domingo, maio 09, 2010

"Selvador", civilização em ruínas?


No caminho para as duas últimas apresentações d’Os Javalis, em Camaçari, deparei-me com uma grande construção à esquerda da pista, saindo da Avenida Paralela. Ao perguntar o que seria aquilo, a resposta – quase que natural e óbvia das pessoas – foi que ali seria o Norte Shopping, ou algo que o valha.

Como já disse tantas vezes, Salvador é uma cidade boa pra tomar cachaça e beijar na boca. A referência explícita à idéia de um balneário, de um lugar de diversão e festa, se alia aos grandes programas do soteropolitano nos finais de semana. Se não se está na praia, se está no xópim. Ou numa daquelas festas adolescentes que os marmanjos retardados culturais passam a vida freqüentando.

O Teatro Maria Bethania fechou, virou bingo. O Iemanjá serve mais a colégios e formaturas. O Espaço Xisto Bahia está em reforma há tempos, bem como o Solar Boa Vista (ambos do Estado), onde fui ensaiar Os Javalis e, após reforma anunciada pelo Governo, as goteiras ainda caíam no palco; uma lástima.

Se formos falar da prefeitura da cidade, vira piada. Não temos um teatro municipal, o único espaço de apresentações, o Teatro Gregório de Mattos, está fechado e não vemos nenhum movimento para que a prefeitura da cidade tenha uma relação obrigatória e automática com a cultura da cidade. Passe-se em branco e fica-se por isso mesmo.

Agora, em meio à reforma do Teatro ACBEU, recebemos a notícia que o Teatro Jorge Amado vai fechar. Um teatro particular, que, diferente de alguns outras da cidade, não recebia mesada do governo e vivia das pautas, caras e sempre cheias, advindas de um processo quase que natural de peças com caráter extremamente comercial, possibilidade plausível de se tentar sustentar os custos da casa.

Mas não deu. O espaço será leiloado, possivelmente, por não ter conseguido cumprir um empréstimo feito ao Desenbahia. Ficaremos sem mais um teatro na cidade, não sabemos por quanto tempo, isso aventando a possibilidade mínima de que quem compre resolver reabri-lo; o mais fácil é virar um prédio de negócios na árida Pituba burguesa.

É engano achar que uma cidade como Salvador chegará algum dia ao status de metrópole civilizada culturalmente de forma natural e espontânea. Vivemos numa terra onde nossa cultura que é exaltada pela TV, pelos folclores sobre nosso povo, está vinculada a mijar na rua, a falar alto e ser esculhambado, a requebrar, a tomar todas, a pegar mulher, a se embriagar na praia ou nos ensaios de pagode e música de carnaval, vivemos uma cultura rasteira e folclórica que, ao invés de ser dosada com antídotos de sofisticação, simplesmente fica sendo exaltada como identidade.

É sempre bom lembrar que a iniciativa de Edgar Santos, de tornar Salvador um centro de excelência e vanguarda do mundo, na década de 50, foi combatida por jornais, pelos estudantes da Universidade Federal da Bahia em passeatas, enfim, uma política cultural efetiva tem que ser estruturada, organizada e imposta. A criança sempre preferirá o chocolate à sopa; o povo sempre preferirá o raso ao profundo.

Ambos podem coexistir, e ambos se alimentam. Não existe fundo sem raso, nem raso sem fundo. São complementos do universo. Pra que exista o belo, precisamos da referência do feio. Pra que exista o leve, precisamos conhecer o pesado. Com uma referência só, a cabeça entra num estado letárgico de aceitação e preguiça; e é isso que vemos na cultura soteropolitana.

É preciso lutar pra que a Prefeitura de Salvador tome vergonha na cara. É preciso lutar pra que o Governo do Estado olhe mais pela outra arte, aquela que não flui naturalmente pelas praças e becos da cidade. É preciso que a iniciativa privada, que enche os bolsos de dinheiro, entenda seu papel social de fomentar um desenvolvimento da sociedade, e não se preocupe apenas em vender suas marcas em camarotes de carnaval e eventos popularescos, no famoso capitalismo selvagem que não percebe que noutros centros a economia da cultura é uma realidade que permite investimento em orquestras, companhias de dança, galerias de arte particulares, teatros e espaços culturais.

Mas por enquanto, o que temos é a construção de novos xópins e o fechamento de velhos teatros. "O teatro é um avançado meio de civilização, mas não progride onde não a há", dizia Almeida Garret.

E regride onde a civilização é trocada pela barbárie. 


GVT.

quarta-feira, abril 28, 2010

Itabuna, Camacan, e a cidade que não mora mais em mim...

O desejo deveria sempre mover o homem.


Em nossa sociedade, o desejo foi substituído pelo interesse, pela ganância, pela usura, pelo consumismo. Os homens agem não pelos seus desejos, mas porque devem satisfação aos seus pares, porque devem seguir determinado padrão, casar com determinada pessoa, ver tal filme, vestir-se de tal jeito, comportar-se de tal maneira.

Mesmo quem nega padrões, acaba por seguir outros, movido não pelo desejo, mas pela vontade de negar o sistema. Nossa sociedade não é, definitivamente, movida pelo desejo.

Viajei semana passada pro interior da Bahia, para as cidades de Itabuna e Camacan, onde o Teatro NU apresentou o espetáculo Os Javalis. E pude ver, na experiência toda cheia de desejos, o quanto estamos afastados da nossa essência e verdade.

Havia, ali, um desejo mútuo de Carlos Betão e de Itabuna, ele voltando à cidade, a cidade sem vê-lo há 20 anos; terra onde ele começou a fazer teatro. E era um desejo puro, simples, sem grandes holofotes, interesses, trocas de favores.

Havia, naquele povo que foi ao teatro, em Itabuna, uma vontade de ver arte. Sem estrelas, sem a grande mídia empurrando goela abaixo algum produto. Era um desejo advindo da carência da cidade em relação à arte. Um Centro de Cultura caindo aos pedaços, com teto desabando, um equipamento de som e luz que foi comprado há três anos e que até agora não foi instalado por nada mais do que incompetência pública. Equipamento que está se deteriorando, tecnologia ultrapassada, como tantas outras coisas nesse estado que sempre era pra ter sido e não foi (será algum dia?).

O riso simples, fácil, os aplausos calorosos, a pureza de espectadores que foram ali acompanhar uma história e se divertiram com um texto aparentemente cheio de filosofias e “discussões complexas”; pura bobagem, pois a verdadeira arte comunica e ali se estabeleceu uma comunicação verdadeira, sincera e efetiva; para além de afetiva.

Dois dias de casa lotada e a certeza cada dia maior de que Os Javalis ainda tem muito a dar, precisa correr este interior, o Brasil, (só) existe vida inteligente fora de Salvador.

Nunca subestimei ninguém. Em minha curta vida de professor, sempre procurei tratar todos como iguais e sempre acreditei na capacidade e inteligência de todos; esquecendo, claro, da preguiça de pensar que nos acomete hoje em dia. Mas, apesar de não subestimar ninguém, fiquei surpreso ao ver mais de 120 pessoas no Centro de Cultura de Camacan curtindo Os Javalis. Desde crianças até pessoas mais velhas, pude ver nos olhos e nos depoimentos ao vivo ou por escrito o quanto a peça havia mexido com as pessoas, levado a reflexões, a idéias “avançadas” sobre o homem e a sociedade.

Tudo isso aconteceu por causa do desejo daquelas pessoas. Muitas vezes ignoramos, menosprezamos e deixamos de lado coisas importantes pelo excesso que temos, pela arrogância, preguiça e comodidade. Mas numa cidade do interior do interior, onde as pessoas são totalmente carentes de arte e cultura diversificada – através do próprio depoimento delas notava-se isso – o desejo de ver algo diferente, que as tocasse de outra forma, por outro viés, fez com que, na pureza do desejo, a peça acontecesse e vibrasse dentro delas.

