segunda-feira, junho 07, 2010

"Resposta a Jussilene" ou "quero montar Tchékhov, mas não posso"


Jussi,

Ontem, à noite, vinha dirigindo meu carro ouvindo Rachmaninov. Compositor russo que aprendi a admirar profundamente. Ouvia seus “Momentos musicais”, op. 16, quando, mais uma vez - ao ouvir a terceira peça - imagens, desejos e emoções me vieram à mente.

Não posso ouvir essa peça musical que me vêm, à cabeça, não só sentimentos, mas a recorrente vontade de montar “Tio Vânia”, de Anton Tchékhov.

Essa obra teatral é de uma beleza profunda. Trata da frustração dos sentimentos, da castração dos desejos, da impossibilidade da paixão. Temas eternamente atuais e poeticamente escritos por um dos maiores de todos.

Se alguém me perguntasse qual seria minha concepção para essa peça, eu mandaria ouvir o terceiro momento musical de Rachmaninov, contemporâneo de Tchékhov, tão russo e tão inspirado quanto. E mandaria ouvir as quatro versões que tenho das tantas que ainda pretendo conseguir. Nas interpretações dos seguidos pianistas está a dinâmica da peça, a alma da cada personagem, a poética da cena.

Seria insuficiente para um edital? Bem, montar Tchékhov em Salvador será, por um bom tempo, insuficiente e impossível.  Eu jamais teria um projeto de montagem de “Tio Vânia” aprovado em Salvador. Nos editais, minha razoável experiência me mostrou que é quase impossível eu ser aprovado com os meus projetos pessoais, a partir da minha dramaturgia, ou a partir de João Ubaldo Ribeiro, que seja, com o melhor elenco possível que seja. Quanto mais um autor russo, morto, esquecido. Aliás, esquecido não! Pra ser esquecido é primeiro preciso ser lembrado, e Anton Tchékhov não faz parte da realidade nem dos estudantes de teatro, nem da população em geral.

“Por que não tenta a Lei Rouanet ou o Fazcultura?”, me perguntariam alguns. E temos, na minha resposta, a resposta ao insucesso atual das leis de incentivo em Salvador; o Fazcultura depende de decisão local, e não há interessados em outra coisa que não seja festa e camarote nas gerências de márquetim das empresas. Rouanet? As decisões são nacionais. E que representante nacional aprovaria verba pra Salvador, pra uma peça de um autor russo, com atores desconhecidos dele, numa perspectiva de naufrágio quase garantida?

Naufrágio, sim. Tchékhov escreve para a alma das pessoas. E, atualmente, as almas estão inacessíveis. A carapaça de insensibilidade e estupidez blindou o soteropolitano médio de qualquer possibilidade de percepção artística. Ele só ouve o que espera ouvir, só lhe interessa o texto que ele não precisa “traduzir”, não precisa se esforçar por adentrar um universo que fuja do lugar comum, do cotidiano, do medíocre e vulgar.

Não acho que o teatro deva ser museu. O Teatro NU, por exemplo, vem tentando dialogar com as atuais expressões dramáticas por aí afora. E me interessa deveras a produção contemporânea, as novas linguagens, as possibilidades do drama e da cena. Mas, parodiando um ditado antigo; “às vezes, pra se ir em frente, antes é preciso olhar pra trás”. Atrás está a grande estrada da vida, que fez o passado caminhar até a gente. E por ela eu adoraria voltar e me encontrar com essa obra belíssima de Tchékhov. E poder mostrá-la nos palcos da minha cidade. E poder tocar as pessoas com a poesia do mestre.

Acho que essa resposta dialoga, por linhas tortas, com sua carta. Não poder montar Tchékhov em Salvador diz muito de tudo o que você falou.

Enquanto isso, vou fazendo do momento musical de Rachmaninov um momento teatral; vou montando e remontando “Tio Vânia” na minha cabeça.

Isso, ao menos, Salvador não pode tirar de mim. 



GVT.

quarta-feira, maio 26, 2010

Cartas a um jovem Gil Vicente


Querido Gil,
Sim, recebi seu último e-mail, mas confesso que não o compreendi. Por isso minha demora em responder...

Não compreendi como a "opinião pública" soteropolitana que ainda mantém o mínimo interesse nessa arte - os segundos cadernos, os professores de teatro, os estudantes de teatro e a gente que faz teatro - pode acreditar que se há uma crise no teatro baiano, esta crise se deve a uma "falta de criatividade dos artistas da terra". Confesso, não entendi.

Queria ter mais informações, fatos, depoimentos para compreender... Uma análise, um artigo, sei lá, com bons argumentos. Algo que não caísse no démodé BAxVI que se tornou o debate (sic) "sobre os rumos da 'cultura' (sic) na Bahia", debate que esterilizou um ambiente racionalmente já rarefeito, debate que anestesiou um ambiente há décadas já perigosamente absorto em suas próprias entranhas e paixões.

Aqui no Rio leio jornal todo dia.
Na internet, lógico. Não sou assinante de nenhum, mas meu google chrome abre simultaneamente as páginas que mais acesso: atarde.com, globo.com, jb.com, uol.com e etc.com. Meu dia só começa depois que eu blábláblá, aquela coisa... E, deus sabe até quando, mas ainda mantenho o hábito de começar lendo as páginas de 'cultura' (de 'entretenimento'). Sou leitora ativa, vasculho no meio do lixo, vou à caça, mas não tenho encontrado nada a respeito disso por aqui, nem no terramagazine.com, que é editado por um baiano... Parece que o teatro baiano já não é mais mesmo uma matéria que interessa a tanta gente...

Mas eu realmente não entendo do que reclamam...

E quem é mesmo que reclama?? E o que seria esta tal "criatividade" que antes tinha e hoje não tem mais? O que é o ANTES??? A que antes estão comparando os já famigerados anos 00?! Ao engajamento da turma dos anos 60 ou a energia desmedida dos anos 70? Bom, talvez o antes se refira àquela alegria selvagem do fim dos anos 1980, que terminou desembocando na onda de profissionalismo ímpar dos 90, a onda à qual recentemente acabamos de ver terminar?

Sou realista.
Sei que a nossa memória social é curta. Portanto a crise só pode ser em comparação ao momento anterior imediatamente vivido: os anos 1990. É triste, mas enquanto sociedade, a nossa memória não tem o fôlego nem de 2 gerações, apenas sabe/acredita no que cada indivíduo por si viveu como "testemunha ocular". Por isso tudo vira memorialismo...

Numa arte tão efêmera quanto o teatro, com a freqüência de público que temos, não dá nem para imaginar os estragos que este tipo de comportamento social causa. A cada dez anos sabemos de uns três "pela primeira vez na Bahia", que causariam frouxos risos, se antes não provocassem náuseas profundas. E também não escondo minha dor lancinante quando conversando com as "novas gerações" cito um grande ator baiano "do meu tempo (!), dos anos 1990 (!!!)", e ouço um inocente desdenhoso: "nunca ouvi falar". No fundo, isso se torna apenas outra forma do mais vulgar dito popular: "Não vi, então não é bom". Ou, sendo na Bahia, o copyleft: "Não sei, não quero saber E TENHO RAIVA DE QUEM SABE".

Mas, tudo bem. Ninguém me obrigou a amarrar nesta pradaria o meu jegue.

