quinta-feira, julho 21, 2011

A Copa do Mundo, a cultura da Bahia e a arte de Salvador...

Certo dia, uma amiga andava com o filho no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador. De repente, o adolescente viu uma mulher vestida de baiana, se requebrando sozinha. Num primeiro instante, ele achou que ela dançava com algum fone de ouvido. Depois, ele percebeu o motivo da dança: um gringo se aproximava.

Salvador vai ser uma das sedes da Copa do Mundo, que acontecerá no Brasil em 2014. Ano interessantíssimo na política brasileira e baiana. Já sabendo quem os soteropolitanos escolherão para seu prefeito em 2012 – não há mais chance de João Henrique fazer obra pra alegrar a massa ignara que o reelegeu –, 2014 será ano de Copa do Mundo no Brasil e eleição pra governador e presidente da república.

Lula já estará mais distante no imaginário popular. Aqui na Bahia, Jaques Wagner já terá cumprido seu segundo mandato e nenhum grande nome até agora despontou na situação e na oposição. Eleição interessantíssima. Dilma se candidata e se reelege? A direita volta a tomar o poder na Bahia na esteira de uma provável prefeitura mais pra direita que esquerda?

O recente escândalo que não quer cessar, relacionado ao Ministério dos Transportes, é um assunto que não me interessa discutir. Não da maneira como poderia, agora. Falar da impunidade, da corrupção, dos conchavos, isso tudo até a mangueira que plantei no fundo de meu quintal está cansada de discutir. A questão é: como Salvador, sendo mais província e, portanto, mais fácil de haver corrupção, impunidade e conchavos, será forjada pra 2014.

Levando em conta que apenas 30% da verba vai ser utilizada, pois provavelmente o resto fique entre superfaturamentos, molhadas de mão, comissões e subornos, qual Salvador vai chegar à Copa do Mundo e qual Salvador sairá dela?

A cidade esburacada, mal iluminada, com um sistema de transporte falido, violenta, abandonada, suja e que parece não ter gestão, é a cidade também onde a cultura é escandalosamente rechaçada. Já não sei o que fazer para pressionar a prefeitura para que tenhamos um teatro municipal, uma secretaria de cultura, orçamento digno para gestão das artes, etc.

No âmbito estadual, a cultura também é um problema. O atual secretário de cultura pegou uma pasta atolada em dívidas. Resolveu pagá-las e, por conta disso, adiou a possibilidade de implementação de uma política cultural para a Bahia. Manifestei-me publicamente a favor da alternativa da demanda espontânea este ano, mas na esteira disso há um problema grave. O secretário terá apenas dois anos para realizar algo de interessante, visto que 2014, para além da Copa, traz todo esse quadro político e a guerra do caixa dois, da verba pra área de comunicação, o contingenciamento do orçamento, tudo isso vai emperrar algo de efetivo para a cultura da cidade, a não ser que...

A não ser que se pense um PAC, um Plano de Aceleração da Cultura, para os próximos anos da cidade. Já devíamos estar pensando qual Salvador queremos mostrar pro mundo, que alternativas, que urbanização queremos revelar neste evento que é um holofote fantástico e que pode dar uma guinada sensacional no turismo, na cultura e no comércio local. Ou não.

A palhaçada vergonhosa do nosso metrô serve de exemplo. Não levo a menor fé de que haverá menos corrupção, menos superfaturamento, desvio, propina nas verbas da Copa. Um pequeno grupo, aqui, vai se locupletar e ficar ainda mais rico, vai construir várias coisas em benefício de poucos, vai descaradamente anunciar melhorias que renderão votos, admiração e aplausos.

Mas e a nossa cultura? O atual secretário diz que quer incentivar o teatro profissional. Atualmente, temos duas orquestras sinfônicas, a da Bahia e a YOBA, ligada ao projeto NEOJIBÁ. As artes plásticas andam abafadas, mas conheço vários artistas plásticos que rodam o mundo. Salvador tem toda capacidade de se tornar um balneário cultural. Um local onde passado e presente dialogam, onde arte e diversão sejam chamarizes importantes, podemos dar saltos arquitetônicos nas propostas de obras futuras – temos gente qualificada pra isso. A reforma do TCA, pra mim mais urgente que a da Fonte Nova, se bem gerida pode mudar a perspectiva das artes em Salvador.

Urge que o governo estadual pense um plano para a cultura e para as artes que possa fazer crescer, em três anos, o potencial profissional, técnico e de relação com a população local, como um atrativo que os soteropolitanos curtam. A arte, na maioria das vezes, fica fechada em guetos e nossa música, tão rica, nossas artes cênicas, audiovisuais, ficam à margem da sociedade.  O governo pode ajudar nessa ponta.

Do prefeito atual não espero nem que tape os buracos que estão estragando meu carro, e se tapar, vai ser malfeito, para alguém ser convocado de novo e encher o bolso com seguidos recapeamentos de péssima qualidade. Mas urge que o próximo repense o papel de uma prefeitura, tão ou mais atuante que o governo estadual em outras capitais, nas artes e na cultura local. E isso precisa ser uma demanda do cidadão de Salvador. É preciso pressão, interesse, que esse assunto tome as folhas de jornal.

Que Salvador mostraremos a quem vem de fora? Uma cidade conectada com o futuro, mas que sempre valoriza seu passado? Uma cidade que não tenha ilhas de excelência que possam enganar o estrangeiro, mas que funcione como um organismo pulsante de produção, recepção e distribuição de qualidade? Uma cidade que possa encantar e trazer turistas, movimentar a economia? Um lugar onde comece a ter um turismo cultural, gente que venha de fora para ver nossas produções artísticas de qualidade, nossos eventos, festivais, espaços culturais e museus?

Ou insistiremos na imagem preconceituosa, opressora, preguiçosa e que, em seu folclore, ajuda a manter alguns poucos que se valem da nossa imagem estereotipada, e que é a imagem de uma negra vestida de baiana se requebrando sem música para o turista?

“Nessa terra a dor é grande
A ambição pequena
Carnaval e futebol...”

2 comentários:

Marcos Nogueira disse...

Parabéns pela análise tão real daquilo que os atuais gestores de nossa pobre Cidade do Salvador estão ignorando em relção ao evento que, em minha opinião, não tínhamos como não temos, a menor condição de assumir, diante de tantas outras necessidades prementes da pobre população soteropolitana. O fiasco será vergonhoso.
Parabéns.

Mônica Santana disse...

Muitíssimo pertinente este texto. Ainda mais nesse novembro cheio de chuvas e prenhe de algum futuro pra essa cidade.