sábado, outubro 13, 2007

tradição e contemporaneidade


Chamo técnica a um ato tradicional eficaz (e vocês vêem que nisso ele não difere do ato mágico, religioso, simbólico). É preciso que ele seja tradicional e eficaz. Não há técnica e não há tradição se não há transmissão. É nisso, antes de tudo, que o homem se distingue dos animais: pela transmissão de suas técnicas e, muito provavelmente, por sua transmissão oral. (As técnicas do corpo, Marcel Mauss).

Enquanto iniciante a ainda estudante do teatro, sempre me atenho à transmissão de técnicas para aprimorar meus conhecimentos. E tenho sempre boas surpresas.
Considerando a transmissão de técnicas através da oralidade, da imagem, da percepção, as poucas experiências que tive me ensinaram muito.

Lembro de quando eu fiz a assistência de uma oficina de Luis Carlos Vasconcelos, na Escola de Teatro. Parecia-me algo diferente, original, na época. Eu era mais ignorante ainda do que sou agora, e tomei um susto ao ver – depois de alguns dias de teatro físico, visceral, corporal – um livro de Stanislávski nas mãos de Luis Carlos. Calmamente, ele me explicou que estava estudando o velho russo – suas ações físicas – para aprimorar suas pesquisas teatrais.

Quando a Cena Lusófona me convidou pra passar seis meses em Portugal, tive mais surpresas, mais aprendizado. Na faculdade de teatro de Évora, os alunos estavam estudando Meyerhold, discípulo de Stanislávski, ao mesmo tempo em que no CENDREV, Pierre-Étienne Heymann ensaiava uma versão da Comédia do Pão, de Bertolt Brecht. Dois centros caducos? Com certeza que não, pois nestes mesmos lugares a dramaturgia contemporânea e a linguagem cênica contemporânea dialogavam com o passado.

Diálogo, um dos fundamentos da maioria do teatro ocidental (que não nasceu às margens do rio Ipiranga). Ao assistir duas montagens de Shakespeare, pude confirmar ainda mais essa conversação entre passado e o presente. No Buffes du Nord, pude assistir à versão do Hamlet dirigida por Peter Brook, e vi no Berliner Ensemble uma grande montagem que Claus Peymann fez do Ricardo II.

Foi um aprendizado, pra mim, perceber a sólida formação daqueles atores e encenadores, prontos para se estabelecerem como artistas contemporâneos no que eles têm de melhor; conhecimento das bases que formaram nosso século e estão aí para serem aproveitadas; em montagens novas, particulares e diferentes.

O fato de Grotowski citar Stanislávski já não me surpreende mais. Parece-me tão comum quanto o fato das audições de Pina Bausch partirem do balé clássico. É sempre bom beber na fonte, quando se quer ser novo, até porque, como já dizia Antonio Vieira, o novo é o velho revisitado. Basta olharmos a história e perceber que as técnicas foram transmitidas para serem reestruturadas por cada um à sua maneira.

Não existe geração espontânea na arte. Enquanto estudante do doutorado, a cada semana, descubro um novo livro antigo que aponta questões totalmente úteis e lúcidas para minha tese, ainda engatinhando. Vejo o quanto ainda falta aprender sobre o que já foi feito.

É claro que a autenticidade tem que ser almejada pelo artista consciente. Não há nada mais chato do que teatro brechtiano, artaudiano, satinislavskiano. São as heranças e a forma de lidar com esses pensadores e técnicos que nos formam e nos ajudam na busca de algo particular, pessoal.

“É nisso, antes de tudo, que o homem se distingue dos animais: pela transmissão de suas técnicas...”, nos diz Mauss. Freud imagina o inconsciente como uma superposição de estruturas, tal qual se Roma existisse com todas as suas estruturas arquitetônicas históricas coexistindo ao mesmo tempo (o que, fisicamente, sabemos que é impossível; por acaso estive lá e acho um exemplo perfeito).

Assim também são as técnicas. Quanto mais apreendemos o passado, mais podemos olhar para o futuro.