Desejo voltar com a peça. Circular pelo interior com a peça Os Javalis. Pude me sentir artista, pude comunicar, provocar, mexer com aquelas pessoas. As pessoas na minha cidade estão duras, perdidas, soltas num lugar que não deixou de ser interior, mas ainda não chegou a ser uma metrópole. Calça de veludo com rego de fora.

Enquanto Salvador ignora sua arte, o interior, carente e cheio de desejo abraça Os Javalis. Chego a pensar se aquele verso de Chico Buarque “a cidade não mora mais em mim” se aplica ao artista que sou.

Enquanto quase toda a equipe se dedicava a desmontar a estrutura que fizemos para a apresentação em Camacan, a sensação que eu tinha era de dever cumprido e de um vazio que começava a surgir.

Obrigado Itabuna e Camacan.


GVT.

domingo, abril 18, 2010

Dança contemporânea; o inferno pra fora dos bolsos...


Uma velha. Um careca barrigudo. Dois banquinhos surrados. Corpos que fogem à ditadura estética do bailarino clássico. Movimentos que fogem da pirueta, grand battement, tendus devant. Cenas mais conceituais do que dançadas, texto em cena, falado pelos dançantes. Música de Arvo Pärt misturada com salsa. Desconstrução do movimento.

Se eu lesse isso tudo, com certeza não teria ido assistir ao espetáculo El cielo en mi bolsillo, da Provisional Danza, de Madrid. Viria-me à cabeça as porcarias que tenho visto em cena, amparadas em modismos e conceitos, mas sem profundidade, verdade, propriedade e dança.

Os bailarinos Allejandro Morata, autor da coreografia, e Carmen Werner, diretora da companhia, fizeram um trabalho com sensibilidade e dignidade, sem qualquer preocupação em inovar e questionar, sem a preocupação de seguir linhas estéticas, muito menos em fazer performance, uma manifestação típica das décadas de 70 e 80 (já um pouco démodé), e que as pessoas por ignorância, burrice ou falta de capacidade artística insistem em empurrar nos palcos com a nomenclatura “dança contemporânea”.

Talvez o que mais eu sinta falta hoje em dia seja de uma poética da cena. Assim como tenho uma percepção de que as pessoas cada vez mais fogem da arte. Na dança, isso é claro. Só há duas explicações para as bobagens munidas de conceitos que vemos nos palcos de hoje em dia. Ou criou-se uma vergonha de se fazer arte, ou a falta de competência em criar um trabalho artístico, e sua decorrente execução, fez com que os trabalhos de dança ficassem na paródia, no conceitual, na desconstrução.

Todo grande artista desconstruiu a partir de uma base sólida. Hoje em dia, se desconstrói o que nem sequer tem capacidade de ser erguido. A arte confessional tirada de diários íntimos, com poesia de péssima qualidade, bem como criações que citam outras obras sem recriá-las, mas trazendo delas uma referência que se basta e não evolui em termos de criação, tudo isso tem sido a derrota da dança.  Pior é quando se parte pra gozação de arquétipos. Rebaixa-se a cena ao nível de um programa humorístico de terceira categoria. Gozar com os cânones é tão facilmente medíocre...

Allejandro Morata e Carmen Werner criam um trabalho dentro do limite de seus corpos. Mas corpos que têm história, que têm o que dizer, que têm dança. Talvez, o que aconteça hoje em dia é que não haja artistas que possam trazer uma técnica, uma história e uma poética para a cena. E por se saberem incapazes, criam – na ditadura da mediocridade – fórmulas performáticas que disfarçam a falta de uma poética no trabalho.

Confissões pessoais também podem ser matéria para a arte, mas a partir do momento em que essas confissões se transforma numa poética da cena. A arte é a transubstanciação da realidade. E é muita pretensão que alguns exponham sua vida no palco com uma música de fundo bonitinha, com objetos de cena delicados, com efeitos banais de luz e gestos, e digam que isso um trabalho artístico. Pior é trazer conceitos pra cena sem que isso se transforme em arte. Ou ficar a meio entre as linguagens para, na indefinição, disfarçar a falta de competência em assumir uma delas que seja pra se fazer bem-feito, dentro de uma criação sólida de uma obra artística.

El cielo en mi bolsillo não é uma obra-prima. Mas é arte num momento de desastre.

Ou desarte.



GVT.

sexta-feira, abril 09, 2010

Nosso Zé, um alguém

Acabo de saber do falecimento de "Seu Zé".

Seu Zé era uma pessoa estranha, diferente. Pesava sobre ele questões engraçadas e estranhas. Soube que ele era funcionário da Escola de Teatro da UFBA, foi realocado pra outro lugar, não quis ir e pediu demissão pra ficar na Escola.

Ele havia sido colega de Harildo Déda, mestre do teatro baiano, no colégio. Mas tomou um rumo na vida desconhecido, misterioso, mas no entanto bem simples. Resolveu viver o dia-a-dia de uma Escola de Teatro, onde ele conseguiu colegas que duravam três anos e meio, quatro anos, dez anos, e alguns que se foram antes dele, outros que ficaram pra contar história.

A figura do Zé-Ninguém aqui se torna paradoxal. Seu Zé poderia ter sido um Zé-Ninguém ou alguém mais que um Zé?

Ele assistia a todos os espetáculos da Escola de Teatro, emitia opiniões (às vezes comentava alto, durante, inconvenientemente), e era um quebra-galho pra tudo. Perguntava sempre pra gente sobre alguém, tecia comentários repentinos sobre assuntos dos mais diversos.

Não poderia ser oficializado como funcionário da Escola, pois não o era, mas soube recentemente que o câncer que o derrubou não foi suficiente, assim como o realocamento dele, pra que ele saísse de lá. Disse que queria morrer na ETUFBA, segundo eu soube; possivelmente não tinha muito pra onde ir.


Não sei se deixou filhos. Família. Não sei se deixou casa, não sei se deixou algum dinheiro - que não sei como conseguia - nem tampouco se deixou alguma história fora da Escola de Teatro.

Mas foi lá que ele deixou um vazio, inexplicável. Professores se aposentam, alunos de formam, funcionários são realocados, montagens são feitas e desmontadas a cada semestre. A Escola de Teatro, em tudo, representa o que de mais efêmero existe.

Seu Zé não. Sendo um Zé-Ninguém, sendo alguém, sendo todo mundo, personagem de uma farsa ou de uma tragicomédia, seu Zé conseguiu, por ser muito pouco, por querer muito pouco, mas estar sempre presente, ser uma figura que, não sei como, não sei porque, não sei aonde, fará uma imensa falta a todos que o conheceram. A partir de agora, ao entrarem naquela Escola de Teatro da UFBA, tenho certeza que será estranho a todos a falta daquele baixinho com cara de enfezado, mas que abria um imenso sorriso a qualquer sinal de carinho ou humor.

Estranhamente, Seu Zé, na Escola de Teatro, será uma das poucas coisas a que não poderemos chamar de efêmeras.


GVT.

terça-feira, março 30, 2010

Arquitetura da destruição

Um governo assume o poder. Como meta principal, motivar as massas através da cultura. Recriminando a arte que vinha sendo feita, taxando-a de degenerada, esse governo busca em culturas passadas, nas raízes da raça preponderante no país, a força e o incentivo para fortalecer seu povo. Uma aparente uniformização retira os méritos individuais e a massa passa a ser privilegiada, e aqueles que se adequam ao novo padrão, unidos no resgate das raízes culturais e tradições, são parte fundamental da estratégia política vigente.

Não. Não estou falando de nenhum governo recente da América Latina, Brasil ou Bahia. Estou falando do Nazismo, que chegou ao poder através da condução de Hitler ao cargo de chanceler da Alemanha em 1933.

