, apenas sugerir e provocar coisas que fogem ao meu controle, pois sou um ignorante quase completo em termos de organização, produção e urbanismo. Mas que ao menos as asneiras que eu falei possam provocar alguém a repensar nosso carnaval de forma profissional. Mesmo com tudo isso, vi muitos se manifestarem dizendo que esse foi o melhor carnaval de suas vidas. Eu também adorei. Mas é preciso profissionalizar nosso carnaval, vê-lo como um investimento para a cidade, para o turismo, para a cultura. Não deixar ele ser essa bagunça vergonhosa que foi esse ano. Essa porcaria institucionalizada. Essa desorganização que muitos querem que seja nossa forma de ser.

Aliado a tudo isso, ainda há o comportamento cada vez mais bárbaro, bruto, deselegante, maleducado, porco e desleixado que é o espetáculo dado pela nossa população de todos os níveis sociais. Não podemos fazer vista grossa a esse lamentável fato de que não colaboramos em nada com o bem geral. Como disse no texto anterior, queremos sempre culpar governos, empresas, mas macaco não olha o próprio rabo, e precisamos tomar consciência e sermos mais delicados e gentis com os outros. Gentileza gera...

Bem, o carnaval é um investimento. Onde, por enquanto, as empresas investem em si; os governos disfarçam ações; a elite se isola em cordas e campos de concentração; e o folião se mascara de alegre e deixa a banda passar...

E, com licença, que depois da maravilha que foi Moraes Moreira, Armandinho e seus irmãos e mais alguns, vou ali ouvir Saint-Saëns, se é que me entendem...


GVT.

ps: Desculpem pela dimensão do texto... E ficou tanta ideia de fora...

domingo, fevereiro 27, 2011

Selvador e a síndrome de Peter Pan


Vivemos na Terra do Nunca.

Todas as fases de transição de uma criança são complicadas porque está se passando de uma referência de mundo, e de uma responsabilidade com ele, para outra mais complexa; e onde se fica mais em evidência.

O ser humano, em seu envelhecimento, naturalmente vai passando por processos que o levam à sabedoria da velhice. Enquanto o corpo se deteriora, a mente se ilumina. Essa compensação leva ao equilíbrio de termos jovens cuidando de velhos e velhos ensinando a jovens.

É claro que aos 10 anos de idade, temos outro referencial de mundo, outra percepção dele. Assim o é aos 20. E deveria ser, daí por diante. Mas a humanidade parece caminhar para a estagnação. Os livros que foram lidos aos 30 anos são os mesmos, ou piores do que os lidos aos 20. As músicas ouvidas aos 40 são as mesmas dos 30. A busca pelo conhecimento, pelo crescimento, se torna intangível e desnecessária, pois o retardo geral acolhe a mediocridade na facilidade do dia-a-dia.

Selvador tem medo de crescer, é um reflexo disso em várias de suas atribuições. Tem receio de assumir responsabilidades e enfrentar desafios. Romper com as estruturas caducas, coronelistas, comiseradas e paternalistas.

Nas artes, isso é fácil de ser visto. Se esconder atrás de trabalhos marginais, esporádicos, ou até mesmo de um único trabalho de sorte que projetou o artista, é o que mais acontece, aqui. O meio-termo entre o amador e o profissional faz com que a criação, em Selvador, se valha das estruturas frágeis para esconder a estrutura frágil de seu próprio trabalho.

Se a cidade passa a ter uma demanda profissional, exigindo de seus artistas uma qualidade de trabalho com padrão internacional de aceitabilidade (já imagino alguém me perguntando “o que seria um padrão internacional de qualidade”, e, nessa dúvida, talvez esteja a resposta), tenho plena convicção que muitos artistas seriam expostos ao ridículo. Não demando aqui obras geniais, divisoras de águas – como a todo momento querem taxar alguma, por aqui –, mas de trabalhos que possam ser apresentados no Centro Cultural de Plataforma e no Centro Georges Pompidou, no Teatro Martim Gonçalves ou no Deutsches Theater.