O fato é que os anos 1990 não foram chamados de "os anos do profissionalismo teatral" na Bahia à toa. Ele aconteceu depois de um verdadeiro levante provocado ainda no final dos anos 1980 por peças movidas por self-made-men/women (os Los Catedrásticos, as esquetes da Companhia Baiana de Patifaria, a Oficina Condensada), peças criadas por jovens, que na época nada tinham a perder, que trabalhavam em outras atividades para sobreviver, que lançaram mão de suas pequenas economias pessoais para fazer as montagens, que conseguiram atrair um público de amplo espectro (não mais apenas os amigos e os parentes e os alunos e os pares) e que tiveram também a maldita sorte de pegar carona num espírito do tempo provocado pelo New Carlismo que queria novamente contar as "coisas da Bahia através das artes", sobretudo utilizando-as como ferramenta de marketing. E a resposta da cena foi: "Por que não?"

Na seqüência da década de 1990, diferentes estruturas de apoio à produção teatral na Bahia foram montadas ou reestruturadas. A simbiose da "classe" com o governo Carlista não foi apenas no apoio dado a certa temática (a Bahia como o "grande e quase único tema" de diferentes espetáculos teatrais apoiados), mas ocorreu também na relação patrimonialista e paternalista entre alguns gestores e artistas.

Se pudéssemos analisar de forma apartidária, inclusive de fora do "partido do teatro", perceberemos que parte da crise "que se vive hoje" já estava sendo engendrada nestes dois grandes aspectos do sistema produtivo montado: 1. Pelo próprio desgaste temático provocado pela moda do "vamos pensar a baianidade nos palcos", que teve seu frescor no início, claro, mas que como TEMA também encontrou seu esgotamento em pouco menos de dez anos. A Bahia poderia ser um TEMA bom quando era um tema entre os demais num roteiro cultural que ainda se pretendia amplo. Depois, se tornou quase que a fórmula do sucesso! E da forma como sucedeu não deixou herança, deixou apenas replicantes.

E 2: No desgaste provocado pela exclusividade do uso da lei de incentivo Faz Cultura no capitaneamento das produções teatrais. O Faz Cultura era uma caixa preta, descriptografado apenas para alguns, com os problemas inerentes ao modo de produção via renúncia fiscal que mais tarde seria debatido nacionalmente também. Ou seja, é uma questão colocada para o país, o caminho ficou cheio de armadilhas, mas POSSIBILITOU A ESTRUTURAÇAO DE UMA RESPEITÁVEL REDE de trabalhos, de artistas atuantes, de valores de cachê, de periodicidade de produções! E de estruturação de um MERCADO TEATRAL!!

O fato, amigo GVT,
é que esta turma toda que era jovem e deliciosamente irresponsável nos anos 1980, já chegou aos anos 1990 mais pragmática e realista. Exigiu (e conseguiu!!) condições para continuar trabalhando. Se não fizessem isso, com certeza, pessoas como eu e você não teríamos visto nem um quarto deles em ação nos palcos! Boa parte continuou com o filão BAHIA, mas o sucesso geral possibilitou a montagem de outros estilos de encenação e também se arriscou fugir do estilo (por si só nem bom e nem mal, porque não há isso em poética) próprio de ambientes desorganizados: a dependência do ator-estrela e/ou do ator-comediante.

Essa geração começou a cobrar cachês e, pasmem, a SOBREVIVER daquela atividade que simplesmente lhes tomava 99% do tempo. Incrível? Que isso um dia tenha acontecido? A gente também já conversou o quanto o surgimento e aparelhamento das casas de teatro deve à música baiana, que terminou reformando espaços e preparando técnicos, sobretudo de luz e som, que se revezavam na música e no teatro. A gente também, numa conversa, já listou de cabeça uns quinze nomes de profissionais de primeira linha que hoje só encontra trabalho remunerado na música. Trabalhar para teatro? Só se for uma dívida antiga para um amigo... Voltamos ao 'teatro só para amigos”... Em todos os aspectos. O público voltou a ser majoritariamente formado por amigos.

Mesmo a "classe teatral" sabia dos problemas inerentes àquele "mercado embrionário" que se formava, também fazia suas queixas. Mas de forma acéfala, para não variar, as reclamações só pipocavam quando o arroz queimava na própria cozinha. Mas os ganhos geracionais, de todo modo, estavam se acumulando. Qual é o principal ganho? Ter diferentes gerações de atores baianos trabalhando! Porque está é a única chance para os atores mais novos que surgem. No teatro, ver gente boa é a única fórmula para gerar mais gente boa.

É claro que o governo Wagner não teria perícia técnica e artística para fazer a mudança cirúrgica necessária ao cenário que encontrou. Ao invés disso, fez terra devastada, quis "Começar um novo tempo". Não foi NADA sensível ao "mercado" que funcionava antes. Sequer considerou-o como tal! Ouvi de inúmeros trabalhadores do governo que me disseram Hãhn? quando perguntei sobre o que ia acontecer com o mercadinho teatral baiano. A questão não seria mais o teatro baiano dando seus pulos para se inserir na economia capitalista, mas o teatro (mais uma vez!) como caminho para a mudança social. Cansativo. Não nego que muitas pessoas se salvem assim, mas a arte que elas fazem com certeza será condenada.

E nesse bojo houve ainda um tremendo erro de julgamento! Acreditou-se numa versão determinista da realidade, num "é o meio que faz o homem!" E raciocinaram: "Ora, ora, aquela turma lá dos anos 1980 não se produziu de forma criativa sem grana, sem salário, sem tempo, sem condições? Então? A chave do sucesso está NESTAS condições!" Triste. Como disse, seria hilário se...

Acontece que esqueceram como foi difícil para esta geração 80 re-começar depois de um longo inverno. Depois de todos os desmandos que quebraram a "produção" anterior. Numa outra oportunidade eu me repito, conto sobre os anos 1960 "quebrando" o que foi montado nos anos 1950 (você não agüenta mais me ouvir falando isso... Confesse...), mas não preciso nem dizer que mais uma vez presenciamos a dança de Shiva. Essa imensa turma de artistas baianos que se profissionalizou na década de 1990, formada por artistas DE DIFERENTES idades (! dos 7 aos 70!) se retraiu ou foi retraída do "cenário", aí o espaço literalmente sobrou para os novatos de todos os tipos. No grupão que "saiu de cena" estavam: 1)A turma das antigas que não topava mais passar por um retrocesso e trabalhar recebendo miséria ou não recebendo; 2) Parte grande da turma jovem que desceu para o Rio de Janeiro e São Paulo; 3) A outra parte da turma jovem que continuou atuante na Bahia "lascando de banda" para escalar um elenco que ainda tope trabalhar nas condições oferecidas; 4) E uma turma considerável das antigas simplesmente cansou.

Bom, tenho que falar sobre mim?
Detesto argumentar usando experiências pessoais... Eu demorei 6 anos para montar minha última peça na Bahia, Joana d'arc. Nosso projeto foi primeiro reprovado, depois renegado, posteriormente escolhido como suplente e, por fim, ganhou um edital. Haja Paciência... Saiba que oferecíamos sempre O MESMO projeto, só alterávamos o orçamento. E mesmo depois de premiado, demoramos 14 meses para receber a grana. Eu literalmente concebi e pari uma criança, a doce Ana Luísa, enquanto aguardava a verba.