Assisti, recentemente, ao filme Arquitetura da destruição, de Peter Cohen, narrado pelo grande ator Bruno Ganz; que mais tarde faria o papel de Hitler no filme A queda, que teve relativo êxito no cenário mundial recente.

O filme Arquitetura da destruição tem um mérito especial na “construção” de Hitler enquanto arquiteto de uma idéia louca e maligna, uma das maiores chagas da história da humanidade.

Vemos, no documentário, como a ópera Rienzi, de Wagner, mexeu com seus brios nacionalistas e suas idéias de democracia e estado, e como depois as idéias antissemitas e a exaltação da cultura nórdica das obras do compositor de Tristão e Isolda formataram o pensamento de Hitler.

Percebemos como sua frustração como arquiteto e artista plástico fez ele se vingar dos grandes artistas do passado recente. Bem como nos faz entender melhor seu ódio aos judeus, sua fúria e loucura em dominar o mundo e, de forma sutil, como seu discurso nacionalista, totalitarista, foi usado de forma sedutora pra convencer uma população traumatizada pela derrota da Primeira Guerra Mundial e as sanções estrangeiras, a inflação galopante, etc.

Arquitetura da destruição deveria ser um filme obrigatório para entendermos o século XX e, principalmente, o século XXI. Estamos num momento onde a burrice impera e os preguiçosos intelectuais preferem se agarrar aos modismos e agrupamentos sociais do que dialogar com a tradição, o passado e a história. E isso é nefasto. Só olhando nosso passado podemos compreender nosso futuro.

A América Latina, o Brasil e a Bahia estão passando por um momento onde semelhanças preocupantes com os movimentos totalitaristas do início século passado deveriam nos deixar atentos. Nosso politicamente correto e nosso medo em falar das “minorias” nos obnubila o pensamento quanto ao fato de que o resgate que o Nazismo pretendia fazer da cultura nórdica como legítima e autêntica de seu povo pode se assemelhar ao histerismo dos resgates culturais ligados às raízes da América Latina, do Brasil e da Bahia.

Pode-se perceber conglomerados se locupletando de movimentos sociais e étnicos, grupos defendendo idéias quando no fundo querem se aproveitar do momento histórico, bandeiras que são desfraldadas para conquistar cargos públicos, ganhar dinheiro do estado e sensibilizar a opinião pública, vendida ao sistema, também.

O filme Arquitetura da destruição mostra como através da cultura se pode dominar, lobotomizar e conduzir um povo ao seu fracasso, a uma falsa auto-estima que no fundo disfarça uma estratégia de dominação e poder.

Nunca a cultura esteve tão em foco como agora, ao menos no Brasil e na Bahia. O que poderia ser bom pode ser perigoso e danoso para a sociedade. Assistam Arquitetura da destruição e tentem enxergar paralelos com a atualidade. E se não enxergarem, por favor, me digam. Será um peso do tamanho do mundo que vocês tirarão das minhas costas, Sísifo que sou de idéias marginais.




GVT.

segunda-feira, março 29, 2010

Pensamento do dia


Seguindo uma dica do meu querido amigo Gil, o pensamento do dia:

"Curioso como a disciplina tenha sido banida de grande parte das artes cênicas, mas não das artes marciais. Nestas, aliás, a disciplina é o coração do sucesso (Não, não do sucesso na carreira! Do sucesso do golpe...). A firmeza necessária advém de práticas diárias de técnicas básicas. E a disciplina não é apenas física, mas de controle da mente. E, com o treino rigoroso, a psique inteira muda. Quem faz esporte de alto rendimento sabe."

sábado, março 20, 2010

Elogio dos clássicos


Jorge Luis Borges, num dos ápices da poesia ocidental, escreveu um poema falando sobre sua velhice e sua perda da visão. O poema, chamado Elogio da sombra, se tornou um clássico justamente pela sua universalidade, atemporalidade e fuga aos modismos.

Borges chegou a ser condenado por seus pares por não estar fazendo arte panfletária, por não se posicionar politicamente de forma explícita, mal sabendo seus pares que a sua política era mais profunda, buscava, como queria Nietzsche, a superação mais íntima, do homem consigo mesmo. A antipolítica, pensando no sentido etimológico do termo, que o liga à polis = cidade. Bastemos lembrar que todas as tentativas sistemáticas e necessariamente pragmáticas de se mudar as massas gerou nazismos, fascismos, stalinismos. E basta lembrar também que ninguém se lembra dos pares de Borges, que tanto o criticaram. A lógica do panfleto – quem nunca os recebe durante o dia pelas ruas – é ser raso, descartável e de impacto imediato e vôo curto.

Num trecho do poema, pensando sua cegueira – e há nas suas poucas palavras muito mais força que na imensa obra de Saramago sobre o tema – ele diz:

não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.

Assisti, recentemente e por DVD, A sagração da primavera, de Pina Bausch. Perto do horário do almoço, em meio à confusão e barulho do meu bairro, e a obra teve sobre mim o mesmo impacto do momento em que pude ter uma das minhas maiores experiências artísticas. Pude assistir a companhia de Pina Bausch, em São Paulo, dançando esta coreografia e Café Muller, talvez suas principais e mais conhecidas obras.

 Pina Bausch trabalhou com uma obra já clássica de Stravinsky, e que já havia sido coreografada, mudando os rumos da música e da dança. Mas ela comprou o desafio, como tantos outros coreógrafos, e fez uma obra singular e genial.

O aperto no peito, os olhos mareados e a dificuldade de respiração que sinto nos momentos de êxtase pôde acontecer de novo. Quando eu nasci, terceiro na prole de meu pai, ele pegou um papel e escreveu: “de novo a emoção única”.

Assim são os clássicos. Toda vez que passo pela prateleira e olho Memórias póstumas de Brás Cubas tenho vontade de ler a obra de novo. Quando vejo meus filmes de Tarkovsky no quarto, ou os quartetos de Borodin, Shostakovich, bem como discos de Gilberto Gil, Keith Jarret, sempre fico pensando em quanto tempo perco na vida sem lê-los, ouvi-los e repetidamente transformá-los dentro de mim, o que em si é uma transformação minha, também.

Vivemos um período onde os clássicos são sinônimos de velhos, e a busca pelo novo é de uma ingenuidade e ignorância tão grande que me assusta. Pra se fazer o diferente (não existe nada de novo depois dos gregos) é preciso conhecer o que foi feito. A arte se tornou, ao longo dos séculos, autorreferencial e criada a partir de glosas, citações e respostas aos clássicos.

Poucos criadores, hoje em dia, parecem se interessar em um diálogo produtivo e inteligente com o passado. As pessoas perderem as referências com a história e com os clássicos, e vivemos perdidos num entulhamento de informações tendencioso, falsos ídolos e gênios de segundo caderno.

Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.

Borges sabia das coisas. Conheceu Joseph K., Xerazade, Raskólnikov, e assim se tornou Borges.

Vou tentar, de novo e sempre, ler Borges, ver Pina Bausch, escutar Pixinguinha. Sou um artista em formação – e quase desistindo de sua arte – que tenta se solidificar mesmo que puxem meus pés pra baixo a todo momento. Mas ninguém tirará de mim a liberdade de escolher os caminhos mais difíceis, contudo mais luminosos.

É um caminho longo. E, com certeza, não tão breve saberei quem sou


GVT.

sexta-feira, março 12, 2010

A arte sobreviverá


A arte sobreviverá.

Mesmo que as pessoas prefiram assistir a programas que mostrem pessoas bonitas, burras e numa vida rica, sem fazer nada de interessante; desejo recôndito de quem assiste a esses tipos de programa.

A arte sobreviverá.