É muito fácil você ser um artista e reclamar das oportunidades de Selvador. É muito fácil se esconder na falta de oportunidades reclamando das condições profissionais. Mas quantos músicos dividiriam a noite com um concerto de Egberto Gismonti ou Keith Jarret sem que fossem olhados como; “ah, é um pessoal lá da Bahia”, com aquela comiseração de subdesenvolvidos coitadinhos? Quantas coreografias poderiam participar de um programa do Grupo Corpo, ou da Quasar Cia de Dança, pra que fossem respeitadas e apreciadas em mesmo nível? Atualmente, se aparecesse um louco e resolvesse levas dez trabalhos de teatro, dez de dança, dez de música, para rodar o mundo, será que teríamos, prontos e ensaiados, espetáculos profissionais com padrão técnico, com pesquisa e consistência, pra não fazer feio em qualquer lugar do mundo? Incomoda-me muito quando vejo artistas locais apreciando trabalhos de fora com um olhar de inferiodidade, como se fossem estéticas inalcançáveis pra gente.

Selvador tem artistas fantásticos. Faço essa provocação porque sei que somos capazes de atingir um nível excepcional - e, a despeito das dificuldades, muitas vezes atingimos. Vejo músicos maravilhosos na Jam do MAM, por exemplo, vejo bailarinos de futuro promissor pululando pela cidade. E podemos listar diretores e atores de teatro, dramaturgos, artistas plásticos, enfim, há uma plêiade bem interessante. Mas a comodidade do semi-profissional ou semi-amador que nos rodeia ajuda a esconder muitos que reclamam das oportunidades, mas que se as tivessem não saberiam o que fazer. E faz com que os talentos daqui se acomodem na sombra, mesmo com água morna e areia movediça. Falta ambição? Arrojos de ousadia e perseverança? Comprometimento e vontade? Com certeza faltam políticas públicas, mecenas privados, visionários e desbravadores. E as exceções, de tão gritantes e evidentes, confirmam dolorosamente a regra.

Toda ação que alguém inicia, em Selvador, é prontamente criticada, acham milhões de motivos pra diminuir, ao invés de ajudar a que a ideia melhore e cresça. Quando Otávio Mangabeira dizia que aqui se paga 50 pra que o outro não ganhe 20, chegamos à mentalidade mesquinha de não fazer e criticar quem faz, tentar derrubar quem tenta. Basta surgir um festival, um projeto que amplie perspectivas, uma ação arrojada, e logo vêm os abutres estéreis da província para questionar, criticar.

Não quer ajudar? Não atrapalhe. Entra governo, sai governo, e iniciativas ficam ao sabor das empatias políticas, partidárias, questões pessoais, e a cultura daqui fica, qual Sísifo, tendo que levar a pedra até o topo da montanha sempre, pois ela rolará ladeira abaixo inevitavelmente; a terra do nunca. E confesso que estou cansado daqueles que procuram sempre um Capitão Gancho e não olham o próprio rabo. Nossa cultura paternalista e provinciana sempre quer achar um culpado ou um salvador fora da gente.

E assim, nossa síndrome de Peter Pan vai permanecendo. A cidade, seus artistas, seus governos, sua iniciativa privada não se estruturam culturalmente para sermos uma potência mundial, que não seria nada mais do que justo e merecido; se fizéssemos por onde. Mas parece que não queremos crescer, é menos doloroso, mais cômodo. Assumindo o papel de matéria prima, de berço, de celeiro de talentos, nos eximimos de obrigações e responsabilidades; e ainda sobra um espaçozinho para nos fazermos de vítimas.

Selvador precisa de um salto qualitativo violento, doloroso e urgente. Como nas crianças pequenas, o osso de muita gente vai doer. Seria um processo seletivo, radical, mas necessário para que pudéssemos tirar nossa cidade do Século XVII. Quando conseguirmos sair da cidade exposta por Gregório de Matos, talvez possamos voar, como Peter Pan, para o século XXI, mas voar crescendo, iluminando essa terra que tanto gosto e se desgosta o tempo todo.

Precisamos parar de correr atrás de nossas sombras e emergir atrás de luz.