O prêmio recebido, depois de reduzido, só dava para promover 13 apresentações!!! Montamos o espetáculo com 1/3 do orçamento original lá de 2004. A diretora voltou novamente a se multiplicar em sonoplasta e operadora. A atriz voltou a se revezar na assessora de comunicação. Voltamos ao "se vira nos 30" porque não tinha como pagar a todo mundo, era um espetáculo que exigia um elenco grande. Não era um monólogo. Não era um binólogo. Não vou discutir mais isso, mas chegamos a pensar em montar um monólogo só comigo, chamado Eu, Joana, devido às sérias restrições orçamentárias. Mas utilizar a restrição orçamentária como tema para um espetáculo/monólogo soava como cópia para mim, já tinha visto esta peça. Graças a Deus conseguimos um elenco que aceitou um cachê praticamente simbólico para o talento e empenho que demonstraram. Os 2/3 que TIVEMOS que retirar do orçamento foi basicamente da área de mídia!!!! Mídia...Esta coisa essencial no mundo de hoje para não isolar mais a já isolada manifestação teatral na contemporaneidade. Outro revés.

Não... Também não quero falar do estrago que causa para toda uma turma que agora está se formando/entrando para o teatro não assistir freqüentemente os "artistas de diferentes idades que se profissionalizavam nos anos 1990". Os meninos dos anos 1980 ainda tinham seus ícones baianos, inclusive para COMBATER! Professores, atores e diretores simultaneamente em cartaz para RENEGAR!!!! A história do teatro baiano pode ser divertida se a gente encara algumas montagens como respostas a outras montagens! Inclusive “os grandes sucessos”! Isso é teatro: mimese contínua, angústia da influência, o ver e copiar, dizer que não copiou, melhorar, acumular...

Nêgo, isso para não dizer da luta pelo Teatro NU, ein? Os diferentes projetos reprovados, nosso primeiro edital, no qual recebemos 9 mil contos... ai...

Pois é. Cansei por hoje.

beijos carinhosos,
JU

terça-feira, maio 25, 2010

Palestra sobre dramaturgia, dia 27/05!


Dia 27 de maio, às 19:30hs, no Campus da Lapa da UCSAL, o diretor artístico do Teatro NU, Gil Vicente Tavares, estará dividindo uma mesa com o renomado e premiado dramaturgo, Prof. Dr. Marcos Barbosa, da UFBA. Na ocasião, os dois farão uma palestra sobre dramaturgia brasileira a partir de suas obras, vinculando ao tema da XI Semana de Letras; "Literatura e Trangressão". Apareçam e divulguem! 

(na foto, Marcos Barbosa, eu, Claudio Simões e Gideon Rosa, no "Diálogos sobre dramaturgia contemporânea ano 0" com Letizia Russo)

sábado, maio 22, 2010

Elegia


Damário 
              se foi
Calvário  
             se fez
Poesia 
            desfaz
Imagem 
            da Cruz

segunda-feira, maio 17, 2010

UNDERGROUND faz 15 anos

O filme Underground, de Emir Kusturica, completou 15 anos, agora em 2010.

15 anos se passaram, mudou-se a década, o milênio, e por mais que muitos queiram, ainda vivemos os ecos do pós-segunda guerra mundial. Nem a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética foram suficientes pra mudar o panorama mundial.

Uma ordem mundial só muda quando as urgências são outras. E, infelizmente, o filme de Kusturica está debutando atual e necessário.

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, quando ainda não se premiava Michael Moore e outras bobagens, este foi o segundo prêmio do cineasta, chegando ao status de ganhar duas palmas de ouro, feito só realizado por mais dois ou três cineastas do mundo.

Kusturica consegue ser uma mistura de Bertolt Brecht com Federico Fellini. De Eugène Ionesco com Ettore Scola. Sem a mínima preocupação com o que herdou, o cineasta sérvio conseguiu chegar ao patamar de ser um dos maiores cineastas do mundo, de todos os tempos.

Se me perguntassem sobre quais obras cinematográficas me inspirariam mais, dentre todas já feitas, Underground estaria entre as três. Para as outras duas vagas a briga seria boa entre filmes de Scola, Bergman, Fellini, Tarkóvsky, Greenaway, Sokurov, e talvez eu não soubesse listar.

Acabei de ver o filme, e me emocionou mais do que das primeiras vezes. É impressionante como o cineasta consegue unir o trágico e a bufonaria, a festa e a dor, e fazer um filme que mexe com todos os sentimentos de uma vez.

Ser político sem ser panfletário, ser trágico sem ser melodramático, ser poético sem ser cafona, ser palhaço sem ser ridículo.

Se todos os artistas conseguissem dosar isso, com certeza teríamos obras mais complexas, desatreladas de ideologias, modismos, questões politicamente corretas e idéias rasas.

Nas mais de duas horas e meia de filme, Kusturica tem muito a nos dizer. É clara e evidente a complexidade do tema que ele aborda, pois ele está falando de si, de sua dor, mas criando uma fantasia para isso. É um fingidor que chega a fingir que é dor a dor que realmente ele sente pelo seu país, pelo seu povo.

Adoro arte política, mas só tenho visto arte ideológica.

Adoro arte que emociona, mas só tenho visto melodrama.

Adoro arte com humor, mas só tenho visto humor sem arte.

Underground é uma lição de como se fazer uma obra-prima se utilizando dos elementos da arte sem que eles pareçam gastos, rasos, maneiristas.

Consistência. Complexidade. Conhecimento. Esses são os princípios da arte. Só consigo ultrapassar a barreira do racionalismo na arte quando esses princípios são alcançados. Aí, então, sou pura emoção.

Só, então, “a minha alma sangra”.

Vejam, revejam o filme. As lágrimas de vocês serão as mesmas que as minhas.



GVT.

domingo, maio 09, 2010

"Selvador", civilização em ruínas?


No caminho para as duas últimas apresentações d’Os Javalis, em Camaçari, deparei-me com uma grande construção à esquerda da pista, saindo da Avenida Paralela. Ao perguntar o que seria aquilo, a resposta – quase que natural e óbvia das pessoas – foi que ali seria o Norte Shopping, ou algo que o valha.

Como já disse tantas vezes, Salvador é uma cidade boa pra tomar cachaça e beijar na boca. A referência explícita à idéia de um balneário, de um lugar de diversão e festa, se alia aos grandes programas do soteropolitano nos finais de semana. Se não se está na praia, se está no xópim. Ou numa daquelas festas adolescentes que os marmanjos retardados culturais passam a vida freqüentando.

O Teatro Maria Bethania fechou, virou bingo. O Iemanjá serve mais a colégios e formaturas. O Espaço Xisto Bahia está em reforma há tempos, bem como o Solar Boa Vista (ambos do Estado), onde fui ensaiar Os Javalis e, após reforma anunciada pelo Governo, as goteiras ainda caíam no palco; uma lástima.

Se formos falar da prefeitura da cidade, vira piada. Não temos um teatro municipal, o único espaço de apresentações, o Teatro Gregório de Mattos, está fechado e não vemos nenhum movimento para que a prefeitura da cidade tenha uma relação obrigatória e automática com a cultura da cidade. Passe-se em branco e fica-se por isso mesmo.

Agora, em meio à reforma do Teatro ACBEU, recebemos a notícia que o Teatro Jorge Amado vai fechar. Um teatro particular, que, diferente de alguns outras da cidade, não recebia mesada do governo e vivia das pautas, caras e sempre cheias, advindas de um processo quase que natural de peças com caráter extremamente comercial, possibilidade plausível de se tentar sustentar os custos da casa.