Mesmo que as políticas culturais favoreçam a comiseração, o assistencialismo, e que o rudimentar e amador seja visto como o mais importante e interessante, ignorando a excelência artística, a busca pelo conhecimento e o apuro técnico.

A arte sobreviverá.

Mesmo que matem o cartunista Glauco, mesmo que Johnny Alf tenha morrido no anonimato, mesmo que o dramaturgo Mário Bortolotto tenha aparecido na grande mídia somente porque foi baleado e sobreviveu.

A arte sobreviverá.

Mesmo que grandes artistas sejam boicotados pela grande mídia, sejam negligenciados pelo grande público, sejam alijados de editais, patrocínios e festivais.

A arte sobreviverá.

Mesmo que a todo momento eu tenha vontade de largar tudo, parar de fazer teatro, ir embora da minha cidade, romper relações com minha classe artística, e mesmo porque o sentimento que me acomete é apenas uma repetição do que ao longo dos anos sempre aconteceu com determinados artistas; que sentem o mesmo, e se auto-exilam de sua cidade, de seu país, ou até mesmo de sua arte.

Mas a arte sobreviverá. E viverá nas canções de Johnny Alf, nas tirinhas de Glauco, e na criação daqueles que, marginais ao sistema, insistem em fazer arte onde os outros só vêem morte.

Só não sei se eu sobreviverei a isso tudo...

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Das weisse Band – uma outra arte

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Michael Haneke faz parte de uma trindade de cineastas que me instigam, estimulam e me convencem na estranha tarefa de fazer a “outra arte”. Juntamente com Emir Kusturica e Alexander Sokurov, Haneke não busca dar respostas, pelo contrário, o mundo pra ele é tão complexo e instável, tão maravilhoso e terrível, que ele parece não ter o domínio sobre a natureza das coisas. Assim é a violência gratuita de seu Funny games, a perversão de La pianiste e a paranóia de Cache. Não necessariamente nessa ordem e nessa divisão exata pra cada filme.

A arte que eu acredito, e que não é nem a única, nem a melhor, nem a verdadeira, mas é uma forma de arte, não encontra muitos ecos hoje em dia. Tanto no cinema, quanto no teatro ou nas formas de arte que possuam alguma dramaturgia, percebe-se uma clara preferência por roteiros mirabolantes, assuntos da moda, defesa das minorias, cores fortes e melodramas; além do riso fácil, é claro.

Haneke trata de uma pequena vila alemã à beira da Primeira Guerra Mundial. O diretor expõe o preconceito, a violência, a maldade, a perda da inocência e a perversão humana de forma fria, crua, na medida certa entre o incômodo e o distanciamento.

Talvez seja esta a pedra de toque do seu trabalho. Ele incomoda, machuca, mas nos afasta, de uma perspectiva propositalmente histórica, para percebermos o germe da maldade numa simples vila do interior da Alemanha.

O filme A fita branca é um filme alemão que é cruel com os alemães, mas sem poupar ninguém. Ao invés de colocar soldados nazistas com cara de mau torturando judeus, a opção de mostrar pessoas comuns, crianças e adultos perversos agride todo e qualquer alemão; todo e qualquer ser humano.

O que falta ao homem é a oportunidade de fazer o mal. Existindo essa possibilidade, são poucos os que se afastam dela. Abuso de poder, abuso sexual, abuso religioso, todos nós estamos propensos a atravessar essa fronteira obscura que nos leva ao encontro de nossos piores monstros. E talvez seja o que menos queremos ver.

Assistir aos americanos derrotando os malvados nazistas, assistir Kevin Costner defendendo os pobres índios, assistir aos smurfs gigantes de Avatar lutando contra a ganância de empresas que querem acabar com a natureza nos é reconfortante. O inferno são os outros, condenamos as brutalidades como se os alemães nazistas não fossem tão humanos quanto nossos pais; como se os estadunidenses que dizimaram os índios não fossem tão humanos quanto os africanos que vieram em navios negreiros. A maldade não é inerente apenas a um capacete, a um forte apache, a uma indústria poluidora; ela é inerente a boa parte – ou a toda a humanidade.

A primeira coisa que uma criança pequena faz ao ver uma planta ou o rabo de um cachorro é tentar arrancá-lo. Se isso é uma maldade inerente, eu não sei. Mas tanto seu filho quando os do seu vizinho fazem isso. Assim como as crianças do filme de Haneke.

Há esperança? O Título Das weisse band (A fita branca), se refere a uma fita que um pai, pastor protestante no filme, amarra em seus filhos para que eles não esqueçam a inocência, a pureza, a ingenuidade. Características que vemos de forma agressivamente sensível em seu filho mais novo; um menino apaixonado por animais, com olhos puros e um sorriso inocente. Como não conspurcar, imacular essa bondade? Essas respostas têm que acontecer depois que a tela se apaga. Em cada um de nós.

Bergman. Tarkovski. Vemos um pouco de vários cineastas que redimensionaram o cinema na película A fita branca. Cineastas que fizeram uma outra arte, uma arte que já não interessa muito porque o mundo já não se interessa pela arte. Ao menos não se interessa mais por essa manifestação sensível, delicada, que necessita leitura, apreensão e percepção; e nosso mundo de hoje não lê mais.

Como aprendiz desses feiticeiros, escolhi tentar fazer esse outro tipo de arte. A arte que eu acredito. E já não interessa. E aí?

Alguém me arranja um emprego na TV?


GVT.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Gerônimo e a cor da Baía

Salvador não é negra. Nem branca. Salvador é baiana.

Assim foi confirmado quando as luzes da platéia se apagaram e os refletores iluminaram Gerônimo.

Dia 07/02, às 11hs, começava mais uma edição do projeto Domingo no TCA, iniciativa do Teatro Castro Alves de oferecer, ao público baiano, boas apresentações a R$1,00, sempre aos domingos, de forma intermitente.

Como não podia deixar de ser em nossa “terra de índio”, a apresentação começou – e vez por outra continuou – com problemas no som. Mas a imagem do imenso Pajé que Gerônimo se tornou deixou pra trás as falhas e cantou as folhas. Nas cantigas louvando orixás, os trabalhos estavam abertos.

Foi também a gravação do primeiro DVD da carreira de Gerônimo, tardíssimo e merecidíssimo. Grande intérprete dos sons da Bahia, ele compôs ao lado de Vevé Calazans a música que Dorival Caymmi, que entendia um pouquinho de música, dizia ser o hino da Bahia; É d’Oxum. Uma canção que, se vivêssemos num lugar onde se respeitasse os criadores, teria dado aos dois parceiros uma tranqüilidade financeira que, nem de longe, grandes criadores do Brasil conseguem ter (muito menos eles).

Assim como o louvável convite do TCA, feito a Gerônimo, o IRDEB, no nome de Pola Ribeiro, pôde proporcionar essa alegria a Gerônimo, eterno marginal do mercado pernicioso e selvagem da música baiana – por culpa de vários lados que não vêm ao caso agora... E uma grande alegria àquele público que acompanhou o espetáculo aplaudindo e demonstrando o quão grande estrela Gerônimo poderia ser, no nosso cenário atual.

Espero que essa iniciativa do TCA e do IRDEB não vire depois edital, pois está acima de qualquer disputa privilegiar um grande artista com a oportunidade de realizar um trabalho da qualidade do que foi apresentado ali. Edital pra gravação de DVD, edital pra Domingo no TCA, tudo agora está virando edital...

Na apresentação, dirigida por Bené Fonteles, tudo estava no lugar. Bira Marques saiu do piano pra apresentar sua Orquestra Afro-brasileira (bastava chamar-se Orquestra Baiana), a única canja do espetáculo que, subindo do fosso, mostrou boas idéias a serem amadurecidas e maturadas; mistura de música de concerto com música de rua e de terreiro.

