segunda-feira, outubro 20, 2008

meia-entrada, meia-sola, meia-boca


A atual mentalidade dos gestores da cultura é pulverizar as verbas. Com isso, os profissionais ganham menos, ficam menos tempo em cartaz e fazem trabalhos meia-sola, com claro resultado meia-boca. Mas em iniciativas vinculadas ao governo não pagamos meia-entrada.

Existem milhares de pessoas, em Salvador, que gastam inteiramente seu dinheiro em restaurantes caros, em lojas caras. Mas espertamente falsificam a carteira de estudante pra pagar pela metade o trabalho de um artista. E acham correto, pois no Brasil só é corrupta a ação do outro, a nossa é esperteza.

No Circuito Sala de Arte, o artista paga meia-entrada. Em vários teatros de Salvador, também. Mas no Teatro Castro Alves, artista não paga meia-entrada. No Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia, feito com dinheiro da Caixa Econômica Federal, com o Fundo de Cultura do Governo Estadual, e com co-patrocínio do Banco do Brasil e da FUNARTE (Ministério da Cultura), artista também não paga meia-entrada.

A atual mentalidade dos gestores da cultura impõe que os artistas façam um trabalho meia-sola, com um resultado meia-boca, mas o prejuízo que as artes estão tendo é inteiro. Total. Completo.


10 comentários:

Anônimo disse...

É isso mesmo, meu caro Gil! Infelizmente estamos engolindo goela a dentro um governinho de meias verdades. Eu sou e sempre fui totalmente contra esse negócio de meia entrada no teatro. Quem vai ressarcir o artista? A minha luz, o meu telefone, os meus impostos não são pagos pela metade, o nosso tal governinho nos cobra integralmente, afinal temos que colaborar para o crescimento dessa vergonha.E não venham pra cá me dizer que esse negócio de meia entrada favorece na formação de platéia.Isto favorece mesmo é no empobrecimento da nossa produção teatral, que já era miserável e agora está pior.
Carlos Betão

Vida Oliveira disse...

Também não acho que se chegue a esse extremo, caro Betão.
Eu mesma, enquanto estudante, tenho certeza que assistiria metade das coisas que assisto se tivesse que pagar inteira.

O problema maior não é que os estudantes paguem meia, mas estas pessoas que falsificam carteiras para pagar meia, como se isso fosse esperteza. Aliás, disse muito bem Gil Vicente, no Brasil corrupção é só o que os outros fazem, quando é com você, "é esperteza".

Muito bom o artigo Gil, depois dele, até pensei algo: será que se tivessemos menos trabalhos meia-sola, meia-boca, teríamos menos espetáculos que só tem público por causa dos convites e de algumas "meias-entradas"?

Anônimo disse...

O que quero dizer, minha querida vida, é que como artista que sou, talvez meia boca ou meia sola, o certo é que sofro muito com essa coisa da meia entrada e a "esperteza" das falsificações das carteiras. As empresas de ônibus, por exemplo, são ressarcidas pela prefeitura no momento em que elas dão meia entrada para os estudantes. Essas empresas alegam que têm custos com manutenção etc.,o nosso teatrinho meia boca ou meia sola, mesmo assim, tem custos tambem. E como tem! Eu penso que o teatro, assim como as artes de um modo geral, têm que ser subvencionados. É papel do governo manter e amparar o artista, a meia entrada sem o tal ressarcimento para a produção é no mínimo desumano. Tirar de quem não tem é uma prática desprezível.
Carlos Betão

Vida Oliveira disse...

Ah, sim, agora que te entendi,
concordo plenamente com vc! afinal, sei exatamente que mesmo o teatro meia-boca, meia-sola( que talvez também eu faça) custam muito.

++ Rodolfo Araújo ++ disse...

O interessante que vejo nessas discussões é que ninguémm se preocupa com quem paga essa conta. Paga o produtor cultural que tem metade de sua renda roubada e paga o cidadão honesto/trouxa que não falsifica carteira de estudante.

Além disso, o motivo central não seria dar acesso ao povo à cultura? Isso inclui pagar R$ 100,00 para ver o show do U2?

Escrevi um texto a respeito no meu blog. Quem tiver curiosidade está em: http://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/2008/11/meio-sal%C3%A1rio.html

Anônimo disse...

Pois é! Tem muita gente que paga R$ 100,00 pra ver o show do U2 e não faz cara feia. Mas exige a meia entrada da tão pobre produção brasileira, com a velha bandeira na mão da famigerada inclusão social. Ora, faça-me uma garapa!

Manuela Furtado disse...

Rapazzzz...deixe Jussi escrever tb....ahhhh...e eu tb quero escrever aqui, viu?

Anônimo disse...

Rapazzzz...que coisa mais sem gênero! Quem é esta cidadã, meu Deus!

Lucas Cardoso

Bruna disse...

É absurdo. Existem espetáculos cuja meia-entrada sai por menos de 3 reais! O teatro deveria ser encarado com um pouco mais de seriedade, pois é uma profissão como qualquer outra. Nós não perdemos finais de semana e feriados inteiros ensaiando a exaustão para recebermos metade do que merecemos...Incentivo à cultura? Me parece mais um apelo, de uma nação que há muito, não valoriza a verdadeira arte, trabalho digno e sustento de muita gente.

Bruna Scavuzzi

Bruna disse...

Por que os sows do Fantasmão ou os blocos de carnaval também não instituem a meia-entrada? Garanto que seria mais democrático.