GVT.

sábado, fevereiro 12, 2011

Depoimento dos autores do projeto Teatro NU Cinema:

"Caro Gil,

A iniciativa do Projeto Teatro NU Cinema deste ano de acolher a dramaturgia baiana precisa continuar. Afirmo isso sem a menor dúvida e com a convicção de que a dramaturgia é o principal caminho de renovação do teatro soteropolitano.

Poucas são as fontes, porém, elas demonstram que há uma juventude sedenta, desejosa em expor o seu trabalho, em tirar seus textos das gavetas, uma juventude que tem qualidades e que quer mostrar que é possível transformar.

O resultado do "Prêmio FAPEX", que premiou, ao lado de um texto seu, textos de dois jovens autores; o projeto "4 cravos para Exú", de iniciativa do brilhante dramaturgo e professor da Escola de Teatro, Marcos Barbosa, e o "Festival Ilusório de peças curtas", que levou ao palco textos inéditos de dois jovens autores baianos e que esse ano volta em edição ampliada, são ricos exemplos de iniciativas que atentam para a busca de uma dramaturgia de qualidade na cidade e que, por isso, por essa preocupação com a arte acima de tudo, são projetos que precisam continuar.

O Teatro NU Cinema com a Mostra Bahia vem para somar, enriquecer, contribuir. Você, Gil, também dramaturgo, sabe da necessidade de valorizar esse produto caro que é a nossa dramaturgia. E mais: levando esses textos para um outro espaço, o Teatro NU dialoga também com um outro espectador, o espectador do cinema que, infelizmente, em Salvador, não necessariamente é o mesmo que vai ao teatro.

No mais (e que demais, para mim!): foi um prazer participar desse projeto. Ter um texto meu montado ao lado de uma dramaturga que tanto admiro como a Claudia Barral (sim, o texto que escolhi pro meu monólogo no vestibular foi "Cordel do amor sem fim") já seria emocionante. Mas ouvir Carlos Betão e Marcelo Praddo, lá na primeira leitura, e depois vê-los no palco interpretando um texto meu... Incríveis!

Agradeço também pela sua direção ao mesmo tempo subversiva e respeitosa, que me trouxe um novo olhar possível sobre o texto.

Agradeço ainda a minha querida Renata Berenstein, a Maria Clara Dultra, ao pessoal da SaladeArte da UFBA, ao professor Eduardo Tudella, e a Ana Paula Vasconcelos, a sempre bela e atenciosa produtora, que cuidou, junto com sua equipe, para que esse projeto fosse o sucesso que acredito ter sido nas semanas em que "Um homem de sorte" e "Sal, pimenta, alho e noz moscada" estiveram em cartaz.

Vida longa ao Projeto Teatro NU Cinema: Mostra Bahia. Repito: é preciso continuar.

Grato,

Hayaldo Copque."

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"'Sal, Pimenta, Alho e Noz Moscada' é um texto curto escrito especialmente para o projeto Teatro NU Cinema. Um projeto que promove, mesmo que talvez esse não seja o seu principal foco, um diálogo instigante entre as linguagens teatral e cinematográfica.

O público assiste a uma peça curta e, em seguida, a um filme. No dia em que eu estive na Sala de Arte da Ufba, à apresentação de  "Sal, Pimenta, Alho e Noz Moscada", texto que transita por temas como canibalismo e assassinato, seguiu-se o filme "Além da Vida", do diretor Clint Eastwood, que debate a possibilidade de vida após a morte. Essa coincidência me proporcionou uma experiência muito interessante. Mesmo sem a tal coincidência temática, a dobradinha teatroXcinema possibilita inúmeras leituras instigantes para o público.

Como eu já conhecia o projeto Teatro NU Cinema, que está em sua segunda edição, interessou-me escrever um texto que abordasse, entre outro assuntos, uma terceira mídia: A internet.

“Sal, Pimenta, Alho e Noz Moscada" trabalha a relação de Armin Meiwes e Arthur Brandes, um canibal e sua vítima, que se conheceram através de um anúncio colocado na internet. A rede, no caso desses homens, possibilitou um encontro que culminou em tragédia. O fato de que não há nada que se possa fazer para impedir que essa história se repita é que nos deixa perplexos diante da abrangência do poder de comunicação da rede.