É senso comum, entre os filósofos contemporâneos, que não podemos ter mais uma arte pura. Estamos todos contaminados pelas informações várias que captamos, seja sensorialmente, intelectualmente ou emocionalmente. Por mais sacrifício que se faça, o artista está sob a influência de um amálgama de sentidos que faz, dele, um ser contemporâneo; mesmo que a fórceps.

O que talvez diferencie o artista atual é o quanto ele conhece e dialoga com a tradição para rompê-la. O rompimento é necessário, mas não de forma inconsistente, espontaneamente gerada, fragilmente inspirada em estilhaços contemporâneos. Sem conhecimento de seu passado, a arte corre o sério risco de se tornar fraca, sem força, sem inteligência (recorrendo à etimologia de palavras que incomodam tanto).


GVT.

11 comentários:

Lulu/Juju disse...

Estou correndo com a divulgação e com a organização do Ciclo de Entrevistas Memória do Teatro na Bahia (para o qual convido a todos!) e, infelizmente, por agora não posso me debruçar sobre esta questão como ela merece. Depois de todos os ismos como fica a relação entre tradição e a contemporaneidade? E se ainda estas tradições não foram geradas na terra pátria, melhora ou piora?

De todo modo, o estudo dos últimos cinquenta anos de nossa história já me dá tranquilidade suficiente para entender que ela retornará, mais cedo ou mais tarde, como questão, tendo eu mais espaço para dissecá-la. Já que esta é uma pergunta central nos debates sobre a formação das mentalidades na Latino América (aqui uma pequena homenagem a Hector Briones, agora no Chile).

Hoje temos um supermecado de tradições, algumas muito eficientes para alcançar determinados objetivos tecnico-artísticos. O teatro que burila o texto é uma delas. Isso é coerente e que caminha, ouso mesmo falar 'evolui', A PARTIR dos choques a ela submetidos nos últimos cem anos.

Deve ser criticada DENTRO de suas próprias propostas. Não fora delas. É engraçado reconhecer quando dentro das tradições, vemos produtos que discutem seus limites e se aproximam de outras áreas. Bom, não é o caso de um espetáculo específico que aqui me refiro.

Daí que este último texto de Gil me fala muitíssimo. Vejo que as aulas do doutorado estão repercutindo.

Jussilene Santana, Teatro NU

Anônimo disse...

GIL VC ESCREVE BEM DEMAIS, VÊ-SE CLARAMENTE O QUANTO VC DETEM CONHECIMENTO E SENSIBILIDADE. ACREDITO QUE ESCOLHÍ A PESSOA CERTA PRA DIVIDIR UMA CONCEPÇÃO, CORRER ESTE RISCO DE ENCONTRAR O "BURACO" E MANDAR VER ONDE VAI DAR.
UM ABRAÇO
OSVALDO ROSA

Luis Alberto Alonso disse...

Oi Gil!
Gostaria de te parabenizar pela bela postagem, cheia de conhecimentos e sensibilidade.
Nós, homens e mulheres de teatro somos um povo de canoas, tão frágeis como as canoas de papel que devem ser construídas com muito esmero, sem esquecer nossos velhos canoeiros.
O mar é basto, imenso, e sempre devemos cuidar de não perder o rumo, ainda que procurando novas sendas. Só nos garante o triunfo a velha rosa-dos-ventos.

Luis Alberto Alonso.

Luis Alberto Alonso disse...

Opa!
esqueci te convidar,ainda que não te conheço, nosso espetáculo: Branca. No xito às 20 hoas, terçase quartas.
Qualquer dúvida pode conferir em
www.ocoteatrolaboratorio.arteblog.com.br
É nosso primeiro espetáculo como grupo mas feito com muito amor e seriedade.

Gil Vicente Tavares disse...

Luis Alberto, eu assisti seu espetáculo lá no Vila Velha. Costumo assistir a maioria das coisas, justamente pra ter fundamento e conhecimento mínimo pra falar. Espero que você continue frequentando o blog, e se possível dê uma olhada em postagens antigas.
grande abraço

Padre Alfredo disse...