Mas não deu. O espaço será leiloado, possivelmente, por não ter conseguido cumprir um empréstimo feito ao Desenbahia. Ficaremos sem mais um teatro na cidade, não sabemos por quanto tempo, isso aventando a possibilidade mínima de que quem compre resolver reabri-lo; o mais fácil é virar um prédio de negócios na árida Pituba burguesa.

É engano achar que uma cidade como Salvador chegará algum dia ao status de metrópole civilizada culturalmente de forma natural e espontânea. Vivemos numa terra onde nossa cultura que é exaltada pela TV, pelos folclores sobre nosso povo, está vinculada a mijar na rua, a falar alto e ser esculhambado, a requebrar, a tomar todas, a pegar mulher, a se embriagar na praia ou nos ensaios de pagode e música de carnaval, vivemos uma cultura rasteira e folclórica que, ao invés de ser dosada com antídotos de sofisticação, simplesmente fica sendo exaltada como identidade.

É sempre bom lembrar que a iniciativa de Edgar Santos, de tornar Salvador um centro de excelência e vanguarda do mundo, na década de 50, foi combatida por jornais, pelos estudantes da Universidade Federal da Bahia em passeatas, enfim, uma política cultural efetiva tem que ser estruturada, organizada e imposta. A criança sempre preferirá o chocolate à sopa; o povo sempre preferirá o raso ao profundo.

Ambos podem coexistir, e ambos se alimentam. Não existe fundo sem raso, nem raso sem fundo. São complementos do universo. Pra que exista o belo, precisamos da referência do feio. Pra que exista o leve, precisamos conhecer o pesado. Com uma referência só, a cabeça entra num estado letárgico de aceitação e preguiça; e é isso que vemos na cultura soteropolitana.

É preciso lutar pra que a Prefeitura de Salvador tome vergonha na cara. É preciso lutar pra que o Governo do Estado olhe mais pela outra arte, aquela que não flui naturalmente pelas praças e becos da cidade. É preciso que a iniciativa privada, que enche os bolsos de dinheiro, entenda seu papel social de fomentar um desenvolvimento da sociedade, e não se preocupe apenas em vender suas marcas em camarotes de carnaval e eventos popularescos, no famoso capitalismo selvagem que não percebe que noutros centros a economia da cultura é uma realidade que permite investimento em orquestras, companhias de dança, galerias de arte particulares, teatros e espaços culturais.

Mas por enquanto, o que temos é a construção de novos xópins e o fechamento de velhos teatros. "O teatro é um avançado meio de civilização, mas não progride onde não a há", dizia Almeida Garret.

E regride onde a civilização é trocada pela barbárie. 


GVT.

quarta-feira, abril 28, 2010

Itabuna, Camacan, e a cidade que não mora mais em mim...

O desejo deveria sempre mover o homem.


Em nossa sociedade, o desejo foi substituído pelo interesse, pela ganância, pela usura, pelo consumismo. Os homens agem não pelos seus desejos, mas porque devem satisfação aos seus pares, porque devem seguir determinado padrão, casar com determinada pessoa, ver tal filme, vestir-se de tal jeito, comportar-se de tal maneira.

Mesmo quem nega padrões, acaba por seguir outros, movido não pelo desejo, mas pela vontade de negar o sistema. Nossa sociedade não é, definitivamente, movida pelo desejo.

Viajei semana passada pro interior da Bahia, para as cidades de Itabuna e Camacan, onde o Teatro NU apresentou o espetáculo Os Javalis. E pude ver, na experiência toda cheia de desejos, o quanto estamos afastados da nossa essência e verdade.

Havia, ali, um desejo mútuo de Carlos Betão e de Itabuna, ele voltando à cidade, a cidade sem vê-lo há 20 anos; terra onde ele começou a fazer teatro. E era um desejo puro, simples, sem grandes holofotes, interesses, trocas de favores.

Havia, naquele povo que foi ao teatro, em Itabuna, uma vontade de ver arte. Sem estrelas, sem a grande mídia empurrando goela abaixo algum produto. Era um desejo advindo da carência da cidade em relação à arte. Um Centro de Cultura caindo aos pedaços, com teto desabando, um equipamento de som e luz que foi comprado há três anos e que até agora não foi instalado por nada mais do que incompetência pública. Equipamento que está se deteriorando, tecnologia ultrapassada, como tantas outras coisas nesse estado que sempre era pra ter sido e não foi (será algum dia?).

O riso simples, fácil, os aplausos calorosos, a pureza de espectadores que foram ali acompanhar uma história e se divertiram com um texto aparentemente cheio de filosofias e “discussões complexas”; pura bobagem, pois a verdadeira arte comunica e ali se estabeleceu uma comunicação verdadeira, sincera e efetiva; para além de afetiva.

Dois dias de casa lotada e a certeza cada dia maior de que Os Javalis ainda tem muito a dar, precisa correr este interior, o Brasil, (só) existe vida inteligente fora de Salvador.

Nunca subestimei ninguém. Em minha curta vida de professor, sempre procurei tratar todos como iguais e sempre acreditei na capacidade e inteligência de todos; esquecendo, claro, da preguiça de pensar que nos acomete hoje em dia. Mas, apesar de não subestimar ninguém, fiquei surpreso ao ver mais de 120 pessoas no Centro de Cultura de Camacan curtindo Os Javalis. Desde crianças até pessoas mais velhas, pude ver nos olhos e nos depoimentos ao vivo ou por escrito o quanto a peça havia mexido com as pessoas, levado a reflexões, a idéias “avançadas” sobre o homem e a sociedade.

Tudo isso aconteceu por causa do desejo daquelas pessoas. Muitas vezes ignoramos, menosprezamos e deixamos de lado coisas importantes pelo excesso que temos, pela arrogância, preguiça e comodidade. Mas numa cidade do interior do interior, onde as pessoas são totalmente carentes de arte e cultura diversificada – através do próprio depoimento delas notava-se isso – o desejo de ver algo diferente, que as tocasse de outra forma, por outro viés, fez com que, na pureza do desejo, a peça acontecesse e vibrasse dentro delas.

Desejo voltar com a peça. Circular pelo interior com a peça Os Javalis. Pude me sentir artista, pude comunicar, provocar, mexer com aquelas pessoas. As pessoas na minha cidade estão duras, perdidas, soltas num lugar que não deixou de ser interior, mas ainda não chegou a ser uma metrópole. Calça de veludo com rego de fora.

Enquanto Salvador ignora sua arte, o interior, carente e cheio de desejo abraça Os Javalis. Chego a pensar se aquele verso de Chico Buarque “a cidade não mora mais em mim” se aplica ao artista que sou.

Enquanto quase toda a equipe se dedicava a desmontar a estrutura que fizemos para a apresentação em Camacan, a sensação que eu tinha era de dever cumprido e de um vazio que começava a surgir.

Obrigado Itabuna e Camacan.


GVT.

domingo, abril 18, 2010

Dança contemporânea; o inferno pra fora dos bolsos...


Uma velha. Um careca barrigudo. Dois banquinhos surrados. Corpos que fogem à ditadura estética do bailarino clássico. Movimentos que fogem da pirueta, grand battement, tendus devant. Cenas mais conceituais do que dançadas, texto em cena, falado pelos dançantes. Música de Arvo Pärt misturada com salsa. Desconstrução do movimento.