 Sobre a montagem, vale observar que além da afinação dos objetos da cena, das interpretações sensíveis, sempre sensíveis, dos atores Marcelo Praddo e Carlos e Betão, o diretor Gil Vicente Tavares é, além de compositor, apreciador e conhecedor de música, o que torna a trilha sonora da peça um elemento merecedor de nota e colabora, em minha opinião, para o caráter multimidiático do projeto, fazendo com que eu muito me orgulhe de ter participado esse ano.  

www.claudiabarral.com"

quinta-feira, dezembro 30, 2010

O som VIVO da Bahia; conexões e desconexões


Mariella Santiago
Praticamente uma semana depois da empresa OI deixar milhões de nordestinos desconectados da internet e da comunicação através de aparelhos móveis e fixos, sai o resultado do Primeiro Edital de Projetos Conexão VIVO.

Quase um trocadilho. Mas é muito mais que isso. Vivemos num estado que é considerado estrategicamente importante para o país em termos políticos e de consumo. Salvador é a terceira capital do Brasil em termos populacionais, e com a ascensão das classes mais pobres nestes 8 anos de governo Lula, o poder de compra aumentou sensivelmente, dando um estouro no mercado de televisores, celulares, computadores, etc.

No entanto, quase nenhuma empresa investe seu imenso lucro num retorno qualitativo para a Bahia, tampouco para Salvador. É uma vergonha não termos casas de espetáculos e centros culturais como outras capitais do país, vinculados a empresas como Credicard, Banco do Brasil e a própria OI.

A VIVO acaba de contemplar 34 projetos para a Bahia – desses, uns dez são pra gravação de CD, sem contar turnês, festivais, blogs. O projeto foi dividido, sabiamente (alô Funceb e Funarte!) em selecionados por uma curadoria e seleção direta pela empresa; e curiosamente percebemos o ecletismo e bom gosto das duas seleções se combinando e completando (com raras excessões e injustiças que possam ter havido e eu nem soube ainda).

Manuela e Sandra, junto com Cláudia Cunha
Dentre os selecionados, encontram-se a maioria dos artistas que vem realizando um trabalho de qualidade em Salvador. É um resultado assustador, até, para os padrões que estamos acostumados em seleções ao redor do país. Que tenham ficado de fora por não serem escolhidos ou por não terem concorrido, a ausência de alguns dos mais importantes artistas da música soteropolitana não invalidam um projeto que contemplou nomes importantes e ecléticos – e que vêm remexendo com nosso cenário musical. Artistas como Manuela Rodrigues, Rebeca Matta, Ana Paula Albuquerque, Sandra Simões, Mariella Santiago, Baiana System, Juliana Ribeiro e mais de vinte e tantos outros projetos e artistas que colorem nossa cidade com uma diversidade interessante e atuante, a despeito das dificuldades.

E eu não podia deixar de chegar a elas; as dificuldades. Com todo esforço, essas dezenas de artistas contempladas, apesar de aprovadas pela Conexão VIVO, estão desconectadas da cidade. Cada um à sua maneira, uns mais, uns menos, alguns com certo destaque por conta de mídias e gostos tendenciosos, mas a verdade é que se sairmos pelas ruas lendo os nomes dos aprovados, alguns conhecerão um, poucos conhecerão alguns, pouquíssimos mais de três.

E o que falta? Vergonha na cara da mídia, que só vende e só dá espaço ao fácil, aos trabalhos de consumo imediato. Falta que as rádios deixem de aceitar jabá e – por serem concessões públicas – cumpram seu papel minimamente de dar espaço a outras caras que não as mesmas do pagode, do pop, do axé e do sertanejo que os doentes mentais de Salvador estão começando a consumir nessa lobotomia de seguirem a tendência midiática que, pra meu espanto (mentira, sempre espero o pior), está recheando o xou da virada, da Rede Globo, de duplas sertanejas da pior espécie e qualidade. Falta que haja políticas públicas que pensem a música da cidade e do estado para além de lançamentos de editais e de valorização de folclorismos e modismos dos que comandam o “baba”.
Robertinho Barreto (Baiana system)

Enfim, falta muito para que haja uma real conexão dessa música que pulsa na cidade, mas não entra nas veias entupidas de porcarias que enfartam os neurônios de nossos petrosilvícolas.