Lindo! Adorei.
Festa du caralho!
Hoje (15.10) é o aniversário do chargista Marcelo Mendonça, do
www.caralhaquatro.blogspot.com
Poste qualquer coisas lá!
Alfredo

Anônimo disse...

Lindo texto!:
Ainda não rpondeu o que eu gostaria
escutar sobre arte!
isso que vc escreveu todos sabemos.
Eu

Jacyan disse...

Tem uma coisa interessante que eu percebi em muitos dos mestres que foram considerados "revolucionários" no teatro e na dança - aqueles que, de certa forma, "iniciaram" novas correntes, que viriam mais tarde se tornar uma tradição:

Todos, sem exceção, eram possuidores de uma sólido conhecimento em seus campos artísticos. Eram bem formados, ou informados, nas tradições de seus lugares e, por vezes, de alhures.

E todos PRECISARAM em alguma momento, efetuar uma ruptura com o status vigente das artes de suas épocas. Grandes coreógrafos, dançarinos e pedagogos da dança tornaram-se revolucionários porque tinham alguma peculiaridade, que em suas épocas foi diagnosticado como "problema": um defeito físico, uma impossibilidade qualquer de corresponder aos cânones da dança de seu tempo, um pé chato que fosse. E, na área do teatro,eram homens frequentemente incompreendidos, e inconformados precisamente por serem incompreendidos.

Vai daí que eu, modestamente, cheguei a duas conclusões: que realmente não há vanguarda sem conhecimento do passado. E que a revolução, a vanguarda, é sempre fruto de uma necessidade. Não adianta querer romper paradigmas pra ser moderninho, por querer romper, por achar careta. É uma necessidade, de certa forma, atávica. (Como se a vida dependesse disso). Ou a gente tem ou não tem.

Gil Vicente Tavares disse...

Jacyan, eu também não conheço nenhum grande artista que não tenha rompido com algo, não tenha buscado sua própria linguagem. É exatamente isso que eu quis dizer: pra romper, precisamos conhecer profundamente o que estamos rompendo, a ponto de conhecer tanto que passa a ser insuficiente, inquietante, distante, diferente, conflitante e mais um monte de entes e antes.
bjs.

Anônimo disse...

Foi com grande pesar que me encontrava viajando sem a acessibilidade de internet e perdi essa grande e apimentada discussão. Realmente uma pena!! Tenho a sensação que peguei o caldo do feijão depois que todos já comeram a carne. Mas nunca é tarde.
Não sou um doutorando ou mestrando ou acadêmico de teatro, também não sou um arquiteto, não sou decano de nada e não sou como o grandessíssimo Celso Jr.
Sou um simples profissional das letras.
Gosto muito de teatro, como de qualquer outra manifestação artística que possibilite uma expressão maior do ser humano quanto à sua necessidade de se comunicar com o seu semelhante.
Porém me senti desqualificado em emitir qualquer opinião com medo de represarias por um posicionamento mal colocado. Conheço tanto de teatro quanto de arquitetura, mas tenho consciência bastante para saber até onde minhas mãos podem chegar. Chamar de imbecil gratuitamente qualquer pessoa é desqualifica qualquer discurso ou argumento.
Não saberia opinar sobre contemporaneidade e tradição. Mas sei que tenho direito adquirido que me permite a liberdade de gostar ou não gostar de algo. E acho de uma violência ditatorial rotular ou desfazer de uma pessoa por ter uma posição contrária a que possui, como se serviu bem de exemplo o Sr. Doutorando GVT.
Gostaria de dizer de antemão que não gosto de qualquer dramaturgia que o senhor tenha escrito, mesmo que eu só tenha visto o clássico baiano “Vixe Maria, Deus e o Diabo na Bahia” (que achei de uma imbecilidade das maiores que eu já tenha visto em toda minha longa vida de espectador de teatro! Me perdoe senhor GVT, mas não consegui nem um sorriso de meia boca com aquele texto.)
Engraçado como, observando e lendo esses últimos posts, você escreve, escreve e escreve e depois vem essa maravilhosa criatura que é Jacyan e intercede por nós, os imbecis que vão contra as suas idéias. Engraçado como o senhor em resposta ao comentários da Sra. Jacyan, escreve dizendo que era exatamente o que ela quis expressar que Vossa Magnitude GVT teve a intenção de passar.
Obrigado Sra. Jacyan, por me dar a segurança de poder não gostar de um trabalho do Sr. Harildo Deda, mesmo respeitando-o e tendo-o como um grande homem do teatro. Obrigado por garantir meu sagrado e tão batalhado direito de discordar.
Ao sr. GVT devo dizer (mas se sinta no direito também de não aceitar qualquer comentário ou conselho meu) que precisa de maturidade e humildade. Qualidades que não se podem aprender, senão com exercícios de esforço pessoal. Nem com os valorosos professores da valorosa escola de teatro da Ufba podem ser adquirido esse tipo de aprendizado. É um tipo de aula que não se estuda, mas que se aprende com o tempo. Talvez sr. GVT, lhe falte isso. Tempo.