O figurino e o cenário de Zuarte Jr também foram muito felizes. Fiquei logo entusiasmado ao ver que não havia referências àquelas cores que sempre nos remetem à África, nesta chatice atual de matriz, raiz, contrariando o que Darcy Ribeiro tão bem falou. Somos um povo brasileiro. Uma mistura que se amalgamou em características próprias, miscigenação de várias culturas que foram modificadas, melhoradas, deturpadas, e, ao fim, reinventadas. Precisamos louvar nossa identidade, forjada em dores e amores, mistura de credos e cores.

A apresentação de Gerônimo foi emocionante em vários momentos. Nem ele mesmo se agüentou, ao final, com a voz embargada pela sensação de ver 1.500 pessoas que, ao invés de pedirem bis, “mais um”, ou algo que o valha, chamaram Gerônimo de volta ao som de “Já é carnaval, cidade, acorda pra ver”, versos de uma de suas mais famosas canções.

Ver aquele artista de raça indefinida – ainda mais depois que o conceito de raça foi por terra – cantar “Eu sou negão”, na atual conjuntura sócio-política, naquelas cores de mar que Zuarte colocou no palco, me fez concluir, ou confirmar:

Salvador não é negra. Nem branca. Salvador é azul, da cor da Bahia de Todos os Santos.


GVT.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Muito dinheiro no bolso na terra de São Selvador


O Ministério da Cultura terá o maior orçamento de sua história. R$2,2 bilhões de reais para investir num de nossos maiores patrimônios que é a inventividade de nosso povo e a qualidade de nossa arte.

Há tempos o Ministério da Cultura tem se voltado a políticas de reparação, de acessibilidade, investindo em ações populistas/populares, deixando praticamente a cargo da FUNARTE a administração, criação de políticas e incentivo às artes pelo Brasil afora.

Penso que “Gilberto Gil fez o Ministério da Cultura existir”, como disse o saudoso Augusto Boal, e também um ex-ministro da cultura, em discurso no Minc. Várias ações importantes foram realizadas, mas o, ou um dos calcanhares de Aquiles de sua administração foi a FUNARTE, que ia por um caminho com Antonio Grassi, escorregou por outro equívoco com Celso Frateschi, e não disse pra que veio com Sérgio Mamberti. 

É até curioso que os três tenham ligação direta com minha maior área de atuação (ou ex-área de atuação, se continuar do jeito que está), que é o teatro. E nada de proveitoso, realmente, aconteceu. Editais – que não são política pública, erro que a Secult-BA comete, também – ineficazes e modificados ano a ano, falta de uma ação direta que possibilitasse uma verticalização de ações que conectassem o Brasil e difundissem obras, dramaturgias, profissionais. Enfim, a primeira reação, que seria de entusiasmo, não pôde ser sentida por mim, atento e desconfiado que sou, da útil e efetiva aplicação dessa verba em ações importantes.

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Neste mesmo passo, de entusiasmo frustrado, estou com as notícias que leio sobre as reformas urbanísticas em Salvador.

Minha cidade é uma das mais feias que conheço. Crescimento desordenado, falta de uma idéia de conjunto, de aproveitamento geográfico, burrice, usura, tudo lastimavelmente contornado por possibilidades de uma bela cidade. Basta procurar que achamos lugares onde podemos respirar, admirar belos prédios, mas somos a cidade que derrubou a Igreja da Sé pra passar uma linha de bonde, pra não falar em belos teatros que derrubamos, abandonamos, etc.

Foi anunciado um “pacote” de modernização da cidade, atrasado em mais de 40 anos, quando um último projeto urbanístico foi feito pra uma cidade de 700 mil habitantes, contra os 3 milhões que nos colocam como terceira capital em termos populacionais do país (em termos civilizatórios e urbanos devemos estar em penúltimo ou na rabeira).

Há idéias boas, anunciadas pelo atual prefeito, mas que geram em mim desconfianças mis.

Em primeiro lugar, este é um prefeito que vem dando as costas à cultura de forma violenta, lavando as mãos em relação ao município e deixando os artistas locais à mercê da equivocada política estadual, nosso único e indevido amparo para apoio e incentivo às artes; e num governo sindicalista do PT! Imaginem que valor eles dão à arte enquanto arte, sem contrapartida, esmola, populismo, etc.

Em segundo lugar, os horríveis postes azuis que poluem a cidade, as reformas oportunistas e algumas escolhas estéticas da atual prefeitura me deixam receoso do que realmente acontecerá com as reformas futuras, a despeito de grandes profissionais, como Ivan Smarcevski (soube que Lelé está nessa, também), que estão à frente do projeto urbanístico de parte da idéia.

Em último e mais preocupante lugar, fico me tremendo todo só de imaginar o quanto os vagabundos de empreiteiras, do judiciário, do executivo e do legislativo vão se locupletar com essas obras.

Uma das maiores vergonhas que sinto em ser baiano é o caso de nosso metrô, que foi reduzido pela metade, de um projeto já nanico, e gastou muitas vezes mais do que era pretendido no orçamento inicial pra depois se fazer bem menos.

Quem manda nessa cidade são ladrões, vagabundos, pessoas que enchem o rabo de dinheiro enquanto nós, babacas, ficamos aqui torcendo por melhorias e revoluções. 99% dos que estão à frente das grandes empresas baianas são pessoas interesseiras, incultas, ignorantes e inescrupulosas. Isso está mais do que claro. Se muita gente enriqueceu na maior piada urbana que foi o metrô de Salvador, imaginem como será com o plano urbanístico da cidade. O que foi planejado pra cinco será feito em quinze, com orçamento final cem vezes maior, com um monte de gente ficando rica, a cidade ficando um caos, pra, ao fim e ao cabo, o projeto ser terminado num momento onde a cidade – já tendo exaurido todos os recursos possíveis da união, da iniciativa privada e do governo estadual e municipal – esteja precisando de uma nova reforma em seu planejamento urbano.

Esse é o governo que aprovou o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano na calada da noite, com vereadores brigando, pra atender a uma elite que quer levantar arranha-céus, destruir o pouco que resta de mata atlântica, botar sombra na praia porque essa elite é predadora e o interesse imobiliário e o bolso de poucos interessa mais do que uma cidade aprazível pra muitos.

Predadora porque usa a cidade pra roubar, pra levar vantagem, e vai gastar seu dinheiro longe daqui. A elite de Salvador não faz o dinheiro circular, não faz programas culturais diversificados, são antas intelectuais que compram carros caríssimos, coberturas, e cagam pra cidade. E os políticos estão a serviço deles, o que no fundo significa deles mesmos, é algo endógeno do qual nós, idiotas, não fazemos parte.

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É isso. Nem eu me agüento mais com tanto pessimismo e desespero. Mas não consigo enxergar nada diferente do que está dito acima.

Adoro Salvador. Mas estou precisando talvez dar um tempo, um longo tempo, dela. Alguém quer me adotar?

2010 talvez seja uma repetição de 2007, primeiro ano do governo Wagner, único ano, depois que me tornei profissional, onde não consegui estrear nada. Vou começar e terminar minha relação com esse governo frustrado, sem criar, sem fazer o que, mal e porcamente, sei fazer de menos ruim.

Mas têm aqueles que estão comprando apartamentos bons. Têm aqueles que vão ficar ricos com reformas e projetos na cidade. Têm aqueles que passam por cima de tudo pra beneficiar amigos e perseguir inimigos, repetindo a sanha carlista de coronelismo e fascismo.

E sabe o que eles têm mais?

Têm mais é que se f...

segunda-feira, janeiro 25, 2010

O poeta faz setenta na cidade que cê tenta, cê tenta, cê tenta...