É preciso uma real política pública das várias esferas que contemple nossa força musical, sufocada pelas manifestações que tem mais penetração, mais dinheiro pra comprar espaço na mídia e nas rádios, mais facilidade de entrar nas mentes oprimidas intelectualmente de uma boa parte da população de Salvador. É preciso uma pressão das instâncias públicas e da sociedade para que haja um investimento real e efetivo de capital e estrutura para que um projeto como esse da VIVO não fique a meio.

O Primeiro Edital de Projetos Conexão VIVO é uma ilha, um oásis na árida realidade de nosso estado e capital. Louvável. E necessário que seja imitado, copiado, reinventado, reestruturado, é fundamental que ele inspire outras empresas, que haja investimento em outras áreas com o mesmo porte. A dança – dança, mesmo, que eu falo –, o teatro, as artes plásticas, o cinema, muita gente anda sufocada tentando realizar seus projetos, suas ideias, suas invenções que esbarram nas poucas oportunidades e poucas comissões que atravancam vários processos.

Cadê a OI? Cadê a TIM? Cadê a CLARO? Essas empresas lucram tanto ou até mais que a VIVO por aqui, e fazem o que? Que investimentos vêm sendo feitos? Isso só pra ficar nas operadoras de telefonia móvel e fixa, pois se entrarmos pela lista de empresas – como a Nestlé, que tem uma fábrica que alimenta todo o nordeste em Feira de Santana e não põe um tostão na cultura baiana – vou passar dias listando, aqui.

Ana Paula Albuquerque
É uma vergonha essa ausência. Desilusões seguidas com o governo estadual, a nulidade imbecil e mentecapta da prefeitura, e a confusão e trocas-trocas da Funarte fazem sempre boa parte dos artistas sobrarem. E a possibilidade de diálogo com a iniciativa privada é nenhuma. Ninguém toma uma atitude, bate na mesa e pressiona? Ninguém, em nenhuma instância, parece se interessar em fazer essa conexão.

E nós, artistas? Já que é o capital que move os interesses das empresas, por que não, aproveitando a pane da OI, os artistas migrarem em massa, pela portabilidade, que seja, pra VIVO? Que tal os artistas em protesto às outras e como uma deferência à VIVO virarem clientes dessa empresa? Talvez uma migração em massa possa ser uma ação de terrorismo cultural que incomode. Temos que jogar com as peças do sistema, meus caros.

Fica a dica, aqui. E parabéns aos artistas que, eu espero, consigam com o Conexão VIVO se conectar à inteligência moribunda dessa cidade de ninguém; jogada às traças e na mão de interesses de empreiteiras, políticos estúpidos e corruptos, empresários ignorantes e limitados culturalmente.

sábado, dezembro 18, 2010

Bárbara Barbará e a dança que restará

Sempre tive vontade de escrever sobre Bárbara Barbará, desde o dia que a vi dançando a coreografia Ulisses, do Viladança. Depois disso, trabalhamos juntos num processo e o que de melhor podia acontecer acabou sendo o pior para minhas intenções críticas. Namoramos durante um bom tempo, depois de conquistá-la através de uma canção minha que – não por acaso – é uma das mais belas que eu considero ter feito.

Como eu mesmo digo na canção, de uma forma ou de outra “a única coisa certa é que tudo acaba”. Ou se transforma. E o fato de não mais estarmos juntos acabou ampliando minha admiração pela artista – pois a visão tendenciosa se esgotou – e foi aberta a possibilidade de, através desta sensacional bailarina, pensar a dança e sua relação com ela.