Se eu lesse isso tudo, com certeza não teria ido assistir ao espetáculo El cielo en mi bolsillo, da Provisional Danza, de Madrid. Viria-me à cabeça as porcarias que tenho visto em cena, amparadas em modismos e conceitos, mas sem profundidade, verdade, propriedade e dança.

Os bailarinos Allejandro Morata, autor da coreografia, e Carmen Werner, diretora da companhia, fizeram um trabalho com sensibilidade e dignidade, sem qualquer preocupação em inovar e questionar, sem a preocupação de seguir linhas estéticas, muito menos em fazer performance, uma manifestação típica das décadas de 70 e 80 (já um pouco démodé), e que as pessoas por ignorância, burrice ou falta de capacidade artística insistem em empurrar nos palcos com a nomenclatura “dança contemporânea”.

Talvez o que mais eu sinta falta hoje em dia seja de uma poética da cena. Assim como tenho uma percepção de que as pessoas cada vez mais fogem da arte. Na dança, isso é claro. Só há duas explicações para as bobagens munidas de conceitos que vemos nos palcos de hoje em dia. Ou criou-se uma vergonha de se fazer arte, ou a falta de competência em criar um trabalho artístico, e sua decorrente execução, fez com que os trabalhos de dança ficassem na paródia, no conceitual, na desconstrução.

Todo grande artista desconstruiu a partir de uma base sólida. Hoje em dia, se desconstrói o que nem sequer tem capacidade de ser erguido. A arte confessional tirada de diários íntimos, com poesia de péssima qualidade, bem como criações que citam outras obras sem recriá-las, mas trazendo delas uma referência que se basta e não evolui em termos de criação, tudo isso tem sido a derrota da dança.  Pior é quando se parte pra gozação de arquétipos. Rebaixa-se a cena ao nível de um programa humorístico de terceira categoria. Gozar com os cânones é tão facilmente medíocre...

Allejandro Morata e Carmen Werner criam um trabalho dentro do limite de seus corpos. Mas corpos que têm história, que têm o que dizer, que têm dança. Talvez, o que aconteça hoje em dia é que não haja artistas que possam trazer uma técnica, uma história e uma poética para a cena. E por se saberem incapazes, criam – na ditadura da mediocridade – fórmulas performáticas que disfarçam a falta de uma poética no trabalho.

Confissões pessoais também podem ser matéria para a arte, mas a partir do momento em que essas confissões se transforma numa poética da cena. A arte é a transubstanciação da realidade. E é muita pretensão que alguns exponham sua vida no palco com uma música de fundo bonitinha, com objetos de cena delicados, com efeitos banais de luz e gestos, e digam que isso um trabalho artístico. Pior é trazer conceitos pra cena sem que isso se transforme em arte. Ou ficar a meio entre as linguagens para, na indefinição, disfarçar a falta de competência em assumir uma delas que seja pra se fazer bem-feito, dentro de uma criação sólida de uma obra artística.

El cielo en mi bolsillo não é uma obra-prima. Mas é arte num momento de desastre.

Ou desarte.



GVT.

sexta-feira, abril 09, 2010

Nosso Zé, um alguém

Acabo de saber do falecimento de "Seu Zé".

Seu Zé era uma pessoa estranha, diferente. Pesava sobre ele questões engraçadas e estranhas. Soube que ele era funcionário da Escola de Teatro da UFBA, foi realocado pra outro lugar, não quis ir e pediu demissão pra ficar na Escola.

Ele havia sido colega de Harildo Déda, mestre do teatro baiano, no colégio. Mas tomou um rumo na vida desconhecido, misterioso, mas no entanto bem simples. Resolveu viver o dia-a-dia de uma Escola de Teatro, onde ele conseguiu colegas que duravam três anos e meio, quatro anos, dez anos, e alguns que se foram antes dele, outros que ficaram pra contar história.

A figura do Zé-Ninguém aqui se torna paradoxal. Seu Zé poderia ter sido um Zé-Ninguém ou alguém mais que um Zé?

Ele assistia a todos os espetáculos da Escola de Teatro, emitia opiniões (às vezes comentava alto, durante, inconvenientemente), e era um quebra-galho pra tudo. Perguntava sempre pra gente sobre alguém, tecia comentários repentinos sobre assuntos dos mais diversos.

Não poderia ser oficializado como funcionário da Escola, pois não o era, mas soube recentemente que o câncer que o derrubou não foi suficiente, assim como o realocamento dele, pra que ele saísse de lá. Disse que queria morrer na ETUFBA, segundo eu soube; possivelmente não tinha muito pra onde ir.


Não sei se deixou filhos. Família. Não sei se deixou casa, não sei se deixou algum dinheiro - que não sei como conseguia - nem tampouco se deixou alguma história fora da Escola de Teatro.

Mas foi lá que ele deixou um vazio, inexplicável. Professores se aposentam, alunos de formam, funcionários são realocados, montagens são feitas e desmontadas a cada semestre. A Escola de Teatro, em tudo, representa o que de mais efêmero existe.

Seu Zé não. Sendo um Zé-Ninguém, sendo alguém, sendo todo mundo, personagem de uma farsa ou de uma tragicomédia, seu Zé conseguiu, por ser muito pouco, por querer muito pouco, mas estar sempre presente, ser uma figura que, não sei como, não sei porque, não sei aonde, fará uma imensa falta a todos que o conheceram. A partir de agora, ao entrarem naquela Escola de Teatro da UFBA, tenho certeza que será estranho a todos a falta daquele baixinho com cara de enfezado, mas que abria um imenso sorriso a qualquer sinal de carinho ou humor.

Estranhamente, Seu Zé, na Escola de Teatro, será uma das poucas coisas a que não poderemos chamar de efêmeras.


GVT.

terça-feira, março 30, 2010

Arquitetura da destruição

Um governo assume o poder. Como meta principal, motivar as massas através da cultura. Recriminando a arte que vinha sendo feita, taxando-a de degenerada, esse governo busca em culturas passadas, nas raízes da raça preponderante no país, a força e o incentivo para fortalecer seu povo. Uma aparente uniformização retira os méritos individuais e a massa passa a ser privilegiada, e aqueles que se adequam ao novo padrão, unidos no resgate das raízes culturais e tradições, são parte fundamental da estratégia política vigente.

Não. Não estou falando de nenhum governo recente da América Latina, Brasil ou Bahia. Estou falando do Nazismo, que chegou ao poder através da condução de Hitler ao cargo de chanceler da Alemanha em 1933.

Assisti, recentemente, ao filme Arquitetura da destruição, de Peter Cohen, narrado pelo grande ator Bruno Ganz; que mais tarde faria o papel de Hitler no filme A queda, que teve relativo êxito no cenário mundial recente.

O filme Arquitetura da destruição tem um mérito especial na “construção” de Hitler enquanto arquiteto de uma idéia louca e maligna, uma das maiores chagas da história da humanidade.

Vemos, no documentário, como a ópera Rienzi, de Wagner, mexeu com seus brios nacionalistas e suas idéias de democracia e estado, e como depois as idéias antissemitas e a exaltação da cultura nórdica das obras do compositor de Tristão e Isolda formataram o pensamento de Hitler.