Hoje, dia 25 de janeiro de 2010, o poeta, escritor, compositor e dramaturgo Ildásio Tavares faz 70 anos de idade. Ildásio chega aos 70 anos tendo conquistado um reconhecimento internacional como poeta, e tendo participado de momentos significativos da música popular brasileira; além de ter sido libretista da única ópera negra e baiana a ser encenada e reencenada, Lídia de Oxum, viajando o Brasil através da música de Lindenbergue Cardoso, da batuta de Júlio Medaglia, e de vários profissionais baianos.

Recém publicado em Portugal, com o livro As flores do caos, Ildásio chega aos 70 anos com uma qualidade de poeta poucas vezes vista. Qualidade reconhecida em vários países, em outras cidades, mas à qual Salvador faz vista grossa. Dominando a arte do soneto e reinventando sua linguagem num jogo de palavras, coloquialidade e forma, o poeta conseguiu chegar a uma perfeição estrutural no que é mais difícil, o verso livre.

(Ao contrário do que muitos pensam e fazem, o verso livre é o mais difícil; e foi o surgimento dele o responsável por muita gente achar que exprimir sentimentos num papel – e disso também não escapam sonetos e redondilhas – é fazer poesia.)

Ildásio foi parceiro dos baianos que ficaram. Do grupo que rumou pra São Paulo – que faz aniversário hoje também, assim como Tom Jobim – e que formou a Tropicália, ficou em Salvador Alcyvando Luz, Djalma Correa, dentre outros, talentosos músicos com quem o poeta faz música, ganhou festival, e daí partiu pra parceria com a dupla Antonio Carlos & Jocafi. Com o primeiro, compôs Catendê, gravada por Vinícius, Toquinho e Maria Creuza, com os dois fez a trilha da novela Primeiro Amor, fez Hey Shazam, e depois veio Vevé Calazans, Gerônimo, com quem fez Salve as folhas, gravada e regravada por Bethânia e tema do novo filme de Pola Ribeiro, só pra citar alguns; apesar do pouco reconhecimento de sua obra como compositor.

Coisa que viria numa noite, no Bar Canoa, antigo Meridien de Salvador. Após assistir a um concerto de Baden Powell, os dois relembraram Vinícius, amigos, e Baden sacou o violão e falou; “tenho uma melodia aqui inédita”. Naquela mesma noite saia Canto de Yansã, uma das últimas músicas de Baden, recém gravada no disco Afro Samba Jazz (eu pude presenciar essa cena em meio a cochilos, há uns 15 anos atrás).

É muita história. Tudo isso ignorado pela província em seus 70 anos. Ao menos o poeta Douglas de Almeida se mexeu e resolveu fazer um recital comemorativo dia 27 próximo no Espaço Cultural da Barroquinha.

Mas isso não é "mérito" só de Ildásio. Carlos Betão, ator que vem se destacando na cena baiana há anos, profissional competente que passou em todas as audições que fez, tendo feito 7 vezes o núcleo do TCA (porque só fez 7 audições), figura presente em alguns dos melhores elencos e espetáculos da cidade, fez 50 anos e ninguém soube.

Dias depois, Betão recebeu um telefonema da Rede Globo. De um teste antigo, saiu o convite pra fazer um episódio de Força Tarefa. Um bom presente num mês onde, esquecido, Betão passou seu aniversário em poucas companhias e telefonemas.

Salvador não se interessa por quem fica aqui. É preciso sair pra conseguir espaço na mídia e interesse da grande massa. A pergunta constante de artistas importantes da cidade é se não estamos todos perdendo tempo em investir em Salvador.

Citei apenas dois casos de pessoas próximas. Mas isso acontece sempre na província. Nem Tântalo, nem tampouco; mas um suplício.


GVT.

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Curtas e nuas, Bonfim e afins...

Não sei se foi a primeira vez, mas nem eu, nem minha mãe, nem pessoas conhecidas jamais tinham visto Nossa Senhora da Conceição da Praia vestida de branco no dia da Lavagem do Bonfim. Enquanto alguns pregam a pureza religiosa, seja ela no candomblé, na católica, na evangélica, e enquanto se insiste nessa bobagem de afirmação da cultura negra com toques separatistas e oportunistas, Salvador continua dando uma lição sem par para o mundo. A Lavagem do Bonfim, que é Oxalá, e por isso Nossa Senhora e todo mundo estavam de branco, reafirma nosso caráter de mistura, de um povo que tem sua autenticidade na afirmação das proximidades, e não na estúpida bandeira das diferenças.

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“Quase no mesmo instante em que se sentia as lágrimas nos meus olhos, a câmera deixou os dedos de Horowitz no teclado e enquadrou o rosto de um cidadão soviético na platéia. Ele não parecia um inimigo. Seus olhos estavam fechados, sua cabeça inclinou-se ligeiramente para trás, de modo que seu rosto ficou um pouco elevado... e uma lágrima solitária rolou por sua face. Era a mesma lágrima que escorria na minha”. Esse depoimento de Charles Kuralt, da CBS News, deixa meus olhos marejados toda vez que leio. Ele relata a experiência de assistir a um concerto de Horowitz, que havia fugido da União Soviética com 22 anos e havia retornado, aos 82, pra uma apresentação em sua terra natal.
Assim deveríamos nos sentir, negros e brancos, católicos e povo de candomblé, frente ao grande milagre que é encher as ruas de uma cidade, num grande tapete branco, e caminhar quilômetros sem violência, numa festa onde o sagrado e o profano se misturam como tudo é mistura nessa terra.

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Fez muita falta o Microtrio na lavagem do Bonfim. Perguntando a Cacilda Povoas, produtora, se o Microtrio sairia na lavagem este ano, ela me respondeu que não conseguiu patrocínio.
Enquanto Bell Marques é criticado por Nizan, aqui debaixo, de onde não se vislumbram os milhões que ambos adquiriram ao longo da vida, o problema é sempre o mesmo. Como disse Leonardo Brant, num artigo pro site Cultura & Mercado, a classe média da cultura está em maus lençóis. Nenhum patrocínio, as empresas dando as costas, editais contemplando as comunidades carentes, o interior, a periferia, o ricos das artes continuando suas captações milionárias pra projetos com ingressos a R$100,00 e R$200,00, e a classe média da cultura à míngua.
Fiquei com vergonha de ser baiano ao ouvir que os R$500,00 necessários ao menos pra que o Microtrio saísse não foram conseguidos.
E os camarotes de Beyoncé cheios. Prédios onde um quarto e sala custa R$500.000,00 e a renda mínima pra comprar tem que ser de R$11.000,00 (um professor universitário pós-doutor não poderia comprar), quase todos 100% vendidos. Parece ser inversamente proporcional à quantidade de grana a quantidade de neurônios das pessoas em Salvador.

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O Zárabe, de Carlinhos Brown, não sai mais da Praça Cayru. Uma pena. A sonoridade e inventividade – marcas indeléveis de Brown – dessa manifestação deixou de ser apreciada e curtida por muita gente, na Lavagem do Bonfim. Acho que perde ele, e com certeza perde a gente.

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Em meio a tantas críticas, um elogio. O Jornal da Metrópole, que havia se equivocado na edição passada, publicou, ao menos, trechos da nota de esclarecimento que enviei a eles, publicada aqui. Ainda mais na Bahia, onde crítica facilmente se transforma em ofensa, o que talvez explique essa confraria de medíocres que não se criticam e concentram neles todas as oportunidades de editais, prêmios, concursos, etc.; e qualquer postura crítica é alijada.
Ver um jornal ter uma atitude dessas é, ao menos, interessante.

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Lendo a Bravo Bahia – edição especial da revista Bravo – percebi que aliado ao Teatro NU, vários grupos e artistas que movimentam a cena local são fantasmas como meu grupo de teatro; sequer são citados. Cada dia mais acredito num universo paralelo, onde acompanho certas cantoras, certos coreógrafos, certos grupos e artistas de teatro que vêm conseguindo, a duras penas, produzir algo em meio à seca em que vivemos. E são ignorados pela grande merda, digo, mídia.

sábado, janeiro 09, 2010

Nota de esclarecimento a Florence Perez, jornalista do Jornal da Metrópole


Cara Florence,

Surpreendeu-me a matéria publicada, dia 8 de janeiro de 2010, no Jornal da Metrópole, assinada por sua pessoa. E queria dirimir alguns equívocos escritos por você.