Assisti, ontem, Bárbara dançar um trecho de Desejo fatiado, de João Perene. A presença de Bárbara foi marcante porque, a despeito da qualidade inegável de boa parte dos bailarinos que passaram por Perene, era neste que eu via a verdade de sua arte; quando ele entrava em cena sua movimentação finalmente ficava prenhe de sentido e força. E assim o foi com Bárbara dançando, também. Sua técnica, expressão e força ressignificaram a dança de João Perene e me deixaram extasiado diante daquela movimentação impactante e bela.

Usei as palavras “técnica, expressão e força”, pois foi assim que Mestre King, decano da dança de Salvador, se referiu elogiosamente ao trabalho de João Perene, numa apresentação no Xisto Bahia. A apresentação contou ainda com uma trabalho capitaneado por Armando Pekeno e Augusto Omolu, bailarinos com história em seus corpos, história essa que esses trabalhos recentes de Salvador não trarão aos corpos da cena nem da plateia; e foi justamente esse o discurso de Mestre King, criticando a péssima fase da dança em Salvador, sem técnica, expressão e força, mas cheia de conceitos pra explicar essas ausências.

Ora, amparar-se em conceitos, teorias e se valer de outras áreas para justificar ideias é algo que a academia – em boa parte de sua masturbação teórica inútil – se vale para que um acúmulo de verborragia desnecessária se acumule em prateleiras, apenas saindo delas para retroalimentar teorias que, endogenamente, apenas reforçam uma confraria de acadêmicos que ficam no círculo vicioso de elogios, aprovações em bancas, editais e prêmios.

Com um mínimo de perspicácia, posso em seis meses me valer de uma vasta bibliografia para comprovar que o som advindo de uma flatulência é música. E nem por isso uma sinfonia de peidos será agradável de ser ouvida. Muitas conceituações em dança se valem de princípios parecidos, e com esse processo árido e danoso à dança, a academia, o conceito, a teoria é que vai ao palco; quando deveria ser o processo inverso. Raramente os conceitos acadêmicos influenciaram a criação artística – e sempre quando houve alguma tendência nesse sentido tivemos experiências ruins, como o povo de teatro que quer pegar um livro superestimado que fala sobre um tal “teatro pós-dramático” e, a partir de suas conceituações, criar peças teatrais.

Bárbara Barbará, com sua exuberância de bailarina, participou de praticamente todos os trabalhos que, nestes últimos anos de destruição da dança em Salvador, se salvaram; no meu ponto de vista. Não à toa, os coreógrafos, que eram mais produtivos e que apresentavam obras de maior destaque, trabalhavam ou passaram a trabalhar com ela. E são justamente estes que não têm produzido por conta de um domínio de uma mentalidade acadêmica que tolheu a criatividade da dança soteropolitana.

Para completar, justamente quando um governo de esquerda assume o poder na Bahia, a principal política pública desenvolvida (e que não é política cultural) foi a política de editais. Distribuir mais dinheiro para a dança através de edital. Um pensamento neoliberal de que basta dar o dinheiro, aumentar as possibilidades de acesso ao dinheiro e pronto, estamos fazendo o bem da dança. E a prefeitura (o artigo sobre ela está sendo gestado) é vergonhosamente nula.

Nestes quatro anos de aumento de verbas em editais, muito mais gente fez arte na exata proporção em que nenhum trabalho significativo ficou dessa temporada invernal. Vamos olhar pra trás, com toda a grana disponibilizada, e lembrar de qual grande trabalho de dança ou teatro marcante? Talvez, em música, lembremos das diversas ações com música eletrônica; esta que pareceu, por vezes, ser o foco da política pública do estado. Isso a despeito do governo, no apagar das luzes, ressuscitar o “Pelourinho dia & noite” da gestão passada com novo nome fazendo o óbvio que, nos mais de três anos de abandono, o Pelourinho precisava.