Percebemos como sua frustração como arquiteto e artista plástico fez ele se vingar dos grandes artistas do passado recente. Bem como nos faz entender melhor seu ódio aos judeus, sua fúria e loucura em dominar o mundo e, de forma sutil, como seu discurso nacionalista, totalitarista, foi usado de forma sedutora pra convencer uma população traumatizada pela derrota da Primeira Guerra Mundial e as sanções estrangeiras, a inflação galopante, etc.

Arquitetura da destruição deveria ser um filme obrigatório para entendermos o século XX e, principalmente, o século XXI. Estamos num momento onde a burrice impera e os preguiçosos intelectuais preferem se agarrar aos modismos e agrupamentos sociais do que dialogar com a tradição, o passado e a história. E isso é nefasto. Só olhando nosso passado podemos compreender nosso futuro.

A América Latina, o Brasil e a Bahia estão passando por um momento onde semelhanças preocupantes com os movimentos totalitaristas do início século passado deveriam nos deixar atentos. Nosso politicamente correto e nosso medo em falar das “minorias” nos obnubila o pensamento quanto ao fato de que o resgate que o Nazismo pretendia fazer da cultura nórdica como legítima e autêntica de seu povo pode se assemelhar ao histerismo dos resgates culturais ligados às raízes da América Latina, do Brasil e da Bahia.

Pode-se perceber conglomerados se locupletando de movimentos sociais e étnicos, grupos defendendo idéias quando no fundo querem se aproveitar do momento histórico, bandeiras que são desfraldadas para conquistar cargos públicos, ganhar dinheiro do estado e sensibilizar a opinião pública, vendida ao sistema, também.

O filme Arquitetura da destruição mostra como através da cultura se pode dominar, lobotomizar e conduzir um povo ao seu fracasso, a uma falsa auto-estima que no fundo disfarça uma estratégia de dominação e poder.

Nunca a cultura esteve tão em foco como agora, ao menos no Brasil e na Bahia. O que poderia ser bom pode ser perigoso e danoso para a sociedade. Assistam Arquitetura da destruição e tentem enxergar paralelos com a atualidade. E se não enxergarem, por favor, me digam. Será um peso do tamanho do mundo que vocês tirarão das minhas costas, Sísifo que sou de idéias marginais.




GVT.

segunda-feira, março 29, 2010

Pensamento do dia


Seguindo uma dica do meu querido amigo Gil, o pensamento do dia:

"Curioso como a disciplina tenha sido banida de grande parte das artes cênicas, mas não das artes marciais. Nestas, aliás, a disciplina é o coração do sucesso (Não, não do sucesso na carreira! Do sucesso do golpe...). A firmeza necessária advém de práticas diárias de técnicas básicas. E a disciplina não é apenas física, mas de controle da mente. E, com o treino rigoroso, a psique inteira muda. Quem faz esporte de alto rendimento sabe."

sábado, março 20, 2010

Elogio dos clássicos


Jorge Luis Borges, num dos ápices da poesia ocidental, escreveu um poema falando sobre sua velhice e sua perda da visão. O poema, chamado Elogio da sombra, se tornou um clássico justamente pela sua universalidade, atemporalidade e fuga aos modismos.

Borges chegou a ser condenado por seus pares por não estar fazendo arte panfletária, por não se posicionar politicamente de forma explícita, mal sabendo seus pares que a sua política era mais profunda, buscava, como queria Nietzsche, a superação mais íntima, do homem consigo mesmo. A antipolítica, pensando no sentido etimológico do termo, que o liga à polis = cidade. Bastemos lembrar que todas as tentativas sistemáticas e necessariamente pragmáticas de se mudar as massas gerou nazismos, fascismos, stalinismos. E basta lembrar também que ninguém se lembra dos pares de Borges, que tanto o criticaram. A lógica do panfleto – quem nunca os recebe durante o dia pelas ruas – é ser raso, descartável e de impacto imediato e vôo curto.

Num trecho do poema, pensando sua cegueira – e há nas suas poucas palavras muito mais força que na imensa obra de Saramago sobre o tema – ele diz:

não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.

Assisti, recentemente e por DVD, A sagração da primavera, de Pina Bausch. Perto do horário do almoço, em meio à confusão e barulho do meu bairro, e a obra teve sobre mim o mesmo impacto do momento em que pude ter uma das minhas maiores experiências artísticas. Pude assistir a companhia de Pina Bausch, em São Paulo, dançando esta coreografia e Café Muller, talvez suas principais e mais conhecidas obras.

 Pina Bausch trabalhou com uma obra já clássica de Stravinsky, e que já havia sido coreografada, mudando os rumos da música e da dança. Mas ela comprou o desafio, como tantos outros coreógrafos, e fez uma obra singular e genial.

O aperto no peito, os olhos mareados e a dificuldade de respiração que sinto nos momentos de êxtase pôde acontecer de novo. Quando eu nasci, terceiro na prole de meu pai, ele pegou um papel e escreveu: “de novo a emoção única”.

Assim são os clássicos. Toda vez que passo pela prateleira e olho Memórias póstumas de Brás Cubas tenho vontade de ler a obra de novo. Quando vejo meus filmes de Tarkovsky no quarto, ou os quartetos de Borodin, Shostakovich, bem como discos de Gilberto Gil, Keith Jarret, sempre fico pensando em quanto tempo perco na vida sem lê-los, ouvi-los e repetidamente transformá-los dentro de mim, o que em si é uma transformação minha, também.

Vivemos um período onde os clássicos são sinônimos de velhos, e a busca pelo novo é de uma ingenuidade e ignorância tão grande que me assusta. Pra se fazer o diferente (não existe nada de novo depois dos gregos) é preciso conhecer o que foi feito. A arte se tornou, ao longo dos séculos, autorreferencial e criada a partir de glosas, citações e respostas aos clássicos.

Poucos criadores, hoje em dia, parecem se interessar em um diálogo produtivo e inteligente com o passado. As pessoas perderem as referências com a história e com os clássicos, e vivemos perdidos num entulhamento de informações tendencioso, falsos ídolos e gênios de segundo caderno.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.

Borges sabia das coisas. Conheceu Joseph K., Xerazade, Raskólnikov, e assim se tornou Borges.

Vou tentar, de novo e sempre, ler Borges, ver Pina Bausch, escutar Pixinguinha. Sou um artista em formação – e quase desistindo de sua arte – que tenta se solidificar mesmo que puxem meus pés pra baixo a todo momento. Mas ninguém tirará de mim a liberdade de escolher os caminhos mais difíceis, contudo mais luminosos.

É um caminho longo. E, com certeza, não tão breve saberei quem sou


GVT.

sexta-feira, março 12, 2010

A arte sobreviverá


A arte sobreviverá.

Mesmo que as pessoas prefiram assistir a programas que mostrem pessoas bonitas, burras e numa vida rica, sem fazer nada de interessante; desejo recôndito de quem assiste a esses tipos de programa.

A arte sobreviverá.

Mesmo que as políticas culturais favoreçam a comiseração, o assistencialismo, e que o rudimentar e amador seja visto como o mais importante e interessante, ignorando a excelência artística, a busca pelo conhecimento e o apuro técnico.

A arte sobreviverá.

Mesmo que matem o cartunista Glauco, mesmo que Johnny Alf tenha morrido no anonimato, mesmo que o dramaturgo Mário Bortolotto tenha aparecido na grande mídia somente porque foi baleado e sobreviveu.

A arte sobreviverá.

Mesmo que grandes artistas sejam boicotados pela grande mídia, sejam negligenciados pelo grande público, sejam alijados de editais, patrocínios e festivais.

