sexta-feira, outubro 03, 2008

Direto do túnel do tempo...

Escrevi este artigo em agosto de 2007, para ser publicado, o que não ocorreu, na ocasião. Como, além do fato das coisas não terem melhorado, se anunciam novas questões mais preocupantes ainda na gestão da cultura baiana, resolvi colocar o artigo aqui no blog, local onde não dependo de veleidades, preferências e tendências.

REINALDO MAIA E A DEMOCRACIA NA CULTURA BAIANA

Dia 20 de agosto, no projeto Fala Vila, o convidado da noite foi Reinaldo Maia, diretor e dramaturgo, um dos mentores do Arte contra a barbárie, movimento paulista que – numa reação à falta de uma efetiva política pública para o teatro em São Paulo – tornou-se referência e possibilitou que se criasse a Lei de Fomento do Município de São Paulo. A lei foi aprovada na gestão de Marta Suplicy (PT) e garante uma verba anual para cerca de 30 grupos, que apresentam seus projetos e são julgados de acordo com critérios escolhidos pelos próprios artistas.

Convidado numa articulação do Vila com a Fundação Cultural do Estado da Bahia, Reinaldo Maia discorreu sobre arte e política com a desenvoltura de quem batalhou e obteve êxitos importantes para o teatro em sua cidade.

Curiosamente, boa parte de seu pensamento era diametralmente oposto à atual filosofia vigente na FUNCEB, numa clara lição de democracia – por parte dos gestores da cultura baiana – que merece ser aplaudida.

O diretor e dramaturgo, também componente do grupo Folias d´Arte, foi bastante enfático quanto a questões de pulverização (democratização?) da verba e contrapartida social, dois carros-chefe da FUNCEB, bem como questões relacionadas à verba ser dinheiro público.

Reinaldo Maia quis deixar bem claro que ele era um artista, e que não era função dele fazer assistência social, distribuindo ingressos gratuitos e fazendo oficinas nas comunidades carentes e periferias, dois claros exemplos do que a política atual quer empurrar goela abaixo dos artistas baianos. Falou que estes eram papéis do governo, que a contrapartida oferecida por ele era seu trabalho, com qualidade e postura crítica, já que arte, segundo ele, eu e alguns mais pensamos, é uma ferramenta de discussão do homem e da sociedade e cumpre seu papel enquanto arte (e é assim que a arte tem seu valor intocado nas nações mais avançadas).

Tocando em assuntos como sentimento de culpa da classe média, proselitismo e esmola, o convidado da noite, sem nenhuma intenção direta de atacar a atual gestão baiana, mostrou-se bastante irritado com a transferência de responsabilidade do governo, deixando bem claro que para ele as iniciativas pontuais de distribuição de convites e oficinas não são inclusões sociais, são pontuais e não efetivas, e que não compete a ele pensar isso. Não bastasse ter que tentar sobreviver com a pouca verba, ainda incluir programas sociais paralelos, obviamente não-remunerados e que ainda ocasionam gastos para o artista. Tanto de tempo quanto de verba.

Quanto à questão do dinheiro público, mais uma vez ele chamou a atenção para os equívocos referentes às contrapartidas. Questionou porque que a sociedade não cobrava da FORD, que veio se estabelecer aqui sem pagar determinados impostos durante dez anos, carros gratuitos para a população carente. Ou porque o perdão da dívida de indústrias e agronegócios não era retribuído em ações sociais e distribuição de produtos e estoques. Como ele mesmo questionou, parece que o teatro, por ser mais desfavorecido, fica como massa de manobra para o proselitismo e assistencialismo do governo.

Indignado, pediu desculpa – ao final da noite – pela sua exaltação, mas ressaltou que a direita paulista vinha pressionando os artistas com as questões acima levantadas, chamando-os de privilegiados; ao que ele respondeu que o mérito artístico, pra além de ser discutível, era determinante para a distribuição coerente da verba pública. Chamou a atenção para um inútil pensamento de distribuição de empregos nas artes, como se a pulverização das verbas fosse resolver problemas de desemprego, e ressaltou a questão de que com a verba esfacelada, quem perdia era a qualidade do trabalho artístico, que, segundo ele, era o que menos importava à direita paulista, mais interessada em ganhar votos tirando o pouco de quem já não tem muito, leia-se; os artistas.