Bem, não falei quem são os três coreógrafos. Um deles, João Perene, já foi citado. Cristina Castro, a outra, conseguiu com o Viladança uma ideia de profissionalismo ligado à criação artística que fazia suas coreografias ficarem um mês em cartaz com casa cheia, criando espetáculos que ficaram no imaginário da cidade. Em Aroeira e Habitat, últimas criações do Viladança, Cristina finalmente deu um solo a Bárbara, coroando o trabalho dessa dançarina que foi, junto a Simone Bonfim, a dançarina que mais simbolizou o trabalho do terceiro coreógrafo a ser citado aqui; Jorge Silva. Esse, pra mim, vinha produzindo um trabalho que, mais do que um nível internacional, está entre as melhores coisas que sei da dança no mundo. Mas está colecionando perdas em editais e vendo seu trabalho tolhido pela falta de políticas públicas que possam potencializar o talento desse artista.

Numa homenagem feita a Saul Barbosa, compositor e violonista baiano falecido recentemente, fui correndo assistir um duo de Bárbara com Leandro de Oliveira; um alívio aos meus olhos, mas também um choque. Vi bailarinos talentosíssimos noutras coreografias da homenagem, todos praticamente oriundos da Escola de Dança da Fundação, que poderiam formar companhias de dança fenomenais; e todos obscuramente perdidos e sem espaço para efetivamente mostrar seu trabalho (assim como tantos outros talentos parados por aí). O alívio que senti naquela homenagem Mestre King sentiu ontem, na apresentação de João Perene, junto comigo.

Uma bailarina como Bárbara, que devia ter a agenda cheia de trabalhos, vive das migalhas de apresentações aqui e acolá. Aonde esse equívoco todo vai dar, eu não sei. Só sei que aqui vou eu, quixotescamente, conquistando a inimizade de muitos, por ser o único a expor o sentimento de tantos que, covardemente, se calam e permitem que a dança se paralise no conceito e a arte morra na cidade. Salvador é a cidade do silêncio intelectual que corrobora sua mediocridade.

Dulcinéias como Bárbara ficam distantes dos palcos. E eu combaterei moinhos atrás da dança que restará.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Egberto Gismonti e a Orquestra de Sopros Pró Arte

Quando você não souber como ir em frente, olhe pra trás.

Assim ouvi certa vez esse ditado que dizem ser africano. Mas aqui não é a África. Aqui não é um continente, apesar do tamanho continental do nosso Brasil. País de uma riqueza musical ímpar, música brasileira, sem prefixos, sem “afro”, ou “luso”, ou “anglo” ou “nipo”. E algo de interessante surge disso. Esse prefixo “afro” parece ignorar, desprezar ou diminuir a pluralidade de um vasto continente de culturas distintas. Quando usamos prefixos, geralmente nos referimos a países, e mesmo assim com o grave risco de ser reducionista.

Assisti hoje, pelo X Mercado Cultural, Egberto Gismonti com a participação da Orquestra de Sopros Pró Arte e posso categoricamente falar que Gismonti faz música brasileira. Sem prefixo. E sem reducionismo.

Gismonti foi meu ídolo de adolescência. Até hoje, quando falo que tenho 20 CDs dele em casa os músicos se admiram. Acompanhei todos seus lançamentos, a entrevista em que ele dizia ter um projeto de gravar um CD com Gilberto Gil (meu outro ídolo de adolescência, o que criou em mim um frisson)  e a declaração dele de que ele ia parar de compor para cuidar da sua obra. Ele havia chegado, na minha opinião, a um grau de sofisticação na composição e arranjos que talvez tivesse se esgotado; no sentido mais positivo que possa ter.

Daí, Egberto partiu para orquestrar suas ideais com grupos sinfônicos. No entanto, “olhando pra trás”, a música de Gismonti ficava amarrada a um convencionalismo e pouca criatividade que ele não soube romper; Stravinsky, Béla Bartok, Villa-Lobos, grandes compositores do passado recente haviam esticado ao máximo esse diálogo entre erudito e popular, explorando novas sonoridades, ritmos e melodias. Seus discos com orquestras soavam mais antigos, menos estimulantes que seus trabalhos pregressos.

