sexta-feira, junho 13, 2008

A Estética BA x VI


Sempre me chamou atenção como em Salvador toda questão se resume em dois lados. Seja no embate acadêmico ou mesmo numa singela conversa de bar você cai neste raciocínio: Se você não se diz branco, só pode ser preto; Ou você é pobre ou privilegiado; É alienado ou engajado; Ou você é de direita ou de esquerda; Se não elogia o governo, só pode ser Carlista; Se não torce pelo Bahia, tem que ser Vitória. É a famosa estética Ba x Vi.

Talvez – e seguindo um raciocínio sociologicamente defasado – seja um problema provocado pela nossa geografia: afinal, a capital nasce dividida entre Cidade Alta e Cidade Baixa. Mas o fato é que em pleno século XXI, em meio à complexidade do mundo e depois do povoamento do Litoral Norte, já não é eficiente pensarmos deste jeito. Uma cidade para funcionar com três milhões de habitantes precisa de bem mais.

Os exemplos da Estética Ba x Vi não são poucos. Os "debates" político-culturais "que sacudiram" Salvador nos últimos meses até provocaram curiosidade, logo substituída pelo enfado. Talvez mesmo os termos colocados pelo professor Natalino Dantas tenham ajudado a soterrar o empreendimento de se discutir a herança negra na cultura-local-contemporânea sem ser militante. E seria bom para o raciocínio fugirmos um pouco do populismo. Somos um povo mestiço, híbrido, misturado durante séculos em suas técnicas e valores, mas tornou-se turisticamente vendável e/ou politicamente correto mostrar apenas uma face. E o pior: este retrato anti-cubista ajuda em quase nada a vida prática de nossa imensa maioria. Em ambas as frentes, nada avançamos.

Outra conseqüência deste maniqueísmo, desta naïf luta entre o bem e o mal, se manifesta na falta de continuidade das ações políticas. É preciso escolhermos coletivamente o que salvar do esquecimento. Não apenas entre um governo passado e outro, mas também em nossa história. Nenhuma instituição séria e duradoura pode sobreviver assim. Como numa esquizofrênica dança de Shiva, só sabemos dançar sobre escombros.

Hoje se tornou um tabu inconfessável assumir certo conservadorismo. Em qualquer canto (do mundo?) reforma é a palavra-chave da linguagem política atual. Conservador é o palavrão que esquerda e direita se atiram no rosto. Daí que ouvimos a todo instante: "Esta é a primeira vez na história que..."; "Nunca antes disso...". Talvez fosse importante, mais que fóruns entre vivos e vivos, uma conversa entre os vivos, os mortos e todos que ainda vão nascer. De fato não aprendemos nada com uma cidade que tenta se organizar há 459 anos? Repetimos velhas questões, mas respondemos sem considerar o acúmulo das respostas.

Para os que acham que aprender com o passado é só repetir o mesmo que outros já fizeram, resta a humildade de dizer que podemos, ao mínimo, aprender com os antigos erros.
Por Jussilene Santana - junesantana@gmail.com
Este artigo foi re-publicado no Jornal A Tarde, na página de Opinião, entre os dias 10 e 14 de junho de 2008.

2 comentários:

Nasa disse...

Jussi,

em relação ao terreno futebolístico, acho imprescindível a identificação com um dos lados. Aliás, essa definição deve se dar ainda no berçário, para que o indivíduo delineie melhor a sua personalidade. Quem, por exemplo, não torce para o Vitória é ruim da cabeça ou doente do pé. Isso para não entrar na seara sexual. Em relação ao restante das temáticas, concordo com você.

Beijo,

Juci

Manu disse...

A imagem é um primor!!!
SE não ficou muito claro, o Ba X Vi que nos paralisa o pensamento é um carro partido ao meio que não nos leva a canto nenhum!
Muuuuuito bacana!

Jussi, obrigada por resgatar este texto. Não tinha lido ele...