Agradecido desde já

Dalton T. C.

Gil Vicente Tavares disse...

Caro Dalton,
Não sendo você uma pessoa dita "de teatro", saiba você está totalmente fora da categoria "imbecil" que tanto foi o foco da discussão. Chamei desta palavra as pessoas que conhecendo o estilo de Harildo, vão e saem criticando o mesmo. É como uma pessoa que conhece a obra de Zé Celso, vai ver "Os Sertões" e reclama da nudez. Isso me parece estranho, no mínimo.
Quanto a gostar, não gosto de coisas que Harildo fez, ele, talvez muito mais, não gosta de coisas minhas. Assim como tenho discordâncias estéticas com Celso Jr, Jacyan e tantos outros. Todos têm o direito de não gostar,e o mais saudável é sair depois pra tomar uma cerveja e debater, ou não, idéias. É das contradições e discordâncias que surgem novas idéias. Portanto, meu caro, sinta-se descontemplado.
Quanto à questão de humildade, quando reforço estilos dos mestres, que muitas vezes são bem distantes do meu, é justamente por que sei que estou engatinhando e tenho que comer muito chão pra chegar aos 30, 40 ou 50 anos de experiências de alguns aqui, que fizeram o teatro na Bahia.
Entendo que pelo atraso você também queira botar pimenta neste vatapá, mas penso que mais clara e resolvida do que ficou a questão, é difícil.
Vamos fazer um evento, e está divulgado aqui no blog, onde pessoas com 50 anos de história vão falar de suas experiências, os primeiros profissionais daqui. Estamos fazendo isso porque um teatro sem memória não se segura. Não podemos, simplesmente, demolir algo que não nos agrada, e volto a falar, é contra um pensamento de "derrubar um pra levantar o outro" que estou combatendo. Nossa Escola de Teatro - caso você não saiba, por falta de divulgação, mesmo - fez 50 anos de existência. Temos uma pós-graduação com conceito máximo no MEC, estamos estreando espetáculos - com o teatro novo - uns atrás do outros. É um centro de excelência onde penso que não cabe a imbecilidade de derrubar nenhuma estética, e sim que elas se somem.
Talvez o "imbecil" tenha sido colocado sem muita explicação específica pra distanciar alguns como você. Mas todos nós temos nossos dias de irritação, e me irrita o fato de quererem demolir uma linha estética que não é a minha, mas que sem ela a minha não poderia nem se esboçar. Cresci assistindo grandes montagens de pofessores de lá, diferentes estilos, e isso garante o caráter único da nossa cinquentenária instituição.
Não deixe de ver as próximas montagens de lá. essa semana, mesmo, está estreando uma versão de "Viva o povo brasileiro".
E deixe aos imbecis as intrigas pequenas, fúteis, destrutivas.