A arte sobreviverá.

Mesmo que a todo momento eu tenha vontade de largar tudo, parar de fazer teatro, ir embora da minha cidade, romper relações com minha classe artística, e mesmo porque o sentimento que me acomete é apenas uma repetição do que ao longo dos anos sempre aconteceu com determinados artistas; que sentem o mesmo, e se auto-exilam de sua cidade, de seu país, ou até mesmo de sua arte.

Mas a arte sobreviverá. E viverá nas canções de Johnny Alf, nas tirinhas de Glauco, e na criação daqueles que, marginais ao sistema, insistem em fazer arte onde os outros só vêem morte.

Só não sei se eu sobreviverei a isso tudo...

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Das weisse Band – uma outra arte

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Michael Haneke faz parte de uma trindade de cineastas que me instigam, estimulam e me convencem na estranha tarefa de fazer a “outra arte”. Juntamente com Emir Kusturica e Alexander Sokurov, Haneke não busca dar respostas, pelo contrário, o mundo pra ele é tão complexo e instável, tão maravilhoso e terrível, que ele parece não ter o domínio sobre a natureza das coisas. Assim é a violência gratuita de seu Funny games, a perversão de La pianiste e a paranóia de Cache. Não necessariamente nessa ordem e nessa divisão exata pra cada filme.

A arte que eu acredito, e que não é nem a única, nem a melhor, nem a verdadeira, mas é uma forma de arte, não encontra muitos ecos hoje em dia. Tanto no cinema, quanto no teatro ou nas formas de arte que possuam alguma dramaturgia, percebe-se uma clara preferência por roteiros mirabolantes, assuntos da moda, defesa das minorias, cores fortes e melodramas; além do riso fácil, é claro.

Haneke trata de uma pequena vila alemã à beira da Primeira Guerra Mundial. O diretor expõe o preconceito, a violência, a maldade, a perda da inocência e a perversão humana de forma fria, crua, na medida certa entre o incômodo e o distanciamento.

Talvez seja esta a pedra de toque do seu trabalho. Ele incomoda, machuca, mas nos afasta, de uma perspectiva propositalmente histórica, para percebermos o germe da maldade numa simples vila do interior da Alemanha.

O filme A fita branca é um filme alemão que é cruel com os alemães, mas sem poupar ninguém. Ao invés de colocar soldados nazistas com cara de mau torturando judeus, a opção de mostrar pessoas comuns, crianças e adultos perversos agride todo e qualquer alemão; todo e qualquer ser humano.

O que falta ao homem é a oportunidade de fazer o mal. Existindo essa possibilidade, são poucos os que se afastam dela. Abuso de poder, abuso sexual, abuso religioso, todos nós estamos propensos a atravessar essa fronteira obscura que nos leva ao encontro de nossos piores monstros. E talvez seja o que menos queremos ver.

Assistir aos americanos derrotando os malvados nazistas, assistir Kevin Costner defendendo os pobres índios, assistir aos smurfs gigantes de Avatar lutando contra a ganância de empresas que querem acabar com a natureza nos é reconfortante. O inferno são os outros, condenamos as brutalidades como se os alemães nazistas não fossem tão humanos quanto nossos pais; como se os estadunidenses que dizimaram os índios não fossem tão humanos quanto os africanos que vieram em navios negreiros. A maldade não é inerente apenas a um capacete, a um forte apache, a uma indústria poluidora; ela é inerente a boa parte – ou a toda a humanidade.

A primeira coisa que uma criança pequena faz ao ver uma planta ou o rabo de um cachorro é tentar arrancá-lo. Se isso é uma maldade inerente, eu não sei. Mas tanto seu filho quando os do seu vizinho fazem isso. Assim como as crianças do filme de Haneke.

Há esperança? O Título Das weisse band (A fita branca), se refere a uma fita que um pai, pastor protestante no filme, amarra em seus filhos para que eles não esqueçam a inocência, a pureza, a ingenuidade. Características que vemos de forma agressivamente sensível em seu filho mais novo; um menino apaixonado por animais, com olhos puros e um sorriso inocente. Como não conspurcar, imacular essa bondade? Essas respostas têm que acontecer depois que a tela se apaga. Em cada um de nós.

Bergman. Tarkovski. Vemos um pouco de vários cineastas que redimensionaram o cinema na película A fita branca. Cineastas que fizeram uma outra arte, uma arte que já não interessa muito porque o mundo já não se interessa pela arte. Ao menos não se interessa mais por essa manifestação sensível, delicada, que necessita leitura, apreensão e percepção; e nosso mundo de hoje não lê mais.

Como aprendiz desses feiticeiros, escolhi tentar fazer esse outro tipo de arte. A arte que eu acredito. E já não interessa. E aí?

Alguém me arranja um emprego na TV?


GVT.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Gerônimo e a cor da Baía

Salvador não é negra. Nem branca. Salvador é baiana.

Assim foi confirmado quando as luzes da platéia se apagaram e os refletores iluminaram Gerônimo.

Dia 07/02, às 11hs, começava mais uma edição do projeto Domingo no TCA, iniciativa do Teatro Castro Alves de oferecer, ao público baiano, boas apresentações a R$1,00, sempre aos domingos, de forma intermitente.

Como não podia deixar de ser em nossa “terra de índio”, a apresentação começou – e vez por outra continuou – com problemas no som. Mas a imagem do imenso Pajé que Gerônimo se tornou deixou pra trás as falhas e cantou as folhas. Nas cantigas louvando orixás, os trabalhos estavam abertos.

Foi também a gravação do primeiro DVD da carreira de Gerônimo, tardíssimo e merecidíssimo. Grande intérprete dos sons da Bahia, ele compôs ao lado de Vevé Calazans a música que Dorival Caymmi, que entendia um pouquinho de música, dizia ser o hino da Bahia; É d’Oxum. Uma canção que, se vivêssemos num lugar onde se respeitasse os criadores, teria dado aos dois parceiros uma tranqüilidade financeira que, nem de longe, grandes criadores do Brasil conseguem ter (muito menos eles).

Assim como o louvável convite do TCA, feito a Gerônimo, o IRDEB, no nome de Pola Ribeiro, pôde proporcionar essa alegria a Gerônimo, eterno marginal do mercado pernicioso e selvagem da música baiana – por culpa de vários lados que não vêm ao caso agora... E uma grande alegria àquele público que acompanhou o espetáculo aplaudindo e demonstrando o quão grande estrela Gerônimo poderia ser, no nosso cenário atual.

Espero que essa iniciativa do TCA e do IRDEB não vire depois edital, pois está acima de qualquer disputa privilegiar um grande artista com a oportunidade de realizar um trabalho da qualidade do que foi apresentado ali. Edital pra gravação de DVD, edital pra Domingo no TCA, tudo agora está virando edital...

Na apresentação, dirigida por Bené Fonteles, tudo estava no lugar. Bira Marques saiu do piano pra apresentar sua Orquestra Afro-brasileira (bastava chamar-se Orquestra Baiana), a única canja do espetáculo que, subindo do fosso, mostrou boas idéias a serem amadurecidas e maturadas; mistura de música de concerto com música de rua e de terreiro.