Não faço parte de “lista negra” nenhuma. Quando alguma jornalista da Metrópole me ligou, fiz questão de frisar, veementemente, que desconheço e nem faço parte de nenhuma “lista negra”. Digo “alguma” jornalista, pois você não teria a má-fé de, ouvindo-me, colocar notícia equívoca em sua matéria. Com certeza houve um erro de comunicação grave entre a pessoa que me entrevistou e você. Grave porque vocês estão mexendo com pessoas públicas, questões políticas sérias e, acima de tudo, questões de caráter.

Seria, primeiramente, pretensioso, de minha parte, me julgar importante a tal ponto de pertencer a alguma lista, seja lá do que for. Acresce a essa questão o fato de eu ter tido quatro projetos aprovados na presente gestão; um edital de montagem, um edital de circulação – ambos com a peça Os Javalis –, além do projeto TeatroNUCinema (sim, é NU, e não "no", foi um trocadilho com o nome do meu grupo, Teatro NU) e o projeto Diálogos sobre dramaturgia contemporânea, ambos pelo Fundo de Cultura do Estado da Bahia.

Ressalto o fato de que este mesmo Fundo de Cultura deu um parecer esquizofrênico – como saiu na sua matéria e eu realmente declarei – sobre a segunda edição do TeatroNUCinema. O que me incomodou não foi a reprovação, mas a estupidez do parecer. Mas quem seria esquizofrênico, agora, em se achar perseguido seria eu, tendo tido quatro projetos aprovados neste governo; contra nenhum nos governos anteriores.

Voltando à questão do caráter, sou uma pessoa que deixa suas posições bem claras através de um blog que mantenho junto ao meu site www.teatronu.com e na coluna do site www.noticiacapital.com.br do jornalista Jolivaldo Freitas. Sou crítico deste governo, como serei de todos – “é preciso estar atento e forte” –, mas nunca me envolvi em contendas pessoais. Pelo contrário, tenho amigos no governo e critico o governo pra eles abertamente; o que não me impede de transitar por reuniões e bate-papos informais com pessoas da Secretaria de Cultura. Seria mau-caratismo meu, seria uma postura falsa e cínica me declarar alijado e ser cordial com essas pessoas. Pago caro pela minha sinceridade, inclusive, numa terra de gente falsa e interesseira, onde os conchavos e as trocas de favores e vingancinhas valem mais que a dignidade pessoal.

Para terminar, queria corrigir outro equívoco seu, equívoco que acho estranho para uma jornalista, que tem por profissão a informação. Não sou formado ator pela UFBA para o bem de todos. Formei-me em direção teatral. E nem tampouco fui ator de Vixe Maria, Deus e o Diabo da Bahia. Sou um dos autores na peça, coisa que facilmente se encontra em qualquer site de pesquisa, caso houvesse dúvidas a esse respeito. Vale lembrar também que a mancha no meu currículo que é ter recebido um prêmio, foi um prêmio patrocinado pela COPENE, na época, não pela COPENI, ou pelo COPENI, realmente não conheço essa sigla, então não posso definir seu gênero.

Quase toda entrevista que concedo vem acompanhada de equívocos que me fazem sempre dizer a mim mesmo; “não darei mais entrevistas”. Mas repenso e acho que a opinião pública é um bem importante.

Contanto que a notícia não seja veiculada da forma errada.


GVT.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Um quinteto de lembranças e melancolia...




Primeiro movimento: Fã absoluto de Egberto Gismonti, passei minha adolescência a buscar discos, vídeos e entrevistas desse compositor que, sem saber, me formou musicalmente, mesmo da forma capenga com que pude me formar. Nessas buscas, encontrei um concerto de Gismonti acompanhado de orquestra, em VHS, e passei a mostrar essa fita pra todos meus pouquíssimos amigos de Salvador que conheciam e gostavam de Gismonti (dois).
No programa, havia Ruth, uma bela canção que o avô de Gismonti, Antonio, havia composto. Na canção, o solista era um flautista que prontamente decorei o nome – afinal, era solista de Gismonti! – Toninho Carrasqueira.

Segundo movimento: Rato de fichas técnicas, comecei muito cedo a saber quem batia palmas na penúltima faixa do CD não lançado de um compositor maldito desconhecido do grande público. Coisa de adolescente que não tinha o que fazer, lógico. Mas assim, acabei por decorar nomes que se repetiam em vários CDs, de artistas diferentes, e pude fazer minha seleção dos melhores instrumentistas pela quantidade de gravações e qualidade dos cantores ou solistas do disco. E sempre estava lá, na trompa, teimosamente, o nome de Philip Doyle.

Terceiro movimento: A Kuarup Discos sempre foi uma referência de qualidade pra mim, na adolescência. A maioria quase que absoluta dos músicos do Brasil havia passado, estava passando ou iria passar por esse selo. E assim pude comprar discos antológicos com gravações de Radamés Gnatalli, Ernesto Nazareth, Piazzolla, e muito chorinho. Assim, comprei o CD Noites Cariocas, onde, no encarte, dizia: os melhores do choro ao vivo no Municipal. Se eram os melhores, isso é sempre relativo, mas havia ali a nata do choro brasileiro, e uma gravação de Espinha de bacalhau me chamou a atenção pelo suingue impressionante do clarinetista, que entraria naquela “lista negra” dos que participavam de tudo quanto era disco. Esse era Paulo Sérgio Santos.

Quarto movimento: Também da Kuarup, um dos meus primeiros CDs, que comprei num balaio mais pelo título do que por conhecimento, foi do Quinteto Villa-Lobos. Heitor Villa-Lobos se tornou uma paixão minha, alimentada por Gismonti – que havia lançado um disco só com composições dele –, incentivado por Vivaldo Costa Lima, que me presenteou com um LP com as Bachianas n.5, e pela saudade do Rio de Janeiro. O disco de Gismonti tinha sido marcante pra mim no Rio, e quando voltei pra Salvador ouvia ele e chorava com saudades da minha outra terra, lugar onde havia passado os dez primeiros anos da minha vida – soteropolitano que sou, fui com oito meses pra lá... Era um quinteto de sopros que comprei pelo nome, mas que desfilava um repertório de choros e canções belíssimos.

Quinto movimento: Estou em Salvador, anos depois, no calor do verão, recém chegado de um belíssimo concerto do Quinteto Villa-Lobos, composto por ninguém menos que Toninho Carrasqueira, Paulo Sérgio Santos, Philip Doyle e mais dois excelentes músicas pra completar; Luis Carlos Justi no oboé e o fagotista Aloysio Fagerlande.

Como não estou num período “poliana”, obviamente muitos incômodos me vieram ao chegar ao concerto.

20hs de quarta-feira. E qualquer vagabundo aqui está pronto pra tomar uma ou curtir uma festinha. Não há desculpas. E o concerto do Quinteto Villa-Lobos, que estava cheio – mas não lotado – era gratuito!!! Era gratuito!!! Acho que vocês não entenderam; era gratuito!!!

Olhei pros lados e vi pouquíssima gente conhecida, apenas Mario Gadelha – a única pessoa de teatro que vejo freqüentar concertos por aqui – pra cumprimentar; o restante, músicos da OSBA que não falam comigo.