O mais curioso é que todo o pensamento da direita paulista, que ele tanto criticou, é muito afinado com o que vem se pensando na atual gestão cultural da Bahia.
Será que a esquerda, hoje em dia, serve apenas para ultrapassagem?

5 comentários:

Anônimo disse...

Olá, como não existe um espaço para fazer comentários outros que não sejam referentes aos textos postados. Gostaria aqui de esclarecer uma pequena grande dúvida:

ESSE GRUPO TEATRO NU É O MESMO GRUPO QUE DURANTE CINCO ANOS EM SALVADOR MOVIMENTOU O CENÁRIO TEATRAL COM PEÇAS FABULOSAS COMO: "AGNES DE DEUS", VALENTIN: UMA COMÉDIA TIM TIM POR TIM TIM DENTRE OUTRAS, DIRIGIDAS PELO ENTÃO DIREITO PERNAMBUCANO ROBERTO LÚCIO E TENDO COMO ATRIZES: DIONNE BARRETO, PATRÍCIA E CHRISTIANE VEIGGA???

POIS SE NÃO FOR, EXISTE UM PEQUENO GRANDE EQUÍVOCO DA PARTE DE VOCÊS EM UTILIZAR UM NOME DE UMA COMPANHIA SEM A DEVIDA PERMISSÃO PARA TAL.

Amante das Artes disse...

Bom dia!!!
Estava visitando o blog do grupo e vendo o comentário do "anônimo" também fiquei interessada em saber se é o mesmo grupo dirigido por Roberto Lúcio, pois acompanhei as peças na época e sou apaixonada pela estética trabalhada por Roberto e seu elenco.
Aguardo resposta!!!
Obrigada!

Gil Vicente Tavares disse...

Caros,

Entrei na Escola de Teatro da UFBA em 1995. Não sabia nada ou quase nada e aos poucos fui entrando no universo do teatro mundial e baiano. Tenho a lembrança remota de Roberto Lúcio fazendo "A Falecida", direção de Hebe Alves, que fui ver por causa de Carlos Betão, que na época era uma das poucas referências que eu tinha. Soube que logo depois ele foi pra Pernambuco. Ele, recentemente, colega meu que é como substituto da UFBA, chegou a me dizer que era baiano, ao contrário do que foi comentado. Não sei. O fato é que quando eu e Jussilene Santana pensamos no nome, pesquisei minuciosamente na internet qualquer referência a "teatro nu", e só encontrei um grupo chamado "teatro nu escuro", de Goiânia. Enquanto registro histórico, o livro de Aninha Franco não contempla a década de noventa, período que possivelmente Roberto Lúcio tomou a iniciativa de usar no nome, pois não há registros na década de 80 em relação a isso. Obviamente, não iríamos fuçar todos os jornais dos últimos 20 anos à procura de algum grupo com este nome. Que, por sinal, é passível de existir em vários lugares do mundo, pois é um nome comum, simples. Fico até feliz de ter tido uma idéia de nome de grupo igual a Roberto Lúcio, pessoa extremamente capaz que construiu uma história sólida em Pernambuco e com quem não pude ter muito contato na minha adolescência teatral aqui, meados dos anos noventa. É isso.

Gil Vicente Tavares disse...

Uma correção e um adendo. Acabei de falar com Roberto Lúcio e ele é realmente pernambucano, apesar de ter se formado na Bahia. E o Teatro NU dele existiu de 1994 a 1999, quando o grupo foi desfeito com a viagem dele pra Pernambuco, onde ele administrou um teatro com um trabalho bem referendado pelos artistas locais.
Há tempos atrás, Márcia Ribeiro, que foi atriz do grupo, chegou a comentar comigo a coincidência, mas num tom cordial, por email.

"Que é que há num nome?"
William Shakespeare

Anônimo disse...

Uma pena que um artigo de tal relevância e atualidade seja alvo de comentários tão supérfluos. Gente é da sobrevivência da arte na Bahia que se está falando!