O figurino e o cenário de Zuarte Jr também foram muito felizes. Fiquei logo entusiasmado ao ver que não havia referências àquelas cores que sempre nos remetem à África, nesta chatice atual de matriz, raiz, contrariando o que Darcy Ribeiro tão bem falou. Somos um povo brasileiro. Uma mistura que se amalgamou em características próprias, miscigenação de várias culturas que foram modificadas, melhoradas, deturpadas, e, ao fim, reinventadas. Precisamos louvar nossa identidade, forjada em dores e amores, mistura de credos e cores.

A apresentação de Gerônimo foi emocionante em vários momentos. Nem ele mesmo se agüentou, ao final, com a voz embargada pela sensação de ver 1.500 pessoas que, ao invés de pedirem bis, “mais um”, ou algo que o valha, chamaram Gerônimo de volta ao som de “Já é carnaval, cidade, acorda pra ver”, versos de uma de suas mais famosas canções.

Ver aquele artista de raça indefinida – ainda mais depois que o conceito de raça foi por terra – cantar “Eu sou negão”, na atual conjuntura sócio-política, naquelas cores de mar que Zuarte colocou no palco, me fez concluir, ou confirmar:

Salvador não é negra. Nem branca. Salvador é azul, da cor da Bahia de Todos os Santos.


GVT.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Muito dinheiro no bolso na terra de São Selvador


O Ministério da Cultura terá o maior orçamento de sua história. R$2,2 bilhões de reais para investir num de nossos maiores patrimônios que é a inventividade de nosso povo e a qualidade de nossa arte.

Há tempos o Ministério da Cultura tem se voltado a políticas de reparação, de acessibilidade, investindo em ações populistas/populares, deixando praticamente a cargo da FUNARTE a administração, criação de políticas e incentivo às artes pelo Brasil afora.

Penso que “Gilberto Gil fez o Ministério da Cultura existir”, como disse o saudoso Augusto Boal, e também um ex-ministro da cultura, em discurso no Minc. Várias ações importantes foram realizadas, mas o, ou um dos calcanhares de Aquiles de sua administração foi a FUNARTE, que ia por um caminho com Antonio Grassi, escorregou por outro equívoco com Celso Frateschi, e não disse pra que veio com Sérgio Mamberti. 

É até curioso que os três tenham ligação direta com minha maior área de atuação (ou ex-área de atuação, se continuar do jeito que está), que é o teatro. E nada de proveitoso, realmente, aconteceu. Editais – que não são política pública, erro que a Secult-BA comete, também – ineficazes e modificados ano a ano, falta de uma ação direta que possibilitasse uma verticalização de ações que conectassem o Brasil e difundissem obras, dramaturgias, profissionais. Enfim, a primeira reação, que seria de entusiasmo, não pôde ser sentida por mim, atento e desconfiado que sou, da útil e efetiva aplicação dessa verba em ações importantes.

*          *          *

Neste mesmo passo, de entusiasmo frustrado, estou com as notícias que leio sobre as reformas urbanísticas em Salvador.

Minha cidade é uma das mais feias que conheço. Crescimento desordenado, falta de uma idéia de conjunto, de aproveitamento geográfico, burrice, usura, tudo lastimavelmente contornado por possibilidades de uma bela cidade. Basta procurar que achamos lugares onde podemos respirar, admirar belos prédios, mas somos a cidade que derrubou a Igreja da Sé pra passar uma linha de bonde, pra não falar em belos teatros que derrubamos, abandonamos, etc.

Foi anunciado um “pacote” de modernização da cidade, atrasado em mais de 40 anos, quando um último projeto urbanístico foi feito pra uma cidade de 700 mil habitantes, contra os 3 milhões que nos colocam como terceira capital em termos populacionais do país (em termos civilizatórios e urbanos devemos estar em penúltimo ou na rabeira).

Há idéias boas, anunciadas pelo atual prefeito, mas que geram em mim desconfianças mis.

Em primeiro lugar, este é um prefeito que vem dando as costas à cultura de forma violenta, lavando as mãos em relação ao município e deixando os artistas locais à mercê da equivocada política estadual, nosso único e indevido amparo para apoio e incentivo às artes; e num governo sindicalista do PT! Imaginem que valor eles dão à arte enquanto arte, sem contrapartida, esmola, populismo, etc.

Em segundo lugar, os horríveis postes azuis que poluem a cidade, as reformas oportunistas e algumas escolhas estéticas da atual prefeitura me deixam receoso do que realmente acontecerá com as reformas futuras, a despeito de grandes profissionais, como Ivan Smarcevski (soube que Lelé está nessa, também), que estão à frente do projeto urbanístico de parte da idéia.

Em último e mais preocupante lugar, fico me tremendo todo só de imaginar o quanto os vagabundos de empreiteiras, do judiciário, do executivo e do legislativo vão se locupletar com essas obras.

Uma das maiores vergonhas que sinto em ser baiano é o caso de nosso metrô, que foi reduzido pela metade, de um projeto já nanico, e gastou muitas vezes mais do que era pretendido no orçamento inicial pra depois se fazer bem menos.

Quem manda nessa cidade são ladrões, vagabundos, pessoas que enchem o rabo de dinheiro enquanto nós, babacas, ficamos aqui torcendo por melhorias e revoluções. 99% dos que estão à frente das grandes empresas baianas são pessoas interesseiras, incultas, ignorantes e inescrupulosas. Isso está mais do que claro. Se muita gente enriqueceu na maior piada urbana que foi o metrô de Salvador, imaginem como será com o plano urbanístico da cidade. O que foi planejado pra cinco será feito em quinze, com orçamento final cem vezes maior, com um monte de gente ficando rica, a cidade ficando um caos, pra, ao fim e ao cabo, o projeto ser terminado num momento onde a cidade – já tendo exaurido todos os recursos possíveis da união, da iniciativa privada e do governo estadual e municipal – esteja precisando de uma nova reforma em seu planejamento urbano.

Esse é o governo que aprovou o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano na calada da noite, com vereadores brigando, pra atender a uma elite que quer levantar arranha-céus, destruir o pouco que resta de mata atlântica, botar sombra na praia porque essa elite é predadora e o interesse imobiliário e o bolso de poucos interessa mais do que uma cidade aprazível pra muitos.

Predadora porque usa a cidade pra roubar, pra levar vantagem, e vai gastar seu dinheiro longe daqui. A elite de Salvador não faz o dinheiro circular, não faz programas culturais diversificados, são antas intelectuais que compram carros caríssimos, coberturas, e cagam pra cidade. E os políticos estão a serviço deles, o que no fundo significa deles mesmos, é algo endógeno do qual nós, idiotas, não fazemos parte.

*          *          *

É isso. Nem eu me agüento mais com tanto pessimismo e desespero. Mas não consigo enxergar nada diferente do que está dito acima.

Adoro Salvador. Mas estou precisando talvez dar um tempo, um longo tempo, dela. Alguém quer me adotar?

2010 talvez seja uma repetição de 2007, primeiro ano do governo Wagner, único ano, depois que me tornei profissional, onde não consegui estrear nada. Vou começar e terminar minha relação com esse governo frustrado, sem criar, sem fazer o que, mal e porcamente, sei fazer de menos ruim.

Mas têm aqueles que estão comprando apartamentos bons. Têm aqueles que vão ficar ricos com reformas e projetos na cidade. Têm aqueles que passam por cima de tudo pra beneficiar amigos e perseguir inimigos, repetindo a sanha carlista de coronelismo e fascismo.

E sabe o que eles têm mais?

Têm mais é que se f...