Pensei em como a Ditadura Militar foi competente em separar os estudantes universitários. O que seria a antiga Escola de Música e Artes Cênicas foi cindida de forma que não conheço as pessoas da Escola de Música, muitos estudantes ali nunca pisaram nem pisarão num teatro onde eu esteja apresentando algo, e dificilmente – se não foram pra OSBA – eu verei esses estudantes tocando. Muitos sairão de Salvador – a Terra do Nunca, o deserto da esperança – pra tentar a carreira fora, e os que ficarem se enfurnarão na carreira acadêmica. Triste Bahia madrasta pra músicos, também.

Mas o pior. Quase ao fim, Toninho Carrasqueira, depois de desfilar com os outros quatro músicos belíssimos arranjos muito bem executados, com alma e verdade – resolveu agradecer seus patrocinadores; VOLVO e BOSCH (faço questão de registrar, mesmo sendo parte, ou todo patrocínio através de leis de incentivo).

É absurdo, quase uma piada pra mim ouvir aquele excelente flautista agradecer a sensibilidade dessas empresas pois gravadora nenhuma se interessou pelo projeto deles de gravar arranjos de Villa-Lobos (o quinteto tem esse nome, mas grava muito choro e outros compositores até mais que “o Villa”). Tive que ouvir, com um aperto enorme no coração, Toninho dizer que agradece às empresas pois a mídia só pensa em dinheiro, em divulgar o que dá dinheiro – do jabá ao rendimento em publicidade – e a música deles não toca na rádio e nem na TV.

Imaginei o que será o futuro desse país, que parece ter se suicidado com Zweig. Fiquei com uma imensa vergonha de ser brasileiro. Não porque nosso povo seja pior. Não é isso. Lá fora, a ignorância e o mau-gosto imperam, também. Mas os grandes artistas são respeitados, mesmo que sem salas cheias e sem grande audiência. Nossa música é nosso maior patrimônio, e no ano do cinquentenário de morte do nosso mais célebre compositor, fui obrigado a ouvir um discurso triste como esse. Triste pra mim. Aqueles músicos estavam sublimando aquilo com música sublime, e encerraram a noite com um arranjo do Trenzinho do Caipira magistralmente feito por Jessé Sadoc Filho.

Essa apresentação era pra ser feita numa temporada, a preços populares, com casa cheia. E não gratuitamente num dia só. Mas essa não é a realidade. O teatro não estava lotado e eu, que tão maldosamente pensei em copiar o CD deles (que meu amigo que não foi mandou comprar), acabei por não só comprar o novo como um duplo, que curiosamente se encerra com um quinteto do saudoso Lindembergue Cardoso. Quem? Ah, um compositor baiano de música clássica. Coisa que não toca na rádio. Não passa na TV.

Hoje, agora, tenho vergonha de ser baiano e brasileiro. Mas muito fácil acho motivos pra ter vergonha de ser terráqueo, e aí quem sabe viro um aeronauta e saio por aí recitando Cecília Meireles:

Agora podeis tratar-me

como quiserdes:

não sou feliz nem triste,

humilde nem orgulhoso,

- não sou terrestre.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

O vale-cultura vale?


O Governo Federal acaba de lançar o vale-cultura. À maneira do vale-refeição, seria um instrumento de consumo de bens culturais. As empresas se cadastrariam e os funcionários – variando de 10% a 90%, de acordo com a faixa salarial – entrariam com uma porcentagem para obter esse benefício, com saldo estipulado de até R$50,00.

O argumento do Governo é que uma imensa porcentagem de brasileiros jamais foi ao cinema, nunca entrou em museus, em nenhuma circunstância sentou num teatro pra ver dança, música, peças. Com esse vale, haveria um estímulo ao consumo de cultura, estipulado um crescimento de até R$ 600 milhões/mês ou R$ 7,2 bilhões/ano.

A política vive mais de votos do que de resultados efetivos. Paliativos e tapa-buracos são, comumente, realizados, com um intuito populista de angariar votos. Muitas ações têm caráter muito mais de sensação que, solidamente, de políticas a longo prazo.

Não quero ser também imediatista em achar que o vale-cultura é simplesmente populista. Seus efeitos só poderão ser medidos se o governo fizer um real controle com estabelecimentos, museus e casas de espetáculo para registrar o que esse trabalhador resolveu consumir. Mas eu, que considero a cultura o bem maior de um povo, e que acho que é a cultura que muda a sensibilidade, a sociabilidade e a responsabilidade (e várias outras “dades” do ser humano), sempre dou um passo atrás com ações desse tipo, nem que seja pra olhar melhor e ver sua real utilidade.

Pensemos. Boa parte da população, hoje em dia, tem celular. Qualquer bar da esquina tem um bando de todas as camadas sociais, consumindo cerveja a qualquer hora do dia e da semana. Temos uma população pobre, sim. E que tem pouco acesso a bens culturais. Mas uma porcentagem grande disso é a falta de interesse proveniente de uma falta de educação e formação do indivíduo. As pessoas gastam dinheiro, se endividam na onda do consumismo, dos crediários e cartões de crédito. E consomem, quando se trata de cultura, somente alguns poucos segmentos de arte e entretenimento – independente, diga-se de passagem, do preço.

Pouco se tem feito no real sentido de formar um cidadão desde a primeira infância. Enquanto os canalhas dos políticos se locupletam com a grana que veio de nossos impostos, nenhuma ação efetiva é feita pra aumentar salários e melhorar as condições do ensino básico. O ensino médio tem se tornado, com o ENEM (que acho importante, registre-se aqui), uma porta de entrada pra universidade. Mas e a formação desse adolescente ao longo dos três anos que ele passa estudando? Que políticas públicas vêm sendo pensadas pra formação do indivíduo de forma consistente, sólida e ampla?

Infelizmente, terei que cair no lugar comum em que muitos devem estar caindo ao saber desse vale-cultura: o bem cultural consumido com esse benefício não modificará em nada o acesso do cidadão a outras estéticas artísticas. Dificilmente, um trabalhador que adora pagode – nada contra o pagode – resolverá assistir à Orquestra Sinfônica da Bahia porque tem o vale-cultura. Será mais fácil ele usar o benefício pra comprar um DVD do grupo de pagode que ele goste, ou assistir a um daqueles encontros musicais de pagodeiros numa casa de espetáculos qualquer.

Ouvi num encontro em Salvador, inclusive, do próprio Ministro da Cultura, Juca Ferreira, que não haveria preocupação do Governo Federal com a escolha do bem cultural que o cidadão fizesse. Importava haver o consumo de cultura. O que significa que não importa se o cidadão vai continuar consumindo Cláudia Leite e jamais saberá quem é Cláudia Cunha. O que, em decorrência disso, parece significar que o vale-cultura é mais um mecanismo do pão (bolsa família) e circo (vale-cultura).

Volto a dizer, não quero me precipitar em detonar o projeto, nem tampouco discordo totalmente quando o Presidente da República diz que há pessoas que não tem o que comer e nem condições imediatas de acesso, e o bolsa-família funcionaria, assim, como um socorro desesperado aos totalmente desfavorecidos. Mas são projetos que se isolam de outras ações mais contundentes a longo prazo. Ao menos, não vi grandes ganhos neste sentido nos sete anos de governo Lula. Dá-se acesso a muita coisa, mas será que o acesso a universidades, bens culturais, e outras ações que o governo promove, estão aliadas a uma melhora efetiva de nossa população? Ou são atitudes de reparação social que funcionam apenas pra satisfazer, de imediato, os que reclamam – com razão – da falta de acesso a determinadas possibilidades?

Existem muitas idéias boas de inclusão social, como o próprio Ministério da Cultura chama essa ação. Mas incluir quem e o quê aonde? Pra depois gerar o quê? E ter que resultados?

Como diria a personagem Olga, da peça As três irmãs, do autor russo Anton Tchekhov (será ele consumido através do vale-cultura?):

“Se pudéssemos saber! Ah! Se pudéssemos saber!...


GVT.