
Dom, 16 de Agosto de 2009 23:26
(texto originalmente publicado na coluna Teatro & Cidade do site www.noticiacapital.com.br)
A mídia venceu a gente. Quando digo isso, não ponho a culpa nela, como muitos fazem, mas em nós mesmos, que nos deixamos ser vencidos por ela.
É muito fácil culpar fracassos criticando sucessos, e essa me parece a pior alternativa de briga. Como se diz comumente, a gente está brigando errado. Criticar a ação dos outros quando a nossa se mediocriza e acovarda, é uma fuga e uma falta de visão da vitória da mídia nos últimos anos. E não vitória dela como algo inexorável e incombatível, mas como algo resignadamente permitido por nós; ressaltando que “nós” são aqueles que almejam não simplesmente consumir o que a indústria manda e gostar do que é dito para ser gostado.
Um exemplo pra que tudo clareie. Ivete Sangalo lançou um CD e DVD com participações especiais. Até Maria Bethania foi lá na casa dela gravar uma música de Carlinhos Brau. Esse fato mobilizou uma camada da sociedade de forma marcante, quando talvez nem devesse. Acho Ivete um fenômeno, faz muito bem o que propõe, e não é seu sucesso que diminui a projeção de outros. Falarei mais sobre isso depois.
Ouvi de amigos, de conhecidos, de pessoas que se pretendem alternativas ao mercado, críticas, elogios, esculachos ao projeto de Ivete. E isso é mais surpreendente pra mim do que se possa imaginar. O projeto dela não tem relevância pra mim por não estar num círculo de interesses meus. Não porque seja ruim, alienado, ou qualquer desses adjetivos bobos que usam pra criticar a cultura de massas. É simplesmente pelo fato de não mexer comigo, não me estimular a ouvir aquelas músicas, nem ao menos perscrutar a internet à procura de imagens de faixas do CD.
Há tempos atrás, quando um artista como João Bosco lançava um disco, havia uma mobilização no meio que eu freqüentava, todos se perguntavam quem já tinha ouvido, quem já tinha comprado, que já tinha gravado o novo disco dele. Havia muito menos mídia, muito menos formas de divulgação, os meios de comunicação eram mais elitizados e restritos aos que tinham acesso a eles, e, no entanto, o burburinho acontecia, era um acontecimento artístico que perpassava as conversas de bar, de cama, de festa e praia.
Pois é tal minha surpresa ao ver que o próprio João Bosco, um dos mestres da nossa música, lançou um excelente disco – “Não vou pro céu”, daqueles que já surgem como clássico, e proporcionalmente passou despercebido de todos. Nesse ponto posso até culpar, em parte, a mídia, pois basta lembrar o programa Fantástico, da Rede Globo, há vinte anos atrás e comparar com hoje. Há tempos, o programa finalizava com Gilberto Gil e Chico Buarque cantando “a mão de limpeza”, de Gil. Hoje em dia, se não for essa nova já velha música sertaneja, é algo pior ou do mesmo nível. Claro que isso influencia, mas aos nobres detentores da revolta da mediocrização da mídia isso não poderia afetar. Todos eles, pela lógica, deveriam resistir buscando em outras fontes outras perspectivas e possibilidades; e isso não acontece.
Como insinuei acima, afirmo que o sucesso da cultura de massa não atinge tão diretamente – como alguns falam – um tipo de arte mais, digamos, refinada e complexa. Tivemos Menudo, tivemos Michael Jackson, tivemos artistas lotando estádios de futebol, e nada disso impediu que os grandes nomes da nossa música vendessem e estivessem na mão dos interessados.
É claro que talvez o fato de eu morar em Salvador me dê uma outra perspectiva. Aqui, na província, os defeitos são aumentados. De repente, no sul maravilha e adjacências a percepção seja outra, mas na minha cidade que vem emburrecendo a passos largos, um excepcional disco como o de João Bosco fugiu das rodas de bar, dos comentários, do entusiasmo daqueles que se dizem, na aparência, interessados em tal música.
Talvez essas pessoas não percebam que o capitalismo é tão esperto que transforma em cultura de massa tudo que interessa e poderia ser alternativa. É aquela velha história de empresas americanas faturando com camisas de Che Guevara, vendendo a pessoas que consomem o produto sem a profundidade do mito – que tem, em si, controvérsias suficientes pra não estar numa camisa, como lampião e muitos outros. E quando menos se pensa, certos produtos encaixotados para serem vendidos são – equivocadamente – vistos como algo alternativo ao estabelecido.
Basta ver a profusão de discos de samba. Agora, todo mundo faz samba. Não agüento mais samba. Qualquer cantora que quer se destacar grava samba, faz disco com samba antigo, samba de compositor novo que tem o mérito de parecer antigo, em qualquer esquina vemos jovens com cavaquinhos e pandeiros. É bom pro samba? Sim, não deixa de ser. Mas tudo isso já é o padrão. É o vendável. Nós vamos, como rebanho, sendo tangidos pelo estabelecido.
Mas um dos mestres do samba, João Bosco, passa despercebido desse bando de ovelhas. A volta das parcerias dele com Aldir Blanc – um dos maiores letristas do mundo – é algo ignorado e negligenciado por pessoas que talvez até ignorem quem é esse senhor. Mas o artista consegue driblar as adversidades com sua arte. E como diz o próprio Aldir, numa das letras do disco de João; “neguinho me vendo em Quixeramobim, e eu andando de elefante em Bombaim”...GVT.