Gismonti sozinho é suficiente e geralmente melhor. Com algumas exceções, como um excepcional disco que ele gravou com Charlie Haden, ao vivo, em Montreal. Disco esse que ponho sempre entre meus preferidos, ao lado do “Duas vozes”, dele com Naná Vasconcelos. Por sinal, foi pra Naná que Gismonti fez sua melhor orquestração, ao meu ver; umas cordas que entram em “Berimbau”, gravação que foi utilizada por Luis Arrieta para coreografar os homens do Balé do Teatro Castro Alves. Balé para o qual ele compôs uma trilha; “Sonhos de Castro Alves”, também (é, os tempos mudam...).

Egberto Gismonti abriu o concerto tocando violão, aquele violão de dez cordas onde ele supervaloriza o instrumento dando-lhe riqueza harmônica, melódica e rítmica. Depois disso, pude ver o balé de Gismonti. Convidando ao palco a Orquestra de Sopros Pró Arte, o compositor e multi instrumentista passou a ser um regente. Mas um regente que mais dançava e se divertia que propriamente regia. Ou, talvez por estar dançando e feliz, estivesse regente melhor do que ninguém. Lembro-me de uma vez que vi em vídeo Leonard Bernstein regendo a 9ª de Beethoven, e na hora do canto coral ele simplesmente ergueu os braços no ar e dançou, dançou junto com a música; melhor regência não poderia haver.

A Orquestra de Sopros Pró Arte é uma orquestra composta por jovens de 16 a 25 anos, se não me engano. Mas é uma orquestra de músicos. Em momento algum precisamos relevar o fato de serem jovens para suportar desafinos, desarranjos, desatinos. Eles são músicos, com técnica, com suingue, com precisão. Claro que há sempre o que melhorar, são jovens, mas estão inteiros ali, sem aquela chatice de ser um trabalho social ou de inclusão ou de incentivo para retirar jovens das drogas, ou de qualquer coisa que seja. E, mesmo sendo isso tudo – o que também é válido – temos que ouvir música, e não fazer caridade com nossos ouvidos. A arte não tem preconceito, nem cor, nem credo. Tem beleza; e é esse o alvo que todos devem perseguir.

Após uns dois ou três arranjos de Gismonti pra suas próprias canções, misturando-as em inventividades e sonoridades delicadas e sofisticadas, ele ficou sozinho ao piano pra recarregar ainda mais minhas energias. Não consigo nivelar por baixo, nivelo por cima e sofro muito com isso. Mas assistir Gismonti tocando é algo que me reabastece por um bom tempo para aguentar minha própria mediocridade e a mediocridade que me circunda.

Quando comentei com minha mãe; tomara que ele toque “Sete anéis” e logo depois ele iniciou os acordes da canção, vi que tinha ganho a noite até na sinergia do repertório. Egberto é um dos poucos artistas que me tiram no chão. Ele me faz perceber o real valor da arte, experiência que tive em poucos momentos da minha vida.

Vê-lo se recriando naqueles jovens, com alegria e satisfação, traduziu muito bem o que o próprio disse ao entrar no palco. Ele dizia ter a sensação de que tocava com o futuro; e assim acreditando numa utopia de que as coisas possam melhorar.

Vendo Gismonti encantado, fazendo música de alta qualidade com aquela orquestra, dançando e sorrindo, vi o que realmente é a alegria brasileira. Vi o que realmente somos nós, sem prefixos. País onde reinventamos tudo, e subvertemos até mesmo ditados. Vendo aquele momento mágico de um músico consagrado tocando suas canções com o futuro da nossa música, reinventando-se e renovando-se musicalmente, me veio a inversão do ditado que abriu este artigo;

Quando não tiver como ir pra trás, olhe pra frente.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

um acróstico para Mario Monicelli...













Mais um filme, e a sessão está encerrada.
A vida é uma comédia sem roteiro.
Refar-se-ia agora o mundo inteiro
Imaginando-se a melhor tomada
Onde o artista não envelhecesse;
Mofasse apenas nalgum quadro obscuro
O retrato escondido. No futuro
Não lembraremos mais do salto desse
Incomodado com nossa moral
Cristã; e castrada, cretina, em crise.
Exército de hipócritas; banal.
Lembrem de sífilis, hemoptise...
Luxúria acesa de brancaleões
Iluminando a cena dos bufões!